iv
Revolta
— Tenho que lhe fazer uma confissão — Ivan começou —, jamais consegui entender como é possível amar o próximo. Justo os próximos, na minha opinião, são impossíveis de amar, talvez só seja possível amar os distantes. Uma vez, li em algum lugar a respeito de Ivan Milostivi1 (um santo), que, quando se aproximou dele um viajante passando frio e fome, e pediu que o aquecesse, ele o pôs em sua cama junto de si, abraçou-o e começou a respirar em sua boca fedorenta e supurada por alguma doença horrível. Estou convencido de que ele fez isso por um dilaceramento falso, por causa do dever de amor ordenado, pelo epitímio imposto a si mesmo. Para amar uma pessoa é preciso que ela se esconda, pois logo que seu rosto aparece — o amor desaparece.
— O ancião Zossima me falou disso mais de uma vez — Aliocha observou. — Ele também dizia, com frequência, que, para muitos ainda inexperientes no amor, o rosto de uma pessoa atrapalhava o sentimento do amor. Mas há muito amor na humanidade, e ele quase se parece com o amor de Cristo, isso eu mesmo sei, Ivan…
— Pois é isso que eu ainda não sei e não consigo entender, e a incalculável maioria das pessoas está comigo também. Pois a questão é se isso acontece por causa das características más das pessoas, ou se é inerente à natureza humana. Na minha opinião, o amor de Cristo pelas pessoas é, a seu modo, um milagre impossível na terra. É verdade, ele era Deus. Mas nós não somos deuses. Vamos supor que eu, por exemplo, sofra profundamente — um outro nunca pode saber até que ponto eu sofro, porque ele é outro, e não eu, e, acima de tudo, raramente uma pessoa reconhece o outro como sofredor (como se isso fosse uma patente). Por que não reconhece, o que você acha? Porque, por exemplo, tenho um cheiro ruim, porque tenho um rosto idiota, porque uma vez pisei no pé dessa pessoa. Além do mais, há sofrimentos e sofrimentos: um sofrimento humilhante, que me rebaixa — a fome, por exemplo —, meu benfeitor ainda pode admitir, mas um sentimento um pouco mais elevado, por um ideal, digamos, esse não, ele só vai admitir raramente, porque, por exemplo, ele olhará para mim e de repente verá que meu rosto em nada corresponde à sua fantasia do que seria o rosto de uma pessoa que sofre por aquele ideal. Então, por isso ele me priva de suas boas ações, e inclusive nem é por ter um coração cruel. Mendigos, sobretudo mendigos de origem aristocrata, não deveriam nunca mostrar a cara, e sim pedir esmola pelo jornal. De forma abstrata ainda é possível amar o próximo, e até de longe às vezes, mas de perto é quase impossível. Se tudo fosse como no palco, no balé, onde os mendigos, quando aparecem, vestem roupas esfarrapadas de seda, rendas rasgadas e pedem esmola dançando graciosamente, então ainda seria possível contemplá-los. Contemplar, ainda assim, amar, não. Mas chega de falar disso. Eu só precisava expor meu ponto de vista. Queria começar a falar do sofrimento da humanidade em geral, mas é melhor que nos detenhamos só no sofrimento de crianças. Isso vai diminuir a proporção da minha argumentação em dez vezes, mas é melhor falar apenas das crianças. Isso não me é vantajoso, claro. Mas, em primeiro lugar, é possível amar as criancinhas até de perto, até se estão sujas, até as feias de rosto (eu, porém, acho que as crianças nunca são feias). Em segundo lugar, por isso mesmo ainda não vou falar dos adultos que, além de serem asquerosos e não merecerem amor, só querem uma desforra: eles comeram a maçã e conheceram o bem e o mal, e se tornaram “como deuses”.2 Continuam a comendo até agora. Mas as criancinhas não comeram nada, e por enquanto ainda não têm culpa nenhuma. Você ama as criancinhas, Aliocha? Sei que ama, e vai entender por que quero falar apenas delas agora. Se elas também sofrem terrivelmente na terra, então, claro, é por causa de seus pais, são punidas por seus pais que comeram a maçã — mas esse raciocínio é de outro mundo, incompreensível para o coração humano aqui na terra. Não é possível que um inocente sofra por outro, e ainda por cima esses inocentes! Você se surpreende, Aliocha, mas eu também amo profundamente as criancinhas. E, pode notar, as pessoas cruéis, apaixonadas, lascivas, karamazovianas, muitas vezes amam muito as crianças. As crianças, enquanto são crianças, até os sete anos, por exemplo, diferem enormemente dos adultos: é como se fossem seres totalmente diferentes, com outra natureza. Conheci um bandido na prisão: em sua carreira lhe acontecera de espancar famílias inteiras nas casas onde ele entrava à noite para roubar, e de passagem matar inclusive algumas crianças. Mas na prisão ele as amava de paixão. Da janela da cela ele só fazia olhar para o pátio onde as crianças brincavam na cadeia. Ele ensinou um menino pequeno a se aproximar de sua cela, embaixo da janela, e ficou muito amigo dele… Sabe por que te digo tudo isso, Aliocha? Estou com um pouco de dor de cabeça, e estou triste.
— Você está com um ar estranho — Aliocha observou com inquietação —, como se estivesse numa certa loucura.
— A propósito, recentemente um búlgaro me contou em Moscou — continuou Ivan Fiódorovitch, como que sem escutar o irmão — que turcos e circassianos lá na terra dele, na Bulgária, cometem crimes conjuntamente para evitar uma insurreição geral dos eslavos — ou seja, queimam, esfaqueiam, estupram as mulheres e as crianças, fixam os detentos nas cercas pelas orelhas, com pregos, e os deixam assim até a manhã seguinte, quando então os enforcam — etc., é impossível até de imaginar. Na verdade, às vezes se fala da crueldade “animalesca” do homem, mas isso é uma injustiça terrível e ofensiva aos animais: um animal nunca seria capaz de ser tão cruel quanto um homem, de uma crueldade tão artística, tão elaborada. Um tigre apenas dilacera e devora, ele só é capaz disso. Não lhe passaria pela cabeça pregar pessoas pelas orelhas com pregos à noite, mesmo se ele fosse capaz de fazer isso. Esses turcos, entre outras coisas, torturavam com volúpia até crianças, começando por tirá-las do ventre da mãe com um punhal, até jogar para cima bebês de peito e pegar com a baioneta diante dos olhos da mãe. Fazer isso diante da mãe era, aliás, o prazer principal. Mas eis, porém, um quadro que me provocou grande interesse. Imagine: um bebezinho de peito nos braços de uma mãe trêmula, cercada de turcos que acabaram de chegar. Eles começam com uma bricadeirinha divertida: fazem carinho no bebê, riem para fazê-lo rir, conseguem, o bebê começa a rir. Nesse momento um turco leva o revólver até ele, a quatro verchoks3 do seu rosto. O menino gargalha alegremente, estende os bracinhos para pegar o revólver, e de repente o artista aperta o gatilho bem no rosto dele e estraçalha sua cabecinha. Artístico, não? A propósito, dizem que os turcos gostam muito de doces.
— Meu irmão, para que isso tudo? — perguntou Aliocha.
— Acho que se o diabo não existe e, consequentemente, foi criado pelo homem, então este o criou à sua imagem e semelhança.
— Nesse caso, exatamente como Deus.
— Mas é impressionante como você consegue dar a volta numa palavrinha,4 como diz Polônio em Hamlet — riu-se Ivan. — Você me pegou em meu discurso, que seja, fico satisfeito. É muito bom esse seu Deus, se criou o homem à sua imagem e semelhança. Você perguntou agora para que tudo isso: veja, sou um amante e um colecionador de alguns pequenos fatos e, acredite, reúno dos jornais e histórias, seja lá de onde venham, certo tipo de anedota, e já tenho uma boa coleção, anotada. Os turcos, claro, entraram na coleção, mas são os únicos estrangeiros. Tenho também umas coisinhas da nossa terra, e até melhores do que as dos turcos. Sabe, temos mais surras, mais chibatas e açoites, é um traço nacional: pregar orelhas com pregos é impensável entre nós, afinal somos europeus, mas chibatas, açoites — isso já é nosso e ninguém nos tira. Agora, no exterior, parece que não surram de jeito nenhum, talvez os costumes tenham ficado mais humanos, ou as leis já são criadas de forma tal que um homem já não ousa açoitar outro, e no entanto eles descontam de outra forma, isso também é um traço puramente nacional lá, a tal ponto que entre nós é como se fosse impensável, embora, no entanto, entre nós também esteja pegando, especialmente desde o tempo do movimento religioso em nossa alta sociedade. Tenho uma brochurinha encantadora, traduzida do francês, contando que, em Genebra, muito recentemente, há uns cinco anos no máximo, foi punido um malfeitor e assassino, Richard, de uns vinte e três anos, um rapaz que se arrependeu e se converteu à fé cristã diante do cadafalso. Esse Richard era filho bastardo de alguém, e ainda enquanto um menino de uns seis anos foi dado de presente para uns pastores montanheses suíços, e eles o criaram para que ele trabalhasse para eles. O menino cresceu como um animalzinho selvagem, os pastores não lhe ensinaram nada, pelo contrário, já com sete anos mandaram-no pastorear o rebanho, no frio e na umidade, quase sem roupa e sem alimento. E, claro, fazendo assim, nenhum deles refletiu e se arrependeu, pelo contrário, se consideravam em pleno direito, pois Richard lhes tinha sido dado de presente como uma coisa, e eles nem viam necessidade de alimentá-lo. O próprio Richard testemunha que naqueles anos, como o filho pródigo no Evangelho, ele desejava terrivelmente comer ainda que fosse a lavagem que davam de engorda aos porcos para venda, mas não lhe deixavam nem isso e batiam nele quando roubava dos porcos, e, assim, ele passou toda a infância e toda a juventude, até o momento em que cresceu, e depois que ficou forte foi roubar. O selvagem conseguia dinheiro fazendo trabalhos por dia em Genebra, gastava em bebida o que ganhava, vivia feito um monstro e acabou por matar um velho e roubá-lo. Foi pego, julgado e condenado à morte. Lá eles não têm essas sentimentalidades. E eis que, na prisão, ele é imediatamente cercado por pastores e membros de diversas irmandades cristãs, damas beneficentes etc. Na prisão, eles o ensinaram a ler e escrever, começaram a lhe explicar o Evangelho, conscientizaram, convenceram, pressionaram, limaram e espremeram o rapaz, que acabou por reconhecer solenemente seu crime. Ele se converteu, escreveu ele próprio para o tribunal que era um monstro e que por fim era digno de que o Senhor o iluminasse e lhe enviasse a bem-aventurança. Toda Genebra ficou em alvoroço, toda a Genebra filantrópica e devota. Todos o que eram elevados e bem-educados foram correndo procurar por ele na prisão; beijavam-no, abraçavam-no: “Você é nosso irmão, sobre você recaiu a bem-aventurança!”. E o próprio Richard só chorava de comoção: “Sim, sobre mim recaiu a bem-aventurança! Antes, por toda minha infância e juventude, eu estava feliz em comer lavagem de porco, mas agora recaiu sobre mim a bem-aventurança, vou morrer no Senhor!”. “Sim, Richard, morra no Senhor, você derramou sangue e deve morrer no Senhor. Ainda que você seja inocente, pois não conhecia o Senhor em absoluto quando invejava a comida dos porcos e quando era espancado porque roubava a lavagem deles (o que você fazia era muito feio, pois roubar não é permitido) — mas você derramou sangue e deve morrer.” E eis que chegou último dia. Um Richard debilitado chorava e repetia a cada minuto: “É o melhor dos meus dias, pois estou indo encontrar o Senhor!”. “Sim”, gritam os pastores, o tribunal, e as damas filantropas. “É o seu dia mais feliz, pois você vai encontrar o Senhor!” Todos eles se dirigem ao cadafalso, em carruagens e a pé, atrás da carroça ignominiosa na qual Richard está sendo transportado. E então chegam ao cadafalso: “Morra, irmão nosso”, gritam para Richard, “morra no Senhor, pois sobre ti recaiu a bem-aventurança!”. E eis que o arrastam até o cadafalso, coberto de beijos dos irmãos, põem-no na guilhotina e degolam-no fraternalmente porque sobre ele havia recaído a bem-aventurança. Isso é típico. Essa brochurazinha foi traduzida para o russo por uns luteranos russos filantropos da alta sociedade e enviada para a educação do povo russo em jornais e outros meios impressos. Essa coisa que aconteceu com ele é boa porque é nacional. Nós ao menos achamos um absurdo cortar a cabeça de um irmão, só porque ele se tornou um irmão para nós e sobre ele recaiu a bem-aventurança, mas, repito, nós temos os nossos costumes, quase piores. Temos um prazer histórico, direto e imediato pela tortura do espancamento. Nekrássov tem uns versos sobre um mujique que, com o cnute, açoita um cavalo nos olhos, “nos olhos dóceis”. Quem nunca viu isso? É um russismo. Ele descreve uma eguinha fraca, sobre a qual empilharam carga demais, que empaca com a carroça e não consegue mais puxar. O mujique bate nela, bate com fúria, bate e por fim, sem entender o que faz, na embriaguez do espancamento a açoita dolorosamente, inúmeras vezes: “Mesmo sem forças, puxe, você pode morrer, mas puxe!”. A pangaré tenta se soltar, e eis que ele começa a açoitá-la, indefesa, nos “olhos dóceis” e chorosos. Fora de si, ela dá um arranco, puxa a carroça e começa a andar, tremendo inteira, sem respirar, meio de lado, com uns pulinhos, de um jeito pouco natural e humilhante — isso é horrível no poema de Nekrássov. Mas é só um cavalo, os cavalos foram criados por Deus para serem açoitados. Foi o que os tártaros nos explicaram e nos legaram o cnute de lembrança. Mas também é possível espancar as pessoas. E eis que um senhor intelectual e instruído e sua dama açoitam a própria filha, uma menininha de uns sete anos, com vara — tenho isso escrito em detalhes. O paizinho estava feliz porque a vara tinha raminhos, “vai acertar mais”, ele diz, e começa a “acertar” a própria filha. Sei que decerto há fustigadores que se animam com cada golpe ao ponto da volúpia, da volúpia literal, com cada golpe subsequente, cada vez mais e mais, num crescendo. Açoitam por um minuto, açoitam, enfim, por cinco minutos, açoitam por dez minutos, continuam, mais, mais frequente, mais certo. A criança grita, a criança, por fim, não consegue gritar, perde o fôlego. “Pai, pai, papai, papai!” O ocorrido, por alguma casualidade demoníaca e indecorosa, vai parar nos tribunais. Um advogado é contratado. O povo russo havia um tempo dizia dos advogados: “O advogado é uma consciência de aluguel”. O advogado grita em defesa de seu cliente: “A questão”, diz, “é tão simples, familiar e comum, um pai açoitou sua filha, e eis que, para a vergonha de nossos dias, isso chega ao tribunal!”. O júri, convencido, se retira e pronuncia a sentença de absolvição. O público berra de felicidade por terem absolvido o torturador. Ah, se eu estivesse lá, teria sugerido, aos berros, instituir uma bolsa de estudos com o nome do agressor! São quadros encantadores. Mas a respeito de crianças tenho uns casos ainda melhores, andei juntando muitos, muitos sobre crianças russas, Aliocha. Uma menininha pequena, de cinco anos, era odiada pelo pai e pela mãe, “gente muito honrada e com um bom cargo, instruída e educada”. Está vendo, mais uma vez eu afirmo positivamente que há uma característica particular de muitos na humanidade: o amor por torturar crianças, mas apenas crianças. Com todos os outros sujeitos da espécie humana esses mesmos torturadores têm uma relação até benevolente e dócil, como europeus bem-educados e humanistas que são, mas amam torturar crianças, amam até as próprias crianças nesse sentido. Nisso, é justamente o caráter indefeso dessas criaturas que seduz esses torturadores, a confiança angelical da criança, que não tem onde se esconder nem quem procurar — eis o que aquece o sangue repugnante do torturador. Em todo homem, claro, se esconde uma besta, uma besta cheia de ira, uma besta que se excita com os gritos da vítima torturada, uma besta sem contenção, solta da corrente, uma besta de doenças adquiridas em meio à depravação, a gota, ao fígado doente etc. Esses pais bem-educados submeteram essa pobre menina de cinco anos a todas as torturas possíveis. Bateram, açoitaram, chutaram sem nem mesmo saber por quê, cobriram todo o corpo dela de hematomas; por fim, atingiram o mais alto grau de refinação: no frio, no gelo, trancaram-na num banheiro a noite toda, só porque ela não pedia para ir ao banheiro à noite (como se uma criança de cinco anos, que dorme seu sono pesado e angelical, nessa idade já fosse capaz de pedir) — e, para isso, lambuzaram todo o rosto dela com fezes e a obrigaram a comer essas fezes, isso foi a mãe, a mãe que obrigou! E essa mãe conseguia dormir quando à noite se escutavam os gemidos da pobre criança trancada naquele lugar asqueroso! Você entende, quando essa pequena criatura, ainda incapaz de compreender o que lhe está sendo feito, se debate num lugar asqueroso, no escuro, no frio, com seus punhos minúsculos no pequeno peito rasgado e chora suas lagrimazinhas de sangue, doces, submissas, ao “Papai do Céu”, e pede para que ele a proteja — você entende esse absurdo, meu amigo e meu irmão, meu noviço de Deus tão humilde, por acaso você entende qual o propósito desse absurdo, para que foi criado?! Sem ele, dizem, o homem não conseguiria existir sobre a terra, pois não conheceria o bem e o mal. Para que conhecer esse diabo de bem e mal, quando ele custa tanto? Pois todo mundo do conhecimento não vale essas lágrimas de uma criança para seu “Papai do Céu”. Não estou falando do sofrimento dos adultos, esses comeram a maçã, que o diabo os carregue, que o diabo leve a todos, mas as crianças, elas! Estou atormentando você, Aliochka, você parece estar desconfortável. Vou parar, se quiser.
— Não se preocupe, eu também quero me atormentar — murmurou Aliocha.
— Mais um, só mais um quadro, e esse por curiosidade; é muito característico, e, o pior, acabei de ler numa das coletâneas de nossas antiguidades, no Arquivo ou nos Tempos remotos, acho, preciso consultar, até me esqueci onde foi que li. Foi na época mais sombria da servidão, ainda no começo do século, e viva o libertador do povo!5 Havia na época, no começo do século, um general muito bem relacionado, rico proprietário de terras, mas daqueles (na verdade parece que já então não eram muitos) que, uma vez reformados, estavam praticamente convencidos de que haviam conquistado o direito de vida e morte sobre seus servos. Na época havia uns assim. Mas então o general, morando em sua propriedade com duas mil almas, se gabava e maltratava os vizinhos modestos como se fossem seus parasitas e bufões. Tinha um canil com centenas de cachorros e quase uma centena de empregados, todos de uniforme, todos com cavalos. E então um menino da criadagem, um menino pequeno, de no máximo uns oito anos, ao brincar jogou sem querer uma pedra e machucou a pata do cão de caça preferido do general. “Por que meu cachorro preferido está manco?” Disseram-lhe que, veja, aquele menino jogou uma pedra e machucou a pata dele. “Ah, foi você”, o general mediu o menino com o olhar, “peguem-no!” Pegaram-no, tiraram da mãe, ele passou a noite inteira num calabouço; de manhã, quando estava clareando, o general saiu com toda a pompa para a caça, montou no cavalo, ao redor dele estavam todos os parasitas, cachorros, empregados do canil, cães de caça, todos a cavalo. Ao redor estava reunida a criadagem para um sermão, e diante de todos, a mãe do menino culpado. Tiraram o menino do calabouço. Era um dia de outono sombrio, frio, enevoado, excelente para a caça. O general deu ordens para que despissem o menino, e tiraram toda a roupa dele, ele tremia, estava louco de medo, não se atrevia a dar um pio… “Atrás dele!” — comandou o general. “Corra, corra”, os empregados do canil gritaram para o menino, e ele saiu correndo… “Peguem-no!”, ordenou o general e jogou contra ele toda a matilha de galgos. O menino foi perseguido diante dos olhos da mãe, e os cachorros o estraçalharam!… O general, parece, foi levado sob custódia. Mas… fazer o que com ele? Fuzilar? Fuzilar por uma reparação moral? Diga, Aliochka!
— Fuzilar! — Aliocha falou em voz baixa, levantando os olhos para o irmão com um sorriso pálido e torto.
— Bravo! — Ivan exultou —, se até você falou, quer dizer… Ah, seu monge asceta! Quer dizer que um diabinho habita seu coração, Aliochka Karamázov!
— Falei um disparate, mas…
— Exatamente, mas… — gritou Ivan. — Saiba, noviço, que os disparates são muito necessários nesse mundo. O mundo se ergue sobre disparates, talvez sem eles não aconteceria absolutamente nada. Sabemos o que sabemos!
— O que você sabe?
— Não entendo nada — prosseguiu Ivan, como que num delírio —, e agora não quero entender nada. Quero ficar com os fatos. Há tempos decidi não entender. Se sinto vontade de entender algo, imediatamente trairei o fato, e decidi ficar com os fatos.
— Por que você está me pondo à prova? — exclamou Aliocha amargamente, dilacerado. — Vai me dizer, afinal?
— Claro que vou dizer, foi para isso que eu te chamei, para dizer. Você me é caro, não quero deixá-lo ir e não vou liberá-lo para encontrar seu Zossima.
Ivan passou um minuto calado, e seu rosto fez-se muito triste de repente.
— Olha, escolhi apenas as crianças para que fique mais evidente. Do resto das lágrimas humanas que sustentam toda a terra da casca ao centro, já não digo palavra, limitei meu tema de propósito. Sou um percevejo e reconheço humildemente que não consigo entender nada e não sei por que tudo se arranja desse jeito. Quero dizer que o próprio homem é culpado: a ele foi dado o paraíso, ele quis a liberdade e roubou o fogo dos céus, mesmo sabendo que se tornaria infeliz, ou seja, não há por que ter pena. Ah, na minha opinião, segundo minha pobre mente euclidiana, sei apenas que o sofrimento existe, que não há culpados, que uma coisa decorre de outra de forma direta e simples, que tudo flui e se equilibra — mas isso é apenas besteira euclidiana, e eu sei disso, e não consigo viver segundo essas regras! Que me importa se não há culpados e eu sei disso — é que preciso de uma desforra, senão vou me matar. E desforra não em algum lugar no infinito, mas aqui, na terra, e para que eu mesmo a veja. Eu acreditava nela, quero eu mesmo vê-la, e se, nesse momento, eu já estiver morto, então que me ressuscitem, pois se tudo acontecer sem mim, aí será por demais ofensivo. Não foi para isso que sofri, para que meus crimes e sofrimentos adubassem alguma harmonia futura. Quero ver com meus próprios olhos o gamo se deitar ao lado do leão e o assassinado se levantar e abraçar seu assassino. Quero estar aqui quando de repente todos souberem para que existiu tudo isso. É nesse desejo que se baseiam todas as religiões na terra, e eu acredito. Mas veja, no entanto há as crianças, o que vou fazer com elas então? Essa é a questão que não consigo responder. Estou repetindo pela centésima vez — há uma infinidade de questões, mas eu só peguei as crianças porque ali se reflete claramente o que preciso dizer. Escute: se todos devem sofrer a fim de, com esse sofrimento, comprar harmonia eterna, então o que as crianças estão fazendo aí, me diga, por favor? Não entendo de forma alguma por que elas também devem sofrer, e para quem elas devem comprar a harmonia com sofrimento. Por que elas também foram parar nesse material e serviram de adubo para a harmonia futura de alguém? Eu entendo a solidariedade no pecado entre homens, entendo a solidariedade também na desforra, mas não entendo a solidariedade no pecado justo com as crianças, se é verdade de fato que elas também são solidárias com seus pais em todos os malfeitos deles, então, claro, essa verdade não é deste mundo e eu não a entendo. Algum piadista de mau gosto diria que, de toda forma, a criança vai sofrer e vai ter tempo de pecar bastante, mas essa não cresceu, aos oito anos ela foi perseguida por cães. Ah, Aliocha, não estou blasfemando! Eu entendo como o seu universo se abalará quando tudo sobre o céu e sobre a terra se unir numa voz laudatória, tudo o que é vivo e vivente exclamar: “Justo és, ó Senhor, pois teus caminhos se tornaram manifestos!”.6 E quando a mãe se abraçar com o torturador que pôs os cães para estraçalharem seu filho, e todos os três proferirem entre lágrimas: “Justo és, ó Senhor”, então, finalmente, terá início a coroação do conhecimento e tudo se explicará. Mas eis que há aí um porém, e é isso que não consigo aceitar. Enquanto eu estiver na terra, terei pressa em tomar medidas. Veja, Aliocha, talvez de fato aconteça que, se eu mesmo chegar a viver até esse momento ou ressuscitar para vê-lo, então talvez eu mesmo exclame junto com todos, ao ver a mãe abraçar o torturador de seu filho: “Justo és, ó Senhor!”, mas não quero exclamar. Enquanto ainda há tempo, tenho pressa em me proteger, e por isso recuso terminantemente a harmonia superior. Ela não vale uma lagrimazinha que seja daquela criança torturada, que batia com as mãozinhas no peito e rezava em seu buraco fétido com suas lagrimazinhas não redimidas para o seu “Papai do Céu”! Não vale porque as lágrimas dela continuam sem redenção. Elas devem ser redimidas, senão não pode haver harmonia. Mas como, como você vai redimi-las? Será possível? Elas acaso serão vingadas? Mas de que me serve que sejam vingadas, de que me serve o inferno para o torturador, o que o inferno pode consertar quando elas já foram torturadas? E que harmonia é essa se há um inferno: quero perdoar e quero abraçar, não quero que sofram mais. E se o sofrimento de crianças serve para preencher essa soma de sofrimento que é necessária para comprar a verdade, então eu afirmo de antemão que toda a verdade não vale esse preço. Não quero, por fim, que a mãe se abrace com o torturador que mandou os cachorros estraçalharem seu filho! Ela não terá a ousadia de perdoá-lo! Se quiser, que perdoe por si, que seu sofrimento desmedido de mãe perdoe o torturador, mas o sofrimento de seu filho estraçalhado ela não tem o direito de perdoar, não pode ousar perdoar o torturador, ainda que a própria criança o perdoe! E se for assim, se ela não ousar perdoar, onde é que está a harmonia? Será que há em todo o mundo um ser que poderia e teria o direito de perdoar? Não quero harmonia, não quero por amor à humanidade. Prefiro ficar com os sofrimentos dos que não foram vingados. Prefiro ficar com meu sofrimento sem vingança e minha indignação insaciada, ainda que eu esteja errado. Deram para a harmonia um preço muito alto, não temos em absoluto como pagar tanto pelo bilhete de entrada. E por isso tenho pressa em devolver o meu. E, se eu for uma pessoa honesta, tenho a obrigação de devolvê-lo o quanto antes. E é o que estou fazendo. Não é Deus que não aceito, Aliocha, só estou devolvendo a ele o bilhete, com todo o respeito.
— Isso é revolta — disse Aliocha, quieto e baixando os olhos.
— Revolta? Eu não gostaria de ouvir essa palavra de você — disse Ivan com convicção. — Será possível viver em revolta? Eu quero viver. Diga-me diretamente, eu te peço — responda: imagine que você está construindo o edifício do destino humano com o objetivo de, no final, tornar feliz o homem, dar a ele por fim a paz e a calma, mas que para isso seria necessário e inevitável torturar ao menos uma criaturinha pequenina, essa mesma criança que batia em si mesma com as mãozinhas no peito, e sobre as lagrimazinhas dela fundar seu edifício, você concordaria em ser o arquiteto nessas condições? Diga, e não minta!
— Não, não concordaria — disse Aliocha em voz baixa.
— E você pode admitir a ideia de que as pessoas para as quais você está construindo concordariam em aceitar a felicidade com base no sangue injustificado do pequeno torturado, e, ao aceitar, serem felizes por todo o sempre?
— Não, não consigo admitir. Irmão — disse de repente Aliocha com os olhos brilhando —, você perguntou agora se há em todo o mundo um ser que seria capaz e teria o direito de perdoar. Mas esse ser existe, e ele é capaz de perdoar tudo, todos, e por tudo, porque ele mesmo deu seu sangue inocente por todos e por tudo. Você se esqueceu dele, e é sobre ele que se funda o edifício, e é para ele que exclamam: “Justo és, ó Senhor, pois teus caminhos se tornaram manifestos!”.
— Ah, o “único sem pecado” e seu sangue! Não, não me esqueci dele e até estava surpreso que você tivesse passado tanto tempo sem trazê-lo à baila, pois de hábito nessas discussões todos os seus o apresentam antes de mais nada. Sabe, Aliocha, não ria, mas uma vez compus um poema, um ano atrás. Se puder perder mais uns dez minutos comigo, pode ouvi-lo?
— Você escreveu um poema?
— Ah, não, não escrevi — Ivan começou a rir — e nunca na vida compus dois versos sequer. Mas inventei esse poema e o gravei na mente. Inventei com entusiasmo. Você vai ser meu primeiro leitor, quer dizer, ouvinte. Para que o autor ia perder ao menos seu único ouvinte? — sorriu Ivan. — Conto ou não?
— Estou escutando com interesse — disse Aliocha.
— Meu poema se chama “O grande inquisidor” e é uma coisa absurda, mas quero contá-lo a você.
1. Patriarca de Alexandria. Segundo Leonid Grossman, o episódio contado por Ivan foi tirado do conto “A lenda de são Julião Hospitaleiro”, de Gustave Flaubert. Na lenda, um leproso alimenta e aquece Julião com seu corpo, “boca com boca, peito com peito”. A nota da edição russa dá conta de que, ao usar o próprio nome em lugar de Julião (Ivan é o correspondente russo do nome João), o personagem desperta a comparação de alguns fatos de sua vida com a do santo católico. (n. e.)
2. Gênesis 3,5. (n. e.)
3. Unidade de medida da Rússia antiga; cada verchok equivale a aproximadamente 4,5 centímetros.
4. Citação imprecisa da cena 3 do ato i de Hamlet (1623), de William Shakespeare.
5. Referência ao tsar Alexandre ii, que aboliu o regime de servidão em 1861.
6. Citação inexata de Apocalipse 15,3-4 e 16,5. (n. e.)
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