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Os irmãos Karamázov
IV. Um hino e um segredo

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Um hino e um segredo

Já estava bem tarde (os dias de novembro, afinal, não são lá muito longos) quando Aliocha tocou a sineta no portão da prisão. Começava a anoitecer. Mas Aliocha sabia que o deixariam ver Mítia, sem quaisquer impedimentos. Aqui, na nossa cidadezinha, tudo acontece como em toda parte. No início, obviamente, depois da conclusão de todo o inquérito preliminar, o acesso a Mítia, para visitas de parentes e de algumas outras pessoas, ainda era cercado de algumas formalidades necessárias, no entanto, mais tarde, as formalidades não exatamente se afrouxaram, mas, pelo menos para certas pessoas que vinham visitar Mítia, algumas exceções como que se estabeleceram por conta própria. A tal ponto que, por vezes, os encontros com o detento, na sala destinada a isso, até aconteciam a sós. Aliás, essas pessoas eram muito poucas: somente Grúchenka, Aliocha e Rakítin. Mas, em relação a Grúchenka, o próprio comissário Mikhail Makárovitch era muito benevolente. Pesava no coração do velho aquele grito dirigido a ela em Mókroie. Posteriormente, depois de saber tudo a fundo, ele mudara por completo seu pensamento a respeito dela. E era estranho: embora estivesse firmemente convencido do crime de Mítia, desde o momento da detenção ele passara a enxergá­-lo de um modo cada vez mais indulgente: “Talvez tenha sido um homem de alma boa, mas arruinou­-se como o sueco, graças à bebedeira e à arruaça!”. O horror de antes transformou­-se, em seu coração, em compaixão. Quanto a Aliocha, o comissário gostava muito dele e já o conhecia havia tempos, enquanto Rakítin, que recentemente pegara o costume de visitar o detento com muita frequência, era um dos mais próximos conhecidos das “senhoritas do comissário”, como ele as chamava, e não deixava de todo dia ir à sua casa. E ele também dava aulas na casa do inspetor da prisão, um velho benévolo, ainda que veterano bem rigoroso. Aliocha, mais uma vez, também era conhecido de longa data e muito próximo do inspetor, que adorava conversar com ele sobre “sabedoria” em geral. Ivan Fiódorovitch, por exemplo, não era exatamente respeitado pelo inspetor, mas talvez temido, sobretudo por seus juízos, embora o próprio fosse um grande filósofo, claro que “pensando com sua própria cabeça”. Mas nutria por Aliocha uma simpatia irresistível. No último ano, o velho tinha se dedicado aos evangelhos apócrifos e, a cada instante, comunicava suas impressões ao jovem amigo. Antes, até ia vê­-lo no monastério e conversava com ele e com os hieromonges por horas a fio. Em resumo, mesmo que Aliocha se atrasasse para a prisão, bastava ir à casa do inspetor, e a coisa sempre se resolvia. Além disso, todos na prisão, do primeiro ao último guarda, haviam se acostumado a ele. É claro que os vigias também não criavam caso, desde que houvesse a permissão da chefia. Mítia, quando chamado, sempre descia de seu cubículo até o lugar designado para as visitas. Ao entrar na sala, Aliocha deparou­-se precisamente com Rakítin, que estava saindo. Ambos falavam em voz alta. Mítia, ao despedir­-se, ria muito de alguma coisa, enquanto Rakítin como que resmungava. Rakítin, sobretudo nos últimos tempos, não gostava de encontrar Aliocha, quase não falava com ele, fazia um esforço para cumprimentá­-lo. Agora, ao distinguir Aliocha, que entrava, ele franziu o cenho e desviou os olhos para o lado, como que muito ocupado em abotoar seu casaco longo e quente, com gola de pele. Em seguida, começou a procurar seu guarda­-chuva.

— Não posso esquecer alguma coisa minha — ele murmurou, só para dizer algo.

— Não vá esquecer as coisas dos outros! — gracejou Mítia e logo caiu na gargalhada com seu próprio gracejo. Rakítin se enraiveceu no mesmo instante.

— Vá recomendar isso aos seus Karamázov, essa sua raça de escravocratas, e não a Rakítin! — ele gritou de repente, estremecendo de raiva.

— Que é isso? Eu estava brincando! — gritou Mítia. — Arre, que diabo! São todos assim — ele se dirigiu a Aliocha, acenando para Rakítin, que saía rapidamente. — Ficou sentado o tempo todo, rindo animado, aí de repente essa fúria! Não fez nem um aceno de cabeça para você, que foi, brigaram de vez? Por que veio tão tarde? Não que eu estivesse esperando por você, eu estava ansiando por você a manhã inteira. Mas tudo bem! Vamos compensar.

— Por que ele inventou isso de visitá­-lo com tanta frequência? Você virou amigo dele ou o quê? — perguntou Aliocha, também acenando a Rakítin, em direção à porta.

— Virei amigo do Mikhail? Não, não é por aí. E como poderia, aquele porco! Ele me considera… um canalha. Também não entende piada — isso é o pior nele. Nunca entende piada. E a alma também é árida, é plana e árida, exatamente como quando cheguei à prisão naquele dia e olhei para os muros da prisão. Mas é inteligente, é um homem inteligente. Então, Aleksei, minha cabeça está perdida agora!

Ele se sentou no banco e fez com que Aliocha se sentasse a seu lado.

— Sim, amanhã é o julgamento. Mas então você perdeu mesmo todas as esperanças, meu irmão? — falou Aliocha, com certo acanhamento.

— Do que está falando? — Mítia olhou para ele com uma expressão indefinida. — Ah, você está falando do julgamento! Ah, que diabo! Até agora, nós dois só falamos de bobagens, sempre desse julgamento, e eu não te disse o mais importante. Sim, amanhã é o julgamento, mas não era do julgamento que eu estava falando quando disse que minha cabeça estava perdida. Não é a cabeça que se perdeu, mas o que estava dentro da cabeça, isso é o que se perdeu. Por que está olhando para mim com esse ar crítico?

— Do que é que você está falando, Mítia?

— As ideias, as ideias, é disso! A ética. O que é isso, a ética?

— Ética? — surpreendeu­-se Aliocha.

— Sim, é uma espécie de ciência ou o quê?

— Sim, existe mesmo essa ciência… só que… confesso que não sei explicar que espécie de ciência é.

— O Rakítin sabe. O Rakítin sabe muita coisa, o diabo que o carregue! Não será monge. Ele pretende ir para Petersburgo. Diz que lá vai se ocupar de crítica, mas com uma tendência nobre. Bom, pode até ser útil e fazer uma carreira. Ah, para fazer carreira são mestres! Ao diabo com a ética! Mas estou perdido, Aleksei, estou perdido, homem de Deus! Amo você mais que todos. Meu coração estremece por você, isso sim. Quem foi esse Karl Bernard?

— Karl Bernard? — admirou­-se novamente Aliocha.

— Não, não é Karl, espere, minto: é Claude Bernard.1 Ele é o quê? É da química, por acaso?

— Deve ser um cientista — respondeu Aliocha —, só que, confesso, não sei te dizer muita coisa dele. Só ouvi falar que é cientista, mas de que tipo, eu não sei.

— Pois o diabo que o carregue, eu também não sei — praguejou Mítia. — Algum canalha, é o mais provável, e são todos uns canalhas. E o Rakítin vai ascender, o Rakítin vai cavar uma brecha, também é um Bernard. Ah, os Bernards! Como eles se multiplicaram!

— Mas o que é que você tem? — perguntou Aliocha, com ar insistente.

— Ele quer escrever um artigo sobre mim, sobre o meu processo, e com isso dar início a seu caminho na literatura, por isso ele vem aqui, ele explicou. Quer alguma coisa com essa tendência: “Ele não podia deixar de matar”, vai dizer, “foi vítima de seu meio”, e assim por diante, ele me explicou. Vai ser com uma nuance de socialismo, ele diz. Mas o diabo que o carregue, se vai ter uma nuance, que tenha uma nuance, para mim tanto faz. Ele não gosta do irmão Ivan, ele o odeia; você, ele também não preza muito. Bem, e eu não o expulso porque é um homem inteligente. É muito cheio de orgulho, porém. Eu estava lhe dizendo agora mesmo: “Os Karamázov não são canalhas, e sim filósofos, porque todos os verdadeiros russos são filósofos, enquanto você, embora tenha estudado, não é filósofo, é um ordinário”. Deu uma risada, meio maldosa. E eu lhe disse: de pensamentos pensieribus non est disputandum, é boa a piada? Pelo menos eu também entrei no classicismo — gargalhou de repente Mítia.

— Por que você está perdido? Do que estava falando há pouco? — interrompeu Aliocha.

— Por que estou perdido? Hum! Em essência… se pegarmos o todo, tenho dó de Deus, é por isso.

— Como assim, dó de Deus?

— Imagine: é que lá nos nervos, na cabeça, quer dizer, no cérebro, tem esses nervos (enfim, o diabo que os carregue!)… tem como se fossem uns rabinhos, os nervos têm esses rabinhos, enfim, e assim que eles começam a tremer… quer dizer, veja, eu olho para alguma coisa com os olhos, desse jeito, aí eles começam a tremer, os rabinhos… e, quando eles tremem, aparece a imagem, e não aparece na mesma hora, tem ali um instante, um segundo se passa, e aparece como se fosse um momento, quer dizer, não um momento — ao diabo com esse momento —, mas a imagem, quer dizer, o objeto ou o acontecimento, enfim, o diabo que o carregue — é por isso que eu observo, e depois é que raciocino… porque tem esses rabinhos, não é de modo algum porque tenho uma alma e porque sou lá a imagem e semelhança, tudo isso é bobagem. Isso era o que o Mikhail estava me explicando ontem mesmo, meu irmão, e foi como se isso tivesse me incendiado. Essa ciência é magnífica, Aliocha! Um novo homem virá, isso eu entendo… Mas mesmo assim tenho dó de Deus!

— Bem, isso já é bom — disse Aliocha.

— Eu, ter dó de Deus? A química, meu irmão, a química! Não tem o que fazer, reverendíssimo, afaste­-se um pouquinho, a química está passando! Mas o Rakítin não gosta de Deus, ah, não gosta! Essa é a ferida mais dolorida de todos eles! Mas escondem. Mentem. Fingem. “E então, você vai empurrar esse raciocínio na seção de crítica?”, perguntei. “Ora, é evidente que não vão deixar”, ele disse, rindo. “Mas como é que fica o homem depois disso?”, perguntei. “Sem Deus e sem uma vida futura? Então quer dizer que agora tudo é permitido, você pode fazer tudo?” “E você não sabia?”, ele disse. Deu risada. “O homem inteligente pode tudo”, ele disse, “o homem inteligente sabe jogar sua rede, mas você”, ele disse, “matou e se deu mal e está apodrecendo na cadeia!” Foi o que ele me disse. Naturalmente, um porco! Antes eu enxotava gente assim, mas agora eu escuto. Mas ele também fala muita coisa sensata. E escreve de maneira inteligente. Uma semana atrás, ele começou a ler um artigo para mim, eu no dia copiei três linhas de lá, espere aí, estão aqui.

Mítia, apressado, tirou do bolso do colete um papelzinho e leu:

— “Para resolver essa questão, é necessário, antes de mais nada, contrapor a própria personalidade à realidade.” Você entende ou não?

— Não, não entendo — disse Aliocha.

Ele observava Mítia e o escutava com atenção.

— Eu também não entendo. É obscuro e confuso, em compensação é inteligente. “Todos escrevem assim agora”, ele diz, “porque esse é o ambiente…” Eles têm medo do ambiente. Também escreve poesia, o canalha, decantou o pezinho da Khokhlakova, ha­-ha­-ha!

— Ouvi falar — disse Aliocha.

— Ouviu? E o poeminha, ouviu?

— Não.

— Eu tenho comigo, aqui está, vou ler. Você não sabe, eu não contei, tem toda uma história aí. Espertalhão! Três semanas atrás, inventou de me provocar: “Você se deu mal”, ele disse, “agiu como um cretino por causa de três mil, enquanto vou abocanhar cento e cinquenta mil, vou me casar com uma viúva e comprar uma casa de pedra em Petersburgo”. E me contou que está cortejando a Khokhlakova, e que aquela ali, quando jovem, já não era muito inteligente, mas aos quarenta perdeu o juízo de vez. “E ela é muito sensível”, ele disse, “é com isso que darei o golpe final. Eu me caso, levo­-a para Petersburgo, e lá começo a editar um jornal.” E aí ele fica com uma baba nojenta e lasciva nos lábios — a baba não é pela Khokhlakova, e sim por esses cento e cinquenta mil. E me garantiu, garantiu; continuou vindo me ver, todo dia: ela vai ceder, ele disse. Radiante de alegria. Mas aí de repente foi expulso: Perkhótin, o Piotr Ilitch levou vantagem, bravo! Quer dizer, eu daria um beijo nessa tolinha por tê­-lo expulsado! Então foi enquanto vinha me visitar que escreveu esse poeminha. “Pela primeira vez eu sujo minhas mãos”, ele disse, “escrevendo poesia, pela sedução, quer dizer, para algo útil. Depois de agarrar a fortuna da tolinha, posso fazer alguma contribuição cívica.” É que para eles qualquer baixeza tem uma justificativa cívica! “E, de qualquer maneira”, ele disse, “escrevi melhor que o seu Púchkin, porque, mesmo num poeminha bufonesco, consegui aplicar a lamúria civil.” Essa coisa do Púchkin eu entendo. Pode mesmo ter sido um homem capaz, mas só descrevia pezinhos! E como ficou orgulhoso de seu poeminha! Como eles têm amor­-próprio, amor­-próprio! “Ao restabelecimento do pezinho dolorido de minha amada” — foi esse título que ele inventou —, que homem ligeiro!

Mas que beleza de pezinho,

Está dolorido um pouquinho!

O doutor vem, tenta curar,

Mas a atadura só faz piorar.

Não é o pezinho que me aflige,

Deixe­-o para Púchkin louvar:

Pois é a cabeça que me aflige,

Que com ideia alguma pode atinar.

Já atinava então só um pouquinho,

Antes que o pezinho atrapalhasse!

Sarasse logo esse pezinho,

Para que a cabeça atinasse.2

Um porco, um verdadeiro porco, mas o canalha tirou essa coisa jocosa! E realmente aplicou essa “do cidadão”. Mas como ficou enfurecido quando foi expulso. Ele rangia!

— Ele já se vingou — disse Aliocha. — Escreveu um artigo sobre a Khokhlakova.

E Aliocha contou­-lhe às pressas sobre o artigo no jornal Rumores.

— Foi ele, foi ele! — confirmou Mítia, franzindo o cenho. — Foi ele! Esses artigos… sei bem… quer dizer, quantas baixezas já não foram escritas, sobre a Grucha, por exemplo!… E sobre a outra, também, Kátia… Hum!

Ele passeou pelo cômodo com ar preocupado.

— Irmão, não posso ficar por muito tempo — disse Aliocha depois de um breve silêncio. — Amanhã você terá um dia horrível, solene: o juízo divino recairá sobre você… e eu fico surpreso que você esteja aí andando e falando sabe Deus do quê, em vez de falar do processo…

— Não, não fique surpreso — cortou Mítia, acalorado. — Por acaso eu tenho que falar desse cão fedorento, é isso? Do assassino? Nós dois já falamos bastante disso. Não quero mais saber do fedorento, do filho da Smerdiáschaia! Deus há de matá­-lo, você vai ver, fique calado!

Ele se aproximou de Aliocha, agitado, e de repente beijou­-o. Seus olhos arderam.

— O Rakítin não entenderia isso — ele começou, como que em êxtase —, mas você, você vai entender tudo. Era por isso que eu ansiava por você. Veja só, faz tempo que eu queria te dizer muita coisa aqui, entre essas paredes descoradas, mas mantive o silêncio a respeito do mais importante: era como se o tempo ainda não tivesse chegado. Consegui esperar até o último momento para extravasar minha alma com você. Irmão, ao longo desses últimos dois meses, senti um novo homem dentro de mim, ressuscitou dentro de mim um novo homem! Estava encarcerado dentro de mim, mas nunca teria aparecido, não fosse essa borrasca. É terrível! E que me importa passar vinte anos nas minas, extraindo minério com um martelo — não tenho medo nenhum disso, agora temo outra coisa: não quero que se afaste de mim o homem que ressuscitou! Dá para encontrar até lá, nas minas, debaixo da terra, ao seu lado, num assassino e trabalhador forçado como você, um coração humano, e tornar­-se próximo dele, porque até lá dá para viver, e amar, e sofrer! Dá para fazer renascer e ressuscitar, nesse trabalhador forçado, um coração que parou, dá para cuidar dele durante anos e arrancar finalmente do covil, em direção à luz, uma alma agora elevada, uma consciência sofredora, fazer renascer um anjo, ressuscitar um herói! E eles são muitos, são centenas, e todos nós somos culpados por eles! Por que sonhei com o “bebê” naquele momento? “Por que o bebê é pobre?” Foi uma profecia que recebi naquele momento! É pelo bebê que irei. Porque todos são culpados por todos. Por todos os “bebês”, porque existem crianças pequenas e crianças grandes. Todos somos “bebês”. É por todos que irei, porque é necessário que alguém vá por todos. Eu não matei meu pai, mas preciso ir. Aceito! Tudo isso me ocorreu aqui… entre essas paredes descoradas. E eles são muitos, são centenas lá, subterrâneos, com marretas nas mãos. Oh, sim, estaremos acorrentados, e não haverá liberdade, mas então, em nosso grande pesar, nós ressuscitaremos novamente para a alegria, sem a qual o homem não pode viver e nem Deus existir, pois Deus dá a alegria, esse é seu privilégio, grandioso… Senhor, que se desfaça em oração o homem! Como é que eu ficaria lá debaixo da terra sem Deus? O Rakítin mente: se Deus for expulso do céu, nós o encontraremos debaixo da terra! É impossível ser um trabalhador forçado sem Deus, até mais impossível que àqueles que não são trabalhadores forçados! E então nós, homens subterrâneos, entoaremos das entranhas da terra um trágico hino a Deus, que detém a alegria! Viva Deus e sua alegria! Eu O amo!

Mítia, ao proferir seu discurso selvagem, quase sufocava. Ele empalideceu, seus lábios estremeciam, dos olhos brotavam lágrimas.

— Não, a vida é plena, existe vida até debaixo da terra! — ele recomeçou. — Você não acredita, Aleksei, como eu quero viver agora, que sede de existir e de ter consciência surgiu em mim precisamente entre essas paredes descoradas! O Rakítin não entende isso, para ele bastaria construir uma casa e colocar inquilinos ali dentro, mas eu esperava por você. E o que é o sofrimento? Não tenho medo dele, ainda que seja infinito. Agora não tenho medo, antes tinha. Sabe, talvez eu nem abra a boca no tribunal… E, ao que parece, dentro de mim há agora tanta dessa força que lutarei contra tudo, todos os sofrimentos, só para falar e dizer a mim mesmo a cada instante: eu sou! Em meio a milhares de tormentos — eu sou; retorcendo­-me durante a tortura — mas eu sou! Preso numa torre, mas também existo, vejo o sol, e, se não vejo o sol, sei que ele está lá. E saber que o sol está lá — isso já é toda a vida. Aliocha, meu querubim, essas diversas filosofias estão me matando, ao diabo com elas! O irmão Ivan…

— Que tem o irmão Ivan? — Aliocha fez menção de interromper, mas Mítia não o ouviu.

— Veja, antes eu não tinha nenhuma dessas dúvidas, mas tudo isso estava escondido dentro de mim. Talvez justamente porque, dentro de mim, desencadeavam­-se essas ideias desconhecidas, é que eu vivia na bebedeira, e brigando, e enfurecido. Para aplacá­-las dentro de mim, eu brigava, para apaziguá­-las, esmagá­-las. O irmão Ivan não é o Rakítin, ele esconde a ideia. O irmão Ivan é uma esfinge e fica calado, sempre fica calado. E eu sou atormentado por Deus. Só isso me atormenta. E se Ele não existir? E se Rakítin estiver certo, e for uma ideia artificial da humanidade? Então, se Ele não existir, o homem é o chefe da terra, da criação. Magnífico! Mas como ele será virtuoso sem Deus? É a questão! Eu só penso nisso. Pois quem o homem vai amar, então? A quem será grato, a quem entoará seu hino? O Rakítin dá risada. O Rakítin diz que também é possível amar a humanidade sem Deus. Pois só um sujeitinho ranhento poderia afirmar isso, enquanto eu não consigo entender. Para o Rakítin, é fácil viver: “Era melhor você se preocupar”, ele me dizia hoje, “com a ampliação dos direitos civis do ser humano, ou pelo menos com que não aumentem o preço da carne bovina; desse jeito você vai demonstrar amor pela humanidade de maneira mais simples e mais direta do que com filosofias”. Aí eu respondi na lata: “E você, sem Deus”, eu disse, “aumentaria ainda mais o preço da carne bovina, se tivesse a ocasião, e lucraria um rublo para cada copeque”. Ele ficou irritado. Pois o que é a virtude? Me responda, Aleksei. A virtude para mim é uma, mas para o chinês é outra — quer dizer que é uma coisa relativa. Ou não? Ou não é relativa? Essa é uma questão traiçoeira! Não ria se eu disser que fiquei duas noites sem dormir por causa disso. Agora só me surpreende que as pessoas vivam por aí e não pensem nada a respeito disso. Que presunção! O Ivan não tem Deus. Ele tem a ideia. Está além do meu alcance. Mas ele permanece calado. Acho que ele é maçom. Eu lhe perguntei — continuou calado. Eu queria beber da água de seu manancial — continuou calado. Só uma vez disse uma palavrinha.

— O que ele disse? — Aliocha, apressado, não deixou passar.

— Eu lhe disse: quer dizer que tudo é permitido, se é assim? Ele ficou carrancudo: “Fiódor Pávlovitch”, ele disse, “o nosso papaizinho, era um porquinho, mas raciocinava direito”. Foi essa que ele disparou. Só disse isso. Já é um pouco mais limpo que o Rakítin.

— Sim — confirmou Aliocha em tom amargo. — Quando ele esteve com você?

— Disso falaremos depois, agora uma outra coisa. Eu não falei quase nada do Ivan para você até agora. Adiei até o fim. Quando esse meu negócio aqui acabar e a sentença for proferida, então vou lhe contar certas coisas, vou contar tudo. Tem uma coisa terrível aqui… E você será o meu juiz nesse assunto. Mas agora nem comece com isso, agora fique calado. Mas você estava falando de amanhã, do julgamento, acredita que eu não sei nada?

— Você conversou com aquele advogado?

— Mas que advogado! Falei tudo para ele. É um espertalhão refinado, da capital. Um Bernard! Só que ele não acredita nem um pingo em mim. Ele pensa que eu matei, imagine só — eu já percebi. “Nesse caso, por que o senhor veio me defender?”, perguntei. Quero lá saber deles. Também chamaram um médico, querem me fazer passar por louco. Não admito! Katerina Ivánovna quer cumprir “o seu dever” até o fim. Com o máximo rigor! — Mítia deu um sorriso amargo. — É uma gata! Um coração cruel! É que ela sabe o que eu disse dela em Mókroie naquele dia, que ela era uma mulher “de grande ira”! Contaram para ela. Sim, os depoimentos multiplicaram­-se como a areia do mar! O Grigóri continua teimando. O Grigóri é honesto, mas é um tolo. Muitas pessoas são honestas graças ao fato de serem tolas. Esse é o pensamento do Rakítin. O Grigóri para mim é um inimigo. Certas pessoas, é mais vantajoso tê­-las como inimigas do que como amigas. Falo isso de Katerina Ivánovna. Eu temo, ah, como temo, que no julgamento ela conte da reverência até o chão depois dos quatro mil e quinhentos! Vai pagar até o fim, até o último centavo. Não quero os sacrifícios dela! Vão me envergonhar no tribunal! De algum modo hei de suportar. Vá vê­-la, Aliocha, peça que não diga isso no tribunal. Ou não é possível? Ah, mas que diabo, tanto faz, hei de suportar! Mas dela eu não tenho dó. Ela mesma quer. O ladrão faz por merecer o suplício. Eu, Aleksei, farei o meu discurso — ele novamente deu um sorriso amargo. — Só… só a Grucha, a Grucha, Senhor! A troco de que ela vai aceitar um suplício desses?! — ele exclamou de repente, em lágrimas. — A Grucha está me matando, pensar nela está me matando, me matando! Ela esteve aqui comigo há pouco tempo…

— Ela me contou. Hoje ela estava muito amargurada com você.

— Eu sei. Que o diabo me carregue por esse caráter. Senti ciúme! Quando ela estava partindo, eu me arrependi, dei um beijo nela. Não pedi perdão.

— Por que não? — exclamou Aliocha.

Mítia de repente deu uma risada quase alegre.

— Deus o proteja, menino querido, de, em algum momento, pedir perdão à mulher amada por uma falta sua! Especialmente à amada, especialmente, por maior que seja sua culpa perante ela! Porque a mulher, meu irmão, sabe lá o diabo o que é, pelo menos delas eu entendo bem! Pois tente reconhecer sua culpa diante de uma, dizendo “minha culpa, perdão, desculpe”: aí virá uma saraivada de recriminações! De jeito nenhum ela vai perdoar pura e simplesmente, vai te reduzir a pó, vai descontar até o que não aconteceu, vai pegar tudo, não vai esquecer nada, vai acrescentar uma parte dela e só então vai perdoar. E isso ainda é a melhor, a melhor delas! Vai raspar as últimas raspas e descarregar tudo na sua cabeça — é o que eu lhe digo, essa é a sanguinolência que existe dentro delas, da primeira à última, nesses anjos, sem os quais não podemos viver! Está vendo, meu querido, eu digo com sinceridade e franqueza: qualquer homem decente tem que estar sob o salto de uma mulher, qualquer que seja. Essa é a minha convicção; não é uma convicção, é um sentimento. O homem deve ser magnânimo, e isso não o mancha. Não mancha nem um herói. Não mancha um César! Bem, de qualquer modo, não peça desculpas, nunca, por motivo algum. Lembre­-se dessa regra: foi ensinada por seu irmão Mítia, arruinado por causa das mulheres. Não, é melhor eu recompensar a Grucha sem pedir perdão. Eu a venero, Aleksei, venero! Só ela que não vê isso, não, é sempre pouco o amor para ela. E ela me atormenta, me atormenta com o amor. Antes?! Antes eram só as curvas infernais que me atormentavam, mas agora sua alma se mescla à minha e, através dela, eu me tornei um homem! Vão deixar que nos casemos? É que, sem isso, vou morrer de ciúme. Sonho com isso todos os dias… O que ela te falou de mim?

Aliocha repetiu tudo o que Grúchenka dissera havia pouco. Mítia escutou com atenção, fez muitas perguntas e ficou satisfeito.

— Então não se irritou por eu ter ciúme — ele exclamou —, é mesmo uma mulher! “Eu mesma tenho um coração cruel.” Ah, são essas que eu amo, as cruéis, embora não suporte quando têm ciúme de mim, eu não suporto! Vamos brigar. Mas amar — hei de amá­-la infinitamente. Vão deixar que nos casemos? Será que deixam os trabalhadores forçados se casarem? É a questão. E sem ela eu não posso viver…

Mítia passeou pelo cômodo, grave. O cômodo estava ficando quase escuro. Ele de súbito ficou terrivelmente preocupado.

— Então tem um segredo, diz ela, tem um segredo. Ela diz que eu tenho um complô, de três pessoas, contra ela, e diz que a “Kátia” está envolvida? Não, Grúchenka queridinha, não é isso. Aqui você cometeu um deslize, um deslize tolinho de mulher! Aliocha, meu caro, por que não! Vou revelar a você o nosso segredo!

Ele olhou para todos os lados, rapidamente aproximou­-se de Aliocha, que estava em pé diante dele, e sussurrou­-lhe, com ar enigmático, embora ninguém pudesse ouvi­-los: o velho vigia cochilava no canto, num banco, e nenhuma palavra chegaria até os soldados da guarda.

— Vou revelar a você todo o nosso segredo! — sussurrou Mítia, apressado. — Queria revelar depois, porque como eu poderia tomar alguma decisão sem você? Você é tudo para mim. Eu posso até dizer que o Ivan é superior a nós, mas você é o meu querubim. Só a sua decisão é que vai determinar. Talvez você seja o homem superior, e não o Ivan. Veja só, é uma questão de consciência, uma questão de elevadíssima consciência — um mistério tão importante que eu mesmo não consigo dar conta, e continuava adiando até o fim. E, mesmo assim, ainda é cedo para decidir, porque é preciso esperar a sentença: quando a sentença sair, aí você determinará o meu destino. Não decida agora; eu vou lhe contar, você vai ouvir, mas não decida. Espere e fique calado. Não vou lhe revelar tudo. Só vou lhe esboçar a ideia, sem detalhes, e você vai ficar calado. Nenhuma pergunta, nenhum movimento, concorda? Mas, aliás, Senhor, onde é que eu enfio os seus olhos? Temo que os seus olhos expressem a decisão, mesmo você estando calado. Ah, como eu temo! Aliocha, escute: o irmão Ivan me sugeriu fugir. Não vou contar os detalhes: tudo foi previsto, tudo pode ser organizado. Fique calado, não decida. Ir para a América com a Grucha. Pois não posso viver sem a Grucha! E se eles não a deixarem ficar comigo? Será que permitem que os forçados se casem? O irmão Ivan disse que não. E, sem a Grucha, como vou ficar lá debaixo da terra, com uma marreta? A única coisa que vou fazer é esmagar minha cabeça com essa marreta! Mas, por outro lado, e a consciência? Pois eu terei fugido do sofrimento! Veio o castigo — eu o rejeitei; veio um caminho para a purificação — eu o contornei. O Ivan diz que, na América, “com boas intenções”, é possível ser mais útil que debaixo da terra. Bem, mas e onde o nosso hino subterrâneo vai acontecer? O que é a América? A América é novamente presunção! E eu acho que tem muita vigarice na América, também. Terei fugido da crucificação! Pois eu lhe digo, Aleksei, que você é o único que pode entender isso, e mais ninguém, para os outros isso é uma tolice, um delírio, tudo isso que falei para você, do hino. Diriam que fiquei louco ou que sou um tolo. E eu não fiquei louco, nem sou um tolo. O Ivan também entende a coisa do hino, ah, como entende, só que ele não diz nada, fica calado. Não acredita no hino. Não fale, não fale, eu já estou vendo como você está olhando: você já decidiu! Não decida, tenha clemência, eu não posso viver sem a Grucha, espere o julgamento!

Mítia concluiu, como que delirante. Ele segurava Aliocha pelos ombros com ambas as mãos, e fixara seu olhar nele, seus olhos sequiosos e inflamados.

— Será que permitem o casamento de forçados? — ele repetiu pela terceira vez, com voz suplicante.

Aliocha escutava com extremo espanto e estava profundamente abalado.

— Me diga uma coisa — ele falou —, Ivan está insistindo muito, mas quem pensou nisso primeiro?

— Foi ele, foi ele que pensou primeiro, ele está insistindo! Ele nunca vinha me ver e inesperadamente veio uma semana atrás e já começou com isso. Está insistindo muitíssimo. Não está pedindo, está mandando. Ele não duvida da minha obediência, embora eu tenha aberto o meu coração inteiro para ele, como estou fazendo com você, e tenha falado do hino. Ele me contou como vai organizar, reuniu todas as informações, mas isso fica para depois. Ele está praticamente histérico de tanto querer isso. O principal é o dinheiro: dez mil para a fuga, ele diz, e vinte mil para ir para a América, e diz que com dez mil vamos organizar uma bela fuga.

— E mandou não contar para mim de modo algum? — perguntou novamente Aliocha.

— De modo algum, para ninguém, sobretudo para você: para você, de jeito nenhum! Decerto ele tem medo de que você se coloque como a minha consciência. Não lhe diga que eu te contei. Ah, não diga!

— Você tem razão — declarou Aliocha —, é impossível decidir antes da sentença no tribunal. Depois do julgamen­to, você mesmo decide; aí você vai encontrar o novo homem dentro de você, ele é que vai decidir.

— O novo homem ou um Bernard, que vai decidir à maneira dos Bernards! Porque, pelo visto, eu também sou um Bernard desprezível! — Mítia deu um sorriso amplo e amargo.

— Mas será possível, meu irmão, será possível que você não tenha mesmo nenhuma esperança de ser absolvido?

Mítia sacudiu os ombros e balançou a cabeça com um movimento de negação.

— Aliocha, meu querido, está na hora de você ir! — apressou­-se. — O inspetor começou a gritar no pátio, logo chegará aqui. Já é tarde para nós, é contra o regulamento. Dê­-me um abraço, depressa, um beijo, faça o sinal da cruz para mim, querido, faça o sinal para a minha cruz de amanhã…

Eles se abraçaram e se beijaram.

— E o Ivan — falou de repente Mítia — sugeriu que eu fugisse, sendo que ele mesmo acredita que eu matei!

Seus lábios exprimiram um sorriso triste.

— Você perguntou se ele acredita ou não? — indagou Aliocha.

— Não, não perguntei. Queria perguntar, mas não consegui, não tive forças. Mas também tanto faz, eu vi pelos olhos dele. Bem, adeus!

Beijaram­-se mais uma vez às pressas, e Aliocha já ia saindo quando, de repente, Mítia gritou­-lhe mais uma vez:

— Fique aqui na minha frente, assim.

E ele novamente segurou Aliocha com força pelos ombros com ambas as mãos. Seu rosto ficou totalmente pálido, tanto que, mesmo estando quase escuro, via­-se claramente. Os lábios contraíram­-se, o olhar fixou­-se em Aliocha.

— Aliocha, diga­-me toda a verdade, como se fosse diante do Senhor Deus: você acredita ou não que eu matei? Você, você mesmo, acredita ou não? Toda a verdade, não minta! — gritou­-lhe, tomado por um frenesi.

Aliocha foi como que sacudido por inteiro, e ele sentiu que, em seu coração, passara algo como que afiado.

— Chega, o que está dizendo?… — ele balbuciou, como que desconcertado.

— Toda a verdade, toda, não minta! — repetiu Mítia.

— Nem por um minuto acreditei que você fosse o assassino — escapou, vinda do peito de Aliocha, uma voz trêmula, e ele ergueu a mão direita para o alto, como que evocando Deus como testemunha de suas palavras. No mesmo instante a beatitude iluminou o rosto de Mítia.

— Obrigado! — ele pronunciou arrastado, como se soltasse um suspiro depois de um desmaio. — Agora você me fez renascer… Acredite: até agora eu estava com medo de perguntar, justo para você, para você! Bem, mas vá, vá! Você me fortaleceu para amanhã, Deus o abençoe! Bem, vá andando, e ame o Ivan! — Mítia deixou escapar uma última palavra.

Aliocha saiu coberto de lágrimas. Tal nível de incredulidade de Mítia, tal nível de desconfiança até nele, Alio­cha — tudo aquilo abriu, de repente, diante dele, um abismo de irremediável pesar e desespero na alma de seu infeliz irmão, que antes ele nem imaginaria haver. Uma compaixão profunda e infinita tomou conta dele e atormentou­-o instantaneamente. Seu coração, trespassado, doía terrivelmente. “Ame o Ivan!”, ele se lembrou de repente das palavras que Mítia dissera havia pouco. E ele estava mesmo indo ver Ivan. Já desde a manhã ele precisava muitíssimo ver Ivan. Não menos que Mítia, Ivan o atormentava, e agora, depois do encontro com o irmão, mais do que nunca.

1. Claude Bernard (1813­-78), fisiologista e patologista francês, seguidor do positivismo: a partir de 1860, seus trabalhos foram difundidos e traduzidos na Rússia. (n. e.)

2. Os versos de Rakítin baseiam­-se numa paródia, escrita por Dmítri Mináiev (1835­-89), de um poema de Púchkin sobre São Peterburgo (“Cidade suntuosa, cidade pobre…”, 1828). (n. e.)

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