ii
O pezinho dolorido
O primeiro desses assuntos era na casa da senhora Khokhlakova, e ele correu até lá, para concluir o quanto antes e não se atrasar para ver Mítia. Já fazia três semanas que a senhora Khokhlakova estava adoentada: por alguma razão, seu pé inchara, e embora ela não ficasse deitada na cama, ainda assim, durante o dia, vestindo um deshabillé atraente, porém recatado, reclinava-se numa duquesa, em seu budoar. Certa vez Aliocha observou consigo mesmo, com um sorriso inocente, que, apesar de sua doença, a senhora Khokhlakova começara quase a exagerar na elegância: tinham aparecido umas coifinhas, uns lacinhos, umas blusinhas, e ele compreendeu o motivo, embora espantasse esses pensamentos, por serem vãos. Nos últimos dois meses, além de seus demais frequentadores, a senhora Khokhlakova passara a ser visitada pelo jovem Perkhótin. Já fazia quatro dias que Aliocha não vinha e, ao entrar na casa, fez menção de ir diretamente ao quarto de Liza, com pressa, pois era com ela que tinha um assunto a tratar, uma vez que Liza, já na véspera, enviara uma moça até ele com o pedido urgente de que fosse vê-la sem demora, “por conta de uma circunstância muito importante”, o que, por certos motivos, deixou Aliocha interessado. Mas, enquanto a moça ia até Liza para anunciá-lo, a senhora Khokhlakova já ficara sabendo por alguém de sua chegada e rapidamente mandou alguém lhe pedindo que fosse até ela, “só por um minuto”. Aliocha julgou que era melhor satisfazer primeiro o pedido da mãezinha, pois ela despacharia alguém até Liza a todo instante enquanto ele estivesse com ela. A senhora Khokhlakova estava deitada na duquesa, vestida de modo particularmente festivo, e era visível que estava num estado de extrema excitação nervosa. Ela recebeu Aliocha com gritinhos de entusiasmo.
— Faz séculos, séculos, séculos inteiros que não o vejo! Uma semana inteira, perdão, ah, aliás, o senhor veio faz só quatro dias, na quarta-feira. Veio ver a Lise, tenho certeza de que o senhor queria ir até o quarto dela na pontinha dos pés, para que eu não ouvisse. Meu querido, meu querido Aleksei Fiódorovitch, se o senhor soubesse como ela me preocupa! Mas isso, depois. Pode até ser a coisa mais importante, mas depois. Meu querido Aleksei Fiódorovitch, eu confio minha Liza ao senhor inteiramente. Depois da morte do ancião Zossima — que o Senhor tenha a sua alma! (ela fez o sinal da cruz) —, depois dele eu vejo o senhor como um asceta, embora o senhor fique muito bonito com seu novo traje. Onde o senhor arranjou um alfaiate assim por aqui? Mas não, não, isso não é o mais importante, isso é depois. Perdão por chamá-lo às vezes de Aliocha, sou uma velha, tudo me é permitido — ela sorriu com ar coquete —, mas isso também é depois. A coisa mais importante, não devo me esquecer da coisa mais importante. Por favor, lembre-me o senhor mesmo, se eu desandar a falar, o senhor dirá: “E a coisa mais importante?”. Ah, como vou saber o que é a coisa mais importante agora?! Desde que a Lise retirou sua promessa — sua promessa infantil, Aleksei Fiódorovitch — de casar-se com o senhor, o senhor obviamente entendeu que tudo isso era apenas uma fantasia infantil e jocosa de uma menina doente, que passou muito tempo numa cadeira — graças a Deus, agora ela já anda. Esse novo médico que a Kátia mandou chamar de Moscou para esse seu infeliz irmão, que amanhã será… Ora, que dizer de amanhã! Eu morro só de pensar em amanhã! Principalmente de curiosidade… Resumindo, esse médico esteve ontem aqui e viu a Lise… Eu lhe paguei cinquenta rublos pela visita. Mas essa não é a questão, de novo não é a questão… Está vendo, agora já fiquei totalmente perdida. Estou me apressando. Por que estou me apressando? Não sei. É horrível como agora eu parei de discernir as coisas. Para mim, ficou tudo emaranhado. Tenho medo de que o senhor pegue e fuja correndo de mim, de tédio, que suma da minha vista. Ai, meu Deus! Por que estamos aqui sentados? Em primeiro lugar, café, Iúlia, Glafira, café!
Aliocha agradeceu rapidamente e afirmou que tinha acabado de tomar café.
— Na casa de quem?
— De Agrafiena Aleksándrovna.
— Daquela… daquela mulher! Foi ela que arruinou a todos… aliás, eu não sei, dizem que ela virou uma santa, ainda que tenha sido tarde. Teria sido melhor antes, quando era necessário, mas agora, de que adianta? Calado, calado, Aleksei Fiódorovitch, porque eu quero dizer tanta coisa, e ao que me parece não conseguirei dizer nada. Esse processo horrível… irei sem falta, estou me preparando, vão me levar na cadeira, e, também, posso ficar sentada, uns criados estarão comigo, e o senhor sabe, eu estou entre as testemunhas. Como vou falar, como vou falar?! Não sei o que vou falar. E tem que fazer juramento, é assim, não é?
— É assim, mas não acho que a senhora deveria comparecer.
— Posso ficar sentada; ah, o senhor está me confundindo! Esse processo, esse ato selvagem, e depois todos vão para a Sibéria, outros vão se casar, e tudo isso depressa, depressa, e tudo muda, e, finalmente, nada, todos estão velhos e à beira do túmulo. Mas que seja, estou cansada. Essa Kátia, cette charmante personne, ela destruiu todas as minhas esperanças: agora ela vai atrás de um dos seus irmãos para a Sibéria, enquanto seu outro irmão seguirá atrás dela e viverá na cidade vizinha, e todos vão atormentar um ao outro. Isso me enlouquece, sobretudo essa publicidade: em todos os jornais de Petersburgo e de Moscou, escreveram isso milhões de vezes. Pois é, imagine o senhor, escreveram sobre mim também, que eu fui “uma boa amiga” de seu irmão, para não proferir a palavra repulsiva, imagine o senhor, pois imagine o senhor!
— Não pode ser! Mas onde e como escreveram?!
— Já mostro. Ontem recebi, ontem mesmo li. Olhe aqui, no jornal Rumores, o petersburguês. Começaram a publicar esses Rumores no ano em que estamos, gosto muitíssimo de rumores, aí eu assinei, e então, para o meu azar, esses são os rumores que apareceram. Bem aqui, nesse lugar aqui, leia.
E ela estendeu a Aliocha uma folha de jornal, que estava debaixo de seu travesseiro.
Ela não estava propriamente abalada, ela estava como que totalmente arrasada, e talvez de fato tudo em sua cabeça estivesse emaranhado. A notícia do jornal era bastante típica e decerto devia ter produzido nela um efeito muito embaraçoso, mas ela, talvez para sua sorte, naquele momento não era capaz de concentrar-se em um só ponto e, por isso, um momento depois podia até se esquecer do jornal e pular para algo completamente diferente. Já fazia tempo que Aliocha sabia que, por toda parte da Rússia, já corria a fama daquele horrível processo, e, por Deus!, que notícias e correspondências absurdas ele já não tivera a chance de ler durante aqueles dois meses, em meio a outras tantas verdadeiras, sobre seu irmão, sobre os Karamázov em geral e até sobre si mesmo. Em um dos jornais, até disseram que ele, por medo, depois do crime do irmão, tornara-se asceta e encerrara-se; em outro, isso era desmentido, e escreveram o contrário, que ele, juntamente com seu ancião Zossima, tinha arrombado o cofre do monastério e “fugido do monastério”. Já a notícia de agora, do jornal Rumores, trazia a manchete: “De Skotoprigónievsk (infelizmente esse é o nome de nossa cidadezinha, escondi seu nome por muito tempo), do processo Karamázov”. Era curtinha, e não mencionava nada diretamente sobre a senhora Khokhlakova, e, no mais, todos os nomes estavam ocultos. Era apenas noticiado que o criminoso, agora prestes a ser julgado com todo aquele estrondo, era um capitão reformado do exército, de índole descarada, um preguiçoso e defensor da servidão, que volta e meia se metia em namoricos e tinha particular influência sobre certas “senhoras entediadas em sua solidão”. Dizia que uma dessas senhoras, das “viúvas entediadas”, uma que se fazia passar por jovem, embora já tivesse uma filha adulta, fora a tal ponto seduzida por ele que, apenas duas horas antes do crime, oferecera-lhe três mil rublos para que ele fugisse imediatamente com ela, para as minas de ouro. Mas o malfeitor preferira, segundo eles, matar o pai e roubar dele justamente três mil, calculando fazer isso impunemente, a arrastar-se até a Sibéria com os encantos de sua entediada senhora de quarenta anos. Aquela jocosa correspondência terminava, devidamente, com uma nobre indignação contra o imoral parricídio e contra a antiga servidão. Depois de ler com curiosidade, Aliocha dobrou a folha e entregou-a de volta à senhora Khokhlakova.
— Mas como poderia não ser eu? — ela murmurou outra vez. — Afinal, fui eu, fui eu que fiquei quase uma hora sugerindo-lhe as minas de ouro, e de repente “os encantos da senhora de quarenta anos”! E por acaso foi por isso que eu disse?! Ele fez de propósito! Que o Juiz Eterno o perdoe por esses encantos da senhora de quarenta anos, como eu mesma perdoo, mas isso… pois sabe quem foi? Foi seu amigo Rakítin.
— Talvez — disse Aliocha —, embora eu não tenha ouvido nada.
— Foi ele, foi ele, nada de talvez! É que eu o expulsei… Afinal, o senhor sabe de toda essa história?
— Eu sei que a senhora pediu a ele que não a visitasse mais, mas por que razão exatamente, isso eu… pelo menos da senhora não ouvi.
— Então quer dizer que ouviu dele! Mas então o quê, ele fala mal de mim, fala muito mal de mim?
— Sim, ele fala mal, mas ele fala mal de todo mundo. Mas a razão pela qual a senhora o rejeitou, isso também não ouvi dele. E, no mais, eu me encontro com ele muito raramente. Nós não somos amigos.
— Bem, então vou lhe revelar tudo e, não há o que fazer, vou me confessar, porque nisso tem um ponto no qual eu talvez tenha culpa. É só um pontinho pequeno, pequeno, muito pequeno, de modo que talvez ele nem exista. Veja bem, meu caro — a senhora Khokhlakova imprevistamente assumiu um tom como que jocoso, e, em seus lábios, reluziu um sorrisinho amável, embora misterioso —, veja bem, eu suspeito… o senhor há de me perdoar, Aliocha, eu falo como se fosse sua mãe… ah, não, não, ao contrário, agora devo falar ao senhor como se fosse meu pai… porque uma mãe não tem nada a ver com isso aqui… Bem, como se fosse numa confissão com o ancião Zossima, essa é a coisa mais certa, isso é bem apropriado: afinal, agora há pouco eu chamei o senhor de asceta — pois bem, esse pobre jovem, seu amigo Rakítin (ai, Deus, eu simplesmente não consigo me irritar com ele! Fico irritada e com raiva, mas não muita), resumindo, esse jovem frívolo, de repente, imagine o senhor, ao que parece, inventou de apaixonar-se por mim. Foi depois, foi só depois que eu de repente percebi isso, mas, no início, quer dizer, um mês atrás, ele passou a vir a minha casa com mais frequência, quase todo dia, embora nós nos conhecêssemos desde antes. Eu não sabia de nada… e aí inesperadamente como que me veio à mente, e eu percebi, para minha surpresa. O senhor sabe, já faz dois meses que comecei a receber esse jovem modesto, amável e digno, Piotr Ilitch Perkhótin, que está servindo aqui. O senhor mesmo já o encontrou várias vezes. E não é verdade que ele é honrado e sério? Ele vem uma vez a cada três dias, e não todo dia (embora pudesse vir todo dia), e está sempre tão bem-vestido, e no mais eu adoro gente jovem, Aliocha, talentosa, modesta, assim como o senhor, e ele tem a mente quase que de homem de Estado, fala de um jeito tão adorável, e eu certamente, certamente hei de interceder por ele. É um futuro diplomata. Naquele dia horrível, ele quase me salvou da morte ao vir a minha casa de madrugada. Bem, e o seu amigo Rakítin sempre chega com aquelas botas, que ele arrasta pelo tapete… resumindo, ele começou até a me dar certas indiretas, até que, uma vez, ao sair, apertou minha mão com muitíssima força. Assim que ele apertou minha mão, de repente meu pé começou a doer. Antes disso, ele já tinha se encontrado com Piotr Ilitch em minha casa e, acredite o senhor, só implicava com ele, implicava, resmungando com ele por alguma razão. Eu só ficava olhando para os dois, quando se defrontavam, mas por dentro eu ria. Aí um dia eu estava sentada, sozinha, quer dizer, não, então eu já estava deitada, eu estava sozinha, deitada, chega o Mikhail Ivánovitch e, imagine o senhor, traz uns versinhos dele, bem curtinhos, sobre o meu pezinho dolorido, quer dizer, ele descreveu em versos o meu pezinho dolorido. Espere, como era mesmo? “Aquele pezinho, aquele pezinho,/ Ficou dolorido um pouquinho…”, ou alguma coisa assim, eu não consigo decorar poemas, está aqui comigo, depois vou lhe mostrar, uma maravilha, uma maravilha, e, sabe, não é só sobre o pezinho, mas também é edificante, com uma ideia encantadora, só que eu me esqueci, resumindo, era para colocar direto num álbum. Bem, é claro que agradeci, e ele ficou visivelmente lisonjeado. Nem tive tempo de agradecer, de repente entrou o Piotr Ilitch, e o semblante do Mikhail Ivánovitch de uma hora para outra ficou mais sombrio que a noite. Eu logo vi que o Piotr Ilitch o estava atrapalhando em alguma coisa, porque o Mikhail Ivánovitch certamente queria dizer alguma coisa logo depois do poema, eu já pressentia, e foi nisso que o Piotr Ilitch entrou. Então mostrei o poema ao Piotr Ilitch, mas não disse quem tinha escrito. Mas tenho certeza, tenho certeza de que ele adivinhou na mesma hora, embora até agora não admita, ele diz que não adivinhou; mas ele fez de propósito. Imediatamente, Piotr Ilitch começou a gargalhar e a criticar: disse que eram uns versinhos imprestáveis, que um seminarista qualquer tinha escrito — mas, sabe, com um entusiasmo, com um entusiasmo! Aí o seu amigo, em vez de dar risada, de repente ficou totalmente enfurecido… Senhor, eu pensei, eles vão brigar: “Fui eu que escrevi”, ele disse, “eu escrevi de brincadeira”, ele disse, “porque considero uma baixeza escrever poemas… Só que o meu poema é bom. Querem erguer um monumento ao seu Púchkin por causa dos pezinhos femininos, mas eu tenho um sentido, enquanto o senhor”, ele disse, “é um defensor da servidão; o senhor não tem humanidade nenhuma”, ele disse, “o senhor não sente nenhum dos sentimentos iluminados de hoje em dia, o progresso não lhe diz respeito, o senhor é um funcionário público”, ele disse, “e recebe suborno!”. Aí eu já comecei a gritar e a implorar para eles. E o Piotr Ilitch, o senhor sabe, não é nada tímido, e de súbito assumiu um tom nobilíssimo — olhou para ele com ar zombeteiro, ouviu e desculpou-se: “Eu não sabia”, ele disse, “se eu soubesse, não teria dito isso”, ele disse, “eu teria elogiado… Todos os poetas são tão irritadiços…”, ele disse. Resumindo, uma zombaria daquelas, disfarçada num tom nobilíssimo. Isso ele mesmo me explicou depois, que era tudo zombaria, e eu pensando que ele estava falando sério. Só que de repente eu estava deitada, do mesmo jeito que estou agora, diante do senhor, e pensava: será nobre ou não será nobre se eu enxotar o Mikhail Ivánovitch por ele ter gritado de maneira indecente com meu visitante, na minha casa? E, acredite o senhor — deitada, fechei os olhos e pensei: será nobre ou não será nobre — e não conseguia decidir, e fiquei atormentada, atormentada, e o coração batendo: gritar ou não gritar? Uma voz dizia: grite — e outra dizia: não, não grite! Assim que essa outra voz falou, eu então gritei e de repente também desmaiei. Bem, aí é claro que foi um rebuliço. Então me levantei e disse a Mikhail Ivánovitch: para mim é uma tristeza comunicar isso ao senhor, mas não desejo mais recebê-lo em minha casa. E foi assim que eu o expulsei. Ai, Aleksei Fiódorovitch! Eu mesma sei que fiz uma coisa má, era tudo mentira minha, eu não estava nem um pouco irritada com ele, mas de repente, o pior é que foi de repente, fiquei com a impressão de que aquilo seria tão bom, aquela cena… Só que o senhor pode acreditar que mesmo assim aquela cena foi natural, porque eu até caí no choro e depois chorei durante alguns dias, mas depois, assim, do nada, depois do almoço, acabei esquecendo tudo. Já faz duas vezes semanas que ele parou de me visitar, e eu pensei: mas será mesmo que ele não vem mais? E isso foi ainda ontem, aí então, no fim do dia, chegam esses Rumores. Eu li e fiquei boquiaberta, mas quem teria escrito, foi ele que escreveu, chegou em casa naquele dia, sentou-se e escreveu; enviou, e eles publicaram. Pois se isso foi duas semanas atrás. Só que é terrível o quanto eu falo, Aliocha, e não falo nada do que tenho que falar, não é? Ai, vou falando sem pensar!
— Hoje eu preciso muitíssimo chegar a tempo de ver meu irmão — Aliocha balbuciou.
— Justamente, justamente! O senhor me lembrou de tudo! Escute, o que é acesso?
— Que acesso? — surpreendeu-se Aliocha.
— Um acesso judicial. Um desses acessos pelos quais se perdoa tudo. Não importa o que o senhor tenha feito, será perdoado na mesma hora.
— Mas do que a senhora está falando?
— Estou falando do seguinte: essa Kátia… Ai, essa criatura amável, amável, só que eu não sei de jeito nenhum por quem ela está apaixonada. Pouco tempo atrás, ele esteve aqui na minha casa, mas não consegui arrancar nada. Ainda mais porque agora ela fala comigo de um jeito tão superficial, em resumo, só fala da minha saúde e nada mais, e até assume certo tom, mas eu falei comigo mesma: bem, que seja, pois que fique com Deus… Ai, sim, mas esse tal acesso: é que chegou esse médico. O senhor sabe que um médico chegou? Ora, mas como o senhor não saberia, esse que identifica os loucos, foi o senhor mesmo que o mandou chamar, quer dizer, não o senhor, mas a Kátia. Sempre a Kátia! Pois veja bem o senhor: está lá o sujeito, que não é nada louco, só que de repente ele sofre um acesso. Ele está consciente e sabe o que está fazendo, e no entanto ele está no meio de um acesso. Pois certamente o que aconteceu com o Dmítri Fiódorovitch foi um acesso. Assim que os novos tribunais foram abertos, eles descobriram a respeito desse acesso. É um benefício dos novos tribunais. Esse médico veio aqui e me interrogou sobre aquela noite, enfim, sobre as minas de ouro, perguntou: como ele estava naquele momento? Como é que não era um acesso, se ele veio e gritou: dinheiro, dinheiro, três mil, empreste os três mil, e depois foi e de repente matou. Não quero matar, não quero, ele disse, e de repente matou. E é por isso mesmo que vão perdoá-lo, porque tentou resistir, mas matou.
— Só que ele não matou — interrompeu Aliocha, num tom um pouco ríspido. A inquietação e a impaciência iam tomando conta dele cada vez mais.
— Eu sei, quem matou foi aquele velho, o Grigóri…
— Como assim, Grigóri? — exclamou Aliocha.
— Foi ele, foi ele, foi o Grigóri. Assim que o Dmítri Fiódorovitch deu um golpe nele, ele ficou caído, mas depois levantou-se, viu a porta aberta, foi e matou Fiódor Pávlovitch.
— Mas a troco de quê, a troco de quê?
— É que ele teve um acesso. Quando o Dmítri Fiódorovitch deu-lhe um golpe na cabeça, ele voltou a si e teve um acesso, foi e matou. E se ele mesmo disser que não matou, é porque talvez nem se lembre. Mas veja o senhor: será melhor, será muito melhor que Dmítri Fiódorovitch tenha matado. E foi isso mesmo, embora eu diga que foi o Grigóri, mas decerto foi o Dmítri Fiódorovitch, e isso é muito, muito melhor! Ai, não é melhor porque o filho tenha matado o pai, não estou louvando, pelo contrário, os filhos devem respeitar os pais, só que mesmo assim é melhor que tenha sido ele, porque então vocês não têm por que chorar, já que ele matou fora de si, ou, melhor dizendo, estava em si, mas sem saber como isso aconteceu com ele. Não, deixe que eles o perdoem; isso é tão humano, e que todos vejam os benefícios dos novos tribunais, e eu nem sabia, mas dizem que isso já faz tempo, e ontem, assim que soube, fiquei tão espantada com isso que queria mandar buscar o senhor imediatamente; e depois, se ele for perdoado, ele tem que vir direto para a minha casa, para um jantar, e eu vou reunir os conhecidos, e nós beberemos aos novos tribunais. Não creio que ele seja perigoso, e também eu devo chamar muitíssimos convidados, de maneira que ele poderá ser levado embora a qualquer momento, se fizer algo, e depois ele poderá ser um juiz de paz ou coisa do tipo em alguma outra cidade, porque aqueles que sofreram uma infelicidade são os melhores para julgar. E, acima de tudo, quem hoje em dia não está sofrendo um acesso, o senhor, eu, todos estão sofrendo um acesso, e quantos exemplos temos: o sujeito está lá sentado, cantando uma romança, subitamente alguma coisa lhe desagrada, ele pega o revólver e mata o primeiro que vê, e depois todos o perdoam. Eu li isso faz pouco tempo, e todos os médicos confirmaram. Hoje em dia os médicos confirmam, eles confirmam tudo. Perdão, a minha Lise também está sofrendo um acesso, ontem mesmo eu chorei por causa dela, anteontem eu chorei, aí hoje me dei conta de que ela está simplesmente sofrendo um acesso. Oh, a Lise me aflige tanto! Eu acho que ela está completamente enlouquecida. A troco de que ela chamou o senhor? Ela chamou o senhor ou o senhor veio por conta própria?
— Sim, ela me chamou, e vou agora mesmo vê-la — Aliocha fez menção de levantar-se, com ar resoluto.
— Ai, meu caro, meu caro Aleksei Fiódorovitch, isso é o que talvez seja a coisa mais importante — gritou a senhora Khokhlakova, caindo em prantos. — Deus está vendo que eu lhe confio sinceramente a Lise, e tudo bem ela ter chamado o senhor escondido da mãe. Mas a seu irmão Ivan Fiódorovitch, o senhor que me perdoe, mas a ele eu não posso confiar a minha filha com tanta facilidade, embora continue a considerá-lo um jovem dos mais cavalheirescos. Mas, imagine o senhor, ele também esteve com a Lise, e eu nem sabia disso.
— Como? O quê? Quando? — Aliocha ficou terrivelmente surpreso. Ele nem voltou a sentar e continuou a ouvir em pé.
— Vou lhe contar, talvez tenha sido para isso que eu o chamei, porque nem sei por que eu o chamei. Foi o seguinte: Ivan Fiódorovitch só esteve em minha casa duas vezes após seu retorno de Moscou, na primeira veio como conhecido, fazer uma visita, mas, da outra vez, isso faz pouco tempo, a Kátia estava aqui comigo, ele veio justamente depois de saber que ela estava aqui. É claro que eu nem tinha pretensões de que ele me fizesse visitas frequentes, sabendo quantos afazeres ele já não tem nesse momento, vous comprenez, cette affaire et la mort terrible de votre papa, só que fiquei sabendo que ele tinha vindo outra vez, só que não para me ver, e sim para ver a Lise, isso já faz uns seis dias, ele veio, ficou uns cinco minutos e foi embora. E eu fiquei sabendo disso só três dias mais tarde, pela Glafira, então isso de repente acabou por me frapper. Na mesma hora chamei a Lise e ela deu risada: ele achou que a senhora estava dormindo, foi o que disse, e veio me perguntar de sua saúde. É claro que foi isso mesmo. Só que a Lise, a Lise, ai, meu Deus, como a Lise me aflige! Imagine o senhor, uma noite — isso faz quatro dias, logo depois da última vez que o senhor veio e saiu —, de repente, de madrugada, ela tem um ataque, gritos, ganidos, um ataque de histeria! Por que eu nunca tenho ataques de histeria? Depois, no outro dia, mais um ataque, depois também no terceiro dia, e também ontem, e ontem foi essa coisa do acesso. E de repente ela gritou para mim: “Eu odeio Ivan Fiódorovitch, exijo que a senhora não o receba mais, que a senhora o proíba de entrar em casa!”. Fiquei aturdida com algo tão inesperado e repliquei: mas por que raios eu deveria proibir a entrada de um jovem tão digno e, ademais, com tanto conhecimento e tanta infelicidade, porque de qualquer maneira todas essas histórias são, afinal de contas, uma infelicidade, e não uma felicidade, não é verdade? Ela prontamente caiu na gargalhada com as minhas palavras, e de um jeito ofensivo, sabe? Bem, fico contente, eu pensei, por tê-la feito rir, até os ataques vão passar agora, ainda mais porque eu mesma queria proibir a entrada de Ivan Fiódorovitch, graças a essas visitas estranhas sem o meu consentimento, e exigir dele explicações. Só que, de repente, hoje de manhã, a Liza acordou e ficou irritada com a Iúlia e, imagine o senhor, bateu no rosto dela. Mas isso é monstrueux, porque as minhas meninas eu trato por senhora. E, então, uma hora mais tarde, ela está abraçando a Iúlia e beijando-lhe os pés. E então mandou me dizer que não viria mais me ver de jeito nenhum e que, de agora em diante, nunca mais queria vir, aí quando eu mesma me arrastei até ela, ela se jogou em mim, me beijando e chorando, e, depois de me beijar, me enxotou, sem dizer uma só palavra, de maneira que não consegui descobrir nada. Agora, caro Aleksei Fiódorovitch, todas as minhas esperanças estão no senhor, e é claro que o destino de minha vida está em suas mãos. Eu lhe peço simplesmente que vá ver Lise, descubra tudo com ela, como só o senhor consegue fazer, e venha me contar, a mim, que sou mãe, porque, o senhor entende, eu morrerei, eu simplesmente morrerei se tudo isso continuar, ou fugirei de casa. Não posso mais, tenho paciência, mas posso perdê-la, e então… e então será o terror. Ah, meu Deus, finalmente Piotr Ilitch! — a senhora Khokhlakova deu um grito, de repente ficou toda radiante, ao avistar Piotr Ilitch Perkhótin, que entrava. — Está atrasado! Está atrasado! Mas então, sente-se, diga, decida meu destino, que me diz esse advogado? Aonde o senhor está indo, Aleksei Fiódorovitch?
— Estou indo ver Lise.
— Ah, sim! Então o senhor não vai se esquecer, não vai se esquecer do que pedi, vai? É o destino, o destino!
— Claro que não vou me esquecer, se for possível… mas estou tão atrasado — murmurou Aliocha, retirando-se com pressa.
— Não, venha sem falta, sem falta, não “se for possível”, do contrário eu morrerei! — gritou a senhora Khokhlakova na direção dele, mas Aliocha já saíra do cômodo.
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