ix
O diabo. O pesadelo de Ivan Fiódorovitch
Não sou médico, no entanto sinto que chegou o momento em que será absolutamente necessário explicar ao leitor pelo menos algumas das características da doença de Ivan Fiódorovitch. Já me adiantando, direi apenas uma coisa: ele estava agora, naquela noite, às vésperas de um delirium tremens que, finalmente, se assenhorou de seu organismo havia muito abalado, mas que resistia obstinadamente à doença. Sem saber nada de medicina, arrisco-me a manifestar a suposição de que, talvez, ele de fato tenha conseguido, por meio de um terrível esforço de sua vontade, afastar a doença por um tempo, sonhando, evidentemente, superá-la de vez. Ele sabia que estava enfermo mas não o desejava, sentia asco por estar doente naquele momento, naqueles instantes fatídicos de sua vida, que se aproximavam cada vez mais, quando deveria estar presente, expressar suas palavras de maneira corajosa e resoluta e “justificar a si mesmo diante de si”. Ele, a propósito, passou no novo médico que viera de Moscou, contratado por Katerina Ivánovna em função de uma fantasia sua, que eu já mencionei acima. O médico, depois de auscustá-lo e examiná-lo, concluiu que ele tinha algo como um transtorno do cérebro, e não ficou nem um pouco surpreso com certa confissão que o paciente, ainda que com asco, lhe fez. “As alucinações, na sua condição, são muito prováveis”, declarou o médico, “embora fosse necessário verificá-las… mas, no geral, é indispensável iniciar o tratamento a sério, sem perder um minuto sequer, do contrário a doença se agravará.” Mas Ivan Fiódorovitch, ao sair de lá, não cumpriu o prudente conselho e fez pouco-caso de começar o tratamento: “Pois se eu consigo andar, por enquanto tenho forças; se eu ficar de cama, aí é outra coisa, nesse caso, quem quiser que me trate”, ele decidiu, deixando aquilo de lado. Pois bem, ele agora estava ali sentado, quase que admitindo a si mesmo que estava em delírio e, como já disse, olhando fixa e obstinadamente para algo perto da parede oposta, no sofá. Ali, de repente, havia alguém sentado, que entrara sabe Deus como, porque ele ainda não estava no quarto quando Ivan Fiódorovitch, ao voltar da casa de Smerdiakov, ali ingressara. Era um senhor ou, melhor dizendo, um certo tipo de cavalheiro russo, já não muito jovem, “qui frisait la cinquantaine”, como dizem os franceses, com poucas mechas grisalhas nos cabelos escuros, bastante longos e ainda espessos, e com um cavanhaque escanhoado. Vestia um paletó marrom, visivelmente do melhor alfaiate, mas já gasto, que fora costurado por volta de três anos antes e já saíra totalmente de moda, de maneira que, dentre as pessoas abastadas da sociedade, já fazia dois anos que ninguém usava um daqueles. A camisa, a gravata comprida em forma de cachecol, tudo era como usavam todos os cavalheiros metidos a chiques, mas a camisa, se examinada mais de perto, era meio suja, e a gravata, muito puída. As calças xadrez do visitante caíam-lhe magnificamente, mas eram também claras demais e como que estreitas demais, como agora ninguém mais usava, do mesmo modo que o chapéu mole de feltro branco que o visitante trazia consigo, já bem fora de temporada. Resumindo, era um aspecto de decência, mediante recursos pecuniários bastante escassos. Parecia pertencer à classe de antigos proprietários de terras desocupados, que prosperaram ainda na época da servidão; aqueles que nitidamente viram o mundo e a boa sociedade, que possuíram outrora ligações e as mantiveram, talvez, até o presente, mas que pouco a pouco, com o empobrecimento que veio depois de uma vida alegre na juventude e da recente abolição da servidão, se transformaram num agregado de bom-tom que vagueia pelas casas dos bons e velhos conhecidos, que o recebem graças a seu caráter sociável e agradável, e também em função de que ele é, de todo modo, uma pessoa decente, que pode sentar à mesa na presença de qualquer um, ainda que obviamente num lugar modesto. Tais agregados, cavalheiros de caráter agradável, que sabem contar histórias, jogar uma partida de cartas e que não gostam nem um pouco de qualquer incumbência, se alguma lhes é imposta, geralmente são solitários, ou solteiros ou viúvos, talvez com filhos, os quais são sempre educados em algum lugar distante, na casa de umas tias, e que o cavalheiro quase nunca menciona na boa sociedade, como que um tanto envergonhado de tal parentesco. Pouco a pouco, porém, desacostumam-se totalmente dos filhos, recebendo deles, de quando em quando, no dia de seu santo ou no Natal, cartas de felicitações, e às vezes até respondendo-as. A fisionomia do visitante inesperado não era propriamente bondosa, mas era agradável e, segundo as circunstâncias, pronta a manifestar qualquer expressão amável. Não tinha relógio, mas trazia um lornhão de tartaruga numa fita preta. No dedo médio da mão direita, destacava-se um maciço anel de ouro com uma opala barata. Ivan Fiódorovitch estava calado, parecia enraivecido, e não queria ser o primeiro a falar. O visitante esperava e estava sentado como um agregado que acaba de descer do quarto que lhe destinaram no andar de cima, para fazer companhia ao dono da casa na hora do chá, mas que fica tranquilamente calado — já que o anfitrião está ocupado, pensando em alguma coisa com o cenho franzido —, disposto, no entanto, a qualquer conversa amável, assim que este tomasse a iniciativa. De repente, seu rosto expressou uma preocupação súbita.
— Escute — ele disse para Ivan Fiódorovitch —, me desculpe, só quero lembrá-lo: você foi à casa de Smerdiakov para saber de Katerina Ivánovna, mas saiu sem saber nada dela, deve ter esquecido…
— Ah, sim! — Ivan deixou escapar, e seu rosto perturbou-se de preocupação. — Sim, esqueci… Aliás, agora tanto faz, agora tudo fica para amanhã — ele balbuciou consigo mesmo. — E você — dirigiu-se ele ao visitante, em tom irritadiço —, eu deveria me lembrar disso por conta própria, porque estava angustiado justo por isso! Como você apareceu, devo então crer que foi você que me advertiu, e não que eu mesmo lembrei?
— Pois não creia — sorriu o cavalheiro, afável. — Que fé é essa que se faz pela coação? Ademais, na crença, prova nenhuma ajuda, sobretudo as materiais. Tomé não creu porque viu o Cristo ressurrecto, mas porque antes já queria crer. Veja os espíritas, por exemplo… gosto muito deles… imagine, eles supõem serem úteis à fé porque os diabos do outro mundo lhes mostram os chifrinhos. “Já é uma prova material, por assim dizer, de que existe o outro mundo”, eles dizem. O outro mundo e provas materiais, ai-ai-ai! E, afinal, se a existência do diabo está provada, o mesmo não se pode dizer da existência de Deus. Eu quero me inscrever numa sociedade idealista, farei oposição a eles: “Sou realista, e não materialista, he-he-he!”, é o que vou dizer.
— Escute — Ivan Fiódorovitch de repente levantou-se da mesa. — Agora, é como se eu estivesse delirando… e é claro que estou delirando… minta quanto quiser, para mim tanto faz! Você não vai me enlouquecer, como da última vez. Só que tenho vergonha de alguma coisa… Quero andar pelo quarto… Às vezes não vejo você e nem escuto a sua voz, como da última vez, mas sempre consigo adivinhar as bobagens que você está dizendo, porque sou eu, sou eu mesmo falando, e não você! Só não sei se eu estava dormindo da última vez ou se estava acordado quando vi você. Vou molhar uma toalha com água fria e botar na cabeça, e quem sabe assim você se evapora.
Ivan Fiódorovitch foi até um canto, pegou uma toalha, fez como tinha dito e, com uma toalha molhada na cabeça, pôs-se a caminhar pelo quarto, para a frente e para trás.
— Fico feliz que você e eu tenhamos começado a falar diretamente nesse tom informal — o visitante fez menção de começar.
— Imbecil — riu-se Ivan. — Por acaso eu passaria a te tratar de “senhor”? Agora estou animado, só dói a têmpora… e o topo da cabeça… peço, por favor, que não se ponha a filosofar como da última vez. Se não pode ir embora, pelo menos diga umas mentiras mais divertidas. Conte fofocas, você é um agregado, afinal, conte suas fofocas. Que pesadelo foi me arranjar! Mas não tenho medo de você. Eu vou superá-lo. Não serei levado para o manicômio!
— C’est charmant, um agregado. Pois a minha figura é justamente essa. Quem sou eu na terra, senão um agregado? Aliás, eu te ouço e fico um pouco surpreso: juro que você já parece estar pouco a pouco começando a me encarar como alguma coisa real, e não apenas como sua fantasia, conforme insistia na última vez…
— Nem por um minuto eu te encarei como uma verdade real — exclamou Ivan, enfurecido. — Você é uma mentira, você é a minha doença, você é uma visão. Só não sei como te exterminar, e vejo que será preciso sofrer por um tempo. Você é minha alucinação. Você é a encarnação de mim mesmo, só de um lado meu, aliás… de meus pensamentos e sentimentos, só dos mais torpes e estúpidos. Por esse lado, você poderia até ser interessante para mim, se eu ao menos tivesse tempo a perder com você…
— Perdão, perdão, vou desmascará-lo: agora há pouco, junto ao lampião, quando você se lançou sobre o Aliocha e gritou: “Você ficou sabendo por ele! Como você soube que ele vem me ver?”. Foi de mim que você se lembrou. Portanto, por um pequeno instante, você acreditou, acreditou que eu existo — riu-se o cavalheiro, suavemente.
— Sim, foi uma fraqueza de caráter… mas eu não podia acreditar em você. Não sei se estava dormindo ou se estava caminhando da última vez. Talvez, naquele dia, eu tenha visto você só em sonho, e de modo algum acordado…
— E por que você foi tão severo com ele agora há pouco, com o Aliocha? Ele é querido; estou em dívida com ele, por causa do ancião Zossima.
— Não fale do Aliocha! Como ousa, seu lacaio! — riu-se novamente Ivan.
— Você mesmo xinga e dá risada — é um bom sinal. Aliás, hoje você está muito mais gentil comigo do que da última vez, e entendo por quê: foi a grande decisão…
— Não fale da decisão! — exclamou Ivan, com ar furioso.
— Eu entendo, eu entendo, c’est noble, c’est charmant, você vai defender seu irmão amanhã e sacrificar-se a si mesmo… c’est chevaleresque.
— Cale-se, ou lhe dou um pontapé!
— Em parte, ficarei contente, pois então meu objetivo terá sido alcançado: se quer dar pontapés, significa que acredita no meu realismo, porque ninguém dá pontapés em visões. Piadas à parte: para mim tanto faz, pode xingar se quiser, mas, de qualquer maneira, é melhor ser pelo menos um pouquinho mais cortês, ainda que se trate de mim. Que raios de palavras são essas, é imbecil pra cá, lacaio pra lá!
— Ao xingar você, xingo a mim mesmo — riu-se novamente Ivan. — Você sou eu, eu mesmo, só que com outra cara. Você diz exatamente o que eu já estava pensando… e não tem capacidade para me dizer nada de novo!
— Se nossos pensamentos coincidem, isso só me traz honra — falou o cavalheiro, com delicadeza e dignidade.
— Só que você não para de selecionar meus pensamentos abjetos e, sobretudo, os estúpidos. Você é estúpido e vulgar. Você é tremendamente estúpido. Não, eu não o suporto! Que posso fazer? Que posso fazer! — rangeu Ivan.
— Meu amigo, de qualquer maneira eu quero ser um cavalheiro e que me encarem dessa maneira — começou a visita, num acesso de perfeita vaidade típica de um agregado e já de antemão transigente e bondosa. — Sou pobre, mas… não direi que sou muito honesto, mas… geralmente, na sociedade, é tido como um axioma que eu seja um anjo caído. Juro por Deus que não consigo imaginar de que maneira eu possa ter sido um anjo algum dia. Se fui mesmo, em algum momento, foi há tanto tempo que não é pecado ter esquecido. Agora, eu valorizo apenas a reputação de homem decente, e vivo como se deve, tentando ser agradável. Eu amo as pessoas com sinceridade — oh, fui caluniado por tantos motivos! Aqui, quando, de tempos em tempos, me mudo para o meio de vocês, minha vida transcorre como se fosse algo real, e é disso que eu mais gosto. Afinal, eu mesmo, assim como você, sofro pelo fantástico, e por isso amo o realismo terreno de vocês. Aqui com vocês é tudo delineado, aqui tem fórmula, aqui tem geometria, enquanto para nós tudo são equações indeterminadas! Aqui, eu ando e sonho. Eu adoro sonhar. Além do mais, na terra fico supersticioso — não ria, por favor: eu gosto justamente disso, de ficar supersticioso. Aqui, adoto todos os costumes de vocês: peguei amor por ir ao estabelecimento comercial de banhos, você consegue imaginar, e adoro tomar um banho de vapor com os comerciantes e popes. Meu sonho é encarnar, mas que seja de maneira definitiva, irreversível, virar uma comerciante qualquer, gorda, com sete pudes e crer em tudo que ela crê. Meu ideal é entrar na igreja e acender uma velinha, do fundo do coração, juro por Deus que é. Aí seria o fim dos meus sofrimentos. E também peguei gosto por fazer tratamento médico com vocês: na primavera, tinha começado a varíola, aí eu fui e, numa casa de órfãos, me inocularam com a varíola — se você soubesse como fiquei contente aquele dia: doei dez rublos para os nossos irmãos eslavos!… Mas você não está ouvindo. Sabe, por alguma razão você não está nada bem hoje — o cavalheiro fez um breve silêncio. — Eu sei que ontem você foi àquele médico… então, como está sua saúde? O que o médico lhe disse?
— Imbecil! — cortou Ivan.
— Você, em compensação, é tão inteligente. De novo xingando? Perguntei por perguntar, nem foi por simpatia. Faça o favor de não responder. Agora meu reumatismo está me atacando outra vez…
— Imbecil — repetiu Ivan mais uma vez.
— Para com isso? No ano passado tive uma crise de que me lembro até hoje.
— O diabo tem reumatismo?
— E por que não, se às vezes eu encarno? Encarno, aí aceito as consequências. Satanás sum et nihil humanum a me alienum puto.1
— Como é que é? Satanás sum et nihil humanum… isso é bem inteligente para o diabo!
— Fico feliz por ter finalmente agradado.
— Mas isso você não pegou de mim — Ivan parou de repente, perplexo —, isso nunca me passou pela cabeça, é estranho…
— C’est du nouveau, n’est ce pas? Dessa vez vou me comportar honestamente e explicarei a você. Escute: nos sonhos, e sobretudo nos pesadelos, desses causados por um problema estomacal ou algo do tipo, às vezes o homem vê coisas tão artísticas, uma realidade tão complexa e genuína, tamanhos acontecimentos ou até um mundo inteiro de acontecimentos, entrelaçado a tamanha intriga com tantos detalhes inesperados, começando com as suas manifestações mais elevadas até o último botão do peitilho, que, te juro, nem Liev Tolstói teria criado, e, no entanto, por vezes quem tem esses sonhos não são os autores, nada disso, são as pessoas mais ordinárias, funcionários públicos, folhetinistas, popes… Com relação a isso, existe todo um problema: certo ministro até me confessou que tinha suas melhores ideias enquanto dormia. Pois é assim agora. Posso ser a sua alucinação, mas, como num pesadelo, digo coisas originais, que não tinham lhe passado pela cabeça, de maneira que já não estou mais repetindo seus pensamentos, de jeito nenhum, e no entanto eu sou só o seu pesadelo e nada mais.
— Mentira. O seu objetivo é justamente me convencer de que você existe por si mesmo, e não é o meu pesadelo, mas agora você garante que você é um sonho.
— Meu amigo, hoje escolhi um método particular, depois te explico. Espere, onde foi que eu parei? Sim, naquela época me resfriei, só que não foi aqui com vocês, foi ainda lá…
— Lá onde? Diga-me, vai ficar muito tempo aqui na minha casa? Não poderia ir embora? — exclamou Ivan, quase desesperado. Ele se deteve, sentou no sofá, apoiou de novo os cotovelos na mesa e apertou a cabeça com ambas as mãos. Arrancou a toalha molhada e, com desgosto, jogou-a longe: via-se que não tinha ajudado.
— Seus nervos estão abalados — observou o cavalheiro, com um ar desenvolto e desdenhoso, embora de todo amigável —, você se irrita comigo até por que fui capaz de me resfriar, e no entanto isso aconteceu da maneira mais natural. No dia em questão, eu estava com pressa para chegar a uma festa diplomática na casa de uma senhora petersburguesa da alta sociedade, que tinha em vista um ministério. Pois bem, fraque, gravata branca, luvas, e no entanto ainda estava sabe Deus onde, e para chegar aqui na terra eu precisaria voar através do espaço… claro que isso é só um instante, mas até um raio de luz do sol leva oito minutos para chegar aqui, e lá, imagine você, eu estava de fraque e com o colete aberto. Os espíritos não se congelam, mas quando encarnei… resumindo, foi um erro da minha parte, e pus-me a caminho, mas lá naqueles espaços, lá no éter, lá naquela água, que estava acima do firmamento, ali faz um frio… quer dizer, que frio, que nada — nem dá para chamar de frio, imagine: cento e cinquenta graus abaixo de zero! É bem conhecida a brincadeira das moças camponesas: no frio de trinta graus negativos, pedem para os novatos lamberem um machado; a língua fica colada no mesmo instante, e o bobalhão, para se soltar, arranca um pedaço dela, sangrando; e olhe que isso é só com trinta graus, com cento e cinquenta acho que bastava colocar um dedo no machado e seria como se ele nem tivesse existido, se… fosse possível encontrar um machado ali…
— E lá é possível encontrar um machado? — interrompeu Ivan, distraído e enojado. Ele resistia com todas as forças para não acreditar em seu delírio e não cair na loucura definitivamente.
— Machado? — replicou o visitante, surpreso.
— Sim, o que é que seria de um machado lá? — exclamou Ivan, com certa persistência encarniçada e insistente.
— O que seria de um machado lá? Quelle idée! Se fosse bem longe, acho que ele se poria a voar ao redor da Terra, sem saber por quê, à guisa de satélite. Os astrônomos calculariam o nascer e o pôr do machado, Gattsuk2 inseriria no calendário, e pronto.
— Você é estúpido, você é tremendamente estúpido! — disse Ivan, revoltado. — Minta de um jeito mais inteligente, do contrário não vou escutar. Você quer me vencer pelo realismo, me convencer de que você existe, mas eu não quero acreditar nisso! Não vou acreditar!
— Mas eu não estou mentindo, é tudo verdade; infelizmente, a verdade quase nunca é espirituosa. Estou vendo que você está decidido a esperar de mim algo grandioso e, talvez, até belo. É uma grande pena, porque eu só dou a você o que posso…
— Não me venha com filosofa, seu asno!
— Que filosofia é essa, se todo o meu lado direito fica paralisado, eu fico gemendo e mugindo? Passei por todos os médicos: identificar, eles sabem muito bem, te explicam tim-tim por tim-tim da doença, agora, curar, aí não sabem. Tinha lá um estudantezinho que ficou extasiado: se o senhor morrer mesmo, ele disse, em compensação vai saber exatamente de que doença morreu! Digo mais uma vez, essa é a maneira deles de encaminhar os pacientes aos especialistas: nós só identificamos o que é, eles dizem, agora procure o especialista tal que ele vai te curar. Desapareceu por completo, eu lhe digo, aquele médico de antes, que tratava de todas as doenças, agora só existem especialistas, que aparecem nos jornais o tempo todo. Se ficar doente do nariz, vão mandar você a Paris: lá dizem que tem um especialista europeu que trata de nariz. Você chega a Paris, ele examina o nariz: eu só posso tratar a sua narina direita, ele diz, porque não trato de narinas esquerdas, não é minha especialidade, mas o senhor pode ir a Viena, lá um especialista particular vai tratar da sua narina esquerda. O que você vai fazer? Recorri aos remédios populares; um médico, um alemão, recomendou que eu esfregasse no corpo mel e sal durante o banho. Eu obedeci, só para dar mais uma passada nos banhos: me lambuzei todo, e não adiantou nada. Por desespero, escrevi ao conde Mattei, em Milão: ele mandou um livro e umas gotinhas, Deus o abençoe. E imagine só: o extrato de malte de Hoff ajudou! Comprei por acaso, bebi um frasco e meio, e dava até para dançar, parece que ele tirou com a mão. Decidi publicar uma nota nos jornais agradecendo, o sentimento de gratidão falou mais alto, e aí imagine você que disso começou uma outra história: nenhuma redação queria aceitar meu “obrigado”! “Vai ser muito retrógrado”, diziam eles, “ninguém vai acreditar, le diable n’existe point. O senhor deve publicar anonimamente”, aconselharam. Mas como dizer “obrigado” se for anonimamente? Brinquei com os empregados: “É acreditar em Deus que é retrógrado na nossa época”, eu disse, “no diabo pode, em mim pode”. “Nós compreendemos”, eles diziam, “quem é que não acredita no diabo, mas de qualquer maneira não dá, pode prejudicar nossa linha editorial. E se fosse como piada?” Ora, como piada não vai ser lá muito espirituoso, pensei. Aí não publicaram. E acredita que isso até pesou no meu coração? Os meus melhores sentimentos, como por exemplo a gratidão, me são formalmente proibidos devido à minha posição social.
— Outra vez começou com filosofia! — rangeu Ivan, com ar de ódio.
— Deus que me proteja, mas é que às vezes não dá para não se queixar. Sou uma pessoa caluniada. Você mesmo, a cada minuto, diz que sou estúpido. Logo se vê que você é jovem. Meu amigo, inteligência não é tudo! Por natureza, tenho um coração bondoso e alegre, “e também escrevi vários vaudevilles”.3 Parece que você resolveu me encarar como um Khlestakov agrisalhado, e no entanto meu destino é muito mais sério. Por alguma designação preliminar, que eu nunca consegui entender, fui destinado a “negar”, entretanto sou sinceramente bom e nem um pouco hábil para a negação. Não, vá lá, neguei, sem negação não haveria crítica, disseram, e o que seria das revistas se não tivessem uma “seção de crítica”? Sem crítica, vai ser só “hosana”. Mas, para a vida, só “hosana” é pouco, esse “hosana” tem que passar pelo crisol da dúvida, bem, e assim por diante, coisas do gênero. Eu, aliás, nem me intrometo em nada disso, não fui eu que criei, não sou eu que respondo. Aí escolheram o bode expiatório, me fizeram escrever na seção de crítica, e a vida começou. Nós compreendemos essa comédia: eu, por exemplo, exijo franca e simplesmente a minha destruição. Não, viva, eles dizem, porque sem você não haverá nada. Se tudo na terra fosse sensato, não aconteceria nada. Sem você, não haveria nenhum incidente, e é preciso que haja incidentes. Aí eu sirvo a contragosto, para que haja incidentes, e crio o que é insensato, de acordo com as ordens. Os homens, ainda que inegavelmente inteligentes, encaram toda essa comédia como uma coisa séria. Nisso é que está a tragédia deles. Bem, e sofrem mesmo, mas… em compensação, eles de qualquer maneira vivem, vivem realmente, não fantasticamente; pois o sofrimento é que é a vida. Sem sofrimento, todo o prazer que pudesse haver haveria de se transformar num só te-déum interminável: é sagrado, mas é um tantinho enfadonho. Mas e eu? Eu sofro, e mesmo assim não vivo. Sou o xis numa equação indeterminada. Sou uma espectro da vida, que perdeu todos os princípios e os fins, e que esqueceu, afinal, até como se chamava. Você está rindo… não, não está rindo, está irritado de novo. Está o tempo todo irritado, você preferiria só inteligência, mas outra vez, repito, eu daria toda essa vida acima das estrelas, todas as patentes e honrarias, unicamente para encarnar na alma de uma comerciante, aquela de sete pudes, e acender velas para Deus.
— Será que você também não acredita em Deus? — riu-se Ivan, com ar de ódio.
— Quer dizer, como posso lhe dizer isso, se você está mesmo falando sério…
— Deus existe ou não existe? — gritou Ivan, novamente com insistência enfurecida.
— Ah, então está falando sério? Meu queridinho, juro por Deus que não sei, é o máximo que eu poderia lhe dizer.
— Você não sabe, mas vê Deus? Não, você não existe de maneira independente, você sou eu, você sou eu, e nada mais! Você é um canalha, é a minha fantasia!
— Bem, se quer dizer que você e eu somos da mesma filosofia, aí seria justo. Je pense donc je suis, disso eu sei e tenho certeza, mas quanto a tudo mais que está ao meu redor, todos esses mundos, Deus e até mesmo Satanás — tudo isso para mim não está provado, se existe de maneira independente ou se é unicamente uma emanação minha, um desenvolvimento lógico do meu eu, que existia prévia e individualmente… resumindo, encerro depressa porque você, pelo visto, está prestes a pular daí para brigar comigo.
— Era melhor você contar alguma anedota! — falou Ivan, com ar mórbido.
— Eu tenho uma anedota, e precisamente sobre o nosso tema, quer dizer, não uma anedota, mas algo assim como uma lenda. Você está aí me recriminando por minha descrença: “Vê mas não acredita”, você diz. Mas é que agora, meu amigo, eu não sou o único assim, todos nós lá ficamos perturbados, e foi tudo por causa das ciências de vocês. Enquanto ainda havia átomos, cinco sentidos, quatro elementos, as coisas bem ou mal eram coesas. Os átomos existiam até no mundo antigo. Mas quando soubemos que vocês aqui haviam descoberto essa tal “molécula química”, esse tal “protoplasma”, e sabe-se lá o diabo o que mais — aí nós metemos o rabo entre as pernas. Teve início simplesmente a maior confusão; sobretudo superstições, fofocas; é que nós temos o mesmo tanto de fofoca que vocês, até um tantinho a mais, e, finalmente, também delações, afinal nós também temos uma seção que recebe as famosas “informações”. E aí tem essa lenda selvagem, que vem lá da nossa Idade Média — não a de vocês, mas a nossa —, e mesmo entre nós quase ninguém acredita nela, exceto as comerciantes que pesam sete pudes, quer dizer, repito, não as suas, mas as nossas comerciantes. Tudo que vocês têm, nós temos, isso é um segredo nosso que estou lhe revelando por amizade, embora seja proibido. Essa lenda é sobre o paraíso. Diz que havia aqui na terra, entre vocês, certo pensador e filósofo que “rejeitava tudo, as leis, a consciência, a fé” e, sobretudo, a vida após a morte. Morreu, pensou que iria direto para as trevas e a morte, só que diante dele estava ela — a vida após a morte. Ficou admirado e indignado: “Isso contradiz as minhas convicções”, ele disse. E foi por isso que ele foi condenado… quer dizer, veja só, me perdoe, é que estou repassando conforme ouvi, é só uma lenda… veja só, ele foi condenado a atravessar um quatrilhão de quilômetros pelas trevas (é que agora nós medimos em quilômetros), e, quando ele concluísse esses quatrilhões, aí lhe seriam abertos os portões do paraíso, e tudo seria perdoado…
— E que torturas vocês têm no outro mundo, além dessa dos quatrilhões? — cortou Ivan, com uma animação um tanto estranha.
— Que torturas? Ai, nem queira saber: antes tinha de tudo, mas agora cada vez mais são coisas morais, “remorso” e toda essa besteira. Isso também começou por causa de vocês, por causa da “atenuação dos costumes”. Bem, e quem ganhou com isso? Ganharam só os sem consciência, pois que lhes importa o remorso quando não têm consciência? Em compensação, sofreram as pessoas decentes, que ainda mantinham a consciência e a honra… Está vendo, essas reformas, em terreno não preparado, e ainda por cima copiadas de instituições alheias, só trazem prejuízo! Era melhor ficar com o foguinho de antes. Bem, mas esse sujeito condenado ao quatrilhão parou, olhou e deitou-se de atravessado no caminho: “Não quero ir, por princípio eu não vou!”. Pegue a alma do ateu russo ilustrado e misture com a alma do profeta Jonas, que se aborreceu no ventre da baleia por três dias e três noites — esse é o caráter desse pensador que se esticou de atravessado no caminho.
— Em cima de que ele ficou esticado?
— Ora, deve ter sido em cima de alguma coisa. Você não estará brincando?
— Bravo! — gritou Ivan, ainda com a mesma estranha animação. Agora, ele ouvia com certa curiosidade inesperada. — Mas e então, continua deitado até agora?
— Aí é que está, não continua. Ele ficou deitado quase mil anos, depois levantou-se e saiu andando.
— Mas que asno! — exclamou Ivan, gargalhando nervosamente, ainda se esforçando para compreender. — Mas não dá na mesma ficar deitado eternamente ou caminhar um quatrilhão de verstas? Isso não dá uma caminhada de um bilhão de anos?
— Até muito mais, é que não tenho lápis e papel, do contrário poderia calcular. Mas ele chegou faz tempo, e é aqui que começa a anedota.
— Como, chegou?! E de onde ele tirou esse bilhão de anos?
— Você sempre pensa na nossa terra de hoje em dia! Mas pode até ser que a nossa terra de hoje tenha se repetido um bilhão de vezes; bem, ela pereceu, congelou-se, fendeu-se, desmanchou-se, decompôs-se em seus elementos constituintes, de novo a água que estava acima do firmamento, depois de novo o cometa, de novo o sol, depois do sol veio a terra — e talvez esse desenvolvimento já tenha se repetido um número infinito de vezes, e sempre sob o mesmíssimo aspecto, tim-tim por tim-tim. Uma maçada das mais indecentes…
— Mas e então, no que deu quando ele chegou?
— Pois assim que lhe abriram o paraíso, e ele lá ingressou, não se passaram nem dois segundos — e isso de acordo com o relógio, de acordo com o relógio (embora o relógio dele, na minha opinião, deveria ter se decomposto pelo caminho, em seu bolso, em seus elementos constituintes) —, não se passaram nem dois segundos, e ele exclamou que, em troca daqueles dois segundos, ele poderia atravessar não só um quatrilhão, mas um quatrilhão de quatrilhões, e ainda por cima elevado à quatrilhonésima potência! Resumindo, cantou “hosana”, e ainda passou do ponto, tanto que os outros de lá, que tinham uma forma de pensamento mais nobre, não queriam nem apertar-lhe a mão num primeiro momento: disseram que ele havia pulado com demasiado ímpeto para o lado dos conservadores. É a índole russa. Repito: é uma lenda. Só estou repassando o que me passaram. Pois veja só que ideias circulam entre nós sobre todos esses assuntos.
— Peguei você! — Ivan exclamou com uma alegria quase infantil, como se tivesse se lembrado de alguma coisa, agora definitivamente. — Essa anedota do quatrilhão de anos fui eu mesmo que inventei! Na época, eu tinha dezessete anos, estava no colégio… essa anedota eu inventei na época e contei para um colega, o sobrenome dele era Koróvkin, isso foi em Moscou… Essa anedota é tão singular que eu não poderia tê-la tirado de lugar nenhum. Eu já ia me esquecendo dela… mas ela me veio à mente agora, inconscientemente — veio à minha mente, não foi você quem contou! Como milhares de coisas vêm à mente às vezes inconscientemente, até quando alguém está sendo levado para a execução… Eu me lembrei num sonho. Então você é esse sonho! Você é um sonho e não existe!
— Pelo entusiasmo com que você me rejeita — riu-se o cavalheiro —, tenho a convicção de que você, de um modo ou de outro, crê em mim.
— Nem um pouco! Não creio nem uma centésima parte!
— Mas a milésima, crê. As doses homeopáticas, afinal, talvez sejam as mais fortes. Reconheça que crê, a décima milésima parte que seja…
— Nem por um minuto! — exclamou Ivan, enraivecido. — Aliás, eu gostaria de crer em você! — ele acrescentou de repente, de modo estranho.
— Ah-ha! Temos aí uma confissão, no entanto! Mas eu sou bondoso, até nisso vou ajudá-lo. Escute: fui eu que peguei você, não você que me pegou! Contei de propósito a sua anedota, que você já tinha esquecido, para você deixar de acreditar em mim definitivamente.
— Mentira! O objetivo da sua aparição é me convencer de que você existe.
— Precisamente. Mas a hesitação, mas a inquietude, mas a luta entre a crença e a descrença — isso às vezes é uma tortura tão grande para alguém consciencioso, justamente como você, que é melhor se enforcar. Foi por saber que acreditava um tantinho em mim que insuflei em você a descrença, de maneira já definitiva, ao contar essa anedota. Eu te conduzo entre a crença e a descrença, alternadamente, e esse é o meu objetivo. É um novo método: afinal, quando você deixar de acreditar em mim completamente, na mesmíssima hora vai começar a jogar na minha cara que eu não sou um sonho, que eu existo de verdade, já conheço você; e é aí que eu terei alcançado o meu objetivo. Mas o meu objetivo é nobre. Eu só lanço em você uma sementinha minúscula de crença, e dela crescerá um carvalho — e ainda por cima um carvalho tamanho que você, sentado nele, desejará juntar-se “aos padres ermitões e às mulheres imaculadas”; pois, secretamente, você quer isso muito, muito mesmo, vai comer gafanhotos, vai se arrastar para o deserto em busca da salvação!
— Então você, seu miserável, está se esforçando pela salvação da minha alma?
— É que é preciso fazer uma boa ação pelo menos em algum momento. Mas você está se irritando, está se irritando, pelo que estou vendo!
— Seu bufão! E você em algum momento tentou um desses aí, dos que comem gafanhotos e ficam dezessete anos rezando no deserto nu, criando mofo?
— Meu queridinho, foi só o que fiz. Você esquece um mundo inteiro, e mundos inteiros, mas num desses você cola, porque um diamante é uma coisa muito rara; uma alma dessas, afinal, por vezes vale toda uma constelação — nós temos a nossa própria aritmética. A vitória é preciosa! E algumas delas, juro por Deus, não estão abaixo de você em termos de desenvolvimento, embora não creia nisso: podem contemplar esses abismos de crença e descrença ao mesmíssimo tempo que, juro, por vezes parecem estar por um fiozinho para desabar “de cabeça para baixo”, como diria o ator Gorbunov.
— Mas e então, ficou de nariz comprido?
— Meu amigo — observou o visitante, em tom sentencioso —, às vezes é melhor ficar de nariz comprido do que sem nariz algum, como ainda há pouco proferiu um marquês adoentado (deve ter sido tratado por um especialista) em confissão a seu pai espiritual, um jesuíta. Eu estive presente — simplesmente um encanto. “Devolva-me o meu nariz!”, ele dizia. E batia no peito. “Meu filho”, tergiversava o padreco, “pelos destinos intangíveis da Providência, tudo se compensa, e uma desgraça visível traz às vezes consigo um proveito extraordinário, ainda que invisível. Se o severo destino privou-o do nariz, seu proveito está no fato de que, pelo resto de sua vida, ninguém mais ousará lhe dizer que o senhor ficou com nariz de palmo e meio.” “Santo padre, isso não é consolo!”, exclamou o desesperado. “Ao contrário, eu ficaria em êxtase pelo resto da vida se ficasse com nariz de palmo e meio, desde que ele estivesse no lugar apropriado!” “Meu filho”, suspirou o padreco, “não se podem exigir todas as dádivas de uma vez, e isso já é uma queixa contra a Providência, que mesmo agora não se esqueceu do senhor; pois, se o senhor vociferar como bradou agora, que estaria disposto, com alegria, a ficar o resto da vida com nariz de palmo e meio, agora mesmo o seu desejo já foi realizado indiretamente: pois, justamente ao perder o nariz, o senhor de todo modo como que ficou de nariz de palmo e meio…”
— Arre, que coisa estúpida! — gritou Ivan.
— Meu amigo, eu só queria fazê-lo rir, mas juro que essa é a verdadeira casuística jesuíta, e juro que tudo isso aconteceu como eu relatei a você, ao pé da letra. Esse caso é recente e me causou muitas preocupações. O infeliz jovem, ao voltar para casa, naquela mesma noite suicidou-se com um tiro; eu fiquei o tempo todo ao lado dele, até o último momento… Quanto a esses confessionários jesuítas, em verdade é a minha diversão mais cara, nos momentos tristes da vida. Mais um caso para você, que aconteceu agorinha, outro dia. Uma moça, uma loirinha normanda, de uns vinte anos, foi falar com o velho padreco. Uma beleza, que corpinho, que natureza — era de babar. Inclinou-se, cochichou ao padreco o seu pecado através da fenda do confessionário. “Como assim, minha filha, será possível que já tenha recaído outra vez?…”, exclamou o padreco. “O, Sancta Maria, o que estou ouvindo: agora não foi com aquele? Mas até quando isso vai continuar, e como não tem vergonha?” “Ah, mon père”, respondeu a pecadora, coberta de lágrimas arrependidas, “ça lui fait tant de plaisir et à moi si peu de peine!”4 Ora, imagine uma resposta dessas! Aí, até eu me afastei: isso é o grito da própria natureza, se preferir, é melhor que a própria inocência! Ali mesmo eu a absolvi de seu pecado e já fazia menção de dar as costas e ir embora, mas imediatamente fui forçado a voltar: ouvi o padreco marcando, através da fenda, um encontro com ela à noite, e o velho era um homem de fibra — mas caiu num instante! Foi a natureza, foi a verdade da natureza que conseguiu o que queria! Que foi, de novo torcendo o nariz, de novo irritado? Já nem sei mais como agradá-lo…
— Deixe-me, você fica martelando no meu cérebro como um pesadelo obsessivo — Ivan deu um gemido doloroso, impotente perante a sua visão —, é tedioso estar com você, é insuportável e torturante! Daria qualquer coisa para enxotá-lo!
— Repito, modere as suas exigências, não exija de mim “tudo que é grandioso e belo” e verá que nós dois passaremos a conviver de maneira amistosa — falou o cavalheiro, em tom grave. — Em verdade, você fica irritado comigo porque não apareci a você com aquele brilho vermelho, “trovejando e reluzindo”, com asas chamuscadas, e sim com esse aspecto tão humilde. Você está ofendido, em primeiro lugar, em seu senso estético, e, depois, em seu orgulho, como quem diz: como pode um diabo tão vulgar entrar na casa de homem tão grandioso? Não, ainda assim há em você essa veiazinha romântica, tão ridicularizada já por Bielínski. Que fazer, é um jovem. Eu até pensei, agora há pouco, quando me preparava para vir à sua casa, em aparecer, de brincadeira, na forma de um conselheiro efetivo de Estado aposentado, que serviu no Cáucaso, com uma Estrela do Leão e do Sol na casaca, mas fiquei absolutamente temeroso, porque você me espancaria só por eu ter ousado pregar na casaca o Leão e o Sol, e não ter pregado pelo menos a Estrela Polar ou Sirius.5 E você continua batendo nessa tecla de que sou estúpido. Mas, Deus meu, eu nem tenho a pretensão de me equiparar a você em inteligência. Mefistófeles, quando apareceu a Fausto, atestou, a respeito de si mesmo, que ele desejava o mal, mas fazia somente o bem. Ora, que ele faça como bem desejar, mas para mim é completamente ao contrário. Talvez eu seja a única pessoa em toda a natureza que ama a verdade e deseja sinceramente o bem. Eu estive lá quando o Verbo que morreu na cruz elevou-se aos céus, carregando em seu peito a alma do ladrão crucificado à sua destra, eu ouvi os gritos de júbilo dos querubins, que cantavam e bradavam: “Hosana”, e o clamor retumbante de êxtase dos serafins, que fez estremecer a terra e toda a criação. E juro por tudo que há de mais sagrado que eu queria aderir ao coro e gritar com todos: “Hosana!”. Já estava saindo, já estava escapando do meu peito… é que, você sabe, eu sou muito sensível e suscetível à estética. Mas o bom senso — oh, a mais infeliz característica da minha natureza — me conteve dentro dos devidos limites mesmo então, e deixei passar o momento! Pois o que, afinal — pensei naquele mesmo instante —, o que teria acontecido depois do meu “Hosana”? Na mesma hora, tudo se extinguiria no mundo, e todos os acontecimentos deixariam de ocorrer. E então, unicamente por dever do ofício e pela minha posição social, fui forçado a sufocar em mim aquele bom momento e permanecer com as minhas sujeiras. Alguém toma toda a honra do bem para si, e, para mim, restam como quinhão só as sujeiras. Mas eu não invejo a honra de viver chupinhando, não sou ambicioso. Por que, dentre todos os seres do mundo, somente eu, unicamente, estou condenado às maldições de todas as pessoas decentes e até a chutes e botinadas? Pois, ao encarnar, por vezes devo aceitar até consequências como essas. É que sei que existe um segredo aí, o qual, porém, não querem me revelar de jeito nenhum, porque então talvez, depois de descobrir do que se trata, eu soltasse um urro de “Hosana”, e imediatamente desaparecia o imprescindível sinal de menos, e começaria a sensatez em todo o mundo, e, com ela, obviamente, seria o fim de tudo, até dos jornais e revistas, porque quem haveria de assiná-los então? Eu sei bem, no fim das contas hei de me conformar, também percorrerei o meu quatrilhão e descobrirei o segredo. Mas, enquanto isso não acontecer, sigo amuado e, com o coração apertado, cumpro a minha função: arruinar milhares para que um se salve. Quantas almas, por exemplo, foi preciso arruinar e quantas reputações honestas foi preciso desonrar para conseguir um só justo, Jó, graças a quem me espicaçaram com tanta maldade nos tempos de outrora! Não, enquanto o segredo não é revelado, para mim existem duas verdades: uma de lá, deles, que por ora me é totalmente desconhecida, e a outra, minha. E ainda não se sabe qual será mais pura… Você caiu no sono?
— Quem dera — gemeu Ivan, com raiva —, tudo que há de estúpido em minha natureza, há muito tempo experimentado, remoído em minha mente, jogado fora, como carniça — você vem me oferecer como se fosse alguma novidade!
— Nem assim eu o contentei! E eu aqui pensando que poderia cativá-lo até com uma narração literária: não me saí tão mal assim com esse “hosana” nos céus, não é verdade? Depois logo veio esse tom sarcástico à la Heine, hein, não é mesmo?
— Não, eu nunca fui um lacaio desses! Como minha alma conseguiu gerar um lacaio como você?
— Meu amigo, eu conheço um senhorzinho russo dos mais magníficos e adoráveis: um jovem pensador e grande amante da literatura e das coisas elegantes, autor de um poema que promete, intitulado “O grande inquisidor”… Era só a ele que eu tinha em mente!
— Eu o proíbo de falar do “Grande inquisidor” — exclamou Ivan, enrubescido de vergonha.
— Bem, e o “Cataclismo geológico”? Está lembrado? Isso sim é que é um poeminha!
— Cale-se, ou mato você!
— Sou eu quem você vai matar? Não, peço desculpas, vou dizer tudo. Eu vim justamente para proporcionar a mim mesmo esse prazer. Oh, eu amo os sonhos dos meus amigos ardentes, jovens, palpitantes com a sede da vida! “Lá, há novas pessoas” — você declarou ainda na primavera passada, quando se preparava para vir para cá —, “elas pretendem destruir tudo e reiniciar a partir da antropofagia. Tolos, não pediram meu conselho! A meu ver, nem era preciso destruir nada, só era preciso destruir na humanidade a ideia de Deus, é por aí que a coisa tem que começar! É por aí, é por aí que tem que começar — ah, cegos, que não compreendem nada! Uma vez que a humanidade tenha abdicado por completo de Deus (e eu creio que esse período, paralelamente aos períodos geológicos, chegará), então por conta própria, sem antropofagia, cairá toda a visão de mundo anterior e, sobretudo, toda a moralidade anterior, e tudo será novo. As pessoas se unirão para tirar da vida tudo que ela pode dar, mas decerto em nome da felicidade e da alegria unicamente neste mundo. O homem se engrandecerá pelo espírito de um orgulho divinal, titânico, e surgirá o homem-deus. Vencendo a natureza de hora em hora, agora sem limites, por sua vontade e pela ciência, o homem, justamente por isso, haverá de experimentar, de hora em hora, um prazer tão grande que ele substituirá todas as antigas esperanças de prazeres celestiais. Cada um saberá que é inteiramente mortal, sem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Pela altivez, compreenderá que não há motivo para se lamuriar que a vida é um instante, e amará seu irmão, agora sem esperar nada em troca. O amor satisfará somente o instante da vida, mas só a consciência de sua instantaneidade já fortalecerá seu fogo na mesma medida em que antes ela se diluía nas esperanças por um amor após a morte e infinito…” bem, e assim por diante, nesse mesmo sentido. Muito encantador!
Ivan estava sentado, tapando os ouvidos com as mãos e olhando para o chão, mas começou a tremer com o corpo todo. A voz prosseguia:
— A questão agora, ponderava o meu jovem pensador, era esta: seria ou não possível que essa era em algum momento chegasse? Se chegasse, tudo estaria resolvido, e a humanidade haveria de arranjar-se definitivamente. Mas, uma vez que, em função da incorrigível estupidez humana, isso talvez não se arranjasse nem em mil anos, seria lícito, a qualquer um que agora já tivesse consciência da verdade, arranjar-se de absolutamente qualquer maneira que desejasse, sobre novos princípios. Nesse sentido, a ele “tudo seria permitido”. Mais ainda: mesmo que essa era nunca chegasse, como de qualquer modo Deus e a imortalidade não existem, ao novo homem seria lícito tornar-se um homem-deus, mesmo sendo o único no mundo inteiro, e, evidentemente, numa nova categoria, com o coração leve, saltar quaisquer obstáculos morais de antes, do homem escravo de antes, se isso lhe for necessário. Para o deus, não há leis! Onde o deus está, ali é o lugar do deus! Onde eu estiver será imediatamente o lugar mais importante… “tudo é permitido”, e pronto! Tudo isso é muito encantador; só que, se eu quiser trapacear, ao que me parece, para que ainda precisaria da sanção da verdade? Mas é que o nosso homenzinho russo moderno é assim: sem a sanção, não se atreve nem a trapacear, a tal ponto pegou amor pela verdade…
O visitante falava com nítido entusiasmo por sua própria eloquência, elevando cada vez mais a voz e olhando para o anfitrião com ar zombeteiro; mas ele não conseguiu terminar: Ivan de repente agarrou um copo da mesa e o atirou com toda a força no orador.
— Ah, mais c’est bête enfin! — exclamou o outro, dando um salto do sofá e enxugando dos dedos os respingos de chá. — Lembrou-me o tinteiro de Lutero! Você mesmo me considera um sonho e joga copos no sonho! Coisa de mulher! Eu bem que suspeitava que você estava só fazendo de conta que tapava os ouvidos, mas que estava escutando…
No caixilho da janela, irrompeu, do lado de fora, uma batida forte e insistente. Ivan Fiódorovitch deu um salto do sofá.
— Escute, é melhor abrir — bradou a visita —, é o seu irmão Aliocha com uma notícia das mais inesperadas e curiosas, eu lhe garanto!
— Quieto, enganador, antes de você eu já sabia que era o Aliocha, eu o pressenti, e é claro que não veio à toa, é claro que veio com uma “notícia”! — exclamou Ivan, frenético.
— Pois abra, abra para ele. Lá fora há uma nevasca, e ele é seu irmão. Monsieur, sait-il le temps qu’il fait? C’est à ne pas mettre un chien dehors…6
A batida continuava. Ivan quis lançar-se em direção à janela; mas algo de repente lhe atou os braços e as pernas. Com todas as forças, ele se retesou, a fim de romper suas amarras, mas em vão. A batida na janela ficava cada vez mais forte e mais alta. Finalmente, as amarras se romperam e Ivan Fiódorovitch ergueu-se de um salto do sofá. Ele olhou ao redor, assustado. Ambas as velas haviam queimado quase até o fim, o copo que ele havia acabado de jogar na sua visita estava diante dele, em cima da mesa, e, no sofá oposto, não havia ninguém. A batida no caixilho da janela, embora continuasse de maneira insistente, não era nem um pouco alta como lhe parecera agora mesmo, durante o sonho, ao contrário, era muito contida.
— Não é um sonho! Não, juro que não foi um sonho, tudo isso acabou de acontecer! — exclamou Ivan Fiódorovitch, lançando-se em direção à janela e abrindo o postigo.
— Aliocha, não dei ordem para não vir? — ele gritou para o irmão, em tom feroz. — Em poucas palavras: o que é que você quer? Em poucas palavras, ouviu?
— Uma hora atrás, Smerdiakov enforcou-se — respondeu Aliocha, do lado de fora.
— Vá ao terraço, já abro para você — disse Ivan e foi abrir para Aliocha.
1. Em latim, no original: “Sou Satanás, e nada humano me é alheio”. Provável referência à comédia O punidor de si mesmo, do dramaturgo e poeta romano Terêncio (c. 185-159 a.C.). (n. e.)
2. Aleksei Alekséievitch Gattsuk (1832-91), arqueólogo e escritor russo, notabilizou-se por publicar em Moscou, nos anos 1870-80, o periódico O Jornal de A. Gattsuk e também o chamado Calendário da Cruz, com comentários ilustrados para cada semana do ano. (n. e.)
3. Citação de uma tirada de Khlestakov, protagonista da peça O inspetor geral (1836), de Gógol. (n. e.)
4. Em francês, no original: “Ah, meu padre, isso lhe dá tanto prazer e a mim custa tão pouco”.
5. Conselheiro efetivo de Estado era uma das mais altas patentes do serviço civil na Rússia tsarista. A Ordem do Leão e do Sol era uma condecoração persa, concedida por vezes a funcionários públicos russos servindo na região do Cáucaso. A Estrela Polar era originalmente uma condecoração sueca. Sirius é uma provável alusão à novela Micrômegas (1752), de Voltaire, cujo protagonista é um “habitante de Sirius”. (n. e.)
6. Em francês, no original: “Senhor, sabe como está o tempo? Não dá nem para botar um cachorro para fora”.
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