viii
O terceiro e último encontro com Smerdiakov
Ele ainda estava na metade do caminho quando se levantou um vento penetrante, seco, o mesmo que soprara de manhã cedo naquele dia, e começou a cair uma neve espessa e seca. Ela caía sobre o solo sem grudar nele, rodopiando ao vento; logo teve lugar uma autêntica nevasca. Smerdiakov morava numa parte da nossa cidade em que quase não havia lamparinas. Ivan Fiódorovitch andava pela escuridão sem notar a nevasca, enxergando a estrada instintivamente. Sua cabeça doía e suas têmporas latejavam torturantemente. Sentia câimbra nas mãos. Pouco antes de chegar à casinha de Mária Kondrátievna, Ivan Fiódorovitch encontrou um bêbado solitário, um mujiquezinho pequeno, com um zipunzinho remendado, que andava em zigue-zague, resmungando e xingando, e que de repente parou de xingar e começou a cantar com sua voz rouca de bêbado: “Ah, Vanka foi para Piter,/ Não vou esperar por ele!”.
Mas ele interrompia no segundo verso e começava a xingar alguém, depois engatava novamente a mesma canção. Ivan Fiódorovitch já sentia um ódio terrível dele, sem nem mesmo pensar sobre isso, e de repente compreendeu por quê. Imediatamente sentiu uma vontade irresistível de dar um soco no mujiquezinho. Justo naquele instante eles ficaram lado a lado, e o mujiquezinho, cambaleando muito, trombou com toda força contra Ivan. Furioso, ele o afastou. O mujiquezinho saiu voando e se estatelou no solo congelado, qual um pedaço de tronco; gemeu dolorosamente apenas uma vez: o-o!, e se calou. Ivan andou até ele. Estava deitado de costas, completamente imóvel, inconsciente. “Vai congelar!”, pensou Ivan, e tornou a caminhar até a casa de Smerdiakov.
Ainda na entrada, Mária Kondrátievna, que correu para abrir a porta com uma vela nas mãos, sussurrou-lhe que Pável Fiódorovitch (ou seja, Smerdiakov) estava muito doente, meu senhor, não é que estivesse deitado, mas quase que sem juízo e até tinha mandado levar o chá, não queria beber.
— O que foi, ele está aprontando? — perguntou Ivan Fiódorovitch, com rispidez.
— Imagina, pelo contrário, está quietinho, só que o senhor não vai conseguir falar muito tempo com ele.
Ivan Fiódorovitch abriu a porta e entrou na isbá.
O recinto estava tão aquecido quanto da última vez, mas notavam-se algumas mudanças: um dos bancos laterais fora retirado, e no lugar dele aparecera um sofá velho e grande, de mogno, estofado de couro. Sobre ele fora feita uma cama com travesseiros brancos bastante limpos. Smerdiakov estava sentado na cama, ainda com o mesmo robe. A mesa fora levada para diante do sofá, de forma que o quarto ficara muito apertado. Sobre a mesa havia um livro grosso de capa amarela, mas Smerdiakov não o lia, parecia estar sentado sem fazer nada. Ele recebeu Ivan Fiódorovitch com um longo olhar silencioso e, pelo visto, não se surpreendeu nem um pouco com sua chegada. Estava muito mudado de rosto, muito mais magro e amarelo. Os olhos estavam fundos, as pálpebras inferiores estavam azuladas.
— Então você está doente mesmo? — parou Ivan Fiódorovitch. — Não vou reter você por muito tempo, nem vou tirar o casaco. Onde posso me sentar?
Ele foi para a outra ponta da mesa, puxou uma cadeira e sentou.
— Por que está olhando calado? Tenho apenas uma pergunta, e, juro, não vou embora da sua casa sem uma resposta: esteve aqui uma senhora, Katerina Ivánovna?
Smerdiakov passou um longo tempo calado, ainda olhando quieto para Ivan, mas de repente agitou a mão e virou o rosto.
— O que foi? — exclamou Ivan.
— Nada.
— Nada o quê?
— Bem, esteve, mas tanto faz. Me deixe em paz, senhor.
— Não, não vou deixar! Diga, quando foi?
— Mas eu até esqueci de me lembrar dela — Smerdiakov sorriu com desprezo, e de repente, de novo, virando o rosto para Ivan, cravou-lhe um olhar desvairado e odioso, o mesmo com que o fitara no encontro anterior, um mês antes.
— O senhor parece doente, veja só como emagreceu, seu rosto sumiu — ele disse para Ivan.
— Deixe minha saúde para lá, responda à pergunta.
— E como seus olhos ficaram amarelados, a parte branca está totalmente amarela. Está se torturando muito, é isso?
Ele deu um risinho de desprezo e desatou a rir.
— Escute, já disse que não vou embora daqui sem uma resposta! — gritou Ivan numa estranha irritação.
— Por que está me importunando, senhor? Por que está me atormentando? — Smerdiakov retrucou, com voz sofrida.
— Ê, que diabo! Não dou a menor importância para você. Responda à pergunta e vou embora.
— Não tenho nada para responder ao senhor! — Smerdiakov baixou os olhos de novo.
— Pode acreditar que vou te obrigar a responder!
— Por que o senhor está tão preocupado? — Smerdiakov de repente cravou os olhos nele, mas não com desprezo, quase com certa aversão. — É porque o julgamento vai começar? Não vai acontecer nada ao senhor, pode se convencer de uma vez por todas! Vá para casa, durma tranquilo, o senhor não tem nada a temer.
— Não te entendo… o que eu poderia temer amanhã? — disse Ivan, surpreso, e de fato algum sobressalto soprou friamente em sua alma. Smerdiakov mediu-o com os olhos.
— Não en-ten-de? — disse lentamente em tom de censura. — Por que um homem inteligente resolve recitar semelhante comédia?
Ivan o olhou em silêncio. O tom inesperado, de uma arrogância absolutamente sem precedentes, com o qual aquele ex-lacaio se dirigia a ele agora, já era insólito. Nem na visita precedente ele o empregara.
— Estou lhe dizendo, não há nada a temer. Não vou declarar nada contra o senhor, não há provas. Veja só, suas mãos estão tremendo. Por que seus dedos estão assim? Vá para casa, não foi o senhor que o matou.
Ivan tremeu, ele se lembrou de Aliocha.
— Sei que não fui eu… — ele como que balbuciou.
— Sa-be? — ecoou Smerdiakov de novo.
Ivan deu um salto e o agarrou pelos ombros:
— Diga tudo, seu miserável! Diga tudo!
Smerdiakov não se assustou nem um pouco. Apenas lhe cravou os olhos com um ódio enlouquecido.
— Então foi você que o matou, se é assim — ele lhe sussurrou, furioso.
Ivan afundou na cadeira, como se tivesse compreendido alguma coisa. Ele sorriu maldosamente.
— Você ainda está falando sobre aquela vez? Está falando da última vez?
— Na última vez o senhor ficou parado na minha frente e entendeu tudo, está entendendo tudo agora também.
— Entendo apenas que você é louco.
— O homem não cansa! Estamos sentados aqui, olhos nos olhos, para que enganar um ao outro, interpretar uma comédia? Ou o senhor ainda quer jogar tudo pra cima de mim, bem na minha cara? O senhor matou, é o assassino principal, eu fui apenas seu comparsa, o criado fiel de Litchard, executei o ato segundo sua palavra.
— Executou? Então foi você que o matou? — Ivan gelou.
Algo como que vibrou em seu cérebro, e o seu corpo inteiro começou a sentir um leve tremor gelado. Smerdiakov, por sua vez, o olhou com surpresa: enfim, talvez estivesse impressionado com a sinceridade do espanto de Ivan.
— Mas será possível que o senhor de fato não soubesse de nada? — ele balbuciou, desconfiado, com um sorriso torto.
Ivan continuava olhando para ele, era como se sua língua estivesse paralisada.
“Ah, Vanka foi para Piter,/ Não vou esperar por ele” — de repente ressoou em sua cabeça.
— Sabe, temo que você seja um sonho, um fantasma sentado diante de mim — balbuciou.
— Aqui não tem fantasma nenhum, senhor, além de nós dois e mais um terceiro. Sem dúvida ele está aqui agora, aquele terceiro, ele se encontra entre nós dois.
— Quem é ele? Quem se encontra aqui? Quem é o terceiro? — Ivan Fiódorovitch perguntou assustado, olhando ao redor, apressado, procurando por alguém em todos os cantos.
— O terceiro é ele, Deus, meu senhor, a própria Providência. Ele está aqui ao nosso lado, só que não adianta o senhor procurá-lo, não vai encontrar.
— Você mentiu quando disse que o matou! — começou a berrar Ivan, furioso. — Ou você é louco, ou está me provocando, como da última vez!
Smerdiakov continuou olhando para ele com curiosidade, como antes, sem medo nenhum. Não conseguia vencer sua desconfiança, ainda achava que Ivan “sabia de tudo”, e apenas fingia para “jogar tudo para cima dele”.
— Espere, senhor — ele disse por fim, com voz fraca, e então, tirando sua perna esquerda de debaixo da mesa, começou a subir a perna da calça. Ele vestia uma longa meia branca e estava calçado com uma pantufa. Sem pressa, Smerdiakov tirou a liga e enfiou seus dedos longos na meia. Ivan Fiódorovitch olhava para ele e de repente começou a tremer num espanto convulsivo.
— Louco! — ele se pôs a berrar e, saltando rapidamente, cambaleou para trás, batendo as costas contra a parede e parando como que grudado nela, todo seu corpo retesado numa linha. Ele olhava para Smerdiakov num horror enlouquecido. Smerdiakov, não menos desorientado com seu espanto, seguia cavando na meia, como se estivesse se esforçando para alcançar algo com os dedos e puxar. Por fim encontrou e começou a tirar. Ivan Fiódorovitch viu que eram uns papéis ou um maço de papéis que Smerdiakov tirou e pôs sobre a mesa.
— Aí está, senhor! — ele disse em voz baixa.
— O quê? — respondeu Ivan, tremendo.
— Tenha a bondade de olhar, senhor — disse Smerdiakov, sempre em voz baixa.
Ivan andou até a mesa, fez menção de pegar o maço e começar a abri-lo, mas de repente abriu os dedos como se tivesse tido contato com um réptil repulsivo, terrível.
— Seus dedos ainda estão tremendo, o senhor está com câimbra, senhor — notou Smerdiakov, e ele mesmo abriu o papel, sem pressa. Do embrulho surgiram três maços de notas furta-cor de cem rublos.
— Está tudo aqui, senhor, todos os três mil, não precisa contar. São seus — ele ofereceu a Ivan, indicando o dinheiro com a cabeça. Ivan afundou na cadeira. Estava branco feito papel.
— Você me assustou… com essa meia… — ele disse, dando um sorriso estranho.
— Será possível, será possível que o senhor não soubesse até agora? — perguntou Smerdiakov mais uma vez.
— Não, não sabia. Sempre achei que havia sido Dmítri. Meu irmão! Meu irmão! Ah! — então agarrou a cabeça com as duas mãos. — Escute: você matou sozinho? Sem meu irmão ou com ele?
— Apenas com o senhor; matei com o senhor, e Dmítri Fiódorovitch é inocente.
— Certo, certo… Depois falamos sobre mim. Por que estou tremendo inteiro?… Não consigo dizer uma palavra.
— O senhor foi ousado na ocasião, “tudo é permitido”, dizia, e agora está tão assustado! — balbuciou Smerdiakov, admirado. — Não quer uma limonada? Peço agora mesmo, senhor. Pode ser bem refrescante. Só que antes seria bom esconder isso.
E novamente indicou o maço com a cabeça. Estava para se levantar e chamar Mária Kondrátievna para que ela preparasse e trouxesse limonada, mas, na tentativa de encontrar algo para encobrir o dinheiro, para que ela não o visse, primeiro tirou fora um lenço, mas como de novo ele se mostrou muito assoado, então ele pegou da mesa o mesmo livro amarelo grosso que Ivan notara ao entrar, e o apoiou sobre o dinheiro. O nome do livro era: As palavras de nosso padre santo Isaque de Nínive. Ivan Fiódorovitch conseguiu ler o título maquinalmente.
— Não quero limonada — ele disse. — Depois falamos sobre mim. Sente-se e conte: como você fez isso? Conte tudo…
— O senhor devia ao menos tirar o casaco, senão vai ficar coberto de suor.
Ivan Fiódorovitch, como se só naquele momento tivesse se dado conta, arrancou o casaco e, sem sair da cadeira, o jogou sobre o banco.
— Conte tudo, por favor, conte!
Ele como que se calou. Estava confiante de que Smerdiakov lhe diria tudo agora.
— Como foi feito? — Smerdiakov suspirou. — Foi feito da maneira mais natural, senhor, a partir de suas próprias palavras…
— Das minhas palavras falamos depois — Ivan o interrompeu de novo, mas já sem gritar como antes, falando as palavras com firmeza e como que se dominando por completo. — Conte apenas em detalhes como você fez… Tudo por ordem. Não se esqueça de nada. Os detalhes, o principal são os detalhes. Eu lhe peço.
— O senhor foi embora, e então eu caí na adega…
— Com epilepsia ou fingindo?
— Pare! O tempo todo, mesmo depois, inclusive no hospital, estava sempre fingindo?
— De jeito nenhum, senhor. Já no dia seguinte, de manhã, ainda antes de chegar ao hospital, fui acometido pela verdadeira, e forte como havia muitos anos não me acontecia. Passei dois dias completamente desmaiado.
— Certo, certo. Siga adiante.
— Puseram-me numa maca, eu sabia que estavam me pondo atrás do tabique, porque todas as vezes que estou doente Marfa Ignátievna me deita em seu quarto, atrás desse mesmo tabique. Eles sempre foram carinhosos comigo, desde meu nascimento. À noite eu gemia, só que baixo. Ainda estava esperando por Dmítri Fiódorovitch.
— Como, esperava que ele fosse a seu quarto?
— Por que ele iria ao meu quarto? Ele estava sendo esperado na casa, porque eu já não tinha dúvida nenhuma de que ele iria naquela noite mesmo, pois, privado de minha presença e sem ter nenhuma notícia minha, ele necessariamente subiria pela cerca, como pudesse, e executaria de qualquer forma.
— E se ele não fosse?
— Então não aconteceria nada, senhor. Sem ele eu não teria me decidido.
— Certo, certo… diga de modo mais claro, não se apresse, e sobretudo não omita nada!
— Eu estava esperando que ele matasse Fiódor Pávlovitch… isso com certeza, senhor. Porque eu já o havia preparado… nos últimos dias… e, o mais importante, ele sabia daqueles sinais. Com sua sede de vingança e sua fúria, que vinham se acumulando naqueles dias, sem dúvida ele acabaria conseguindo entrar na casa por meio dos sinais. Não há dúvida. E eu estava esperando por ele, senhor.
— Pare — interrompeu Ivan. — Pois se ele tivesse matado, teria pegado o dinheiro e levado embora, pois era isso que você havia intuído, não? O que você ia conseguir depois disso? Não compreendo.
— Mas ele nunca acharia aquele dinheiro. Fui eu que lhe disse que o dinheiro estava embaixo do colchão. Só que era mentira, senhor. Primeiro estava no cofre, estava lá. Depois, como eu era a única pessoa em toda humanidade em quem ele confiava, induzi Fiódor Pávlovitch a transferir esse mesmo envelope com dinheiro para o canto da imagem de santo, porque lá absolutamente ninguém adivinharia, sobretudo se estivesse com pressa. Então ele estava lá, o envelope, no quarto dele, no canto atrás dos santos. E debaixo do colchão seria tão engraçado de deixar, no cofre ao menos fica trancado à chave. E agora todos acreditaram que estivesse debaixo do colchão. Que raciocínio bobo, senhor. Assim, se fosse Dmítri Fiódorovitch que tivesse executado o assassinato, ele não teria achado nada, e sairia correndo apressado, com medo do menor ruído, como sempre acontece com os assassinos, caso contrário seria preso. Então eu sempre teria a oportunidade, no dia seguinte ou até naquela mesma noite, de enfiar a mão por de trás da imagem de santo e pegar esse mesmo dinheiro, isso sempre seria atribuído a Dmítri Fiódorovitch. Eu sempre podia contar com isso.
— Bem, se ele não matasse, mas apenas espancasse?
— Se ele não matasse, eu, claro, não teria ousado pegar o dinheiro e ficaria na mesma. Mas fiz esse cálculo também, de que ele o espancaria até deixá-lo inconsciente, e nesse momento eu teria tempo de pegar o dinheiro, e depois diria a Fiódor Pávlovitch que fora Dmítri Fiódorovitch que o espancara e que levara o dinheiro.
— Pare… estou confuso. Quer dizer que Dmítri matou, e você só pegou o dinheiro?
— Não, não foi ele que matou, senhor. Ora, mesmo agora eu poderia lhe dizer que o assassino era ele… mas não quero mentir para o senhor porque… porque se de fato, como eu mesmo vejo, o senhor não estava entendendo nada até o presente momento e não está fingindo para mim, para jogar na minha cara sua evidente culpa, então ainda assim o senhor tem culpa por tudo, pois sabia do assassinato e me incumbiu de matar, e o senhor, mesmo sabendo de tudo, foi embora. É por isso que nesta noite quero lhe provar que o assassino principal em tudo isso é apenas o senhor, e eu mesmo não sou o principal, apesar de ter matado. Enquanto o senhor é o legítimo assassino!
— Por quê, por que eu sou o assassino? Ah, meu Deus! — Ivan por fim não se conteve, esquecido de que adiara para o fim da conversa a parte que lhe dizia respeito. — Isso tudo é por aquela mesma história de Tchermachniá? Espere, diga, por que você precisava da minha aquiescência, se é que você encarou Tchermachniá como uma aquiescência? Como explica isso agora?
— Certo de sua aquiescência, eu já teria a garantia de que, ao voltar, o senhor não faria barulho pela perda dos três mil, se por algum motivo a polícia desconfiasse de mim em vez de Dmítri Fiódorovitch, ou de mim com Dmítri Fiódorovitch como cúmplices; pelo contrário, me defenderia… E depois, ao receber a herança, poderia me recompensar pelo resto da vida, pois o senhor teria tido o prazer de receber esse dinheiro por meu intermédio, caso contrário, se ele se casasse com Agrafiena Aleksándrovna, o senhor não levaria nem um tostão.
— Ah! Então você pretendia me atormentar depois, por toda a vida! — Ivan falou entredentes. — E se na ocasião eu não tivesse viajado, mas testemunhado contra você?
— Mas o que o senhor poderia testemunhar então? Que eu o convenci a ir para Tchermachniá? Isso é uma bobagem. Além do mais, depois de nossa conversa o senhor iria ou ficaria. Se ficasse, não teria acontecido nada, pois eu saberia que o senhor não queria essa ação, e não a teria levado a cabo. Mas, se fosse, então para mim isso significava a confirmação de que não ousaria testemunhar contra mim no julgamento e me perdoaria pelos três mil. E depois o senhor não poderia me perseguir em hipótese alguma, porque então eu contaria tudo no tribunal, quer dizer, não que eu havia roubado e matado — isso não diria —, mas que o senhor me incitara a roubar e matar, e eu apenas não concordara. Por isso eu precisava da sua aprovação, para que o senhor não pudesse me apertar, pois onde encontraria as provas? Já eu, eu sempre poderia apertá-lo revelando sua ânsia pela morte de seu pai, e, pode acreditar, entre o público, todos acreditariam nisso e o senhor teria vergonha por toda a vida.
— Então eu tinha, eu tinha tamanha ânsia, tinha? — Ivan falou de novo entredentes.
— Sem dúvida tinha, senhor, e sua anuência me permitiu essa ação naquele momento — Smerdiakov olhou para Ivan com firmeza. Ele estava muito fraco e falava com a voz baixa e cansada, mas algo oculto em seu íntimo o incendiava, era evidente que ele tinha alguma intenção. Ivan pressentia isso.
— Continue — Ivan lhe disse —, siga contando sobre aquela noite.
— Então vamos em frente, senhor! Eu estava deitado e escutei o patrão como que gritando. E com isso Grigóri Vassílievitch se levantou e saiu, e então pôs-se a gritar, depois tudo era silêncio e trevas. Eu estava deitado, esperando, o coração saltando na boca, não aguentava mais. Enfim me levantei e saí — vi à esquerda que a janela do quarto dele que dava para o jardim estava aberta, e dei um passo à esquerda para verificar se ele estava vivo ou não, e o escutei se mexendo e gemendo, ou seja, estava vivo. Ê, pensei! Me aproximei da janela, gritei-lhe: “Sou eu”, disse. E ele para mim: “Ele veio, veio, fugiu!”. Ou seja, quer dizer que Dmítri Fiódorovitch havia estado lá. “Matou Grigóri!” — “Onde?”, sussurrei. “Ali, no canto”, ele apontou, também sussurrando. “Espere”, falei. Fui para o canto procurar Grigóri Vassílievitch perto da parede e dei com ele deitado, coberto de sangue, inconsciente. Ou seja, era verdade que Dmítri Fiódorovitch havia estado ali, me veio à cabeça imediatamente, e ali mesmo decidi acabar com tudo aquilo de uma vez, já que, se Grigóri Vassílievitch ainda estivesse vivo, ele não veria nada, pois estava deitado e inconsciente. Havia um risco, porém: que Marfa Ignátievna acordasse de repente. Pensei isso naquele minuto, só que aquela ânsia me tomou por inteiro, até me tirou o fôlego. Me aproximei de novo da janela do patrão e disse: “Ela está aqui, ela veio, Agrafiena Aleksándrovna chegou, está pedindo licença para entrar”. Então ele começou a tremer de corpo inteiro, como um bebê: “Aqui onde? Onde?”, ele dizia e gemia, ainda sem acreditar. “Ali”, falei, “está parada, abra!” Ele olhava para mim pela janela e ora acreditava, ora não, mas tinha medo de abrir, já estava com medo de mim, acho. E era até engraçado: de repente decidi dar aquelas batidinhas no batente, para dizer que Grúchenka havia chegado, e fiz isso diante dos olhos dele: não acreditara nas palavras, mas quando dei as batidinhas, ele imediatamente correu para abrir a porta. Abriu. Tentei entrar, mas ele estava parado, seu corpo me impedindo de entrar. “Onde está ela, onde está ela?”, ele olhava para mim e tremia. Bem, pensei: se tem tanto medo de mim, isso é ruim! E então até minhas pernas se enfraqueceram de medo de que ele não me deixasse entrar, ou gritasse, ou que Marfa Ignátievna viesse correndo, ou fosse quem fosse aparecesse, já não lembro, eu mesmo devia estar pálido parado na frente dele. Sussurrei-lhe: “Bem ali, ela está ali debaixo da janela, como o senhor não viu?”, falei. “Então traga-a para cá, traga-a para cá!” “Mas ela está com medo”, falei, “se assustou com o grito, se escondeu no arbusto, vá chamá-la”, falei, “chame-a daqui.” Ele saiu correndo, se aproximou da janela, pôs a vela no batente. “Grúchenka”, gritou, “Grúchenka, você está aqui?” Ele gritava, mas não queria se debruçar na janela, não queria se afastar de mim, por esse mesmo medo, pois já estava com muito medo de mim e por isso não ousava se afastar de mim. “Ela está ali”, falei (me aproximei da janela, eu mesmo me pus inteiro para fora), “ela está lá fora no arbusto, está rindo do senhor, viu?” Ele se virou de repente, começou a tremer inteiro, estava louco de paixão, e se expôs inteiro para fora da janela. Então eu peguei aquele mesmo peso de papel de ferro que ficava na mesa dele, o senhor lembra, deve pesar umas três libras, levantei o braço e bati por trás, com a ponta bem na têmpora. Ele nem gritou. Escorregou, e eu bati outra vez e uma terceira. Na terceira, senti que havia quebrado o crânio. De repente ele caiu de costas, com o rosto para cima, todo ensanguentado. Examinei: não havia sangue em mim, não tinha espirrado, limpei o peso de papel, pus de volta no lugar, fui atrás da imagem de santo, tirei o dinheiro do envelope, joguei o envelope no chão e aquela mesma fitinha rosa ao lado. Desci para o jardim, tremendo inteiro. Fui direto para aquela macieira que tem um oco — o senhor conhece esse oco, eu já estava de olho nele havia um bom tempo, ali dentro já tinha um trapo e um papel, eu tinha preparado fazia muito tempo; embrulhei a quantia no papel, depois envolvi no trapo e enfiei bem fundo. E assim ela ficou lá mais de duas semanas, essa mesma quantia; tirei depois, quando saí do hospital. Voltei para minha cama, me deitei e fiquei pensando, assustado: “Se Grigóri Vassilievitch estiver morto de vez, então isso pode terminar muito mal, e se não estiver morto e recuperar a consciência, então vai terminar muito bem, porque ele vai ser testemunha de que Dmítri Fiódorovitch veio, ou seja, que foi ele que matou e levou o dinheiro”. Então comecei a gemer de dúvida e impaciência, para que Marfa Ignátievna acordasse logo. Ela por fim acordou, correu até mim, e quando viu que Grigóri Vassílievitch não estava ali, saiu correndo e escutei seus berros no jardim. Então tudo isso se arrastou noite afora, e eu já me tranquilizei por completo.
O narrador parou. Ivan o escutava o tempo todo num silêncio mortal, imóvel, sem tirar os olhos dele. Já Smerdiakov, ao contar, apenas de vez em quando olhava para ele, ficava a maior parte do tempo espichando os olhos para o lado. Ao terminar o relato, ele estava claramente agitado e respirava com dificuldade. Em seu rosto viam-se gotinhas de suor. Porém, não era possível adivinhar se estava sentindo arrependimento ou não.
— Pare — Ivan secundou, tentando entender. — E a porta? Se ele só abriu a porta para você, então como Grigóri foi capaz de vê-la aberta antes? Porque no fim Grigóri de fato a viu aberta antes de você, não?
Era surpreendente que Ivan fizesse essas perguntas com a voz mais tranquila, até mesmo num tom completamente diferente, totalmente benévolo, de tal modo que se alguém abrisse a porta naquele momento e olhasse para os dois da soleira, sem dúvida concluiria que estavam sentados conversando pacificamente sobre algum assunto banal, mas também interessante.
— Quanto àquela porta aberta que Grigóri Vassílievitch supostamente viu, foi só o que ele acha que viu — Smerdiakov deu um sorriso torto. — Pois, acredite, aquilo não é um ser humano, é um burro teimoso: não viu, mas achou que viu — aí está, ninguém tira isso da cabeça dele. Isso foi uma sorte que caiu sobre nós, de ele ter inventado isso, porque depois disso sem dúvida Dmítri Fiódorovitch será condenado.
— Escute — disse Ivan Fiódorovitch, como que parecendo se perder de novo e se esforçando para entender —, escute… Ainda queria lhe perguntar muita coisa, mas esqueci… Eu sempre esqueço e me confundo… Ah, sim! Diga-me apenas isso: por que você abriu o lacre do envelope e o deixou ali mesmo no chão? Por que simplesmente não levou o envelope? Quando você estava contando, me pareceu que você estivesse falando que era preciso agir assim com o envelope… mas por quê, não consigo entender…
— Fiz isso por uma certa razão, senhor. Pois se fosse alguém que conhecesse o ambiente e estivesse familiarizado com o local, como eu, por exemplo, que já tivesse visto aquele dinheiro antes, esse homem poderia ter ele mesmo posto o dinheiro no envelope e visto com os próprios olhos ele ser lacrado e sobrescrito, então por qual motivo esse homem, se por exemplo fosse ele que tivesse matado, tentaria, depois do assassinato, tirar o lacre do envelope, ainda mais numa pressa dessas, tendo a certeza de que aquele dinheiro estaria de fato no envelope? Pelo contrário, se fosse um ladrão, como eu, por exemplo, ele simplesmente enfiaria esse envelope no bolso, sem tirar o lacre, e fugiria o mais depressa possível. Com Dmítri Fiódorovitch seria totalmente diferente: ele só sabia do envelope de ouvir falar, e quando conseguisse pegá-lo, por exemplo, de debaixo do colchão, rapidamente tiraria o lacre na hora, para conferir se o dinheiro estava lá de fato. E jogaria o envelope ali mesmo, já sem conseguir raciocinar que estava deixando para trás uma prova contra si, porque não era um ladrão habitual e antes nunca havia roubado nada abertamente, pois é um nobre de nascença, e se agora havia decidido roubar, justamente seria como se não roubasse, mas apenas tivesse vindo pegar de volta o que lhe pertencia, como havia anunciado previamente para toda a cidade e até se gabava em voz alta diante de todos que iria tomar de Fiódor Pávlovitch o que lhe pertencia. Não expus claramente essa ideia para o promotor em meu interrogatório, pelo contrário, como que dei uma pista, como se eu mesmo não entendesse, e como se ele mesmo tivesse pensado isso, e não eu que tivesse dito — e assim, o promotor até salivou com essa pista minha.
— Mas será possível, será possível que você tenha pensado tudo isso no local? — exclamou Ivan Fiódorovitch fora de si, surpreso. Ele olhou de novo para Smerdiakov, espantado.
— Misericórdia, por acaso seria possível inventar tudo isso numa pressa daquelas? Tudo foi pensado de antemão.
— Bem… bem, isso quer dizer que o próprio diabo o ajudou! — Ivan Fiódorovitch exclamou de novo. — Não, você não é bobo, é bem mais inteligente do que eu pensava…
Ele se levantou com a evidente intenção de andar pelo quarto. Sentia uma angústia terrível. Mas como a mesa bloqueava a passagem, e entre ela e a parede era preciso praticamente se esgueirar, ele apenas deu a volta e sentou de novo. Talvez por não ter conseguido passar, de repente ficou irritado, tanto que de repente se pôs a gritar, tomado pelo desvario de antes:
— Escute, infeliz, você é um homem desprezível! Será que não entende que se eu ainda não o matei até agora foi apenas porque vou te acusar no julgamento de amanhã. Deus está vendo — Ivan levantou o braço —, talvez eu também tenha sido culpado, talvez de fato eu tivesse esse desejo, de que… meu pai morresse, mas, juro, não sou tão culpado quanto você pensa, e talvez não o tenha estimulado em nada. Não, não, não o estimulei! Mas, mesmo assim, amanhã vou depor, amanhã mesmo, já decidi! Vou dizer tudo, tudo! Mas vamos aparecer juntos, eu e você! E mesmo que você fale de mim no tribunal, mesmo que preste testemunho — aceito e não tenho medo de você; eu mesmo confirmarei tudo! Mas você também deve admitir diante do juiz! Deve, deve, vamos juntos! Assim será!
Ivan falava de modo solene e enérgico, e era visível por seu olhar brilhante que seria assim.
— O senhor está doente, estou vendo, completamente doente. Seus olhos estão totalmente amarelos, senhor — falou Smerdiakov, mas sem nenhum tipo de escárnio, como que condoído.
— Vamos juntos! — repetiu Ivan. — E se você não for, confessarei sozinho.
Smerdiakov ficou calado, como se refletisse.
— Nada disso vai acontecer, e o senhor não vai — ele por fim declarou, categoricamente.
— Você não está me entendendo! — Ivan exclamou com reprovação.
— O senhor vai ter demasiada vergonha se confessar tudo a seu respeito. E além disso será inútil, completamente, senhor, porque vou dizer sem rodeios que nunca lhe disse nada disso, e que o senhor ou está com alguma doença (e é o que parece) ou teve tanta pena de seu irmão que sacrificou a si mesmo, e inventou algo contra mim, já que de toda forma sempre me considerou uma mosca, e não um ser humano. Mas quem vai acreditar no senhor, e que provas tem, nem que seja uma só?
— Escute, esse dinheiro que você me mostrou agora, está claro que foi para me convencer.
Smerdiakov tirou o Isaque de Nínive de cima do maço e o pôs de lado.
— Pegue esse dinheiro e leve embora — suspirou Smerdiakov.
— Claro que vou levar! Mas por que você vai me dar, se matou por ele? — Ivan olhou para ele com grande espanto.
— Não preciso dele para nada — Smerdiakov disse com a voz trêmula, agitando a mão. — Antes eu imaginava que iniciaria a vida com esse dinheiro, em Moscou ou, melhor ainda, no exterior, tinha esse sonho, e mais ainda porque “tudo é permitido”. Isso foi o senhor que me ensinou, de verdade, pois me falou muito isso naquela época: pois se Deus não é infinito, então não há nenhuma virtude, e ela não é de forma alguma necessária. Isso o senhor realmente me disse. E foi assim que raciocinei.
— Chegou a isso com seu próprio raciocínio? — Ivan deu um sorriso torto.
— Com sua orientação, senhor.
— E quer dizer que agora começou a acreditar em Deus, se vai devolver o dinheiro?
— Não, senhor, não comecei a acreditar — murmurou Smerdiakov.
— Então por que vai devolver?
— Chega… é inútil, senhor! — Smerdiakov agitou a mão de novo. — O senhor mesmo na ocasião disse tudo, falou que tudo é permitido, e agora por que está tão alarmado? Quer até testemunhar contra si mesmo… Só que não vai acontecer nada! O senhor não vai testemunhar — Smerdiakov declarou de novo, com firmeza e convicção.
— Você verá! — falou Ivan.
— Não, isso não vai ocorrer. O senhor é muito inteligente. Ama dinheiro, sei disso, também ama ser respeitado, porque é muito orgulhoso, ama desmedidamente os encantos femininos, e acima de tudo ama viver na prosperidade sossegada, sem se curvar a ninguém — isso acima de tudo, senhor. Não quer estragar sua vida para sempre assumindo tamanha vergonha no tribunal. O senhor é como Fiódor Pávlovitch — de todos os filhos, o senhor saiu o mais parecido com ele, com a mesma alma dele.
— Você não é bobo — falou Ivan, estupefato; o sangue lhe subira ao rosto. — Antes eu o achava bobo. Agora você é um homem sério! — ele comentou, como se observasse Smerdiakov com novos olhos.
— Me achava bobo por orgulho seu. Aceite esse dinheiro, senhor.
Ivan pegou os três maços de notas e enfiou tudo no bolso, sem embrulhar.
— Amanhã vou mostrar isso no tribunal — ele disse.
— Ninguém vai acreditar, agora o senhor tem bastante dinheiro, pegou do cofre e trouxe.
Ivan se levantou.
— Eu lhe repito, se não te matei, foi apenas porque você me é necessário amanhã, lembre-se disso, não se esqueça!
— E daí? Me mate. Me mate agora — Smerdiakov falou de forma estranha, de repente, olhando de forma estranha para Ivan. — Não ousa fazer isso — ele acrescentou, sorrindo com amargura —, não ousa nada, antes era um homem ousado!
— Até amanhã! — gritou Ivan e fez menção de ir embora.
— Espere… mostre-me mais uma vez.
Ivan tirou as notas e as mostrou para ele. Smerdiakov olhou-as por uns dez segundos.
— Pois bem, vá — ele disse, agitando a mão. — Ivan Fiódorovitch! — gritou de novo.
— O que foi? — Ivan se voltou, já saindo.
— Adeus, senhor!
— Até amanhã! — Ivan gritou outra vez e saiu da isbá. A nevasca continuava. Ele deu os primeiros passos com energia, mas de repente como que começou a cambalear. “É algo físico”, pensou, sorrindo. Certa felicidade lhe passou pela alma. Ele sentia uma firmeza infinita: o fim das hesitações que ultimamente o atormentavam de forma tão terrível! A decisão estava tomada, “e já não mudaria”, ele pensou com alegria. Naquele instante ele tropeçou em algo e por pouco não caiu. Parou e distinguiu a seus pés o mujiquezinho que ele havia derrubado, o homem continuava deitado do mesmo jeito, naquele mesmo lugar, inconsciente e imóvel. A nevasca já cobrira de neve quase todo seu rosto. Ivan de repente o agarrou e o puxou para si. Vendo a luz de uma casinha à direita, ele se aproximou, bateu no contravento e foi atendido por um pequeno comerciante, proprietário da casinha; pediu ajuda para arrastar o mujique até o posto policial, prometendo dar-lhe três rublos. O comerciante se aprontou e saiu. Não vou ficar descrevendo os detalhes, nem como Ivan Fiódorovitch naquele momento conseguiu alcançar seu objetivo e acomodar o mujique no posto policial, e pedir que providenciassem na mesma hora um médico que o examinasse, e nem que além do mais também deu uma mão generosa “para as despesas”. Direi apenas que tudo levou quase uma hora. Mas Ivan Fiódorovitch ficou muito satisfeito. Seus pensamentos se expandiam e sua mente trabalhava. “Se eu não tivesse tomado uma decisão tão firme para amanhã”, pensou de repente, com deleite, “eu não teria parado por uma hora inteira para acomodar um mujiquezinho, mas teria passado reto por ele e não teria dado a mínima para o fato de que ele iria congelar… Estou mesmo com forças para cuidar de mim”, pensou no mesmo instante, ainda com grande deleite, “e eles decidiram que eu estava ficando louco!” Ao chegar em casa, ele parou com uma súbita questão: “Não seria preciso ir já, agora mesmo, falar com o promotor e explicar tudo?”. Decidiu a questão dirigindo-se para casa de novo: “Amanhã, tudo junto!”, murmurou para si, e, estranhamente, quase toda a alegria, toda sua satisfação consigo mesmo passou num átimo. Quando entrou em seu quarto, algo gelado tocou-lhe de súbito o coração, como se fosse uma lembrança, ou melhor, a recordação de algo torturante e repulsivo que se encontrava justamente no quarto naquele momento, naquela hora, e que já estava antes. Ele desabou cansado no sofá. A velha trouxe o samovar, ele fez chá, mas não tocou nele; dispensou a velha até o dia seguinte. Ficou sentado no sofá, a cabeça a rodar. Ele sentia que estava doente e sem forças. Estava a ponto de adormecer, mas levantou-se inquieto e andou pelo quarto para espantar o sono. Em alguns instantes lhe parecia estar num delírio. Mas não era uma doença que o tomava cada vez mais; sentando-se novamente, ele de vez em quando olhava ao redor, como se estivesse vendo alguma coisa. Isso aconteceu várias vezes. Por fim seu olhar fixou-se num ponto. Ivan deu um sorriso, mas um rubor de ira lhe subiu ao rosto. Ele passou muito tempo sentado no mesmo lugar, apoiando fortemente a cabeça com ambas as mãos, mas ainda assim espichava os olhos para o ponto de antes, na parede oposta ao sofá. Pelo visto algo o irritava ali, algum objeto, aquilo o inquietava, torturava.
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