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Os irmãos Karamázov
VI. Para que vive um homem desses!?

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Para que vive um homem desses!?

Dmítri Fiódorovich, um jovem de vinte e oito anos, de estatura mediana e rosto agradável, dava a impressão de ser muito mais velho. Não obstante fosse musculoso e nele se pudesse adivinhar uma força física considerável, seu rosto parecia doentio. Magro e com as bochechas cavadas, o rosto tinha uma cor amarelada enfermiça. Os olhos negros saltados, bastante grandes, observavam com grande obstinação, ainda que seu olhar fosse meio vago. Até quando ele se agitava e falava com irritação, seu olhar como que não obedecia a seu humor interno e expressava outra coisa, que às vezes em nada correspondia ao momento. “É difícil saber em que ele está pensando” — opinavam vez ou outra seus interlocutores. Outros, julgando vislumbrar em seus olhos um traço pensativo e soturno, por vezes de repente se surpreendiam com um sorriso inesperado, que testemunhava os pensamentos alegres e brincalhões que lhe passavam pela cabeça justo no momento em que seu olhar estava tão soturno. Aliás, seu aspecto macilento naquela ocasião era compreensível: todos sabiam ou haviam escutado acerca da vida extraordinariamente desassossegada e “farrista” a que ele se entregava justamente nos últimos tempos, bem como era sabida de todos sua intensa irritação com o pai nas brigas pela questão do dinheiro. Já circulavam pela cidade algumas anedotas a respeito. É verdade que ele era irascível por natureza, “uma mente fragmentária e irregular”, como se expressou a seu modo peculiar nosso juiz de paz Semion Ivánovitch Katchálnikov numa de nossas reuniões. Entrou elegante e impecavelmente vestido, de sobrecasaca abotoada, luvas negras e cartola nas mãos. Como militar que recentemente dera baixa, portava bigode e raspara a barba. Seus cabelos castanho­-escuros estavam cortados rente e penteados como que por cima das têmporas. Caminhava a passos decididos, largos, como quem está no front. Parou por um instante na soleira e, lançando um olhar a todos, dirigiu­-se diretamente ao ancião, adivinhando nele o anfitrião. Fez uma reverência profunda e pediu­-lhe a bênção. O ancião, soerguendo­-se, o abençoou; Dmítri Fiódorovitch beijou sua mão com respeito e, com uma agitação incomum, quase irritado, proferiu:

— Peço a generosidade de seu perdão por tê­-los feito esperar tanto. Mas o criado Smerdiakov, enviado por meu paizinho, quando eu lhe perguntava insistentemente sobre a hora, respondeu duas vezes, com o tom mais decidido, que estava marcado para uma hora. Agora de repente fi­quei sabendo…

— Não se preocupe — o ancião interrompeu —, não foi nada, não se atrasou tanto, não tem problema…

— Sou extraordinariamente grato e não podia esperar menos de sua bondade. — Depois dessa breve interrupção, Dmítri Fiódorovitch se curvou mais uma vez, e então, virando­-se de repente para o lado de seu “paizinho”, também lhe dirigiu a mesma reverência profunda e respeitosa. Era evidente que ele havia pensado previamente naquela reverência e se decidira por ela de coração, considerando seu dever de com ela expressar seu respeito e suas boas intenções. Fiódor Pávlovitch, ainda que pego de surpresa, logo achou uma saída: em resposta à reverência de Dmítri Fiódorovitch, saltou da cadeira e respondeu ao filho com uma profunda reverência exatamente igual. Seu rosto de repente se fez grave e resoluto, o que no entanto lhe conferiu uma aparência definitivamente má. Depois, em silêncio, saudando com uma reverência geral todos os que estavam no recinto, Dmítri Fiódorovitch, com seus passos largos e decididos, aproximou­-se da janela, sentou­-se na única cadeira que restava, perto do padre Paíssi e, inclinando­-se inteiro para a frente, logo se preparou para escutar a continuação da conversa que interrompera.

A entrada de Dmítri Fiódorovitch não tomou mais do que dois minutos, e a conversa pôde ser restabelecida. Mas daquela vez, à pergunta insistente e quase irritante do padre Paíssi, Piotr Aleksándrovitch não considerou necessário dar resposta.

— Permita­-me desviar do tema — ele disse com certo desdém mundano. — Além do mais, é um assunto complexo. Ivan Fiódorovitch está rindo de nós: ele deve ter algo curioso a dizer sobre o caso. Pergunte a ele.

— Nada em especial, só uma pequena observação — Ivan Fiódorovitch respondeu — sobre o liberalismo europeu em geral, e até nosso diletantismo liberal russo, que com frequência e há tempos já vêm misturando os resultados finais do socialismo e do cristianismo. Essa conclusão extravagante, claro, é um traço típico. Aliás, não apenas liberais e diletantes confundem o socialismo com o cristianismo, mas em muitos casos também os gendarmes, no exterior, claro. Sua anedota de Paris é muito característica, Piotr Aleksándrovitch.

— Peço mais uma vez permissão para abandonar esse tema, senhores — Piotr Aleksándrovitch repetiu —, e no lugar dele vou lhes contar outra anedota sobre o próprio Ivan Fiódorovitch, interessantíssima e muito característica. Não mais do que cinco dias atrás, em um grupo da sociedade local, composto majoritariamente de damas, ele declarou em tom solene, numa discussão, que em toda a terra não há rigorosamente nada que obrigue os homens a amar seus semelhantes, que essa lei da natureza, que um homem deve amar a humanidade, não existe em absoluto, e que se até hoje ainda reina amor na terra, não é por uma lei natural, mas só porque os homens acreditam na própria imortalidade. Ivan Fiódorovitch acrescentou, entre parênteses, que nisso consiste toda a lei natural, e assim, se da humanidade for eliminada a fé em sua imortalidade, num instante se esgotará nela não apenas o amor, mas qualquer força vital para prosseguir com a vida no mundo. E mais: então nada será imoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Não bastasse, ele concluiu afirmando que para todo indivíduo, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus, nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve imediatamente ser transformada no completo oposto da lei antiga, religiosa, e que o egoísmo, a ponto da criminalidade, não só deve ser permitido ao homem, mas até reconhecido como resultado necessário, mais racional e quase que a saída mais nobre de sua situação. Por esse paradoxo, senhores, pode­-se também concluir sobre todo o resto que nosso querido excêntrico e paradoxalista Ivan Fiódorovitch digna­-se declarar e o que também tenciona, talvez, declarar.

— Permita­-me — exclamou de súbito Dmítri Fiódorovitch, inesperadamente —, se não me equivoco: “O crime não só deve ser permitido, mas até reconhecido como o resultado mais necessário e mais inteligente da situação de todo o ateu!”. É isso ou não?

— Exatamente isso — disse o padre Paíssi.

— Vou me lembrar disso.

Depois de proferir essas palavras, Dmítri Fiódoro­vitch calou­-se tão subitamente quanto súbita havia sido sua entrada na conversa. Todos o olharam com curiosidade.

— Essa é mesmo sua convicção a respeito das consequências do declínio da fé dos homens na imortalidade da alma? — o ancião perguntou de repente a Ivan Fiódorovitch.

— Sim, foi o que afirmei. Não existe virtude se não há imortalidade.

— O senhor é um bem­-aventurado se acredita nisso, ou então é muito infeliz!

— Por que infeliz? — Ivan Fiódorovitch sorriu.

— Porque muito provavelmente o senhor não acredita nem na imortalidade de sua alma, nem mesmo naquilo que escreveu sobre a Igreja e a questão eclesiástica.

— Talvez o senhor tenha razão!… Mas ainda assim eu não estava brincando de todo… — reconheceu súbita e estranhamente Ivan Fiódorovitch, enrubescendo.

— Não estava de todo brincando, isso é verdade. Tal ideia ainda não está decidida em seu coração e o atormenta. Mas mesmo o mártir às vezes gosta de se divertir com seu desespero, como se fosse também por desespero. Por enquanto, o senhor também se diverte com seu desespero — em artigos de revista e discussões mundanas, sem que o senhor próprio acredite em sua dialética e com dor no coração ria dela para si mesmo… Em seu íntimo essa questão ainda não está resolvida, nisso está sua grande dor, pois ela exige com insistência uma solução…

— E não pode ser que esteja resolvida dentro de mim? Uma resolução para o lado positivo? — Ivan Fiódorovitch continuou a perguntar estranhamente, ainda olhando para o ancião com uma espécie de sorriso indecifrável.

— Se não pode ter uma resolução positiva, então nunca terá uma resolução negativa, o senhor mesmo sabe que essa é uma característica do seu coração; e nisso está toda a tortura dele. Mas agradeça ao Criador por ter lhe dado um coração mais elevado, capaz de experimentar essa tortura, “pensai nas coisas do alto e buscai as coisas do alto, pois a nossa morada está nos céus”.1 Deus permita que a decisão de seu coração lhe venha ainda na terra, e que Deus abençoe seu caminho!

O ancião ergueu o braço e fez menção de, do lugar onde estava, abençoar Ivan Fiódorovitch. Mas este de repente se levantou, aproximou­-se dele, recebeu sua bênção e, depois de lhe beijar a mão, voltou calado para seu assento. Tinha um ar firme e sério. Isso, e toda a conversa anterior com o ancião, inesperada da parte de Ivan Fiódorovitch, de certa forma surpreendeu a todos por seu caráter enigmático e até mesmo de certo modo solene, e assim todos se calaram por um minuto, e o rosto de Aliocha expressava quase que um espanto. Mas Miússov de repente ergueu os ombros, e naquele mesmo instante Fiódor Pávlovitch saltou da cadeira.

— Divino e santíssimo ancião! — exclamou, apontando para Ivan Fiódorovitch. — Este é meu filho, sangue do meu sangue, meu mais amado fruto! É meu mais respeitado, por assim dizer, Karl Moor, e esse meu filho que entrou agora, Dmítri Fiódorovitch, é contra o qual busco a sua justiça — esse já é um desrespeitoso Franz Moor —, ambos de Os bandoleiros de Schiller, e eu, eu mesmo nesse caso, sou Regierender Graf von Moor! Julgue e nos salve! Precisamos de suas orações, além de suas profecias.

— Fale sem maluquice e não comece a insultar os seus — disse o ancião, com voz fraca e esgotada. Estava ficando visivelmente cansado, cada vez mais, e era evidente que lhe estavam faltando forças.

— Uma comédia sórdida, é o que eu pressentia ainda a caminho daqui! — exclamou Dmítri Fiódorovitch, indignado, e também saltando de seu lugar. — Perdão, reverendo padre — dirigiu­-se ele ao ancião —, sou um homem sem estudo e nem sei como chamá­-lo, mas o senhor foi enganado, e foi bondoso demais ao nos permitir vir aqui. Meu paizinho só precisava de um escândalo, e para quê — esse é o cálculo dele. Ele sempre tem um cálculo. Mas parece que agora já sei para quê…

— Estão todos me acusando, todos eles! — Fiódor Pávlovitch gritou. — Até Piotr Aleksándrovitch está me acusando. Acusou, Piotr Aleksándrovitch, acusou, sim! — voltou­-se de repente para Miússov, ainda que este nem pensasse em interrompê­-lo. — Me acusaram de ter metido a mão no dinheiro das crianças e embolsado tudo; mas, permitam­-me, por acaso não existe tribunal? Lá, Dmítri Fiódorovitch, farão as contas para o senhor, segundo seus relatos, cartas e contratos, de quanto o senhor tinha, quanto depenou e quanto sobra! Por que Piotr Aleksándrovitch se abstém de proferir um juízo? Dmítri Fiódorovitch não é um estranho para ele. Porque estão todos contra mim, e Dmítri Fiódorovitch na verdade me deve, e não pouco, mas alguns milhares, dos quais tenho toda a documentação! Pois a cidade retumba e troveja por suas farras! E onde ele servia antes, pagava mil ou dois mil rublos pela sedução de donzelas honestas; disso, Dmítri Fiódorovitch, nós sabemos, os detalhes mais secretos, e vou provar… Padre santíssimo, o senhor acredita? Fez se apaixonar por ele a mais nobre das donzelas, de uma boa casa, com fortuna, a filha de seu antigo chefe, um valente coronel honrado, que trazia no pescoço uma Ordem de Sant’Anna com as espadas, e comprometeu a moça ao lhe pedir a mão, agora ela está aqui, agora ela é órfã, noiva dele, mas ele, bem diante dos olhos dela, sai com uma local. Mas, ainda que a sedutora viva, por assim dizer, em casamento civil com um homem respeitável, ela tem um caráter independente, é uma fortaleza inexpugnável para todos, é como uma esposa legítima, pois é virtuosa! — sim, senhor! Santos padres, ela é virtuosa! E Dmítri Fiódorovitch quer abrir essa fortaleza com chave de ouro, e para isso agora ele precisa se fazer de valente comigo, quer tirar dinheiro de mim, quando já esbanjou milhares com essa sedutora; para isso pega dinheiro emprestado o tempo todo e, aliás, de quem, o que acham? Digo ou não, Mítia?

— Cale­-se! — Dmítri Fiódorovitch gritou. — Espere que eu saia, mas diante de mim não ouse desonrar uma donzela das mais nobres… Que ouse mencioná­-la já é uma vergonha para ela. Não permitirei!

Ele estava perdendo o fôlego.

— Mítia! Mítia! — exclamou Fiódor Pávlovitch, com os nervos fracos e forçando umas lágrimas. — E a bênção paterna é para quê? E se eu amaldiçoá­-lo, o que vai acontecer?

— Sem-vergonha e farsante! — berrou furioso Dmítri Fiódorovitch.

— Ele diz isso do pai, do pai! O que dirá dos demais? Senhores, imaginem: aqui há um homem pobre, mas honrado, capitão reformado, teve um infortúnio, foi dispensado do serviço, mas não de forma pública, não por julgamento, conservou toda sua honra, sustentava uma família numerosa. Três semanas atrás nosso Dmítri Fiódorovitch agarrou­-o pela barba na taverna, arrastou­-o para a rua por essa mesma barba e, na rua, espancou­-o publicamente, e tudo porque ele é o encarregado secreto de um de meus negócios.

— Isso é tudo mentira! Por fora é verdade, mas por dentro é mentira! — Dmítri Fiódorovitch tremia de raiva. — Paizinho! Não justifico minha conduta; sim, reconheço diante de todos: me comportei como um animal com aquele capitão e agora lamento e tenho nojo de mim por minha ira animalesca, mas esse seu capitão, seu encarregado, foi falar com essa mesma senhora de quem o senhor está falando que é uma sedutora e pôs­-se a propor a ela, em seu nome, que ela pegasse minhas letras de câmbio que estão com o senhor e as executasse contra mim, para que eu fosse preso por causa dessas letras de câmbio, se eu o importunasse muito no cálculo dos bens. Agora o senhor me acusa de ter uma fraqueza por essa senhora, então como é que o senhor mesmo a ensinou a me enganar?! Pois ela me contou olhando nos meus olhos, ela mesma me contou, rindo do senhor! O senhor queria me prender apenas porque tem ciúme de mim por estar com ela, porque o senhor mesmo começou a abordar essa mulher com seu amor, e novamente eu soube de tudo, e novamente ela riu — está escutando? —, riu do senhor enquanto me contava. Aí está, gente santa, quem é esse homem, esse pai que reprova o filho devasso! Senhores testemunhas, perdão por minha ira, mas eu pressentia que esse velho pérfido havia convocado todos vocês para fazer um escândalo. Vim para perdoar se ele me estendesse a mão, perdoar e pedir perdão! Mas como ele insultou nesse mesmo minuto não apenas a mim, mas a uma donzela das mais nobres, cujo nome nem sequer ouso proferir por devoção a ela, decidi revelar o jogo dele publicamente, apesar de ser meu pai!…

Ele não conseguiu prosseguir. Seus olhos brilhavam, ele respirava com dificuldade. Mas todos na cela também estavam agitados. Todos, exceto o ancião, haviam se levantado, inquietos. Os hieromonges olhavam severamente, mas esperavam, no entanto, a vontade do ancião. Este estava sentado, pálido por inteiro, mas não de agitação, e sim de fraqueza pela doença. Um sorriso suplicante brilhava em seus lábios; de quando em quando ele levantava a mão, como se quisesse controlar os enfurecidos e, claro, um gesto seu teria sido suficiente para que a cena fosse encerrada; mas ele mesmo como que ainda esperava por algo, e olhava fixamente, como se ainda quisesse entender alguma coisa, como se ainda não tivesse compreendido tudo. Por fim, Piotr Aleksándrovitch Miússov sentiu­-se humilhado e desonrado.

— Somos todos culpados por esse escândalo! — ele falou, com ardor. — Mas mesmo assim eu não imaginava isso ao vir aqui, apesar de saber com quem estava lidando. É preciso dar um basta agora mesmo! Vossa Reverência, acredite, eu não sabia com exatidão de todos os detalhes revelados, não queria acreditar neles e só agora estou sabendo pela primeira vez… Um pai que tem ciúme do filho por um comportamento indecente em relação a uma mulher e combina com essa mesma ordinária de fazer o filho ir para a prisão… Eis em que companhia fui forçado a aparecer aqui… Fui enganado, declaro a todos que não fui menos enganado do que os outros…

— Dmítri Fiódorovitch! — Fiódor Pávlovitch pôs­-se a berrar de repente, com uma voz que não parecia a sua. — Se não fosse meu filho, eu o desafiaria nesse mesmo instante para um duelo… com pistolas, à distância de três passos… através de um lenço! Através de um lenço!2 — ele concluiu, sapateando com ambos os pés.

Há em alguns mentirosos de longa data, que passaram a vida atuando, certos momentos em que eles se destacam a tal ponto que até tremem de verdade e choram de emoção, apesar de naquele mesmo instante (ou apenas um segundo depois) poderem sussurrar para si mesmos: “Como está mentindo, seu velho sem-vergonha, que ator está sendo agora, apesar de toda essa sua ‘sagrada’ ira e esse seu ‘sagrado’ momento de ira”.

Dmítri Fiódorovitch fechou a cara e olhou para o pai com um desprezo indescritível.

— Eu achava… eu achava… — ele disse, como que em voz baixa e contida — que chegaria à minha terra com o anjo de minha alma, minha noiva, para acalentar sua velhice, mas vejo apenas um libertino devasso e um comediante dos mais canalhas!

— Ao duelo! — pôs­-se a berrar de novo o velhote, sem fôlego e borrifando saliva a cada palavra. — Quanto ao senhor, Piotr Aleksándrovitch Miússov, saiba, senhor, que em toda sua linhagem talvez não haja e nem tenha havido mulher mais elevada e honrada — honrada, está ouvindo? — do que aquela que, segundo o senhor, é uma ordinária, como ousa agora chamá­-la! E o senhor, Dmítri Fiódorovitch, trocou sua noiva por essa mesma “ordinária”, ou seja, o senhor mesmo julgou que sua noiva não valia as solas do pés dela, aí está essa ordinária!

— É vergonhoso! — disse de repente o padre Ióssif.

— Vergonhoso e infame! — Kalgánov gritou de repente com sua voz de adolescente, trêmulo de agitação e todo vermelho, ele, que havia passado o tempo todo calado.

— Para que vive um homem desses? — Dmítri Fiódorovitch rugiu surdamente, quase já delirando de fúria, com os ombros tão levantados que quase o deixavam corcunda. — Não, diga se ainda é possível permitir que ele desonre a terra com sua presença — olhou para todos apontando o dedo para o velho. Falava devagar e comedido.

— Estão escutando, estão escutando, monges, o parricida? — Fiódor Pávlovitch jogou­-se sobre o padre Ióssif. — É essa a resposta ao seu “vergonhoso”! O que é vergonhoso? Essa “ordinária”, essa “mulher de mau comportamento” talvez seja mais santa que vocês, senhores hieromonges em busca da salvação! Ela talvez tenha caído na juventude, devorada pelo seu ambiente, mas “amou muito”, e Cristo perdoou aquela que amou muito…3

— Não foi por esse amor que Cristo perdoou… — deixou escapar o dócil padre Ióssif, com certa impaciência.

— Não, foi por esse, por esse mesmo, monge, por esse! Vocês aqui estão buscando a salvação à base de repolho e pensam que são justos! Se alimentam de góbio, um góbio por dia, e acham que podem comprar Deus com seus góbios!

— O que é que é isso? O que é que é isso?! — escutou­-se na cela por todos os lados.

Mas toda essa cena, que roçara a indecência, foi interrompida inesperadamente. O ancião se levantou de súbito. Aliocha, desnorteado de medo por ele e pelos demais, conseguiu, no entanto, apoiá­-lo pelo braço. O ancião caminhou na direção de Dmítri Fiódorovitch e, ao alcançá­-lo, pôs­-se de joelhos diante dele. Aliocha pensou que ele havia caído de fraqueza, mas não. De joelhos, o ancião se curvou aos pés de Dmítri Fiódorovitch fazendo uma reverência completa, precisa, consciente, e até tocou o chão com a testa. Aliocha estava tão assombrado que nem teve tempo de apoiá­-lo quando se levantou. Um sorriso fraco brilhava levemente em seus lábios.

— Perdão! Peço perdão a todos! — ele disse, despe­dindo­-se de seus convidados.

Dmítri Fiódorovitch passou alguns instantes parado, estupefato: curvar­-se aos pés dele — o que era aquilo? Por fim, exclamou de repente: “Ah, meu Deus” — e, cobrindo o rosto com as mãos, correu para fora do quarto. Atrás dele saíram em bando todos os convidados, quase sem se despedir pelo constrangimento e sem dizer adeus ao anfitrião. Só os hieromonges se aproximaram de novo para pedir a bênção.

— O que foi aquilo de se jogar aos pés dele, será que simboliza alguma coisa? — Fiódor Pávlovitch esboçou um início de conversa, por algum motivo mais calmo, mas sem ousar encarar ninguém. Naquele instante, todos saíram dos muros do ascetério.

— Eu não respondo pelo hospício e pelos loucos —Miússov declarou, exasperado —, mas por outro lado vou evitar sua companhia, Fiódor Pávlovitch, e pode acreditar que é para sempre. Onde está aquele monge que estava aqui?…

Mas “aquele monge”, ou seja, o que os havia convidado para o almoço com o hegúmeno, não se fez esperar. Ele se encontrou com os convidados ali mesmo, logo que eles saí­ram do terracinho da cela do ancião, como se tivesse pas­sado o tempo à espera.

— Por obséquio, honrado padre, transmita meu profundo respeito ao padre hegúmeno e peça perdão pessoal­mente por mim, Miússov, ao alto reverendo, mas, por circunstâncias súbitas e imprevistas, não posso de forma alguma ter a honra de fazer parte de seu repasto, apesar de todo o meu desejo mais sincero — disse irritado Piotr Aleksándrovitch ao monge.

— Pois essa circunstância imprevista sou eu! — Fiódor Pávlovitch arrematou na hora. — Escute, padre, é que Piotr Aleksándrovitch não quer ficar junto de mim, caso contrário ele iria. Vá, Piotr Aleksándrovitch, conceda essa visita ao padre hegúmeno, e bom apetite para os senhores! Sabe, sou eu que declino, não o senhor. Vou para casa, para casa, em casa comemos, já aqui sinto que estou sobrando, Piotr Aleksándrovitch, meu queridíssimo parente.

— Não sou seu parente e nunca fui, ser desprezível!

— Falei de propósito, para enfurecê­-lo, porque o senhor evita a família, porém mesmo assim é meu parente, não importa o quanto se faça de sonso, vou provar pela folhinha da igreja;4 quanto a você, Ivan Fiódorovitch, na sua hora de ir vou lhe mandar os cavalos, fique você também se quiser. Já o senhor, Piotr Aleksándrovitch, até o decoro exige que agora se apresente ao padre hegúmeno, precisa pedir perdão pelo que eu e você aprontamos lá…

— É verdade mesmo que está indo embora? Ou está mentindo?

— Piotr Aleksándrovitch, como eu ousaria fazer isso depois do que aconteceu? Me deixei levar, perdão, senhores, me deixei levar! E, além disso, estou abalado! E também envergonhado. Senhores, uns podem ter um coração como o de Alexandre da Macedônia, e outros como o do cachorrinho Fidel.5 O meu é como o do cachorrinho Fidel. Fiquei constrangido! Mas como, depois de uma presepada dessas, ainda por cima vou num almoço, vou encher a pança do rango do monastério? Tenho vergonha, não posso, perdão!

“Só o diabo sabe, e se estiver enganando de novo?!”, deteve­-se Miússov, refletindo e seguindo com um olhar perplexo o bufão que se afastava. Este se voltou e, notando que Piotr Aleksándrovitch o observava, mandou­-lhe um beijo com a mão.

— O senhor vai se encontrar com o hegúmeno? — Miússov perguntou a Ivan Fiódorovitch, com a voz entrecortada.

— Por que não? Ainda por cima, ontem mesmo fui convidado especialmente por ele.

— Infelizmente eu de fato me sinto quase na obrigação de aparecer nesse almoço maldito — prosseguiu Miússov, com a mesma irritação amarga, sem nem prestar atenção ao fato de que o mongezinho estava escutando. — Ao menos é preciso pedir desculpas pelo que aprontamos aqui, e explicar que não fomos nós… O que acha?

— Sim, é preciso explicar que não fomos nós. Além do mais meu paizinho não vai — Ivan Fiódorovitch observou.

— Mas só faltava que seu paizinho fosse! Maldito seja esse almoço!

E no entanto todos foram. O mongezinho ficou calado escutando. No caminho que cruzava o pequeno bosque, ele só observou uma vez que o padre hegúmeno já estava esperando havia muito tempo e que estavam mais de meia hora atrasados. Ninguém respondeu. Miússov olhou com ódio para Ivan Fiódorovitch.

“E esse aí está indo para o almoço como se não tivesse acontecido nada!”, pensou. “Cabeça­-dura e consciência de Karamázov.”

1. Referência a duas epístolas de Paulo: Colossenses 3,1,2 e Filipenses 3,18­-20. (n. e.)

2. Referência à peça Intriga e amor, de Schiller. O “duelo através de um lenço” era a variante mais perigosa do duelo com pistolas. Nele, os duelistas escolhiam a arma ao acaso e apenas uma delas era carregada.

3. Lucas 7,47. (n. e.)

4. Referência ao menológio, calendário da Igreja com a vida dos santos. Não é possível comprovar parentesco com base no menológio. (n. e.)

5. Citação do conto de Gógol, “Diário de um louco”, de 1834, no qual o protagonista escuta uma conversa entre dois cães.

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