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Os irmãos Karamázov
V. À cabeceira de Iliucha

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À cabeceira de Iliucha

Naquele momento, o cômodo que já conhecemos, aquele onde habitava a família de nosso conhecido subcapitão reformado Sneguiriov, estava abafado e apertado por causa do grande número de pessoas que ali se juntara. Dessa vez alguns meninos estavam sentados perto de Iliucha, e embora todos eles estivessem, como Smúrov, dispostos a negar que quem os reconciliara e os levara até Iliucha fora Aliocha, havia sido isso que ocorrera. No caso presente, toda sua arte consistiu em levá­-los até Iliucha, um depois do outro, sem “exageros de ternura”, mas como se fosse absolutamente casual e sem querer. Já para Iliucha, seus sofrimentos foram enormemente amenizados. Ao ver a amizade quase terna e a participação na sua vida de todos aqueles meninos outrora seus inimigos, ele ficara muito comovido. No entanto, só faltava Krassótkin, e essa ausência permanecia uma estranha opressão em seu peito. Nas lembranças amargas de Iliúchetchka, a mais amarga de todas era justamente todo o episódio com Krassótkin, outrora seu único amigo e defensor, que ele atacara com uma faquinha. Era o que pensava o inteligente Smúrov (o primeiro a vir fazer as pazes com Iliucha). Mas Krassótkin, quando Smúrov mencionara que Aliocha queria falar com ele “sobre um assunto”, imediatamente o interrompeu e cortou a aproximação, encarregando o mensageiro de logo comunicar a “Karamázov” que ele mesmo sabia como agir, que não tinha pedido o conselho de ninguém e que, se fosse ver o doente, ele mesmo saberia quando ir, porque ele tinha “seu plano”. Isso fora umas duas semanas antes daquele domingo. Eis por que Aliocha não foi ele mesmo falar com Krassótkin, como tencionava. Aliás, ainda que tivesse ficado em compasso de espera, ele no entanto mandou Smúrov falar com Krassótkin mais uma vez e outra ainda. Em ambas as vezes o outro respondeu com uma recusa ainda mais impaciente e cortante, mandando dizer a Aliocha que, se ele fosse pessoalmente procurá­-lo, ele nunca iria falar com Iliucha, e que não o perturbasse mais. Até aquele último dia Smúrov não sabia que Kólia havia decidido ir à casa de Iliucha naquela manhã, e só na véspera, à noite, ao despedir­-se de Smúrov, Kólia declarou bruscamente que o esperaria no dia seguinte de manhã em seu portão, porque o acompanharia à casa de Sneguiriov, mas que ele não ousasse, no entanto, avisar ninguém, já que ele queria chegar por acaso. Smúrov obedeceu. Já o sonho de que ele levaria o Jutchka perdido surgiu para Smúrov com base numa alusão que certa vez Krassótkin lançara, de que “são todos uns jumentos se não conseguem achar um cachorro, já que ele está vivo”. Quando Smúrov, esperando o momento, mencionou timidamente sua hipótese a respeito do cachorro, Krassótkin ficou muito bravo: “E eu sou um jumento, por acaso, para ir procurar o cachorro dos outros por toda a cidade, quando tenho meu Perezvon? E quem imagina que o cachorro, depois de engolir o pão, continuou vivo? Isso é exagero de ternura, nada mais!”.

Enquanto isso, Iliucha já estava havia umas duas semanas quase sem sair de sua caminha, no canto, perto dos santos. Não ia às aulas desde aquela ocasião em que encontrara Aliocha e lhe mordera o dedo. Aliás, desde aquele dia ele caíra doente, e embora um mês antes ainda conseguisse andar de algum modo pelo cômodo e até a entrada, raramente se levantava da cama. Por fim, ele perdeu as forças por completo, e só se movia com a ajuda do pai. O pai tremia ao lado dele, havia até parado de vez com a bebida, quase enlouquecera de medo de que o menino morresse, e com frequência, sobretudo depois do que lhe acontecera, quando o pegava nos braços para andar pelo cômodo e o punha de volta na caminha — de repente saía correndo até a entrada da casa, para um canto escuro, e, encostando a testa na parede, chorava de soluçar, um choro vibrante, sufocando a voz para que Iliucha não ouvisse seus soluços.

Ao voltar para o cômodo, costumava distrair e consolar com alguma coisa seu menino querido, contava­-lhe histórias, anedotas engraçadas, ou imaginava pessoas engraçadas que por acaso encontrara, até imitava animais, o jeito engraçado como eles uivavam ou berravam. Mas Iliucha não gostava nem um pouco quando o pai se entregava a palhaçadas e se fazia de bufão. Embora se esforçasse para não demonstrar que achava aquilo desagradável, ele reconhecia com dor no coração que o pai fora humilhado na sociedade, e sempre, de forma obsessiva, se lembrava do “esfregão” e daquele “dia terrível”. Nínotchka, sua irmã aleijada, quieta e dócil, tampouco gostava quando o pai se fazia de palhaço (quanto a Varvara Nikoláievna, havia muito fora para Petersburgo assistir às aulas), em compensação a mãezinha um tanto maluca se divertia à beça e ria de todo o coração quando o marido às vezes se punha a imitar algo ou a fazer gestos engraçados. Só assim era possível acalmá­-la, e todo o restante do tempo ela se queixava e chorava sem parar, dizendo que agora todos haviam se esquecido dela, que ninguém a respeitava, que ela era ofendida etc. Mas bem nos últimos dias ela de repente parecia ter mudado por completo. Com frequência começava a fitar Iliucha no canto e se punha pensativa. Ficara muito mais calada, se aquietara e, se começava a chorar, era baixinho, para que não a escutassem. O subcapitão, com amarga perplexidade, notara essa mudança. No começo ela não gostava das visitas dos meninos e só se zangava com eles, mas depois seus gritos alegres e suas histórias a distraíam também, e, no fim, ela gostava a tal ponto que, se aqueles meninos parassem de ir, ela ficaria terrivelmente entediada. Quando as crianças contavam algo ou começavam a brincar, ela ria e batia palmas. Chamava algumas e as beijava. Amava o menino Smúrov em especial. Quanto ao subcapitão, a aparição em sua casa de crianças que vinham alegrar Iliucha havia preenchido sua alma com uma alegria extasiada incipiente e até com a esperança de que Iliucha agora deixaria de se angustiar e talvez se recuperasse mais rápido por isso. Nem por um minuto, até os últimos tempos, ele duvidara, apesar de todo o seu medo por Iliucha, de que seu menino se restabeleceria subitamente. Ele recebia os pequenos visitantes com veneração, chegava perto deles, fazia­-lhes favores, estava disposto a carregá­-los, e até os carregava mesmo, mas Iliucha não gostava dessas brincadeiras e elas foram interrompidas. Comprava guloseimas para eles, pãezinhos de mel, castanhas, fazia chá, sanduichinhos. É preciso observar que durante todo esse tempo não lhe faltou dinheiro. Aqueles duzentos rublos de Katerina Ivánovna, ele os recebera tim-tim por tim-tim como Aliocha havia previsto. Depois, Katerina Ivánovna, ao saber com mais detalhes da situação deles e da doença de Iliucha, foi visitar pessoalmente a casa deles, conheceu toda a família e até conseguiu fascinar a esposa meio louca do subcapitão. Desde então a mão dela não se fechara, e o capitão, abatido por um horror diante da ideia de que seu menino morreria, havia se esquecido da arrogância anterior e aceitara a esmola humildemente. Por todo esse tempo o doutor Herzenstube, a convite de Katerina Ivánovna, ia constante e regularmente, dia sim, dia não, ver o doente, só que suas visitas davam pouco resultado, e ele só entupia o menino de remédios. Em compensação, naquele dia, ou seja, naquela manhã de domingo, na casa do capitão era esperado um novo médico, recém­-chegado de Moscou, onde era considerado uma celebridade. Katerina Ivánovna o requisitara em especial e mandara chamá­-lo em Moscou, por muito dinheiro — não para Iliúchetchka, mas para outro objetivo, do qual se falará mais adiante em seu devido momento, mas, como ele viera, ela lhe pediu que também fosse ver Iliúchetchka, e o subcapitão estava de sobreaviso. Já da visita de Kólia Krassótkin ele não tivera nenhum pressentimento, embora havia muito desejasse que enfim viesse aquele menino pelo qual seu Iliúchetchka tanto se torturava. No mesmo instante em que Krassótkin abriu a porta e apareceu no cômodo, todos, o capitão e os meninos, estavam apinhados perto da caminha do doente e examinavam o minúsculo filhotinho recém­-trazido, nascido na véspera mas que o capitão comprara já havia uma semana para distrair e consolar Iliúchetchka, que ainda se angustiava pelo desaparecido e, claro, já falecido Jutchka. Só que Iliucha, que já escutara e soubera havia três dias que lhe dariam um cachorrinho, mas não qualquer um, um verdadeiro cachorrinho de guarda (o que, claro, era terrivelmente importante), apesar de, por um sentimento fino e delicado, ter demonstrado que estava feliz com o presente, todos, o pai e os meninos, viam claramente que um novo cachorrinho talvez só remexesse mais forte em seu coraçãozinho a lembrança do infeliz Jutchka torturado por ele. O filhotinho estava deitado ao lado dele, e Iliucha, sorrindo de forma enfermiça, o acariciava com sua mãozinha fina, branquinha, mirrada; via­-se que ele gostava do cachorrinho, mas… ainda assim não era Jutchka, ainda assim era outro que não Jutchka, e se fosse Jutchka e o filhotinho juntos seria a felicidade completa!

— Krassótkin! — gritou de repente um dos meninos, o primeiro que viu Kólia entrar. Uma visível comoção tomou a todos, os meninos abriram passagem e se postaram em ambos os lados da caminha, de tal forma que logo Iliúchetchka não estava mais encoberto. Num ímpeto o capitão correu ao encontro de Kólia.

— Por favor, por favor… Caro visitante! — ele balbuciou. — Iliúchetchka, o senhor Krassótkin lhe concedeu…

Mas Krassótkin, depois de lhe estender a mão às pressas, logo demonstrou seu extraordinário conhecimento dos modos da alta sociedade. Imediatamente, e antes de mais nada, ele se dirigiu à poltrona onde estava sentada a esposa do capitão (e que justo naquele momento estava absolutamente insatisfeita e resmungava que os meninos estavam tapando a caminha de Iliucha e não a deixavam ver o cachorrinho novo) e, com extrema educação, fez­-lhe um rapapé, e depois, voltando­-se para Nínotchka, fez­-lhe também, como a uma dama, a mesma reverência. Esse comportamento educado provocou na dama doente uma impressão extraordinariamente agradável.

— É assim que se vê um rapaz bem­-criado — ela disse em voz alta, afastando as mãos —, não é que nem os de­mais visitantes: chegam montados um atrás do outro.

— Mas como, mãezinha, montados um atrás do outro, como é isso? — balbuciou o subcapitão, carinhoso embora com certa cautela quanto à “mãezinha”.

— Mas quem, mãezinha, quem era que entrava assim, quem?

— Aquele menino em cima daquele outro entrou assim hoje, e aquele em cima daquele…

Mas Kólia já estava perto da cama de Iliucha. O doente parecia ter empalidecido. Ele se soergueu na caminha e olhou muito, muito fixamente para Kólia. O outro não via seu antigo amiguinho havia uns dois meses, e de repente parou diante dele estupefato: não poderia imaginar que veria um rostinho tão emagrecido e amarelado, tamanho ardor de febre e os olhos terrivelmente aumentados, a mãozinha tão magra. Com amarga surpresa ele verificou que a respiração de Iliucha era funda e acelerada, e que seus lábios estavam ressecados. Kólia deu um passo na direção dele, estendeu a mão e, em pleno desconcerto, disse:

— E aí, meu velho… como vai?

Mas sua voz se embargou, a desenvoltura falhou, o rosto estremeceu e algo começou a tremer perto de seus lábios. Kólia de súbito, e por algum motivo, levantou a mão e passou­-a pelos cabelos de Iliucha.

— Tu­-do bem — ele balbuciou baixinho, não tanto pa­ra animá­-lo, mas sem nem mesmo saber por que dissera aquilo. Eles se calaram de novo por um minuto.

— O que é isso aí com você, um filhotinho novo? — Kólia perguntou de repente, com a voz mais indiferente.

— Si­-i­-im! — respondeu Iliucha num longo sussurro, perdendo o fôlego.

— Tem o focinho preto, isso quer dizer que é dos bravos, é de guarda — observou Kólia com segurança, como se toda a questão estivesse no cachorrinho e em seu focinho preto. Mas acontece que ele procurava com todas as forças lutar contra o sentimento que se agitava dentro dele para não chorar como um “pequeno”, e no entanto não tinha êxito. — Quando crescer, vai ser preciso pôr na coleira, já estou vendo.

— Ele vai ser enorme! — exclamou um menino do grupo.

— Todos sabem que cão de guarda é enorme, um bezerro — ressoaram então algumas vozinhas.

— Um bezerro, um verdadeiro bezerro, senhor — interferiu o subcapitão —, eu procurei de propósito um que fosse o mais bravo de todos, e os pais dele também são enormes e os mais bravos, assim de tamanho desde o chão… Senhor, sente­-se, bem aqui na caminha ao lado de Iliucha, ou senão aqui no banco. Por gentileza, caro visitante, tão aguardado… Já teve o prazer de conhecer Aleksei Fiódorovitch, senhor?

Krassótkin sentou na cama, aos pés de Iliucha. Embora no caminho talvez tivesse preparado um assunto para começar a conversa sem cerimônia, agora havia perdido de vez o fio da meada.

— Não… vim com Perezvon… É o cachorro que tenho agora, Perezvon. Um nome eslavo. Ele está esperando lá fora… Quando eu assoviar ele vem correndo. Também tenho um cão — ele subitamente se voltou para Iliucha. — Lembra de Jutchka, meu velho? — açoitou­-o de repente com essa pergunta.

O rostinho de Iliúchetchka se contraiu. Ele lançou um olhar sofrido para Kólia. Aliocha, que estava de pé perto da porta, franziu a testa e fez um aceno furtivo a Kólia, para que não começasse a falar de Jutchka, mas o outro não reparou ou não quis reparar.

— Onde é que está… Jutchka? — Iliucha perguntou com a voz entrecortada.

— Ah, meu caro, seu Jutchka, fiu! Sumiu, o seu Jutchka!

Iliucha se calou, mas voltou a cravar o olhar muito, muito fixo em Kólia. Aliocha, depois de captar o olhar de Kólia, lhe fez de novo um aceno com todas as forças, mas o outro de novo desviou os olhos, fingindo que também agora não tinha notado.

— Saiu correndo para algum lugar e desapareceu. Como não ia desaparecer depois do seu petisco? — cortou Kólia sem piedade, e, enquanto isso, ele mesmo começou a perder o fôlego por algum motivo. — Em compensação tenho Perezvon… É um nome eslavo… Eu o trouxe para você…

— Não pre­-ci­-sa! — disse Iliúchetchka de repente.

— Não, não, precisa sim, veja… Você vai se distrair. Eu trouxe ele para isso… é tão peludo quanto o outro… Senhora, posso chamar meu cachorro aqui? — ele de repente se dirigiu à senhora Sneguiriov, com uma agitação totalmente incompreensível.

— Não precisa, não precisa! — exclamou Iliucha com uma tensão pesarosa na voz. Uma reprimenda se acendeu em seus olhos.

— O senhor poderia… — disparou o subcapitão, do baú perto da parede, onde estava sentado — o senhor poderia… num outro momento, senhor… — ele balbuciou, mas Kólia, insistindo em tom incontido e apressado, pôs­-se a gritar para Smúrov: “Smúrov, abra a porta!” — e assim que a porta foi aberta, ele assobiou com seu apito. Perezvon correu impetuosamente para o cômodo.

— Pule, Perezvon, de pé! De pé! — gritou Kólia, dando um salto, e o cachorro, de pé nas patas traseiras, levantou­-se bem na frente da caminha de Iliucha. Aconteceu algo que ninguém esperava: Iliucha começou a tremer e de repente se moveu inteiro com força para a frente, se inclinou até Perezvon e, pasmo, olhou para ele.

— É… o Jutchka! — ele gritou com a vozinha estridente de dor e felicidade.

— E quem você achava que era? — Krassótkin bradou com todas as forças, em voz alta e feliz e, inclinando­-se para cachorro, agarrou­-o e o levantou para Iliucha.

— Veja, meu velho, está vendo, tem o olho vesgo e um corte na orelha esquerda, tim-tim por tim-tim os sinais que você me descreveu. Eu o encontrei por causa desses sinais! Encontrei naquela ocasião, um pouco depois. Ele não era de ninguém, não era de ninguém mesmo! — ele esclareceu, voltando­-se rapidamente para o subcapitão, para a esposa, para Aliocha e em seguida de novo para Iliucha. — Estava nos fundos da casa dos Fedotov, estava acostumado a ficar ali, mas eles não davam de comer, e ele estava fugido, havia fugido do campo… Eu o encontrei… Está vendo, meu velho, isso quer dizer que naquela ocasião ele não engoliu o pedaço de pão. Se tivesse engolido, com certeza teria morrido, aí era o fim! Quer dizer que cuspiu a tempo, se agora está vivo. E você não reparou que ele cuspiu. Cuspiu, mas mesmo assim feriu a língua, era por isso que gania. Corria e gania, e você pensou que ele tinha engolido tudo. Devia estar ganindo muito, porque os cachorros têm a pele da boca muito sensível… mais sensível do que a dos homens, bem mais sensível! — exclamou Kólia, com o rosto acalorado e radiante de êxtase.

Já Iliucha nem falar conseguia. Olhava para Kólia com seus olhos grandes e absolutamente arregalados, a boca aberta, pálido como papel. E se Krassótkin, que não suspeitava de nada, ao menos soubesse como aquele minuto torturante e mortal podia agir sobre a saúde do menino doente, por nada no mundo teria tomado a decisão de fazer a brincadeira que fez. Mas no local, o único que talvez entendesse isso era Aliocha. Quanto ao subcapitão, ele como que se transformara inteiro no menorzinho dos meninos.

— Jutchka! Então esse é o Jutchka? — ele berrou feliz. — Iliucha, então esse é o Jutchka, o seu Jutchka! Mãezinha, então esse é o Jutchka! — ele estava quase chorando.

— E eu que não adivinhei! — exclamou Smúrov amargamente. — Ai, esse Krassótkin, eu falei que ele encontraria o Jutchka, pois encontrou!

— Pois encontrou! — ecoou alegremente mais alguém.

— Muito bem, Krassótkin! — soou uma terceira vozinha.

— Muito bem, muito bem! — foram gritando todos os meninos, e aplaudiram.

— Parem, parem — Krassótkin tentava falar mais alto que todos —, vou lhes contar como tudo aconteceu, tudo está em como ocorreu, só isso! Pois eu o encontrei, levei­-o para minha casa e imediatamente o escondi, tranquei­-o em casa e o escondi até o último dia. Só Smúrov ficou sabendo duas semanas atrás, mas lhe garanti que se tratava de Perezvon, e ele não suspeitou, e nesse intervalo ensinei todos os truques a Jutchka, vejam, vejam só que coisas ele sabe! Eu o ensinei para isso, para mostrá­-lo para você, meu velho, adestrado, gordinho: para dizer, meu velho, veja como está Jutchka agora! Por acaso vocês não têm um pedacinho de carne? Ele vai mostrar um truque que vai fazer vocês morrerem de rir — uma carnezinha, um pedacinho, será que vocês não têm?

O subcapitão se precipitou porta afora até os senhorios, onde também se cozinhava a comida do capitão. Já Kólia, para não perder um tempo precioso, com uma pressa desesperada, gritou para Perezvon: “Morto!”. E o cãozinho de repente começou a dar voltas, se deitou de costas e congelou imóvel com todas suas quatro patas para cima. Os meninos riram, Iliucha olhou com seu mesmo sorriso sofredor, mas quem mais gostou de ver Perezvon morrer foi a “mãezinha”. Ela caiu na gargalhada com o cachorro e pôs­-se a estalar os dedos e chamar:

— Perezvon, Perezvon!

— Ele não vai se levantar de jeito nenhum, de jeito nenhum — gritou Kólia, com um orgulho vitorioso e justo —, nem que todo mundo grite, mas se eu gritar ele salta num instante. Ici, Perezvon!

O cachorro saltou e começou a pular, ganindo de alegria. O subcapitão entrou correndo com um pedaço de carne assada.

— Não está quente? — indagou Kólia de forma apressada e prática, pegando o pedaço. — Não, não está quente, é que os cachorros não gostam se estiver quente. Vejam todos, Iliúchetchka, veja, veja bem, veja, meu velho, por que não está olhando? Eu trouxe e ele não olha!

O novo truque consistia em pôr o saboroso pedaço de carne bem perto do focinho do cachorro parado e estendido. O pobre cãozinho, imóvel, devia ficar parado enquanto o dono mandasse, sem se deslocar nem se mexer, mesmo que fosse meia hora. Mas Perezvon se conteve apenas por um minúsculo minutinho.

— Pega! — gritou Kólia, e o pedaço num instante voou do nariz para a boca de Perezvon. O público, claro, expressou um extasiado espanto.

— E por acaso, por acaso o senhor, apenas para adestrar o cachorro, passou esse tempo todo sem vir?! — exclamou Aliocha com uma reprimenda involuntária.

— Justamente por isso — gritou Kólia da forma mais cândida. — Eu queria mostrá­-lo em todo seu brilho!

— Perezvon! Perezvon! — Iliucha de repente estalou seus dedos magrinhos, chamando o cachorro.

— Não precisa! Deixe que ele mesmo salte na sua cama. Ici, Perezvon! — Kólia bateu a palma da mão na cama, e Perezvon voou para Iliucha como uma flecha. O menino abraçou sua cabeça impetuosamente com ambos os braços, e Perezvon num instante lambeu sua bochecha agradecido. Iliúchetchka se apertou contra ele, estendeu­-se na cama e escondeu seu rosto em sua pelagem densa.

— Meu Deus, meu Deus! — exclamou o subcapitão. Kólia sentou de novo na cama de Iliucha.

— Iliucha, posso lhe mostrar mais um truque. Trouxe um canhãozinho para você. Lembra, ainda naquela época eu lhe falei a respeito desse canhãozinho, e você disse: “Ah, como eu queria vê­-lo!”. Aqui está, eu o trouxe para você.

E Kólia, apressado, tirou da bolsa seu canhãozinho de bronze. Apressava­-se porque ele mesmo já estava muito feliz: em outra época, esperara tanto pelo efeito provocado em Perezvon, mas agora tinha pressa, desprezando toda contenção: “Vocês já estão tão felizes, então aqui vai mais felicidade!”. Ele mesmo estava extasiado.

— Já vinha observando esse objeto do funcionário Morózov havia muito tempo — é para você, meu velho, é para você. Como Morózov não ligava pra ele, tinha ganhado do irmão, eu troquei por um livrinho do armário do meu pai: O parente de Maomé, ou A tolice valiosa. Um livro de cem anos, ousado, publicado em Moscou quando ainda não havia censura, e Morózov é um apreciador dessas coisas. Ainda agradeceu…

Kólia segurava o canhão diante de todos, de tal modo que todos conseguiam ver e aproveitar. Iliucha se soergueu e, ainda abraçado a Perezvon com o braço direito, examinou o brinquedo com admiração. O efeito chegou a seu ponto alto quando Kólia declarou que também dispunha de pólvora e que podia atirar naquele mesmo instante, “se isso não incomodar as damas”. A “mãezinha” imediatamente pediu que lhe deixassem ver o brinquedo mais de perto, e foi atendida no mesmo instante. Ela adorou o canhãozinho, e começou a fazê­-lo andar sobre seus joelhos. Ela concordou plenamente com a permissão para atirar, sem entender, aliás, o que lhe estavam perguntando. Kólia mostrou a pólvora e o chumbo. O subcapitão, como ex­-militar, cuidou da carga, depois de pôr no canhão a menor das quantidades de pólvora, e então pediu para separar chumbo para outra vez. Pôs o canhão no chão, apontou o cano para um lugar vazio, pôs três polvorazinhas no rastilho e acendeu um fósforo. Ocorreu o mais brilhante tiro. Mãezinha tremeu um pouco, mas em seguida riu de alegria. Os meninos olharam com uma solenidade muda, mas quem se deleitou acima de tudo, olhando para Iliucha, foi o subcapitão. Kólia levantou o canhãozinho e logo o entregou para Iliucha, junto com o chumbo e a pólvora.

— Isso é para você, para você! Preparei há muito tempo — ele repetiu mais uma vez, numa felicidade completa.

— Ah, me dê! Não, dê o canhãozinho para mim, é me­lhor! — feito criança pequena, a mãezinha irrompeu a pedir. Seu rosto demonstrava uma inquietação amarga de medo de que não lhe dessem. Kólia ficou desconcertado. O subcapitão se preocupou, irrequieto.

— Mãezinha, mãezinha! — ele se aproximou dela num salto. — O canhãozinho é seu, é seu, só deixe ele ficar com Iliucha, mas mesmo assim é seu, Iliucha sempre vai deixar você brincar, ele vai ser dos dois, dos dois…

— Não, não quero que seja dos dois, não, quero que seja só meu, e não do Iliucha — continuou a mãe, prestes a chorar.

— Mãezinha pegue, pegue para você! — Iliucha gritou de repente. — Krassótkin, posso dar para minha mãe? — ele se dirigiu a Krassótkin com olhar de súplica, temendo que ele se ofendesse por dar seu presente a outra pessoa.

— Pode, claro! — Krassótkin concordou de pronto, e, depois de pegar o canhãozinho da mão de Iliucha, entregou­-o à mãezinha com uma reverência cortês. Ela até chorou de emoção.

— Iliúchetchka, querido, esse sim ama a mãezinha! — ela exclamou, comovida, e logo voltou a brincar com ele sobre os joelhos.

— Mãezinha, deixe­-me beijar sua mão — o marido se aproximou dela num salto, e imediatamente fez o que anunciou.

— E quem ainda é meu jovem mais querido é esse bom menino! — disse a dama, agradecida, apontando para Krassótkin.

— E a pólvora, Iliucha, vou lhe trazer o quanto quiser. Agora nós mesmos fazemos pólvora. Borovikov aprendeu a composição: vinte e quatro partes de salitre, dez de enxofre e seis de carvão de bétula, tritura tudo junto, põe água, mistura até fazer uma pasta e filtra numa pele de carneiro — e eis que temos pólvora.

— Smúrov já me falou da sua pólvora, só que o papai diz que não é pólvora de verdade — respondeu Iliucha.

— Como não é de verdade? — corou Kólia. — A nossa queima. Aliás, não sei…

— Não, senhor, não foi nada disso — o capitão deu um salto, com ar de culpado. — É verdade, eu falei que pólvora de verdade não tem essa composição, mas não é nada, também pode ser assim, senhor.

— Não sei, o senhor sabe melhor. Nós acendemos num pote de cerâmica para pomada, queimou muito bem, queimou tudo, sobrou só uma fuligenzinha. Mas é só uma pasta, se filtrar na pele… Mas, aliás, o senhor sabe melhor, eu não sei… E o pai de Bulkin tomou nossa pólvora, você ouviu? — ele se voltou para Iliucha de repente.

— Ouvi — respondeu Iliucha. Ele escutava Kólia com interesse e deleite infinitos.

— Preparamos uma garrafa inteira de pólvora, Bulkin guardava debaixo da cama. O pai viu. Pode explodir, disse. E ainda o açoitou ali mesmo. Queria reclamar de mim no colégio. Agora não o deixam brincar comigo, não deixam ninguém brincar comigo. Smúrov também não pode, ganhei fama com todos; dizem que sou “incorrigível” — Kólia abriu um sorriso de desprezo. — Isso tudo começou na ferrovia.

— Ah, ficamos sabendo desse seu momento também! — exclamou o subcapitão. — Como o senhor ficou lá deitado? E foi tudo bem, o senhor não se assustou quando estava deitado debaixo do trem? Ficou com medo, senhor?

O capitão se empenhava em bajular Kólia.

— N­-não em particular — respondeu Kólia com desdém. — Minha reputação acima de tudo foi desviada por aquele maldito ganso — ele se voltou para Iliucha de novo. Mas embora afetasse displiscência, ainda assim não conseguia se dominar e continuava sem encontrar o tom exato.

— Ah, eu soube do ganso! — começou a rir Iliucha, radiante. — Me contaram, mas eu não entendi, você foi julgado no tribunal?

— Foi a coisa mais insensata, mais insignificante, pela qual, como de hábito, fizeram tempestade em copo d’água — começou Kólia sem cerimônia. — Uma vez eu estava andando pela praça justo quando estavam conduzindo um ganso. Eu parei e fiquei olhando para o ganso. De repente, um dos rapazes daqui, Vichniakov, ele agora está trabalhando como moço de recados dos Plótnikov, olhou para mim e disse: “Por que está olhando para o ganso?”. Voltei os olhos para ele: aquela fuça burra, redonda, um rapaz de vinte anos, mas eu, sabe, nunca repudio o povo. Eu amo o povo… Nós nos afastamos do povo — isso é um axioma — o senhor, me parece, está rindo, Karamázov?

— Não, Deus me livre, estou escutando com atenção — Aliocha respondeu com a aparência mais cândida, e o desconfiado Kólia num instante se animou.

— Minha teoria, Karamázov, é clara e simples — ele se apressou na mesma hora, com alegria. — Acredito no povo e estou sempre feliz em fazer justiça a ele, mas sem de forma alguma mimá­-lo, isso é sine qua… Sim, mas voltando ao ganso. Eu estava me dirigindo àquele tonto e lhe respondi: “Pois estou pensando no que o ganso está pensando”. Ele me olhou de um jeito totalmente abobado: “Em que o ganso está pensando?” — “Pois veja”, digo, “a telega com aveia está parada. Há aveia caindo do saco, e o ganso estende o pescoço bem debaixo da roda e bica o grão — está vendo?” “Isso eu estou vendo muito bem”, ele diz. “Pois então”, digo, “se essa mesma telega se mover um pouquinho para a frente — vai cortar o pescoço do ganso com a roda ou não?” “Sem dúvida”, diz, “vai cortar”, e ele mesmo já dá um risinho de boca cheia, todo contente. “Bem, então venha”, digo, “vamos, rapaz.” “Vamos”, ele diz. E logo tivemos que improvisar: sem se fazer notar, ele ficou perto do freio, e eu ao lado para direcionar o ganso. Nesse momento o mujique começou a bocejar, falou com alguém, de forma que não precisei direcionar de jeito nenhum: o próprio ganso estendeu diretamente o pescoço para a aveia debaixo da telega, bem debaixo da roda. Eu dei uma piscadela para o rapaz, ele deu um puxão e — c­-crac, cortou ao meio o pescoço do ganso. E justo naquele mesmo segundo todos os mujiques nos viram, e começaram a gritar em uníssono: “Você fez isso de propósito!”. “Não, não foi de propósito.” — “Não, foi de propósito!” Bem, armaram um fuzuê. “Vamos ao juiz de paz!” Me pegaram também. “Você também estava ali”, diziam, “você deu uma mão, a feira inteira te conhece” — acrescentou Kólia cheio de si. — Fomos todos até o juiz de paz, levaram o ganso também. Olhei, e meu rapaz havia se acovardado e caído no choro, palavra, berrava feito mulher. E um carroceiro gritou: “Desse jeito eles podem esmagar quantos gansos quiserem!”. Mas, claro, havia testemunhas. O juiz de paz terminou num instante: que se desse um rublo ao carroceiro pelo ganso, e que o rapaz levasse o ganso consigo. E que dali em diante não se permitisse esse tipo de brincadeira. Mas o rapaz continuava berrando feito mulher: “Não fui eu”, ele dizia, “foi ele que me ensinou”, e apontava para mim. Respondi com absoluto sangue­-frio que eu não havia ensinado nada, que só havia expressado um pensamento básico e apenas me referira a um projeto. O juiz Neferov deu um risinho, e se irritou na hora consigo mesmo por ter rido: “Agora mesmo”, ele disse, “vou notificar sua escola, para que daqui em diante em vez de se envolver nesses projetos você abra seus livros e estude suas lições”. Mas ele não contou ao diretor, era uma brincadeira, mas o caso de fato se espalhou e chegou aos ouvidos da escola: como espicham as orelhas por aqui! O professor de línguas clássicas Kolbasnikov ficou especialmente exaltado, e Dardanélov se afastou de novo. Mas Kolbasnikov agora está bravo com todos nós, verde de raiva. Iliucha, você ficou sabendo, ele se casou, pegou mil rublos com os Mikhailov de dote, e a noiva dele é uma baranga de primeira ordem e último grau. Os meninos do terceiro ano na mesma hora fizeram um epigrama: “Todo o terceiro ano se chocou,/ Que o desleixado do Kolbasnikov se casou”. E por aí vai, é muito engraçado, depois trago para você. Sobre Dardanélov não digo nada: é um homem de conhecimento, de inegável conhecimento. Tenho enorme respeito por ele, e não é de forma alguma porque ele me defendeu…

— No entanto, você ganhou dele na questão de quem fundou Troia! — comentou Smúrov de repente, absolutamente orgulhoso de Krassótkin naquele instante. Ele havia gostado muito do relato sobre o ganso.

— Ganhou mesmo, senhor? — o subcapitão continuou, sempre adulando. — Foi a respeito de quem fundou Troia, senhor? Já ficamos sabendo que o senhor ganhou. Iliúchetchka me contou na época.

— Ah, papai, ele sabe tudo, sabe mais que todos nós! — secundou Iliúchetchka. — Ele só finge que é assim, mas é o primeiro da classe em todas as matérias…

Iliucha olhava para Kólia com uma alegria ilimitada.

— Ah, isso de Troia é bobagem, uma besteira. Eu mesmo considero essa questão descabida — respondeu Kólia com humildade altiva. Ele já havia encontrado o tom por completo, apesar de, por outro lado, manifestar certa inquietação: sentia que estava muito excitado e que havia falado do ganso, por exemplo, de forma demasiado franca, e enquanto isso Aliocha havia passado todo tempo do relato calado e estava sério, e eis o que pouco a pouco já começava a atormentar o coração daquele garoto cheio de amor­-próprio: “Estaria calado porque me despreza, pensa que estou procurando elogios dele? Nesse caso, se ele se atrever a pensar isso eu…”.

— Considero essa questão definitivamente descabida — ele cortou mais uma vez, num tom altivo.

— Mas eu sei quem fundou Troia — disse de repente, de forma totalmente inesperada, um menino que até então não havia falado quase nada, calado e visivelmente tímido, muito bonitinho, de uns onze anos, chamado Kartachov. Estava sentado bem perto da porta. Kólia o olhou com surpresa e gravidade. O fato é que a pergunta “quem exatamente fundou Troia” estava posta em definitivo para todas as turmas como um segredo e, para decifrá­-lo, era preciso ler o livro de Smarágdov. Mas ninguém tinha o livro de Smarágdov além de Kólia. E eis que uma vez o menino Kartachov, quietinho, quando Kólia havia se virado, rapidamente abriu o Smarágdov que estava em meio aos outros livros e caiu direto no trecho que falava dos fundadores de Troia. Isso tinha acontecido havia muito tempo, mas ele ainda ficava confuso e não se decidia a revelar publicamente que também sabia quem havia fundado Troia, receando que se confundisse e que Kólia de alguma forma pudesse metê­-lo em embaraço. E agora, de repente, por algum motivo ele não resistira e falara. Mas queria falar havia muito tempo.

— Bem, quem foi que fundou? — de forma desdenhosa e altaneira Kólia se voltou para ele, já adivinhando pe­lo rosto do outro que ele de fato sabia e, claro, estava no mesmo instante pronto para todas as consequências. Na atmosfera geral do ambiente ocorreu o que se costuma chamar de dissonância.

— Quem fundou Troia foram Teucro, Dardano, Ilo e Trós — escandiu o menino de uma vez, e num instante ficou todo corado, tão corado que dava pena olhar. Mas todos o olharam fixamente, passaram um minuto inteiro olhando e depois de repente todos fixaram o olhar em Kólia. Com um sangue­-frio desdenhoso, ele continuava a medir o menino insolente.

— Mas como é que eles fundaram? — dignou­-se dizer por fim. — E o que significa fundar uma cidade ou um Es­tado? O que é que eles fizeram: chegaram e puseram os tijolos, o que foi?

Uma risada ressoou. O menino culpado passou de rosa a escarlate. Ele ficou calado, estava a ponto de chorar. Kólia o manteve assim por mais um minuto.

— Para interpretar o que significam acontecimentos históricos como a fundação de uma nacionalidade é preciso antes de mais nada entender o que isso significa — ele enunciou, severo, num sermão. — Eu, aliás, não dou importância a todos esses contos de fadas de mulherzinha, nem dou extrema importância à história universal — acrescentou de repente com negligência, dirigindo­-se a todos em geral.

— Isso é história universal? — indagou o subcapitão, surpreso.

— Sim, é história universal. O estudo da série de burrices humanas, e apenas isso. Só respeito a matemática e as ciências naturais — gabou­-se Kólia e olhou de relance para Aliocha: sua opinião era a única que ele temia ali. Mas Aliocha continuava calado e sério como antes. Se ele dissesse algo naquele momento, estaria tudo terminado, mas Aliocha ficou calado, “aquele silêncio podia ser de desprezo”, e Kólia já se irritou por completo.

— De novo temos essas línguas clássicas: é uma loucura e nada mais… Parece que mais uma vez o senhor não concorda comigo, Karamázov?

— Não concordo — Aliocha deu um sorriso reservado.

— As línguas clássicas, se quiser saber minha opinião, são uma medida policialesca, eis o único motivo para terem sido introduzidas — Kólia de novo começou pouco a pouco a perder o fôlego. — Elas foram introduzidas porque são entediantes, e porque embotam a capacidade. Era entediante, então o que fazer para que o tédio fosse ainda maior? Era sem objetivo, então o que fazer para que ficasse ainda mais sem objetivo? Aí inventaram as línguas clássicas. Essa é minha impressão sobre elas, a que jamais trairei — terminou Kólia bruscamente. Em suas faces surgiram um ponto de rubor.

— É verdade — Smúrov, que escutava atento, concordou de súbito, em voz alta e decidida.

— E ele é o primeiro em língua latina! — gritou um menino no meio do grupo.

— Sim, papai, ele diz isso mas é o primeiro em latim na turma — secundou Iliucha.

— E daí? — Kólia considerou necessário defender­-se, embora o elogio lhe fosse muito agradável. — Decoro o latim porque precisa, porque prometi à minha mãe passar de ano, por mim, porque o que me encarreguei de fazer faço bem, mas no fundo da alma desprezo o classicismo e toda essa idiotice… Não concorda, Karamázov?

— Mas por que é “idiotice”? — Aliocha sorriu de novo.

— Misericórdia, se todos os clássicos foram traduzidos para todas as línguas, isso significa que estudar latim para lê­-los é totalmente desnecessário, é apenas uma medida policialesca voltada para o embotamento das capacidades. Como não é uma canalhice?

— Mas quem lhe ensinou tudo isso? — exclamou por fim Aliocha, espantado.

— Em primeiro lugar, eu mesmo sou capaz de entender sem estudar; em segundo, saiba que exatamente isso que eu lhe expliquei sobre os clássicos traduzidos o próprio professor Kolbasnikov falou em voz alta para todo o terceiro ano…

— O médico chegou! — exclamou Nínotchka, que se mantivera todo o tempo calada.

De fato, aproximara­-se dos portões da casa uma carruagem pertencente à senhora Khokhlakova. O subcapitão, que passara a manhã esperando pelo médico, correu a toda pressa até os portões para recebê­-lo. Mãezinha foi atrás de fininho e se encheu de gravidade. Aliocha se aproximou de Iliucha e começou a lhe ajeitar o travesseiro. Nínotchka, de sua cadeira, acompanhava com preocupação a maneira como ele ajeitava a caminha. Os meninos se despediam apressadamente, e alguns prometeram passar lá à noite. Kólia chamou Perezvon, e ele saltou da cama.

— Não vou embora, não vou embora! — disse Kólia para Iliucha às pressas —, vou esperar na entrada e volto quando o médico tiver ido embora, venho com Perezvon.

Mas o médico já havia entrado — uma figura grave com um casaco de pele de urso, suíças longas e escuras e o queixo lustroso e barbeado. Depois de cruzar a soleira, ele parou, boquiaberto: decerto achou que havia entrado no lugar errado: “O que é isso? Onde estou?” — balbuciou, sem tirar o casaco dos ombros nem o boné de pele de lontra da cabeça. A aglomeração, a pobreza do quarto, as roupas penduradas num varal num canto o deixaram estupefato. O subcapitão se curvou diante dele numa profunda reverência.

— O senhor está aqui, o senhor está aqui — ele murmurava servil —, o senhor está aqui, na minha casa, veio até minha casa…

— Sne­-gui­-riov? — proferiu o médico em voz alta, com gravidade. — Senhor Sneguiriov, é o senhor?

— Sou eu, senhor!

— Ah!

O médico olhou ao redor do quarto mais uma vez com nojo e tirou o casaco. Aos olhos de todos fulgurou uma importante condecoração pendurada no pescoço. O subcapitão pegou o casaco no ar, e o médico tirou o boné.

— Onde é que está o paciente? — ele perguntou em voz alta e autoritária.

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