ii
Testemunhas perigosas
Não sei se as testemunhas da promotoria e da defesa foram de algum modo divididas pelo presidente em grupos separados, e em que ordem exatamente a convocação delas foi estabelecida. Tudo isso deve ter sido assim. Primeiro chamaram as testemunhas da promotoria. Repito, não tenho a intenção de descrever todas as oitivas, passo a passo. Além disso, minha descrição acabaria sendo, em parte, supérflua, porque nos discursos do promotor e do defensor, quando passaram às arguições, todo o andamento e o sentido de todos os depoimentos dados e ouvidos foram reduzidos a um só ponto, sob uma luz vívida e característica, e esses dois discursos notáveis foram, pelo menos em algumas partes, registrados por mim na íntegra, e eu os relatarei em seu devido tempo, assim como um episódio extraordinário e totalmente inesperado do processo, que se desenrolou de maneira súbita, ainda antes das arguições, e que sem dúvida influenciou seu resultado terrível e fatídico. Observarei somente que, desde os primeiríssimos minutos do julgamento, sobressaiu, de maneira notável, certa característica particular daquele “caso”, observada por todos, a saber: a força incomum da acusação quando comparada aos recursos que a defesa possuía. Todos compreenderam isso no primeiro instante em que, naquela temível sala do tribunal, os fatos, uma vez concentrados, foram agrupados e, pouco a pouco, passaram a pôr em evidência todo aquele horror e todo aquele sangue. Talvez todos tenham até mesmo compreendido, desde os primeiríssimos passos, que aquele caso não era de modo algum discutível, que ali não havia dúvidas, que, em essência, nem seria necessária arguição nenhuma, que as arguições seriam apenas formalidades, e que o réu era culpado, evidentemente culpado, definitivamente culpado. Acho até que todas as senhoras, da primeira à última, que almejavam com tanta impaciência a absolvição do interessante réu, tinham ao mesmo tempo absoluta certeza de sua plena culpa. Mais do que isso, tenho a impressão de que elas ficariam até desgostosas se a culpa não fosse de todo confirmada, pois então não haveria tanto efeito no desfecho, quando o criminoso fosse absolvido. Quanto ao fato de que seria absolvido, disso — estranhamente — todas as senhoras estavam rigorosamente convencidas quase que até o último minuto: “É culpado, mas será absolvido por humanidade, pelas novas ideias, pela nova sensibilidade que começou agora” etc. etc. Para isso mesmo é que elas haviam corrido até lá com tanta impaciência. Já os homens estavam mais interessados no confronto entre o promotor e o célebre Fetiukóvitch. Todos se admiravam e se perguntavam: o que poderia fazer num caso já perdido desde o começo, com uma causa tão sem esperança, mesmo um talento como Fetiukóvitch? E, por isso, era com grande atenção que acompanhavam suas proezas, passo a passo. Mas Fetiukóvitch permaneceu um mistério para todos até o fim, até fazer seu discurso de defesa. As pessoas mais experientes pressentiam que ele tinha um sistema, que tinha um plano em mente, que tinha um propósito, mas qual era o objetivo — isso era quase impossível adivinhar. A segurança e a confiança em si mesmo, porém, saltavam aos olhos. Além disso, foi com satisfação que todos perceberam, imediatamente, que, numa estadia tão curta em nossa cidade, talvez uns três dias no máximo, ele conseguira familiarizar-se de maneira incrível com o caso e “estudara todos os seus pormenores”. Mais tarde, era com prazer que rememoravam, por exemplo, como ele conseguira, no momento oportuno, “conduzir” todas as testemunhas da promotoria, na medida do possível, confundi-las e, sobretudo, macular sua reputação moral, e portanto evidentemente macular também seus depoimentos. Supunha-se, aliás, que ele fazia aquilo em grande parte pelo jogo, por artifícios jurídicos, por assim dizer, para que não fosse esquecido nenhum dos procedimentos advocatícios costumeiros: pois todos estavam convencidos de que ele não poderia tirar qualquer vantagem muito grande ou definitiva de todas aquelas “nódoas”, e possivelmente ele mesmo entendia isso melhor que todos, tendo consigo alguma ideia reservada, alguma arma de defesa ainda escondida que de repente seria revelada quando chegasse o momento. Mas, de todo modo, por enquanto, reconhecendo sua força, ele brincava e se divertia. Assim, por exemplo, quando interrogaram Grigóri Vassílievitch, ex-camareiro de Fiódor Pávlovitch, que dera um dos depoimento mais fundamentais, o da “porta aberta para o jardim”, o advogado de defesa o pôs contra a parede quando foi sua vez de fazer as perguntas. É preciso observar que Grigóri Vassílievitch compareceu à sala sem dar a mínima à grandiosidade do tribunal ou à presença do enorme público que o ouvia, com ar tranquilo e quase que imponente. Ele prestava seu depoimento com tanta segurança que parecia conversar a sós com sua Marfa Ignátievna, talvez só com um pouco mais de reverência. Era impossível confundi-lo. Primeiro, foi longamente inquirido pelo promotor sobre todos os detalhes da família Karamázov. O retrato familiar foi posto em evidência de forma vívida. Dava para ouvir, dava para ver que a testemunha era uma pessoa simples e imparcial. Mesmo com todo o profundo respeito que tinha pela memória de seu falecido patrão, ele ainda assim declarou, por exemplo, que ele fora injusto com Mítia e que “não criava os filhos do jeito certo. Sem mim, ele, o pequeno Mítia, teria sido devorado pelos piolhos”, acrescentou ao relatar os anos de infância do réu. “Também não cabia ao pai lesar o filho na propriedade de sua própria mãe.” Quando, porém, o promotor perguntou que fundamento tinha ele para afirmar que Fiódor Pávlovitch lesara o filho no acerto de contas, Grigóri Vassílievitch, para a surpresa de todos, não apresentou quaisquer dados que o fundamentassem, mas mesmo assim insistiu que o acerto de contas com o filho havia sido “incorreto” e que ele de fato “ainda tinha que pagar alguns milhares a mais”. Observo a propósito que, depois, o promotor fez essa mesma pergunta — se Fiódor Pávlovitch havia quitado a dívida com Mítia —, com particular insistência, a todas as testemunhas a quem poderia fazê-la, sem excluir Aliocha ou Ivan Fiódorovitch, mas não recebeu de nenhuma qualquer informação precisa; todos corroboravam aquele fato, mas ninguém conseguia apresentar uma prova clara que fosse. Depois que Grigóri descreveu a cena à mesa, quando Dmítri Fiódorovitch entrou à força e espancou o pai, ameaçando retornar para matá-lo, uma atmosfera sombria pairou na sala, ainda mais que o velho criado contava as coisas com calma, sem palavras desnecessárias, numa linguagem peculiar e terrivelmente eloquente. Quanto à ofensa feita contra ele por Mítia, que então o golpeara no rosto e o derrubara no chão, ele observou que não estava com raiva e que já o perdoara havia muito tempo. Do falecido Smerdiakov, afirmou, benzendo-se, que tinha sido um rapaz com muitas habilidades, mas estúpido e oprimido pela doença, e, pior de tudo, um ateu, e que o ateísmo lhe fora ensinado por Fiódor Pávlovitch e seu filho mais velho.1 Mas, quanto à honestidade de Smerdiakov, ele não a pôs em dúvida quase que com ardor e, no mesmo instante, relatou como certa vez Smerdiakov, depois de encontrar um dinheiro perdido pelo patrão, não o escondeu, e sim entregou-o ao patrão, e por isso este lhe “deu de presente uma moeda de ouro” e, a partir de então, passou a confiar nele em tudo. Com insistência obstinada, confirmou a porta aberta para o jardim. Aliás, fizeram-lhe tantas perguntas que nem consigo me lembrar de tudo. Finalmente, as questões passaram para o advogado de defesa, e a primeira coisa que ele fez foi indagar a respeito do envelope, no qual “supostamente” Fiódor Pávlovitch havia escondido os três mil rublos para “certa pessoa”. “Por acaso o senhor não o viu — o senhor que era uma pessoa próxima de seu patrão havia tantos anos?” Grigóri respondeu que não tinha visto, e que nem tinha ouvido ninguém falar desse dinheiro “até agora há pouco, quando todo mundo começou a falar”. Fetiukóvitch também fez essa pergunta sobre o envelope a todas as testemunhas a quem poderia perguntar a respeito, com a mesma insistência com que o promotor perguntou sobre a divisão da propriedade, e também recebeu de todos a mesma resposta — ninguém tinha visto o envelope, embora muitos tivessem ouvido falar dele. Essa insistência do advogado de defesa naquela pergunta foi notada por todos desde o início.
— Agora, posso dirigir-lhe uma pergunta, se o senhor permitir? — perguntou Fetiukóvitch de repente e de maneira totalmente inesperada. — De que é feito aquele bálsamo, ou, por assim dizer, aquela infusão que o senhor usou, naquela noite, antes de dormir, como se sabe graças ao inquérito preliminar, para esfregar na sua lombar dolorida, na esperança de assim curar-se?
Grigóri olhou com ar inexpressivo para o interrogador e, depois de um tempo calado, murmurou:
— Tinha sálvia ali.
— Só sálvia? Não consegue se lembrar de mais nada?
— Também tinha tanchagem.
— E talvez pimenta? — interessou-se Fetiukóvitch.
— Também tinha pimenta.
— E assim por diante. E tudo isso dentro da vodca?
— Dentro do álcool.
Uns poucos risinhos percorreram a sala.
— Vejam só, inclusive com álcool. Depois de esfregar o líquido nas costas, o senhor bebeu o resto, enquanto sua esposa fazia certa oração devota que só ela conhece, foi assim?
— Bebi.
— Bebeu aproximadamente quanto? Aproximadamente. Uma tacinha ou duas?
— Coisa de um copo.
— Um copo, inclusive. Talvez um copinho e meio?
Grigóri calou-se. Ele parecia ter entendido alguma coisa.
— Um copinho e meio de álcool purinho — não é nada mau, não acha? Dá até para ver “as portas do céu abertas”,2 que dirá a porta do jardim?
Grigóri continuava calado. De novo, um risinho correu pela sala. O presidente remexeu-se.
— O senhor por acaso sabe ao certo — Fetiukóvitch o apertava cada vez mais — se estava ou não adormecido no momento em que viu a porta do jardim aberta?
— Estava de pé.
— Isso não chega a ser prova de que não estava adormecido (mais e mais risos na sala). O senhor poderia, por exemplo, responder, naquele momento, se alguém lhe perguntasse alguma coisa — por exemplo, em que ano estamos agora?
— Isso eu não sei.
— E agora estamos em que ano de nossa era, depois de Cristo, sabe dizer?
Grigóri continuava com ar desorientado, olhando fixo para seu torturador. Parecia estranho que ele, aparentemente, de fato não soubesse em que ano estávamos.
— Talvez saiba, no entanto, quantos dedos tem em sua mão?
— Sou um homem subordinado — falou de repente Grigóri, em voz alta e distinta. — Se as autoridades desejam caçoar de mim, devo suportar.
Fetiukóvitch se refreou um pouquinho, mas o presidente também se imiscuiu e, em tom de sermão, lembrou ao advogado de defesa que era preciso fazer perguntas mais pertinentes. Fetiukóvitch, depois de ouvir, fez uma reverência com dignidade e declarou que suas questões haviam acabado. É claro que, tanto em meio ao público, como entre os jurados, poderia ter ficado uma sementinha de dúvida quanto ao depoimento de um homem que tivera a possibilidade de “ver as portas do céu” naquele conhecido estado de cura, e que, além disso, nem mesmo sabia em que ano depois de Cristo estávamos; assim, o advogado de defesa, de algum modo, atingiu seu objetivo. Mas, antes da saída de Grigóri, aconteceu mais um episódio. O presidente do tribunal, dirigindo-se ao réu, perguntou se ele não teria algo a observar a respeito do testemunho dado.
— Exceto pela porta, ele disse a verdade em tudo — Mítia deu um grito alto. — Por ter tirado meus piolhos com um pente, eu agradeço; por ter perdoado minha surra, eu agradeço; o velho foi honesto a vida inteira e fiel ao meu pai como setecentos poodles.
— Réu, escolha melhor suas palavras — falou o presidente, em tom severo.
— Não sou um poodle — rosnou também Grigóri.
— Então eu é que sou o poodle, eu! — gritou Mítia. — Se é uma ofensa, atribuo-a a mim mesmo, mas a ele peço perdão: fui um animal com ele, fui! Com o Esopo eu também fui cruel.
— Com que Esopo? — emendou outra vez o presidente, em tom severo.
— Ora, com o Pierrot… com meu pai, Fiódor Pávlovitch.
Mais uma vez o presidente, com ar já muitíssimo severo e grave, advertiu Mítia que escolhesse com mais cuidado seus termos.
— Desse modo, o senhor prejudica a si mesmo na opinião de seus juízes.
O advogado de defesa também lidou com a oitiva da testemunha Rakítin de modo extremamente ágil. Observo que Rakítin era uma das testemunhas mais importantes, a quem o promotor dava indubitável importância. Veio à tona que ele sabia de tudo, sabia uma quantidade impressionante de coisas, estivera na casa de todos, tinha visto tudo, falara com todos, conhecia nos mínimos detalhes a biografia de Fiódor Pávlovitch e de todos os Karamázov. É verdade que, quanto ao envelope com os três mil, também só tivera notíca pelo próprio Mítia. Em compensação, descreveu minuciosamente os feitos de Mítia na taberna A Capital, cada palavra e cada gesto comprometedor e relatou a história do “esfregão” com o subcapitão Sneguiriov. Com relação àquele ponto em particular — se Fiódor Pávlovitch continuara devendo a Mítia alguma coisa do acerto de contas da propriedade —, nem mesmo Rakítin conseguiu indicar nada e saiu-se apenas com lugares-comuns de caráter desdenhoso: “Quem é que conseguiria distinguir o culpado entre eles”, disse, “e contar quem ficou devendo a quem nessa karamazovice enrolada, onde ninguém consegue entender nem definir nada?”. Ele retratava toda a tragédia do crime em julgamento como produto dos arraigados costumes da servidão e da Rússia, imersa em desordem e sofrendo sem instituições apropriadas. Resumindo, deixaram-lhe expressar certas coisas. Foi nesse processo que o senhor Rakítin manifestou-se pela primeira vez e ganhou notoriedade; o promotor sabia que a testemunha estava preparando, para uma revista, um artigo sobre o crime em questão e, mais tarde, já em seu discurso (que veremos abaixo), citou alguns argumentos desse artigo, portanto já estava familiarizado com ele. O quadro resultante do depoimento da testemunha saiu sombrio e funesto e deu muita força à “acusação”. No geral, a narrativa de Rakítin cativou o público pela independência de pensamento e pela nobreza incomum de seu arroubo. Ouviram-se até dois ou três aplausos, que irromperam de súbito, justamente nos momentos em que se falava da servidão e da Rússia, que sofria com sua desordem. Mas Rakítin, jovem que era, cometeu um pequeno lapso, e o advogado de defesa conseguiu aproveitá-lo imediatamente, de maneira extraordinária. Ao responder determinadas perguntas a respeito de Grúchenka, ele, entusiasmado com seu sucesso, que ele mesmo evidentemente já reconhecia, e com a elevada nobreza à qual se alçara, permitiu-se referir-se a Agrafiena Aleksándrovna de maneira um tanto desdenhosa, como “a concubina do comerciante Samsónov”. Mais tarde, ele pagaria caro para retratar-se, pois foi com base nelas que Fetiukóvitch o apanhou de imediato. E tudo porque Rakítin de modo algum contava com a súbita familiaridade do defensor acerca de detalhes tão íntimos do caso num período de tempo tão curto.
— Permita-me indagar — começou o advogado de defesa, com um sorriso dos mais amáveis e até reverentes, quando chegou sua vez de fazer as perguntas —, o senhor decerto é aquele mesmo senhor Rakítin cujo folheto, impresso pelas autoridades eclesiásticas, A vida do padre Zossima, ancião que em Deus repousou, repleto de pensamentos profundos e religiosos, com uma dedicatória belíssima e piedosa ao reverendíssimo, tive tanto prazer em ler recentemente?
— Eu não escrevi para ser publicado… foi depois que o publicaram — balbuciou Rakítin, de repente perplexo com alguma coisa e quase envergonhado.
— Oh, é magnífico! Um pensador como o senhor pode e até deve tratar qualquer fenômeno social de maneira muitíssimo ampla. Com o patrocínio do reverendíssimo, seu utilíssimo folheto esgotou-se e lhe propiciou relativo proveito… Mas o ponto mais importante a respeito do qual eu desejava indagar é o seguinte: o senhor acabou de afirmar que era um conhecido muitíssimo próximo da senhora Svetlova, não é? (Nota bene. Revelou-se que o sobrenome de Grúchenka era Svetlova. Fiquei sabendo disso pela primeira vez naquele dia, no decorrer do processo.)
— Não posso responder por todas as pessoas que conheço… Sou jovem… e quem é que pode responder por todos aqueles com quem se encontra — inflamou-se Rakítin.
— Compreendo, compreendo muito bem! — exclamou Fetiukóvitch, fazendo-se de embaraçado, num ímpeto de desculpar-se apressadamente. — O senhor, como qualquer outro, poderia, por sua vez, estar interessado em conhecer uma mulher jovem e bonita, que recebia com prazer em sua casa a flor da juventude local, mas… eu queria apenas me inteirar: é sabido que, uns dois meses atrás, Svetlova desejava muitíssimo conhecer o Karamázov mais jovem, Aleksei Fiódorovitch, e em troca somente de que o senhor o levasse à casa dela, e precisamente em sua roupa do monastério, que ele então usava, ela prometeu dar-lhe vinte e cinco rublos, assim que o senhor o levasse até ela. Isso, como se sabe, aconteceu precisamente na tarde daquele dia que terminou com a trágica catástrofe que serve de base para a presente causa. O senhor levou Aleksei Karamázov à casa da senhora Svetlova — e então recebeu de Svetlova esses vinte e cinco rublos de recompensa, não? Era isso que eu queria ouvir do senhor.
— Foi uma brincadeira… Não vejo por que isso possa interessá-lo. Aceitei por brincadeira… para devolver depois…
— Portanto o senhor aceitou. Mas não devolveu até agora… ou devolveu?
— Isso é insignificante… — resmungou Rakítin —, não posso responder perguntas como essas… É claro que vou devolver.
O presidente interveio, mas o advogado de defesa anunciou que encerrara suas perguntas ao senhor Rakítin. O senhor Rakítin saiu de cena com sua reputação um tanto maculada. A impressão de elevada nobreza que sua fala provocara fora algo danificada, e Fetiukóvitch, seguindo-o com os olhos, como que dizia, dirigindo-se ao público: “Vejam só como são seus nobres acusadores!”. Lembro que aquilo também não acabou sem um episódio da parte de Mítia: enfurecido com o tom com que Rakítin se referira a Grúchenka, ele de repente gritou de onde estava: “Bernard!”. E quando o presidente do tribunal, ao fim de toda a oitiva de Rakítin, dirigiu-se ao réu, perguntando se ele não desejava fazer alguma observação, Mítia deu um grito retumbante:
— Ele vinha atrás de mim, quando eu já era réu, arrancar dinheiro emprestado! É um Bernard desprezível e um carreirista, e não acredita em Deus, tapeou o reverendíssimo!
É claro que Mítia foi novamente chamado à razão por suas expressões exaltadas, mas o senhor Rakítin estava acabado. Tampouco obteve sucesso o depoimento do subcapitão Sneguiriov, mas agora por um motivo bem diferente. Ele se apresentou todo esfarrapado, de roupa e botas sujas, e apesar de toda a precaução e da “perícia” preliminar, de súbito demonstrou estar completamente bêbado. De repente se recusou a responder as perguntas sobre a ofensas de Mítia a ele.
— Que fique com Deus. O Iliúchetchka me disse para não responder. Deus há de me recompensar lá, meu senhor.
— Quem disse para o senhor não responder? A quem o senhor se refere?
— Ao Iliúchetchka, o meu filhinho: “Papaizinho, papaizinho, como ele humilhou você!”. Disse isso lá na pedra. Agora está morrendo…
O subcapitão prorrompeu a soluçar e desabou com tudo aos pés do presidente. Logo foi retirado, em meio à risada da plateia. O efeito preparado pelo promotor não se realizou em absoluto.
Já o advogado de defesa continuava a usar todos os recursos e cada vez mais surpreendia a todos por sua familiaridade com o caso até nos menores detalhes. Assim, por exemplo, o depoimento de Trífon Boríssitch ia causando uma impressão muitíssimo forte, e era óbvio que seria extremamente desfavorável a Mítia. Ele calculou exatamente, praticamente nos dedos, que Mítia, em sua primeira ida a Mókroie, quase um mês antes da catástrofe, não poderia ter gastado menos que três mil, ou “talvez só um tantinho abaixo disso. Só com aquelas ciganas, quanto ele não torrou! Para os nossos mujiques piolhentos não foi bem que ele ‘tacou moedinhas de cinquenta pela rua’: ele deu notas de pelo menos vinte e cinco rublos, menos que isso não deu. E quanto não foi simplesmente roubado dele naquele dia, meu senhor! Porque quem roubou não deixou rastro, onde é que se poderia pegá-lo, esse ladrão, se o outro atirou o dinheiro nele por conta própria! É que o nosso povo é bandido, não toma conta de suas almas. E com as moças, as moças do vilarejo, quanto não gastou com elas! O nosso pessoal enriqueceu a partir dali, foi isso, meu senhor, antes era uma pobreza”. Resumindo, ele memorizou cada despesa e jogou tudo no ábaco com precisão. Desse modo, a hipótese de que somente mil e quinhentos haviam sido gastos e que o resto fora separado na bolsinha tornava-se inconcebível. “Eu mesmo vi, vi na mão dele os três mil com se fosse um copequezinho, observei com meus próprios olhos, por acaso eu não entendo lá de conta, senhor?”, exclamou Trífon Boríssitch, desejando com todas as forças agradar a “autoridade”. Mas quando a oitiva passou para o advogado de defesa, este, quase sem tentar refutar o depoimento, de repente pôs-se a falar que o cocheiro Timofei e um outro mujique, Akim, em Mókroie, naquela primeira farra, um mês antes da prisão, apanharam do chão, no vestíbulo, uma nota de cem rublos que Mítia deixara cair, em estado de embriaguez, e a entregaram a Trífon Boríssitch, e este deu um rublo para cada um em troca daquilo. “Pois bem, o senhor, naquele dia, devolveu esses cem rublos ao senhor Karamázov ou não?” Por mais que tenha tergiversado, depois de interrogados os mujiques sobre os cem rublos que foram achados, Trífon Boríssitch confessou, só acrescentando que decerto devolveu no mesmo instante e entregou a Dmítri Fiódorovitch “na maior honestidade”, e que “a única coisa é que vai ser difícil ele se lembrar disso, já que estava completamente bêbado”. Mas, uma vez que, até a convocação dos mujiques como testemunhas do achado dos cem rublos, ele de todo modo tinha negado tudo, seu depoimento sobre a devolução da quantia ao embriagado Mítia naturalmente despertou dúvidas. Assim, uma das testemunhas mais perigosas arroladas pela promotoria saiu, mais uma vez, sob suspeita e com a reputação enxovalhada. O mesmo se deu com os poloneses: apresentaram-se com ar altivo e independente. Testemunharam ruidosamente que, em primeiro lugar, ambos “serviram à Coroa” e que “o pan Mítia” lhes oferecera três mil para comprar sua honra, e que eles mesmos viram um dinheiro graúdo em suas mãos. Pan Musialowicz enfiava em suas frases uma quantidade tremenda de palavras polonesas e, vendo que isso só o elevava aos olhos do presidente e do promotor, elevou afinal seu espírito de maneira definitiva e começou a falar inteiramente em polonês. Mas eles também caíram na cilada de Fetiukóvitch: por mais que Trífon Boríssitch, convocado novamente, tergiversasse, ainda assim teve que confessar que o pan Wroblewski trocara o seu baralho pelo dele, e que o pan Musialowicz, ao fazer a banca, surrupiara uma carta. Isso foi depois confirmado por Kalgánov, em sua vez de prestar depoimento, e ambos os pans retiraram-se com certa desonra, até mesmo debaixo do riso do público.
Depois, aconteceu exatamente o mesmo com quase todas as testemunhas mais perigosas. Fetiukóvitch conseguiu macular moralmente cada uma e dispensá-las com o nariz meio palmo maior. Os diletantes e os juristas só admiravam e, ademais, apenas tentavam compreender a que coisa tão grandiosa e definitiva tudo aquilo podia servir, pois, repito, todos sentiam a irrefutabilidade da acusação, que crescia cada vez mais e de maneira trágica. Mas, pela confiança do “grande mago”, viram que ele estava tranquilo e esperaram: não era à toa que “um homem daquele tipo” viera de Petersburgo, e também não era do tipo que voltaria para trás de mãos abanando.
1. Aqui e logo abaixo refere-se a Ivan como “o filho mais velho” de Fiódor Pávlovitch.
2. Citação imprecisa a Apocalipse 4,1. (n. e.)
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