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O grande inquisidor
— Pois bem, aqui não dá para evitar um prólogo, quer dizer, um prólogo literário, arre! — Ivan começou a rir. — Que raio de escritor sou eu?! Veja, minha ação acontece no século xvi, e na época — aliás, você deve ter aprendido isso ainda na escola —, justamente na época era usual em obras poéticas trazer para a terra as forças celestiais. Não vou nem falar de Dante. Na França, escreventes de tribunais, e também monges nos monastérios, criavam espetáculos inteiros levando ao palco a Madona, anjos, santos, Cristo e o próprio Deus. Na época, tudo isso era muito simplório. Em O corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, em honra ao nascimento do delfim em Paris, no reinado de Luís xi, no salão da Câmara Municipal fazem uma apresentação moralizadora e gratuita para o povo intitulada Le Bon Jugement de la très sainte et gracieuse Vierge Marie, em que a própria aparece e proclama seu bon jugement. Entre nós, em Moscou, nos velhos tempos, antes de Pedro, o Grande, encenações dramáticas quase iguais, e sobretudo do Antigo Testamento, também eram realizadas de tempos em tempos; mas, além das encenações dramáticas, na época corriam por todo o mundo muitas histórias e “versos” nos quais, se necessário, atuavam santos, anjos e todas as forças celestes. Aqui, nos monastérios, também havia o costume de dedicar-se a traduções, cópias e até a criação de poemas como esse, e ainda na época do domínio tártaro. Há, por exemplo, um poeminha de monastério (decerto traduzido do grego): “A peregrinação de Virgem Maria pelos tormentos”, com imagens e ousadia não menores que as de Dante. A Mãe de Deus visita o inferno, e quem a guia “pelos tormentos” é o arcanjo Miguel. Ela vê os pecadores e seus tormentos. Há ali, a propósito, uma interessantíssima categoria de pecadores num lago ardente: aqueles que estão tão afundados que já não conseguem vir à tona, estes são os “esquecidos de Deus” — expressão de tremenda profundidade e força. E eis que a Mãe de Deus, impressionada, chorando, cai diante do trono de Deus e pede misericórdia por todos no inferno, todos os que Ela viu lá, sem distinção. Sua conversa com Deus é extremamente interessante. Ela implora, não se afasta, e quando Deus lhe mostra as mãos e os pés de seu Filho com marcas de prego, Ele pergunta: “Como vou perdoar os torturadores d’Ele?” — então Ela ordena a todos os santos, todos os mártires, todos os anjos e arcanjos que caiam junto a Ela e rezem pelo perdão de todos sem distinção. No final, Ela, com muitas súplicas, consegue de Deus a suspensão do suplícios uma vez por ano, todo ano, da Sexta-Feira Santa até o Pentecostes, e os pecadores do inferno ali mesmo agradecem a Deus e rogam a Ele: “Justo és, ó Senhor, pois teus julgamentos são verdadeiros”. Pois bem, meu poeminha seria desse tipo, se tivesse surgido naquela época. No meu palco Ele aparece — não diz nada no poema, só aparece e passa. Quinze séculos já haviam transcorrido desde que Ele prometera voltar a Seu reino, quinze séculos desde que Seu profeta havia escrito: “Venho logo!”.1 “Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, somente o Pai”,2 como proferiu Ele mesmo ainda na terra. Mas a humanidade espera por Ele com a mesma fé de antes e a mesma comoção. Ah, até com mais fé, pois quinze séculos já se foram desde o momento em que acabaram as garantias que o céu oferecia ao homem:
Crê no que o coração te diz,
Não há condições nos céus.3
E apenas fé no que é dito pelo coração! É verdade que na época também houve muitos milagres. Havia santos que realizavam curas milagrosas; a outros justos, segundo suas hagiografias, aparecia a própria Rainha Celeste. Mas o diabo não cochila, e a humanidade começou a duvidar da veracidade desses milagres. Justamente nessa época apareceu no norte, na Alemanha, uma nova heresia terrível. Uma enorme estrela, “à semelhança de luminária” (ou seja, de Igreja), “caiu sobre as fontes das águas e elas se tornaram amargas”.4 Essas heresias começaram a renegar os milagres de modo blasfematório. Porém, creram com ainda maior ardor aqueles que permaneceram fiéis. As lágrimas da humanidade elevam-se a Ele como antes, esperam por Ele, amam-No, n’Ele depositam suas esperanças, anseiam por sofrer e morrer por Ele, como antes. E eis que a humanidade rezou por tantos séculos com fé e ardor: “Senhor Deus, vinde a nós”, por tantos séculos clamamos por Ele, para que Ele, em Sua infinita misericórdia, se dignasse descer até os que oravam. Ele já havia descido antes disso, visitado mártires, justos e santos eremitas ainda na terra, como está escrito nas “vidas de santos”. Temos Tiutchev, que, por acreditar profundamente na verdade de suas palavras, anunciou que
Desalentado pelo fardo da cruz,
A ti por inteiro, ó terra natal,
O rei dos céus, em aparência servil,
Percorreu, abençoando.
Foi necessariamente assim, posso afirmar. E então Ele desejou aparecer para o povo ao menos por um instante — para aqueles que se atormentam, que sofrem, os pecadores fétidos, que tem por Ele um amor infantil. Minha ação se passa na Espanha, em Sevilha, na época mais terrível da Inquisição, quando, pela glória de Deus, todos os dias acendiam fogueiras no país e
Em grandiosos autos de fé5
Queimavam-se os hereges maus.
Ah, claro, não era a mesma coisa que a descida, quando, segundo Sua promessa, Ele virá no fim dos tempos em toda a glória celeste e que será súbita “como um raio que brilha do Oriente ao Ocidente”. Não, Ele teve o desejo de, ao menos por um instante, visitar Seus filhos, e justamente onde crepitavam as fogueiras de hereges. Em Sua infinita misericórdia ele andou uma vez mais entre as pessoas com a mesma imagem humana sob a qual andara por três anos, quinze séculos antes. Ele se dignou aparecer nas “ruas quentes” da cidade do sul, justamente na qual na véspera, em um “magnífico auto de fé”, na presença do rei, da corte, de cavaleiros e cardeais, e das mais encantadoras damas, diante da numerosa população de toda Sevilha, o cardeal grande inquisidor queimara de uma só vez quase uma centena de hereges ad majorem gloriam Dei. Ele apareceu quieto, imperceptível, mas eis que — coisa estranha — todos O reconhecem. Essa poderia ser uma das melhores passagens do poema, ou seja, porque justamente O reconhecem. O povo corre para Ele com uma força invencível, junta-se ao Seu redor, segue-O. Ele passa calado por entre as pessoas com um sorriso quieto de compaixão infinita. O sol do amor queima em Seu coração, raios de Luz, Iluminação e Força correm de Seus olhos e, fluindo na direção das pessoas, abalam o coração delas com amor recíproco. Ele lhes estende os braços, abençoando-as, e, de Seu toque, ou mesmo de Suas roupas, emana uma força curativa. E eis que da multidão exclama um velho, cego desde os anos de infância: “Senhor, me cure, e então poderei vê-Lo”, e uma espécie de escama desce de seus olhos, e o cego começa a ver. O povo chora e beija o chão por onde Ele passa. As crianças jogam flores diante d’Ele, cantam e gritam: “Hosana!”. “É Ele, é Ele próprio”, todos repetem, “deve ser Ele, só pode ser Ele”. Ele para no átrio da catedral de Sevilha no mesmo instante em que, acompanhado de pranto, adentra o templo um caixãozinho branco e aberto, com uma criança: dentro jaz uma menininha de sete anos, filha única de um cidadão célebre. A criança morta jaz em meio a flores. “Ele vai ressuscitar sua filha”, gritam da multidão as mães chorando. O padre da catedral, que veio ao encontro do caixão, olha perplexo e franze as sobrancelhas. Mas eis que ressoa o lamento da mãe da criança morta. Ela se lança aos pés d’Ele: “Se és Tu, então ressuscita minha filha!” — ela exclama, estendendo-Lhe a mão. A procissão para, descem o caixãozinho a Seus pés no átrio. Ele olha com compaixão, e Seus lábios pronunciam mais uma vez em voz baixa: “Talítha kum — “Menina, levanta-te”.6 A menina se levanta no caixão, senta-se e olha ao redor, sorrindo, com os olhinhos arregalados e surpresos. Em suas mãos há um buquê de rosas brancas, que ela segurava no caixão. Entre o povo há confusão, gritos, choro, e então, nesse mesmo instante, de repente passa na frente da catedral o próprio cardeal grande inquisidor. É um velho de quase noventa anos, alto e empertigado, com o rosto seco, olhos encovados, mas nos quais ainda se vê um brilho, como uma pequena fagulha. Ah, ele não está usando seu magnífico traje de cardeal, com o qual se pavoneara diante do povo no dia anterior, quando queimaram os inimigos da fé romana — não, naquele momento só usava sua batina velha e grosseira de monge.
Atrás dele, a uma certa distância, acompanhavam-no auxiliares sombrios, seus escravos, a guarda “sagrada”. Ele para diante da multidão e observa de longe. Ele viu tudo, viu quando puseram o caixão ao pés d’Ele, viu a menina ressuscitar, e seu rosto se pôs sombrio. Franziu as sobrancelhas grisalhas e espessas, e seu olhar brilhou com um fogo sinistro. Ele aponta o dedo e ordena aos guardas que O levem. E eis que, tal é sua força, a tal ponto o povo já está amestrado, submisso e obediente a ele, que a multidão trêmula imediatamente se abre diante dos guardas, e estes, em meio ao silêncio sepulcral que se fez de repente, põem as mãos sobre Ele e O levam. A multidão, no mesmo instante, como se um só homem, curva a cabeça até o chão diante do velho inquisidor, e em silêncio ele abençoa o povo e passa ao lado. O guarda conduz o prisioneiro para uma prisão abobadada, apertada e sombria no velho edifício do Santo Ofício e o tranca. Passa um dia, cai a noite escura, quente e “irrespirante” de Sevilha. O ar “cheira a louro e limão”.7 Em meio à escuridão profunda abre-se a porta de ferro da prisão, e o próprio velho, o grande inquisidor, com um castiçal na mão, entra lentamente. Ele está só, a porta se tranca imediatamente atrás dele. Ele para diante da porta e, por muito tempo, um minuto ou dois, examina Seu rosto. Por fim, se aproxima quieto, põe o castiçal sobre a mesa e Lhe diz: “É Você? Você?”. Porém, sem receber resposta, acrescenta rapidamente: “Não responda, fique calado. E também, o que poderia dizer? Sei bem demais o que há de dizer. E Você nem tem o direito de acrescentar nada ao que já foi dito antes. Para que é que veio nos atrapalhar? Pois veio nos atrapalhar, e Você mesmo sabe disso. Mas sabe o que vai acontecer amanhã? Eu não sei quem Você é, e não quero saber: se é Ele ou apenas se assemelha a Ele, mas amanhã mesmo vou julgá-lo e queimá-lo na fogueira como o pior dos hereges, e aquele mesmo povo que hoje Lhe beijou os pés, amanhã, apenas a um sinal, correrá para recolher o carvão da sua fogueira, sabia? Sim, talvez Você saiba”, acrescentou numa reflexão penetrante, sem por um instante tirar o olhar de seu prisioneiro.
— Não estou entendendo bem, Ivan, o que é isso? — Aliocha, que estivera o tempo todo calado e ouvindo, sorriu. — É de fato uma fantasia sem limites ou algum erro do velho, algum qui pro quo impossível?
— Suponha que seja o segundo — Ivan começou a rir —, se já está tão mimado pelo realismo contemporâneo que não consegue aceitar nada fantástico: se quer um qui pro quo, então que seja. É verdade — voltou a rir — que é um velho de noventa anos e ele pode ter há muito tempo enlouquecido em seu ideal. Já o prisioneiro pode deixá-lo estupefato com Sua aparência. Pode ser, por fim, apenas um delírio, uma visão de um velho de noventa anos antes da morte, e ainda por cima acalorado pelo auto de fé do dia anterior de cem hereges queimados. Mas tudo isso não dá no mesmo para nós, o que é qui pro quo, o que é uma fantasia sem limites? Aqui, a questão é apenas que o velho precisa se manifestar, que finalmente em todos esses noventa anos ele está se manifestando e falando em voz alta o que calou por todos esses noventa anos.
— E o prisioneiro também está calado? Olha para ele e não diz palavra?
— E é assim que deve ser, em todos os casos — Ivan começou a rir de novo. — O próprio velho observa que Ele não tem o direito de acrescentar nada àquilo que já foi dito antes. Se você quiser, aí está o traço principal do catolicismo romano, ao menos na minha opinião: “Você”, diz, “deu tudo ao papa e consequentemente agora é do papa, e agora não se aproxime de forma alguma, ou ao menos não atrapalhe até chegar a hora”. É nesse sentido que eles não apenas falam, mas também escrevem — os jesuítas, pelo menos. Eu mesmo li isso nos teólogos deles. “Você tem o direito de nos informar ao menos um dos segredos do outro mundo, de onde Você veio?”, meu velho pergunta a Ele, e ele mesmo responde pelo outro: “Não, não tem, para não acrescentar nada àquilo que já foi dito antes, e para não tirar das pessoas a liberdade, que tanto defendeu quando estava na terra. Tudo o que anunciar de novo vai atentar contra a liberdade de fé das pessoas, pois vai aparecer como um milagre, e a liberdade de fé das pessoas Lhe era mais cara do que tudo naquela época, há mil e quinhentos anos. Não era Você que, na época, falava com tanta frequência: ‘Hei de tornar-vos livres’?8 Mas agora Você viu essas ‘pessoas livres’” — acrescentou o velho de repente, com um risinho pensativo. — “Sim, isso nos custou caro” — prosseguiu, severo, olhando para Ele — “mas, por fim, demos cabo a essa questão em Seu nome. Por quinze séculos nos martirizamos por essa liberdade, mas agora isso terminou, e terminou de fato. Não acredita que terminou de fato? Você olha com docilidade e não me concede ao menos a indignação? Mas saiba que agora, e justamente nesses tempos, essas pessoas têm certeza, mais do que outrora, de que são plenamente livres, e ao mesmo tempo elas mesmas nos concederam sua liberdade e a puseram aos nossos pés com submissão. Mas isso fomos nós que fizemos, e era isso o que Você queria, essa liberdade?”
— De novo, não estou entendendo — Aliocha interrompeu. — Ele está sendo irônico, rindo?
— Nem um pouco. Ele está justamente atribuindo a si mesmo e aos seus o mérito de ter enfim vencido a liberdade e de terem feito isso para tornar as pessoas felizes. “Pois só agora (ou seja, ele, enfim, está falando da Inquisição) tornou-se possível refletir pela primeira vez sobre a felicidade das pessoas. O homem foi feito para ser rebelde; acaso os rebeldes podem ser felizes? Você foi avisado” — diz para Ele —, “não foram poucos os avisos e instruções, mas Você não escutou os avisos, rejeitou o único caminho que era possível construir para fazer o homem feliz, mas, por sorte, ao ir embora, passou a tarefa para nós. Você prometeu, garantiu com Suas palavras, Você nos deu o direito de ligar e desligar9 e, claro, não consegue nem pensar em tirar esse direito de nós agora. Para que veio nos atrapalhar?”
— O que isso quer dizer: não foram poucos os avisos e instruções? — Aliocha perguntou.
— É nisso que consiste o cerne do que o velho precisa expressar. “O espírito terrível e inteligente, o espírito da autoaniquilação e do não ser” — continuou o velho —, “o grande espírito falou com Você no deserto, e nos foi transmitido nas Escrituras que ele supostamente teria ‘tentado’ Você.10 Foi isso? E seria possível dizer algo mais verdadeiro do que aquilo que ele Lhe anunciou em três perguntas, e que Você rejeitou, e que nas Escrituras é chamado de ‘tentações’? Enquanto isso, se em algum momento houve na terra um verdadeiro milagre estrondoso, foi naquele dia, no dia dessas três tentações. O milagre está justo no surgimento dessas três perguntas. Se fosse possível sonhar, ainda que a título de teste ou exemplo, que essas três perguntas do espírito terrível foram perdidas sem deixar vestígios nos livros e que seria preciso restabelecê-las, inventar e criar para novamente incluí-las nas Escrituras, e para isso reunir todos os sábios da terra — governantes, sumos sacerdotes, eruditos, filósofos, poetas — e propor a eles a tarefa: imaginem, inventem três perguntas, mas tais que correspondam à dimensão do acontecimento, que além de corresponder à dimensão do acontecimento, também expressem acima de tudo, em três palavras, em apenas três frases humanas, toda a história futura do mundo e da humanidade — então, Você acha que toda a sabedoria do mundo reunida seria capaz de inventar ao menos algo semelhante, em força e em profundidade, a essas três perguntas que, de fato, Lhe foram feitas na época por aquele espírito poderoso e inteligente no deserto? Só por aquelas perguntas, apenas pelo milagre de seu surgimento, é possível entender que não estamos tratando com uma mente humana comum, mas com o eterno e absoluto. Pois nessas três perguntas como que foi combinada num todo e profetizada toda a história humana posterior e o surgimento de três imagens nas quais se unem todas as contradições históricas insolúveis da natureza humana em toda a terra. Na época isso ainda não era tão visível, pois o futuro era desconhecido, mas agora, que já se passaram quinze séculos, vemos que todas essas questões a tal ponto foram adivinhadas e previstas, e a tal ponto se confirmaram, que não é possível acrescentar ou tirar mais nada delas.
“Decida por Si próprio quem estava certo: Você ou aquele que então Lhe perguntou? Lembre-Se da primeira pergunta: o sentido não era literal, mas: ‘Você quer ir para o mundo e vai de mãos vazias, com uma espécie de promessa de liberdade que eles, em sua simplicidade e sua imoderação inata, não conseguem nem compreender, que eles temem e que lhes causa horror — pois nunca houve para o homem e para a sociedade humana nada mais insuportável do que a liberdade! E está vendo essas pedras nesse deserto incandescente? Transforme-as em pão, e a humanidade virá correndo atrás de Você como um rebanho, agradecida e obediente, ainda que eternamente trêmula, com medo de que Você retire Sua mão e a transforme em seu pão’. Mas Você não quis privar o homem de liberdade e recusou a proposta, pois que liberdade é essa, Você raciocinou, se a obediência é comprada com pão? Você retrucou que o homem não vive só para o pão, mas sabe que em nome desse mesmo pão terreno se insurgirá contra Você o espírito da terra, e vai lutar com Você, e O vencerá, e todos irão segui-lo, exclamando: ‘Quem é comparável à Besta, ele nos deu o fogo e os céus!?’.11 Sabia que se passarão séculos e a humanidade irá proclamar pela boca de suas sabedorias e ciências que o castigo não existe, e, consequentemente, o pecado também não existe, só existem os famintos. ‘Alimente-os, e depois pergunte de suas boas ações!’ — eis o que estará escrito nos estandartes que erguerão contra Você e com os quais destruirão Seus templos. E no lugar do Seu templo se erguerá um novo edifício, se erguerá de novo a terrível torre de Babel, e, ainda que ela não seja concluída, como a anterior, ainda assim Você poderia evitar essa nova torre e diminuir em mil anos o sofrimento das pessoas, pois até nós vêm aqueles que sofreram mil anos com aquela torre! Eles então vão nos encontrar debaixo da terra, nas catacumbas, escondendo-nos (pois seremos expulsos e torturados de novo), vão nos encontrar e gritar: ‘Dê-nos comida, pois aqueles que nos prometeram o fogo e os céus não nos deram’. E então vamos terminar de construir a torre deles, pois ela será concluída por quem lhes der comida, e apenas nós vamos alimentá-los em Seu nome, e vamos mentir que é em Seu nome. Ah, eles jamais, jamais conseguirão se alimentar sem nós! Nenhuma ciência lhes dará pão enquanto eles continuarem livres, mas no fim haverão de depositar sua liberdade aos nossos pés e dizer: ‘É melhor que vocês nos escravizem, mas nos alimentem’. Por fim, eles mesmos vão entender que liberdade e pão terreno à vontade para todos são inconcebíveis, pois eles nunca, nunca serão capazes de repartir entre si! Também vão se convencer de que nunca poderão ser livres, pois são fracos, falhos, insignificantes e rebeldes. Você lhes prometeu o pão celeste mas, repito, será que aos olhos da espécie humana, fraca, eternamente falha e eternamente vil, isso se compara ao pão terreno? E se milhares e dezenas de milhares O seguem em nome do pão celeste, então restarão milhões e dezenas de milhares de milhões de criaturas que não terão forças para desprezar o pão terreno em nome do pão celeste? Ou Você só gosta das dezenas de milhares que são grandiosos e fortes, e os milhões restantes, numerosos como a areia do mar, os fracos que, no entanto, amam-No, devem apenas servir de material para os grandes e fortes? Não, nós gostamos dos fracos também. Eles são falhos e rebeldes, mas, no fim, virão a ser obedientes. Eles vão se maravilhar conosco e vão nos considerar deuses pelo fato de que nós, ao comandá-los, concordamos em lhes tirar a liberdade e reinar sobre eles até que, no fim, eles vão ter horror à liberdade! Mas diremos que somos obedientes a Você e que reinamos em Seu nome. Vamos enganá-los de novo, vamos permitir que venham a nós. Nesse engano há de consistir nosso sofrimento, pois teremos que mentir. Eis o significado dessa primeira pergunta no deserto, e eis o que Você recusou em nome da liberdade que pôs acima de tudo. Enquanto isso, nessa pergunta estava o grande segredo do mundo. Se tivesse aceitado os ‘pães’, Você teria respondido à angústia geral e eterna da humanidade como um ser individual, assim como toda a humanidade: ‘A quem devemos nos curvar?’. Não há preocupação mais incessante e torturante para o homem do que, ao se tornar livre, encontrar o quanto antes a quem se curvar. Mas o homem procura curvar-se diante de quem já é indiscutível, tão indiscutível que todos se inclinam de uma só vez numa reverência geral. Pois a preocupação dessas criaturas lamentáveis não consiste apenas em achar alguém a quem eu ou outro possamos nos curvar, mas em procurar alguém em quem todos acreditem e reverenciem, e necessariamente todos juntos. Essa exigência de comunidade na reverência é o principal tormento de todo homem e da humanidade como um todo, desde o começo dos tempos. Por essa reverência geral eles exterminaram uns aos outros pela espada. Eles criaram deuses e clamaram uns aos outros: ‘Abandonem seus deuses e venham reverenciar os nossos, senão será a morte de vocês e de seus deuses!’. E assim será até o fim do mundo, mesmo quando os deuses desaparecerem do mundo: ainda assim cairão diante de ídolos. Você sabia, era impossível que Você não soubesse esse segredo fundamental da natureza humana, mas recusou a única bandeira absoluta que Lhe foi proposta, a de obrigar todos a reverenciá-Lo de forma indiscutível — a bandeira do pão terreno, e a recusou em nome da liberdade e do pão celeste. Veja bem o que Você fez depois. E de novo, tudo em nome da liberdade! Eu Lhe digo, o homem não tem preocupação mais torturante do que encontrar a quem poderia entregar o quanto antes esse dom da liberdade com que essa criatura infeliz nasce. Mas só é capaz de dominar a liberdade dos homens aquele que lhes tranquiliza a consciência. Com o pão, Lhe seria dada uma bandeira indiscutível: Você há de dar o pão e o homem há de se curvar, pois não há nada mais indiscutível do que pão, mas se, ao mesmo tempo, alguém domina a consciência dele sem a Sua participação — ah, então ele vai até abandonar o pão e seguir alguém que seduza sua consciência. Nisso, Você tinha razão. Pois o segredo da existência humana não está apenas em viver, mas em viver para quê. Sem uma ideia firme de para que deve viver, o homem não aceitaria viver e preferiria se destruir a ficar na terra, ainda que ao seu redor tudo fosse pão. É assim, e em que resultou? Em vez de dominar a liberdade dos homens, Você a ampliou ainda mais! Ou Se esqueceu de que a tranquilidade e até a morte são mais caras ao homem do que o livre-arbítrio no conhecimento do bem e do mal? Não há nada mais sedutor para uma pessoa do que a liberdade de sua consciência, mas também não há nada mais torturante. E eis que, em vez de bases firmes para tranquilizar a consciência humana de uma vez por todas — Você escolheu tudo o que é incomum, enigmático e incerto, escolheu tudo o que estava acima das forças dos homens, e por isso agiu como se não os amasse em absoluto — e logo quem? Aquele que veio dar a vida por eles! Em vez de dominar a liberdade humana, Você a aumentou e sobrecarregou o reino dos homens com torturas espirituais para sempre. Você desejou o amor livre do homem, para que ele viesse livremente atrás de Você, fascinado e cativado por Você. Em vez de uma lei antiga e firme, dali em diante o homem deveria decidir por si só, com o coração livre, o que é o bem e o que é o mal, tendo como guia apenas a imagem diante de si — mas será que Você não pensou que ele por fim rejeitaria e contestaria até a Sua imagem e a Sua verdade, se oprimido por um fardo tão terrível como o livre-arbítrio? Ele por fim exclamará que a verdade não está em Você, pois seria impossível deixá-lo numa confusão e tortura maiores do que as que provocaste ao reservar-lhe tantas preocupações e tarefas insolúveis. Dessa forma, Você mesmo assentou a base da destruição do Seu próprio reino, não culpe mais ninguém por isso. E, no entanto, o que Lhe foi proposto? Há três forças, as únicas três forças no mundo que são eternamente capazes de vencer e capturar a consciência desses rebeldes fracos, para a felicidade deles — essas forças são: o milagre, o mistério e a autoridade. Você recusou o primeiro, o segundo e o terceiro, e Você mesmo deu o exemplo. Quando um espírito terrível e sábio O pôs no topo do templo e Lhe disse: ‘Se quiser saber se é o filho de Deus, jogue-se lá embaixo, pois está dito a seu respeito que os anjos vão ampará-lo, e então saberá se é filho de Deus, e provará então sua fé em seu pai’.12 Você, no entanto, ao escutar, recusou a proposta e não se entregou, e não se jogou lá embaixo. Ah, claro, Você então se comportou de forma orgulhosa e magnífica, como Deus, mas os homens, os fracos dessa tribo rebelde — eles são deuses? Ah, então Você entenderia que, ao dar apenas um passo, fazer apenas menção de se jogar, Você imediatamente teria tentado o Senhor, e teria perdido toda a fé n’Ele, e se espatifaria na terra que veio salvar e alegraria o espírito inteligente que o tentou. Mas, repito, há muitos assim como Você? E será que na verdade poderia supor, ao menos por um momento, que as pessoas teriam força para resistir a tal tentação? Assim foi criada a natureza humana, para recusar um milagre mesmo em momentos tão terríveis da vida, os momentos de suas mais terríveis e torturantes questões espirituais, e ficar apenas com a livre decisão do coração? Ah, Você sabia que Seu feito será guardado nos livros, alcançará a profundeza dos tempos e as últimas fronteiras da terra, e Você alimentará a esperança de que, seguindo Seu exemplo, o homem ficaria com Deus sem precisar do milagres. Mas Você não sabia que, assim que o homem recusasse o milagre, imediatamente rejeitaria Deus também, pois o homem está não tanto em busca de Deus quanto de milagres. E como o homem não tem forças para ficar sem milagres, criará para si novos milagres, seus próprios, milagres, e reverenciará o milagre do curandeiro, a bruxaria da camponesa, apesar de ter sido cem vezes rebelde, herético e ateu. Você não desceu da cruz quando gritaram, humilhando e provocando: ‘Desça da cruz e vamos acreditar que é Você’. Você não desceu porque, de novo, não quis escravizar o homem com um milagre e ansiava pela fé livre, e não milagrosa. Ansiava pelo amor livre, e não por êxtases servis do escravizado diante do poder que, de uma vez por todas, o horrorizaria. Mas então você fez um julgamento muito alto dos homens, pois, claro, eles são prisioneiros, apesar de criados como rebeldes. Olhe e julgue, já se passaram quinze séculos, vá observá-los: quem Você ergueu à Sua altura? Juro, o homem foi criado mais fraco e mais baixo do que Você pensava! Ele é capaz, é capaz de cumprir o mesmo que Você? Respeitando-o tanto, Você se comportou como se tivesse deixado de ter compaixão por ele, porque exigiu demais dele — e isso porque é aquele que O ama mais do que a si mesmo! Se o respeitasse menos, exigiria menos dele, e isso seria mais próximo do amor, pois o fardo dele seria mais leve. Ele é fraco e vil. E que ele agora esteja se rebelando por toda a parte contra nossos poderes e tenha orgulho de se rebelar? É o orgulho de uma criança, de um escolar. Dessas crianças pequenas que se amontoam na classe e expulsam o professor. Mas também há de chegar ao fim o deleite dessas criancinhas, e ele lhes custará caro. Eles vão derrubar os templos e inundar a terra de sangue. Mas, por fim, as crianças tolas adivinharão que, embora sejam rebeldes, são rebeldes fracas, que não sustentam a própria revolta. Banhando-se em suas lágrimas tolas, elas enfim reconhecerão que quem as criou como rebeldes sem dúvida queria rir delas. Dirão isso em desespero, e o que disserem será uma blasfêmia que as fará ainda mais infelizes, pois a natureza humana não suporta a blasfêmia e, no fim das contas, ela mesma se vinga. E assim, inquietude, confusão e infelicidade — eis o destino dos homens depois de tudo o que Você enfrentou pela liberdade deles! Seu grande profeta diz, nas visões e parábolas, que viu todos os que participaram da primeira ressurreição e que havia, de cada tribo, doze mil.13 Mas, se houvesse tantos deles, eles não seriam homens, mas deuses. Eles suportaram sua cruz, suportaram dezenas de anos de um deserto nu e faminto, alimentaram-se de gafanhotos e raízes — e Você, claro, pode apontar com orgulho a liberdade dessas crianças, o amor livre, os sacrifícios livres e magníficos que eles fizeram em Seu nome. Mas lembre que eles eram só alguns poucos milhares, mesmo que fossem deuses, e os demais? Que culpa têm os homens fracos remanescentes de não terem podido suportar o mesmo que suportaram os fortes? Que culpa tem a alma fraca, que não tem forças para acolher dádivas tão terríveis? Acaso na verdade Você veio só para os escolhidos e pelos escolhidos? Mas, se é este o caso, então há aí um mistério e não somos capazes de entendê-lo. E se há um mistério, então teríamos o direito de pregar o mistério e ensinar aos homens que não é a livre decisão o importante, e nem o amor, mas o mistério que eles devem acatar cegamente, mesmo contra sua consciência. E assim fizemos. Corrigimos o Seu feito e o baseamos em milagre, mistério e autoridade. E as pessoas se alegraram porque novamente foram conduzidas a um rebanho, e porque do coração delas foi por fim retirada essa dádiva tão terrível que lhes trouxera tanto tormento. Diga, estávamos certos ao ensinar e fazer isso? Por acaso não expressamos amor à humanidade ao reconhecer com tanta modéstia sua impotência, aliviar seu fardo com amor e permitir sua natureza fraca de pecar, mas com nossa permissão? Para que veio nos atrapalhar? E por que olha para mim em silêncio, com convicção, com Seus olhos mansos? Pode se zangar, não quero o Seu amor, porque eu mesmo não O amo. E o que vou esconder de Você? Ou não sei com quem estou falando? Tudo o que posso Lhe dizer Você já sabe, leio em Seus olhos. E por acaso escondo de Você nosso segredo? Talvez Você mesmo queira escutá-lo dos meus lábios, então escute: não estamos com Você, mas com ele, eis nosso segredo! Já há muito tempo não estamos mais com Você, e sim com ele, já há oito séculos. Há exatos oito séculos aceitamos dele o que Você recusou com indignação, essa última dádiva que ele Lhe propôs ao mostrar para Você todos os reinos terrestres: aceitamos dele Roma e a espada de César e declaramos que apenas nós somos os reis da terra, os únicos reis, embora até hoje não tenhamos conseguido cumprir por completo nossa tarefa. Mas de quem é a culpa? Ah, até hoje essa tarefa ainda está no início, mas já começou. Ainda será preciso esperar muito até sua realização, e a terra ainda vai sofrer muito, mas vamos conseguir e seremos Césares, e então sonharemos com a felicidade universal de toda a humanidade. No entanto, naquele momento Você ainda podia pegar a espada de César. Por que recusou essa última dádiva? Se tivesse aceitado esse terceiro conselho do espírito poderoso, teria preenchido tudo o que o homem busca na terra, ou seja: alguém a quem reverenciar, a quem entregar a consciência e uma maneira de, enfim, unir a todos num incontestável e harmonioso formigueiro geral, pois a necessidade universal de união é a terceira e última tortura do homem. A humanidade como um todo sempre aspirou a uma organização necessariamente universal. Houve muitos grandes povos com uma grande história, mas, quanto mais alto estavam esses povos, mais eram infelizes, pois, com mais intensidade que os outros, reconheciam a necessidade de união universal dos homens. Os grandes conquistadores, os Tamerlães e Gengis Khans passaram pela terra como um turbilhão, fazendo de tudo para lutar contra o universo, mas até eles, embora inconscientemente, expressaram a mesma grande necessidade humana de unidade geral e universal. Ao aceitar o mundo e o manto de César, Você fundaria o reino mundial e daria paz a todo o mundo. Pois quem é que vai dominar os homens senão aqueles que dominam sua consciência e em cujas mãos está seu pão? Nós aceitamos a espada de César e, ao aceitá-la, claro, renegamos Você e o seguimos. Ah, eles passarão ainda por séculos do desmando de seu livre pensamento, ciência e antropofagia, porque, ao começar a erguer sua torre de Babel sem nós, vão terminar na antropofagia. Mas, então, a besta virá rastejando até nós, e lamberá nossos pés, e os borrifará com as lágrimas de sangue de seus olhos. E nós montaremos a besta e ergueremos o cálice, e nele estará escrito: ‘Mistério!’.14 Mas então, e só então, se estabelecerá para os homens o reino da paz e da felicidade. Você se orgulha de Seus eleitos, mas Você só tem os eleitos, e nós tranquilizaremos a todos. E há mais: quantos desses eleitos, dos fortes que poderiam se tornar eleitos, por fim se cansaram de esperar por Você, levaram e ainda levarão as forças de suas almas e o calor de seus corações para o outro campo e terminarão erguendo sobre Você sua bandeira livre. Mas foi Você próprio que ergueu essa bandeira. Conosco, todos serão felizes e não mais se rebelarão, nem exterminarão uns aos outros por toda parte, como sob Sua liberdade. Ah, nós os convenceremos de que eles só se tornarão livres quando abdicarem da liberdade deles por nós e se submeterem a nós. E daí se vamos dizer a verdade ou mentir? Eles mesmos vão se convencer de que estamos certos, pois lembram a que horrores de escravidão e desordem sua liberdade os levou. A liberdade, o livre pensamento e a ciência os conduzirão por esses matagais e eles serão postos diante de tamanhos milagres e mistérios insolúveis que alguns deles, os indóceis e ferozes, exterminarão a si mesmos, e outros, indóceis porém fracos, exterminarão uns aos outros, e os terceiros, os que ficaram, fracos e infelizes, virão rastejando aos nossos pés e berrarão: ‘Sim, vocês tinham razão, só vocês dominavam o segredo dele, e nós estamos voltando para vocês, salvem-nos de nós mesmos’. Ao receber de nós os pães, claro, eles verão claramente que não foi pão, mas o fruto de seu trabalho, que tomamos deles para repartir entre eles próprios, sem milagre nenhum, verão que não transformamos pedras em pães, mas, na verdade, mais do que pelo pão, eles estarão felizes por terem-no recebido de nossas mãos! Pois vão lembrar muito bem que antes, sem nós, os pães que eles conseguiam se transformavam apenas em pedras em suas mãos, e quando eles se dirigiram a nós, as pedras se transformaram em pães nas mãos deles. Eles nos darão grande valor, darão grande valor ao que significa se submeter de uma vez por todas! E enquanto as pessoas não entenderem isso, serão infelizes. Quem, acima de tudo, tornou essa incompreensão possível, quem? Quem desmembrou o rebanho e o espalhou por caminhos desconhecidos? Porém, o rebanho se uniu de novo e se submeteu de novo, e, agora, de uma vez por todas. Então daremos a eles uma felicidade calma, submissa, a felicidade dos seres fracos, como eles foram construídos. Ah, por fim vamos convencê-los a não ter orgulho, pois Você os elevou e assim os ensinou a ter orgulho; provaremos que são fracos, que são apenas crianças lamentáveis, mas que a felicidade infantil é a mais doce de todas. Eles se tornarão tímidos e passarão a olhar para nós e se apertar contra nós com medo, como pintinhos com a galinha. Vão se maravilhar e se horrorizar conosco e ter orgulho por sermos tão poderosos e tão inteligentes, por podermos apaziguar um rebanho tão violento de milhares de milhões. Vão tremer, debilitados por nossa ira, intimidados em seus pensamentos, os olhos irão tornar-se lacrimosos, como de crianças e mulheres, e com tanta facilidade, a um sinal nosso, passarão à alegria e ao o riso, à felicidade radiante e ao alegre cantar das crianças. Sim, vamos obrigá-los a trabalhar, mas nas horas livres vamos organizar para eles uma vida como uma brincadeira de criança, com canções infantis, coros, danças inocentes. Ah, vamos permitir seus pecados, eles são fracos e incapazes, e vão nos amar como amam as crianças porque permitiremos que pequem. Diremos a eles que todo pecado será redimido se feito com nossa permissão; permitimos que pequem porque os amamos, pois a punição por esses pecados, que seja, assumiremos nós. E assumiremos nós, mas eles haverão de idolatrar-nos como benfeitores que assumiram seus pecados diante de Deus. E não terão nenhum segredo conosco. Vamos permitir ou proibir que vivam com suas esposas e amantes, que tenham ou não tenham filhos — tudo dependendo de sua obediência — e eles vão se submeter a nós com alegria e felicidade. Os segredos mais torturantes de suas consciências — eles nos trarão todos, todos, e vamos permitir tudo, e eles vão confiar em nossa decisão com alegria, porque ela os liberta da grande preocupação e das terríveis torturas atuais de uma decisão pessoal e livre. E todos serão felizes, todos os milhões de seres, exceto as centenas de milhares que os governam. Pois só nós, nós, guardiães do mistério, só nós seremos infelizes. Haverá milhares de milhões de bebês felizes e cem mil sofredores que tomarão para si o maldito conhecimento do bem e do mal. Eles morrerão quietos, falecerão quietos em Seu nome e, depois do caixão, encontrarão apenas a morte. Mas vamos guardar o segredo e, pela felicidade deles, vamos atraí-los com recompensas celestes e eternas. Pois, se houver algo no outro mundo, então, claro, não será para os que são como eles. Dizem e profetizam que Você virá e vencerá novamente, virá com Seus escolhidos, orgulhosos e poderosos, mas nós diremos que eles só salvaram a si mesmos, e nós salvamos a todos. Dizem que será desonrada a prostituta montada na besta e que, trazendo nas mãos o mistério, de novo os fracos se rebelarão, que vão rasgar seu manto e desnudar seu corpo ‘imundo’.15 Mas então hei de me levantar e lhe indicar os milhares de milhões de bebês felizes que não conhecem o pecado. E nós, que assumimos os pecados deles para a felicidade deles, nos postaremos diante de Você e diremos: ‘Julgue-nos, se pode e ousa’. Saiba que não tenho medo de Você. Saiba que eu também estive no deserto, que também me alimentei de gafanhotos e raízes, que também abençoava a liberdade com que Você abençoou as pessoas, eu também estava disposto a engrossar o número dos Seus eleitos, o número dos poderosos e fortes que anseiam por ‘completar o número’.16 Mas despertei e não quis servir à loucura. Dei a volta e me juntei à multidão daqueles que corrigiram Seus feitos. Eu saí do grupo dos orgulhosos e voltei aos submissos, para a felicidade desses submissos. O que estou Lhe dizendo acontecerá, e nosso reino será edificado. Eu repito, amanhã mesmo Você vai ver esse rebanho obediente que, ao meu primeiro sinal, vai correr para recolher carvões em brasa para a Sua fogueira, na qual vou queimá-Lo por ter vindo nos atrapalhar. Pois, se há alguém que, mais do que todos, mereceu nossa fogueira, é Você. Amanhã vou queimá-Lo. Dixi.”
Ivan parou. Ele se inflamara ao falar, e falara com fervor; quando terminou sorriu de repente.
Aliocha, que continuara escutando calado até o fim, com extraordinária preocupação, tentou muitas vezes interromper o discurso do irmão, mas aparentemente se conteve, e de repente se pôs a falar, como quem se põe em movimento.
— Mas… isso é absurdo! — ele exclamou, corando. — Seu poema é um elogio a Jesus, e não uma blasfêmia… como você queria. E quem vai acreditar quando você fala da liberdade? Não é assim, não é assim que é preciso entendê-la! Não é essa a concepção no cristianismo ortodoxo… Isso é Roma, e nem é Roma inteira, é mentira — é o pior do catolicismo, os inquisidores, os jesuítas!… E nem pode existir, de forma alguma, um personagem fantástico como seu inquisidor. Quais são os pecados dos homens que ele assume? Quem são os portadores do mistério que assumem alguma maldição pela felicidade dos outros? Quando eles foram vistos? Conhecemos os jesuítas, fala-se mal deles, mas não são como você diz, são? Eles não são nada disso, de forma alguma assim… São apenas o exército romano para um futuro reino universal na terra, com um imperador, o papa de Roma, no comando… esse é o ideal deles, mas sem nenhum mistério e nenhuma tristeza elevada… O desejo mais simples das autoridades, pelos vis bem terrenos, pela escravização… como uma servidão futura, na qual serão os proprietários… é tudo o que eles têm. Eles não acreditam em Deus, talvez. Seu inquisidor sofredor é só uma fantasia…
— Tudo bem, pare, pare — riu Ivan —, como você se exaltou. É uma fantasia, você diz, que seja! Claro, é uma fantasia. Porém, permita-me: por acaso acha mesmo que todo o movimento católico dos últimos séculos é de fato apenas o desejo de autoridade só para fins sórdidos? O padre Paíssi lhe ensinou isso?
— Não, não, pelo contrário, o padre Paíssi falou apenas uma vez de algo como isso… mas, claro, não era bem isso, de jeito nenhum — lembrou-se Aliocha de repente.
— Um testemunho precioso, apesar do seu “não era bem isso, de jeito nenhum”. Estou lhe perguntando justamente porque seus jesuítas e inquisidores se unem apenas para fins materiais indecentes. Por que entre eles não pode haver um só mártir, atormentado por uma grande dor e que ama a humanidade? Veja: suponha que foi encontrado ao menos um entre todos esses que só desejam bens materiais e sórdidos — apenas um como o meu velho inquisidor que comeu raízes no deserto e ficou furioso ao triunfar sobre sua carne, para se tornar livre e perfeito, porém por toda a vida foi um amante da humanidade e, de repente, percebeu e viu que não é importante a beatitude moral de conquistar a perfeição da liberdade e, ao mesmo tempo, convenceu-se de que os milhões de criaturas de Deus restantes foram constituídos apenas como zombaria, que nunca terão forças para dar conta de sua liberdade, que daqueles lamentáveis rebeldes nunca sairão gigantes para a conclusão da torre, que não foi para essas raposas que o grande idealista sonhou com a harmonia. Ao entender tudo isso, ele se voltou e se juntou… às pessoas inteligentes. Será que isso não pode acontecer?
— A quem se juntou, a que pessoas inteligentes? — exclamou Aliocha quase num arroubo. — Nenhum deles tem essa inteligência e nenhum tem esses mistérios e segredos… Apenas, talvez, o ateísmo, aí está todo o segredo deles. Seu inquisidor não acredita em Deus, é esse todo o segredo dele!
— Que seja! Até que enfim você adivinhou. E de fato é isso, de fato todo o segredo é esse, mas acaso isso não é sofrimento, mesmo que seja para alguém como ele, uma pessoa que sacrificou toda a vida em um feito no deserto e não foi curado de seu amor à humanidade? No ocaso de seus dias, ele se convence com clareza de que apenas os conselhos do grande espírito terrível poderiam ao menos organizar numa ordem tolerável os rebeldes sem força, “seres experimentais e incompletos, criados por zombaria”. E então, convencido disso, ele vê que é preciso seguir a instrução do espírito inteligente, do terrível espírito da morte e da destruição, e para isso aceitar a mentira e o engano, levar as pessoas já conscientemente para a morte e a destruição, e, ademais, enganá-las por todo o caminho, para que elas como que não reparem para onde estão sendo levadas, para que ao menos no caminho esses cegos lamentáveis se considerem felizes. E, repare, o engano é em nome do ideal no qual o velho acreditou com tanta paixão por toda a vida! Por acaso isso não é infelicidade? E se ao menos um desses acabar no comando de todo esse exército, “ansiando por poder apenas para bens vis”, será que não bastaria um desses para que ocorra uma tragédia? Além disso: basta que só um esteja no comando para que, por fim, seja revelada a verdadeira ideia orientadora de toda a causa de Roma, com todos seus exércitos e jesuítas, o ideal elevado dessa causa. Eu lhe digo diretamente que acredito com firmeza que esse tipo de pessoa única nunca foi escasso entre as que se encontram no comando do movimento. Quem sabe, pode ser que essas pessoas únicas existam entre os sumos pontífices romanos também. Quem sabe, pode ser que esse velho maldito, que amou a humanidade de um jeito tão obstinado e particular, exista mesmo agora sob a forma de toda uma multidão de velhos únicos como esse, uma multidão não fortuita, de jeito nenhum, mas consensual, como uma aliança secreta há muito formada para guardar o mistério, para guardá-lo das pessoas infelizes e fracas, para fazê-las felizes. Isso decerto existe, e assim deve ser. Me parece que até os maçons têm em sua base algo como esse mistério, e é por isso que os católicos tanto odeiam os maçons, porque veem neles adversários, um desmembramento da unidade de seu ideal, quando deve haver um só rebanho e um só pastor… Aliás, ao defender meu raciocínio pareço um escritor que não aguenta seus críticos. Chega de falar disso.
— Talvez você mesmo seja maçom! — Aliocha deixou escapar de repente. — Você não acredita em Deus — acrescentou, mas agora com profunda mágoa. Tinha a impressão de que o irmão o encarava com zombaria. — Como é que termina seu poema? — ele perguntou de repente, olhando para o chão. — Ou já terminou?
— Eu queria terminar assim: quando o inquisidor se cala, ele espera que seu prisioneiro responda. Tem dificuldade em suportar o silêncio. Ele viu que o cativo escutou o tempo todo de forma sincera e calada, olhando direto em seus olhos e, pelo visto, sem querer fazer nenhuma objeção. O velho queria que Ele dissesse algo, ainda que amargo, terrível. Mas, de repente, em silêncio, Ele se aproxima do velho e em silêncio beija sua boca nonagenária e descorada. Eis toda a resposta. O velho estremece. Algo se move na ponta de seus lábios; ele vai até a porta, abre e diz: “Vá e não volte mais… Não volte em absoluto… De jeito nenhum!”. E O deixa sair para as “ruas escuras da cidade”.17 O prisioneiro sai.
— E o velho?
— O beijo queima em seu coração, mas o velho continua com sua ideia anterior.
— E você a compartilha, você também? — exclamou Aliocha com amargura. Ivan começou a rir.
— Mas é uma bobagem, Aliocha, é apenas um poema incoerente de um estudante incoerente que nunca escreveu dois versos. Por que está levando tão a sério? Você decerto não acha que daqui vou direto para lá, encontrar os jesuítas, para entrar na massa das pessoas que estão corrigindo Seu feito. Ah, Senhor, o que tenho a ver?! Pois já lhe disse: quero chegar só até os trinta anos, e aí: cálice no chão!
— E a viscosidade das folhinhas, e os túmulos queridos, e o céu azul, e a mulher amada?! Como vai viver, como vai amá-los? — exclamou Aliocha com amargura. — Será possível ter esse inferno no peito e na cabeça? Não, você está justamente partindo para se juntar a eles… e, se não, vai terminar se matando, não vai aguentar!
— Existe uma força que tudo suporta! — disse Ivan, agora com um risinho frio.
— Que força?
— A karamazoviana… a força da baixeza karamazoviana.
— Afundar na vida devassa, entregar a alma à depravação, é isso, é isso?
— Talvez isso também… Só que até os trinta anos talvez eu consiga evitar, e aí…
— Como vai evitar? De que jeito? É impossível com suas ideias.
— De novo, de uma forma karamazoviana.
— A de que “tudo é permitido”? Tudo é permitido, é isso, é isso?
Ivan franziu a testa e, de repente, ficou estranhamente pálido.
— Ah, você se refere às palavrinhas de ontem, que tanto ofenderam Miússov… e que levaram nosso irmão Dmítri a intervir e disparar a falar com tanta inocência? — abriu um sorriso torto. — Sim, talvez: “Tudo é permitido”, se essas palavras já foram ditas. Não as renego. E a formulação de Mítenka não é ruim.
Aliocha olhou para ele, calado.
— Irmão, ao sair, fiquei pensando que em todo o mundo só tenho você — disse de repente Ivan com uma emoção inesperada —, mas agora vejo que nem mesmo em seu coração há lugar para mim, meu querido eremita. Não renego a formulação “tudo é permitido”, e então por causa dela você vai me renegar, é isso?
Aliocha levantou, aproximou-se do irmão e beijou-lhe os lábios silenciosamente.
— Furto literário! — exclamou Ivan, de repente passando a um certo tipo de êxtase. — Você roubou isso do meu poema! Obrigado, porém. Levante-se, Aliocha, vamos, está na hora, a minha e a sua.
Eles saíram, mas pararam na soleira da taverna.
— É o seguinte, Aliocha — disse Ivan com voz firme. — Se de fato me for suficiente a viscosidade das folhinhas, então vou amá-las, apenas em sua memória. Para mim basta que você esteja aqui em algum lugar, e nunca mais deixarei de querer viver. Basta para você? Se quiser, aceite ao menos como uma declaração de amor. Agora você vai para a direita, e eu vou para a esquerda — e basta, está ouvindo? Basta. Ou seja, se amanhã eu não for embora (ao que parece, certamente vou) e nós nos encontrarmos de novo, não me diga uma palavra sobre esses temas todos. Eu insisto. A respeito do nosso irmão Dmítri também, eu lhe peço em especial, nunca mais nem fale disso comigo — acrescentou de repente irritado. — Foi tudo esgotado, está tudo dito, certo? E, quanto a mim, também faço uma promessa: quando, por volta dos trinta anos, eu tiver vontade de “jogar o cálice no chão”, então, onde quer que você esteja, vou outra vez a seu encontro para conversar… mesmo que eu tenha que vir da América, fique sabendo. Venho só para isso. Vai ser muito interessante olhar para você nesse momento: como você estará então? Está vendo? É uma promessa bastante solene. E, na verdade, talvez estejamos nos despedindo por uns sete, dez anos. Agora vá para o seu Pater Seraphicus, pois ele está morrendo; se morrer sem você, talvez fique bravo comigo por tê-lo retido. Até logo, me dê mais um beijo, assim, e vá…
Ivan se virou de repente e seguiu seu caminho, já sem olhar para trás. Lembrava o modo como o irmão Dmítri se afastara de Aliocha na véspera, ainda que naquele dia a situação fosse de uma natureza bem diferente. Essa observaçãozinha estranha cruzou como uma flecha a mente triste de Aliocha, triste e aflita naquele momento. Ele esperou um pouco, seguindo o irmão com o olhar. Por algum motivo, reparou que Ivan andava como que balançando e que seu ombro direito, visto de costas, parecia mais baixo que o esquerdo. Nunca havia notado. Mas, de repente, ele também deu a volta e quase correu para o monastério. Já havia escurecido muito, e ele estava quase com medo; dentro de si crescia algo novo, a que ele não conseguia dar resposta. De novo, como no dia anterior, soprou um vento, e os pinheiros seculares começaram a rumorejar sobriamente a seu redor quando ele entrava no bosque do ascetério. Estava quase correndo. “Pater Seraphicus” — ele havia tirado esse nome de algum lugar — de onde? — passou pela cabeça de Aliocha. — “Ivan, pobre Ivan, quando é que vou vê-lo agora… Aí está o ascetério, meu Deus! Sim, sim, é ele, é o Pater Seraphicus, ele vai me salvar… dele e para sempre!”
Ao longo da vida, Aliocha lembrou-se várias vezes, com grande perplexidade de que, após se separar de Ivan, esqueceu por completo do irmão Dmítri, ao qual de manhã, apenas algumas horas antes, procurara encontrar a todo custo e não ir embora sem ele, mesmo que precisasse abrir mão de voltar para o monastério aquela noite.
1. Apocalipse 3,11. (n. e.)
2. Marcos 13,32. (n. e.)
3. Citação do poema “Sehnsucht”, de Schiller, segundo a tradução livre para o russo feita por Vassíli Jukóvski e intitulada “Jelánie” [desejo]. (n. e.)
4. Citação inexata de Apocalipse 8,10-1. (n. e.)
5. Em português russificado no original. Citação imprecisa de um poema Koriolan, de A. I. Polejáiev. (n. e.)
6. Marcos 5,40. (n. e.)
7. Citação alterada de O convidado de pedra (1830), de Púchkin. (n. e.)
8. João 8,32. (n. e.)
9. Mateus 16,19: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus”. (n. e.)
10. Mateus 4,1-11 e Lucas 4,1-13. (n. e.)
11. Apocalipse 13,4. (n. e.)
12. Mateus 4,5-6. (n. e.)
13. Apocalipse 7,4-8. (n. e.)
14. Apocalipse 17,4-5. (n. e.)
15. Apocalipse 17,15. (n. e.)
16. Apocalipse 6,11. (n. e.)
17. Citação imprecisa de um poema de Púchkin. (n. e.)
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