Nota sobre esta tradução
cecília rosas e lucas simone
A obra de Dostoiévski só veio a se tornar mais conhecida fora da Rússia pelo menos cinco anos depois de sua morte, com a publicação do livro O romance russo, de Eugène-Melchior de Vogüé. No ensaio, o crítico francês defendia a centralidade das obras de autores como Dostoiévski, Tolstói e Turguêniev para a literatura europeia, ensejando uma onda de traduções desses autores na Europa ocidental. No caso de Dostoiévski, no entanto, a difusão de sua obra conviveu com certa tendência à correção de seu estilo, muitas vezes áspero e tortuoso, sob a justificativa de tornar a leitura mais fluida para o público não russo.
No Brasil, como a obra de Dostoiévski foi inicialmente difundida por meio de traduções indiretas baseadas em edições francesas e espanholas, a tradição suavizante de seu texto se manteve em boa medida. Isso, no entanto, não diminui a relevância dessas traduções, tendo em vista que a obra dostoievskiana causou grande impacto na literatura brasileira, por meio de autores como Machado de Assis e Graciliano Ramos, por exemplo, que acessaram Dostoiévski por traduções indiretas ou o leram em francês, inglês, alemão e italiano.
Em sua pesquisa sobre a recepção da literatura russa no Brasil,1 Bruno Gomide atenta para o que chamou de “febres russas” no Brasil, três grandes picos de interesse do público por essa literatura: o primeiro, nos anos 1920; o segundo, em meados do século; e, por fim, o terceiro, quando em 2001 foi publicada a tradução direta do russo de Crime e castigo, feita por Paulo Bezerra. A marca do último pico é a exigência, por parte do público, de traduções diretas, ainda que grandes tradutores como Iuri Zeltsov, Boris Schnaiderman e Tatiana Belinky já tivessem publicado versões diretas antes.
os irmãos karamázov: peculiaridades
Além de ser o último romance de Dostoiévski, publicado em 1881, boa parte da crítica o considera a obra mais importante do autor, uma espécie de ponto alto que retoma e elabora questões que atravessaram toda a sua produção literária. Nele, Dostoiévski aborda suas grandes obsessões morais, religiosas, sociais e estéticas. Otto Maria Carpeaux veria neste livro todas as vertentes dos grandes romances de Dostoiévski:
É um romance policial psicológico, como Crime e castigo; é, quanto a Dmítri, a história de um idealista mal julgado, como O idiota; é, quanto a Ivan, o romance dos intelectuais ateus, como Os demônios; é, quanto a Aliocha, a história da formação de um [homem] novo, como O adolescente.2
Também neste livro, o estilo é carregado de cacos, tiques de fala, repetições, cacofonias e imprecisões gramaticais, lexicais, ortográficas. Em Dostoiévski: Prosa poesia, Boris Schnaiderman3 enxerga nos procedimentos estilísticos do autor uma antecipação da estética das vanguardas, em que se privilegia o caráter de estranhamento. A prosa de Dostoiévski tem, nesse sentido, um aspecto quase poético, que desestabiliza a leitura e põe a própria linguagem em primeiro plano.
No Brasil, há tanto traduções indiretas de Os Irmãos Karamázov, como a de Rachel de Queiroz, de 1952, e a de Natália Nunes e Oscar Mendes, de 1963, quanto diretas, como a pioneira de Boris Schnaiderman, de 1944. Contudo, após a primeira edição, a obra não foi mais reimpressa a pedido do tradutor, que a considerava defeituosa, reflexo de sua inexperiência de início de carreira. Assim, as traduções diretas do russo a que o público brasileiro tinha acesso até o momento eram a de Paulo Bezerra e a dos portugueses Nina e Filipe Guerra. A partir de agora, junta-se a esse rol a presente tradução.4
A recriação de Os irmãos Karamázov em português precisa estar atenta aos procedimentos estilísticos empregados pelo autor, sob risco de deixar de fora toda uma dimensão da obra. Assim, a reiteração da locução “de repente”, hoje já bastante pesquisada, suscita no leitor a noção do caráter súbito dos acontecimentos. No mesmo sentido, a profusão de cacos como “uma espécie de”, “meio que”, “como que”, “quase que” confere uma indeterminação constante à ação e à fala das personagens.
Além dos traços gerais de estilo, cada personagem de Dostoiévski tem uma voz particular. Ao analisar esse aspecto da literatura do autor, Mikhail Bakhtin, tomando emprestado um conceito da música, denominou seus romances de polifônicos, já que neles a voz de cada personagem é limitada e contraposta pelas vozes das outras personagens e do próprio autor, formando uma espécie de grande coral romanesco. Nas palavras de Bakhtin,
suas obras marcam o surgimento de um herói cuja voz se estrutura do mesmo modo como se estrutura a voz do próprio autor no romance comum. A voz do herói sobre si mesmo e o mundo é tão plena como palavra comum do autor; […] ela possui independência excepcional na estrutura da obra, é como se soasse ao lado da palavra do autor.5
Assim, cada personagem tem um registro, vocabulário e ritmo próprios, essenciais na composição desse coral polifônico. No caso de alguns deles, como Grúchenka, Fiódor Karamázov, Smerdiakov e Sneguiriov, são essas peculiaridades que delimitam a própria constituição da personagem. Fiódor, por exemplo, fala quase sempre por meio de uma paródia de seu interlocutor,6 um procedimento de linguagem que marca seu cinismo e bufonaria. Já o subcapitão Sneguiriov — um tipo literário clássico entre as personagens de Dostoiévski, a figura pobre e reiteradamente humilhada que não perde o senso de dignidade e orgulho — abusa do slovoiers, partícula que se acrescentava à palavra para indicar respeito. A identificação de Sneguiriov com a partícula chega a tal ponto que ele propõe sarcasticamente a troca de seu sobrenome para “Meussenhorov”. Em geral traduzida como “senhor”, para a tradução dessa partícula optamos também por outras formas, como “meu senhor” e “meu caro”.
No caso das personagens religiosas, a linguagem tem um significado especial. Zossima, com sua dicção simples e clara, ecoa a austeridade plácida da sua experiência religiosa. No livro vi, ao narrar a vida do ancião, o autor vale-se do formato das narrativas hagiográficas que tanto apreciava. Figura de contraponto a Zossima, o padre Ferapont apresenta uma linguagem também carregada de procedimentos formais do discurso religioso, mas em aspectos muito distintos do discurso de Zossima. Ferapont fala fazendo uso de termos do eslavo eclesiástico — língua que tem uma raiz comum com o russo, mas que a partir da era moderna só é usada nos textos e ritos ortodoxos —, o que confere a sua linguagem uma característica arcaica e religiosamente elevada.
Da mesma forma, há uma série de termos do vocabulário do cristianismo ortodoxo russo do século xix que em geral é pouco familiar ao leitor brasileiro e diverge consideravelmente do léxico religioso local. A maioria é constituída por helenismos, incorporados pouco a pouco desde a introdução do cristianismo ortodoxo entre os eslavos orientais, cerca de mil anos atrás. Graças a diversos fatores, principalmente a relação dúbia entre a Rus, entidade política que precedeu a Rússia nos tempos medievais, e a Grécia durante todo esse período, esses termos gregos foram ora transliterados para o eslavo (como é o caso de stikhira, ieroskhimonakh etc.), ora adaptados ao eslavo por meio de calques semânticos (stárets, trebnik, pravoslávie, para citar alguns exemplos). Na tradução, usamos o mesmo critério: aportuguesar apenas a grafia dos termos originalmente eslavizados, empregando sempre que possível as grafias consagradas pelas comunidades ortodoxas brasileiras (estiquira, hierosquemonge), e usar um equivalente latino quando o termo original era um calque semântico do grego (ancião, Livro das Horas). Em algumas situações, quando o termo grego era consagrado em português (ortodoxo, cucúlio etc.), optamos por ele.
Além dos termos religiosos, precisamos nos debruçar sobre o discurso jurídico daquela época. Como precursor da narrativa policial que busca o culpado de um crime, o romance emprega uma vasta gama de termos do âmbito policial e jurídico. A narrativa transcorre pouco depois das reformas alexandrinas, que introduziram uma série de novidades na sociedade russa e, por conseguinte, novos conceitos e novas palavras. Naquele momento, foi criado um sistema jurídico aos moldes ocidentais, com terminologia que emulava a legislação francesa. Daí os termos soarem mais ou menos familiares ao leitor brasileiro, ainda que a equivalência não seja totalmente perfeita.
No âmbito social, a Rússia do período alexandrino ainda era uma sociedade predominantemente agrária, profundamente desigual sob quase todos os aspectos e, aos olhos do leitor contemporâneo, bastante arcaica. Daí a opção pelos nomes populares das doenças e por definições menos precisas, evitando a nomenclatura técnica contemporânea. Foram mantidas as medidas tradicionais de volume, peso, comprimento etc., além dos diversos tipos de moedas e documentos com valor monetário, não inteiramente familiares ao público brasileiro, a despeito da dificuldade que isso pode gerar ao leitor.
É importante lembrar ainda que a Rússia tsarista era um império multiétnico, no qual conviviam russos, alemães étnicos, judeus e dezenas de outros povos, além das populações de regiões fronteiriças. Dostoiévski emula o jeito de falar de alguns desses grupos, nem sempre de maneira lisonjeira. No caso da paródia da fala de estrangeiros, preferimos abrasileirar a grafia sempre que possível para reproduzir o procedimento do original, que quase sempre russifica os termos de outros idiomas.
Por fim, traduzir uma obra como Os irmãos Karamázov envolve não só um profundo mergulho na obra de Dostoiévski, mas em toda uma tradição de ecos e reverberações desta obra na literatura posterior. Um dos exemplos mais claros da contemporaneidade talvez seja a obra da autora Svetlana Aleksiévitch, fortemente influenciada pelo autor em sua abordagem sensível do sofrimento humano, e que, em termos formais, atualiza com sua composição de vozes a concepção bakhtiniana do romance polifônico de Dostoiévski. Cada nova tradução contribui para uma reconfiguração desse diálogo de múltiplas vozes, repondo assim sua atualidade. Para nós é uma alegria participar dessa conversa com esta nova tradução.
agradecimentos
A tradutora e o tradutor gostariam de agradecer à equipe da Penguin-Companhia, a Giuliana Almeida e aos alunos do grupo de estudos da ufrgs, Felipe Fauri, Vicente Luz, Daniela Rosso, Camilly Sandoval, Cauan Lacerda e Jorge Scola, pela interlocução dostoievskiana. Agradecemos também a Luna, Sapoti, Mia, Bibi, Dexter, Madalena e Miguel (os três últimos in memoriam) pela companhia constante ao longo de todo o trabalho. E, por fim, a nossos familiares, especialmente a Drielle Alarcon, Lívia Koeppl e às pequenas Marina e Giuliana.
Inverno de 2025
Notas
1. Bruno Barretto Gomide, Dostoiévski na Rua do Ouvidor: A literatura russa e o Estado Novo. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2018.
2. Otto Maria Carpeaux, apud Aurora Bernardini, “Os irmãos Karamázov e as vertentes na obra de Dostoiévski”, em Aulas de literatura russa: de Púchkin a Gorenstein. São Paulo: Kalinka, 2018, p. 100.
3. Boris Schnaiderman, Dostoiévski: Prosa poesia. São Paulo: Perspectiva, 1982.
4. Tradução direta do russo a partir de Sobranie sotchinênie 15 tomakh [Obras reunidas em 15 tomos], tomos ix e x. Leningrado: Naúka, 1991.
5. Mikhail Bakhtin, Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010, p. 19.
6. Victor Terras, A Karamazov Companion: Commentary on the Genesis, Language, and Style of Dostoevsky’s Novel. Madison, Wisconsin: University of Wisconsin Press, 1981, p. 112.
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