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Os irmãos Karamázov
III. A cebolinha

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A cebolinha

Grúchenka vivia no lugar mais movimentado da cidade, próximo à praça Sobórnaia, na casa de Morózova, viúva de um comerciante, de quem alugava uma casinha dos fundos. A casa de Morózova era grande, feita de pedra, um sobrado velho e de aspecto muito miserável; nela, vivia isolada a própria senhoria, uma mulher velha, com duas sobri­nhas suas, donzelas também um tanto idosas. Ela não ti­nha necessidade de alugar a casa dos fundos, mas todos sabiam que aceitara Grúchenka como inquilina (quatro anos antes) unicamente para agradar seu parente, o comerciante Samsónov, protetor declarado de Grúchenka. Diziam que o velho ciumento, ao alojar sua “favorita” na casa de Morózova, contava com o olho vigilante da velha, para que observasse o comportamento da nova inquilina. Mas logo o olho vigilante revelou­-se desnecessário, e acabou acontecendo de Morózova encontrar­-se com Grúchenka raramente, e, no fim, ela deixou de importunar Grúchenka com qualquer vigilância. É verdade que quatro anos haviam se passado desde que o velho trouxera para aquela casa, vinda da capital da província, a menina de dezoito anos, tímida, acanhada, esguia, magrinha, pensativa e tristonha, e desde então muita água correra. Em nossa cidade, aliás, da biografia daquela menina pouco se sabia, e de maneira confusa; nem se soube de mais coisa nos últimos tempos, e isso até quando muitos já haviam começado a se interessar pela “beldade” em que Agrafiena Aleksándrovna se tornara em quatro anos. Havia apenas boatos de que ela, ainda menina, aos dezessete anos, fora enganada por alguém, parece que por um oficial que logo depois a abandonou. Falavam que ele havia partido e depois casara em algum lugar, enquanto Grúchenka permaneceu em desonra e na miséria. Diziam, aliás, que, embora Grúchenka tivesse de fato sido tirada da miséria por seu velho, ela era de família honrada e provinha outrora do clero, era filha de um diácono extranumerário ou algo do gênero. E então, em quatro anos, da orfãzinha sensível, humilhada e miserável, fez­-se uma beldade russa, corada, corpulenta, mulher de caráter ousado e resoluto, orgulhosa e insolente, que entendia muito de dinheiro, negociante, avarenta e cautelosa, mas que já conseguira, não importa por quais meios, como diziam dela, acumular suas próprias economias. De uma só coisa todos tinham certeza: o acesso a Grúchenka era difícil e, além do velho, seu protetor, não havia ainda uma só pessoa, durante todos aqueles quatro anos, que pudesse se vangloriar de gozar de seus favores. Era um fato consolidado, porque muita gente desejosa de adquirir esses favores havia aparecido, sobretudo nos últimos dois anos. Mas todas as tentativas haviam sido vãs, e alguns dos que a procuravam foram forçados a bater em retirada, num desenlace até cômico e constrangedor, graças a uma resistência firme e zombeteira por parte daquela jovem de caráter forte. Sabiam ainda que a jovem, sobretudo no último ano, envolvera­-se em “gecheft”1 e que revelou extraordinárias habilidades nessa ocupação, de modo que, no fim, muitos passaram a chamá­-la de uma verdadeira judiazinha. Não que ela emprestasse dinheiro a juros, mas era sabido, por exemplo, que, em sociedade com Fiódor Pávlovitch Karamázov, ela de fato se dedicara, durante um tempo, à compra de letras de câmbio por uma ninharia, dez copeques por rublo, e que depois conseguia, por algumas delas, um rublo para cada dez copeques. O doente Samsónov, que no último ano perdera o uso de suas pernas inchadas, viúvo, tirano de seus filhos adultos, grande ricaço, homem avaro e inflexível, caíra, no entanto, sob a forte influência de sua protégée, que ele no início mantinha com mão de ferro e na rédea curta, “na base do azeite”, como diziam então os piadistas. Mas Grúchenka conseguiu emancipar­-se, incutindo­-lhe uma confiança ilimitada no que se referia a sua fidelidade. Esse velho, grande homem de negócios (agora falecido havia muito tempo), era também de um caráter notável, mas sobretudo avarento e firme como uma pedra, e, embora Grúchenka o tivesse afetado de tal forma que ele nem conseguiria viver sem ela (nos últimos dois anos, por exemplo, foi assim), de todo modo o velho não lhe destinou uma quantia grande, considerável, e mesmo que ela tivesse ameaçado abandoná­-lo de vez, teria ainda assim continuado inflexível. Mas, em compensação, destinou­-lhe uma pequena quantia, e quando souberam disso, todos ficaram surpresos. “Você é mesmo uma mulher esperta”, ele lhe disse, ao destinar­-lhe coisa de oito mil, “vai se virar, mas saiba que, além daquela remuneração anual de antes, até a minha morte você não vai receber mais nada de mim, e no testamento também não devo destinar mais nada a você.” E manteve a palavra: morreu e deixou tudo para os filhos, que, durante toda a vida, ele mantivera em sua casa no mesmo nível dos criados, com suas esposas e filhos, e não fez absolutamente nenhuma menção a Grúchenka no testamento. Tudo isso tornou­-se conhecido posteriormente. Porém, ele a ajudou bastante a manejar “sua própria fortuna” e indicou­-lhe “os negócios”. Quando Fiódor Pávlovitch Karamázov, que de início se associara a Grúchenka por causa de um ocasional “gecheft”, acabou, de maneira totalmente inesperada para ele, apaixonando­-se perdidamente e até perdendo o juízo, o velho Samsónov, que àquela altura já tinha um pé na cova, riu­-se a valer. Algo notável é que Grúchenka, durante todo o período de sua relação, foi totalmente sincera, até do fundo do coração, com o seu velho, e pelo visto com mais ninguém no mundo. Nos últimos tempos, quando também Dmítri Fiódorovitch de repente apareceu com seu amor, o velho parou de rir. Pelo contrário, certa vez aconselhou Grúchenka, em tom sério e severo: “Se tiver que escolher um dos dois, o pai ou o filho, escolha o velho, porém é impreterível que o velho canalha se case com você, e que lhe transfira antecipadamente a quantia que for. Com o capitão nem se meta, não vai levar a nada”. Essas foram as exatas palavras ditas a Grúchenka pelo velho lascivo, que então já pressentia a morte que se aproximava e que de fato morreu cinco meses depois daquele conselho. Mencionarei ainda, de passagem, que, embora muitos em nossa cidade soubessem então da absurda e monstruosa competição entre os Karamázov, entre pai e filho, e cujo objeto era Grúchenka, poucos eram então os que compreendiam o verdadeiro sentido das relações que ela mantinha com ambos, com o velho e com o filho. Até suas duas criadas (depois de já desencadeada a catástrofe de que falaremos adiante) testemunharam no tribunal que Dmítri Fiódorovitch era recebido por Agrafiena Aleksándrovna unicamente por medo, porque supostamente ele “ameaçara matá­-la”. Grúchenka tinha duas criadas, uma cozinheira muito velha, que viera com ela da casa de seus pais, doente e quase surda, e a neta dela, uma moça jovenzinha e desenvolta, de uns vinte anos, sua camareira. Grúchenka, porém, vivia de maneira muito parcimoniosa e em condições de todo modestas. Sua casa de fundos tinha só três cômodos, mobiliados pela senhoria com antigos móveis de mogno, ao estilo dos anos vinte. Quando Rakítin e Aliocha entraram em sua casa, já estava totalmente escuro, mas os cômodos ainda não haviam sido iluminados. A própria Grúchenka estava deitada na sala de estar, em seu sofá grande e desajeitado, com encosto de mogno, duro e revestido de couro, que havia muito já se tornara gasto e esburacado. Sob sua cabeça, havia dois travesseiros brancos, de pena, que trouxera de sua cama. Ela estava deitada de costas, estendida e imóvel, com ambos os braços por detrás da cabeça. Estava bem-vestida, como se esperasse alguém, com um vestido preto de seda e uma leve coifa de renda na cabeça que lhe caía muito bem; nos ombros, jogara um lenço de seda, preso com um maciço broche de ouro. Estava justamente esperando alguém, deitada, aborrecida e impaciente, com o rosto algo empalidecido, com lábios e olhos ardentes, a pontinha do pé direito batendo com impaciência no braço do sofá. Assim que apareceram Rakítin e Aliocha, começou um pequeno alvoroço: do vestíbulo, ouviu­-se Grúchenka saltar rapidamente do sofá e, de repente, gritar assustada: “Quem é?”. Mas os visitantes foram recebidos pela moça, que de imediato atendeu a senhora.

— Não é ele, senhora, são outros, tudo bem com eles.

“Que será que ela tem?”, murmurou Rakítin, levando Aliocha pelo braço até a sala de estar. Grúchenka estava de pé junto ao sofá, ainda assustada. Uma espessa mecha de sua trança castanho­-escura escapou da coifa e caiu sobre seu ombro direito, mas ela não percebeu e não a arrumou antes de olhar bem para as visitas e reconhecê­-las.

— Ah, é você, Rakitka. Me assustou. Com quem você veio? Quem é esse com você? Senhor, vejam só quem ele trouxe! — ela exclamou ao divisar Aliocha.

— Pois mande trazer umas velas! — falou Rakítin com o ar desenvolto de um conhecido íntimo e de alguém próximo, que tem até o direito de dar ordens na casa.

— Velas… é claro, velas… Fiénia, traga uma velinha… Ora, mas que belo momento de trazê­-lo! — ela mais uma vez exclamou, fazendo um aceno para Aliocha e, voltando­-se para o espelho, começou depressa a endireitar a trança com ambas as mãos. Parecia aborrecida.

— Então não fiz bem? — perguntou Rakítin, por um momento quase ofendido.

— Você me assustou, Rakitka, só isso — Grúchenka virou­-se para Aliocha, com um sorriso. — Não tenha medo de mim, caríssimo Aliocha, fico extremamente contente por você estar aqui, minha visita inesperada. Mas você me assustou, Rakitka: é que achei que era o Mítia tentando entrar à força. Sabe, eu o tapeei agora há pouco, fiz com que desse a palavra de honra de que acreditava em mim, e eu menti. Disse que sairia para passar a noite na casa de Kuzmá Kuzmitch, o meu velho, e que ficaria contando dinheiro com ele até de madrugada. É que toda semana vou à casa dele e passo a noite toda fazendo contas. Nós ficamos lá trancados: ele vai batendo no ábaco, e eu fico sentada, anotando nos livros — ele só confia em mim. E Mítia acreditou que eu estaria lá, mas me tranquei em casa — estou aqui só esperando uma notícia. Como é que a Fiénia deixou vocês entrarem? Fiénia, Fiénia! Vá correndo até o portão, abra e dê uma olhada ao redor para ver se o capitão não estará por ali. Talvez esteja escondido, espiando, eu morro de medo!

— Não tem ninguém, Agrafiena Aleksándrovna, acabei de olhar lá fora, vou espiar pela frestinha a cada instante, eu mesma estou tremendo de medo.

— Os contraventos estão trancados, Fiénia? Tem que baixar as cortinas, isso sim! — Ela mesma baixou as pesadas cortinas. — Do contrário, ele virá voando atraído pela luz. É do Mítia, o seu irmão, Aliocha, que eu estou com medo hoje. — Grúchenka falava alto, embora alarmada, mas em êxtase.

— Por que está com tanto medo de Mítia hoje? — indagou Rakítin. — Você não parece ter medo dele, ele dança conforme a sua música.

— Eu lhe disse que estou esperando uma notícia, uma no­ticiazinha de ouro, de maneira que não preciso do Mítenka aqui de jeito nenhum. E ele não acreditou em mim, sinto isso, quando eu disse que fui à casa de Kuzmá Kuzmitch. Deve estar agora lá sentado nos fundos da casa de Fiódor Pávlovitch, no jardim, me vigiando. E se ele se enfiou lá, quer dizer que não vem para cá, melhor assim! E eu fui mesmo correndo à casa de Kuzmá Kuzmitch, o Mítia me acompanhou, eu disse que ficaria até a meia­-noite e que ele fosse lá sem falta à meia­-noite para me acompanhar de volta a minha casa. Ele foi embora, fiquei uns dez minutos na casa do velho, aí voltei, mas que medo, eu corri para não me encontrar com ele.

— E aonde ia tão arrumada? E que touca curiosa é essa que está usando?

— Mas como você também é curioso, Rakítin! Já lhe disse, estou esperando uma noticiazinha. Quando chegar a notícia, dou um salto e saio voando, vocês nem me viram aqui. Foi para isso que me arrumei, para ficar pronta.

— E sai voando para ir aonde?

— Quem muito sabe envelhece depressa.

— Pois vejam só. Toda alegre… Nunca tinha visto você assim. Enfeitada como quem vai ao baile — examinou­-a Rakítin.

— E você sabe lá muito de bailes.

— E você, sabe muito?

— Pois eu vi um baile. Ano retrasado, Kuzmá Kuzmitch casou o filho, eu assisti do coro. Mas por que vou ficar conversando com você, Rakitka, quando um príncipe como esses está aqui. Isso sim é visita! Aliocha, meu querido, olho para você e não acredito: Senhor, como é que você apareceu aqui na minha casa!? Para dizer a verdade, eu não esperava, não poderia adivinhar, e jamais acreditei que você pudesse vir. Embora o momento não seja o melhor, fico extremamente contente por você estar aqui! Sente­-se no sofá, aqui, assim, meu bem. Juro, parece que ainda não me dei conta… Ai, Rakitka, se você o tivesse trazido ontem ou anteontem!… Mas fico contente mesmo assim. Talvez seja até melhor agora, num momento como esse, e não anteontem…

Ela se sentou com vivacidade junto de Aliocha no sofá, ao lado dele, e o admirava extasiada. E ela de fato estava contente, não havia mentido quando o disse. Seus olhos brilhavam, os lábios riam, mas riam com bondade, com alegria. Aliocha nem mesmo esperava dela uma expressão tão bondosa no rosto… Até a véspera, ele se encontrara pouco com ela, fizera dela uma imagem assustadora, e no dia anterior ficara tão terrivelmente abalado por sua conduta maldosa e pérfida em relação a Katerina Ivánovna, e tão surpreso, que agora ele subitamente a via como um ser completamente diferente e inesperado. E, por mais oprimido que estivesse por sua dor, seus olhos involuntariamente detiveram­-se nela com atenção. Todos os seus modos pareciam ter mudado por completo desde a véspera, para melhor: não havia quase nada daquela afetação na fala, nada daqueles movimentos insinuantes e afetados… tudo era simples, cândido, seus movimentos eram ligeiros, diretos, confiantes, mas ela estava muito agitada.

— Senhor, mas quanta coisa está acontecendo hoje — ela se pôs novamente a murmurar. — E por que estou tão contente em vê­-lo, Aliocha, eu mesma não sei. Pode até perguntar, mas não sei.

— Mas não sabe mesmo por que está contente? — sorriu Rakítin. — Pois antes não parava de me importunar, por alguma razão: mas traga­-o, traga­-o, algum objetivo você tinha.

— Pois antes eu tinha outro objetivo, mas agora aquilo passou, não é o momento. Quero recebê­-los bem, isso sim. Agora fiquei boa, Rakitka. Pois sente­-se você também, Rakitka, por que está de pé? Ah, já sentou? O Rakítuchka não perde tempo. Agora ele está ali, Aliocha, sentado de frente para nós, e está ofendido: por que eu não o convidei a sentar­-se antes de você? Mas como é melindroso o meu Rakitka, é melindroso! — riu­-se Grúchenka. — Não se irrite, Rakitka, hoje estou boazinha. Mas por que está tão triste, Alióchetchka, ou está com medo de mim? — e o olhou nos olhos com alegre ironia.

— Está desgostoso. Não deram a promoção — falou Rakítin com voz de baixo.

— Que promoção?

— O ancião dele fedeu.

— Como, fedeu? Mas que bobagem está dizendo, que coisa nojenta. Fique quieto, imbecil. Aliocha, deixe­-me sentar no seu colo, assim! — E, inesperadamente, num instante, ela deu um salto e pulou no colo dele, rindo, como uma gatinha fazendo carinho, passando ternamente o braço direito ao redor do pescoço dele. — Eu vou alegrá­-lo, meu menino piedoso! Mas você vai mesmo me deixar ficar sentada no seu colo, não vai se irritar? Se você mandar, eu me levanto.

Aliocha ficou em silêncio. Continuava sentado, temendo mover­-se; ele ouviu as palavras dela: “Se você mandar, eu me levanto”, mas não respondeu, como se estivesse congelado. Mas não havia nele, naquele momento, aquilo que até mesmo Rakítin, que, de seu lugar, observava lascivamente, poderia esperar e poderia imaginar nele. A enorme dor de sua alma consumia todas as sensações que poderiam surgir em seu coração, e, se ele pudesse, naquele instante, dar­-se conta plenamente, ele mesmo teria percebido que agora vestia a mais resistente armadura contra qualquer sedução e tentação. No entanto, apesar de toda aquela confusa falta de controle de seu estado espiritual e de todo o pesar que o oprimia, ainda assim ele estava involuntariamente admirado com uma sensação nova e estranha que nascia em seu coração: aquela mulher, aquela “terrível” mulher, não só não causava aquele medo de antes, o medo que antes surgia nele a partir de qualquer sonho com uma mulher, se tal coisa lhe passasse pela alma, como, pelo contrário, aquela mulher, que ele temera mais do que todas, que estava sentada em seu colo e abraçada a ele, de repente lhe despertava um sentimento totalmente diferente, inesperado e peculiar, o sentimento de uma curiosidade incomum, imensa e das mais sinceras, e tudo isso já sem nenhum temor, sem nada daquele horror de antes — essa era a coisa mais importante e aquilo que o deixava involuntariamente admirado.

— Mas chega de besteiras — gritou Rakítin —, é melhor servir o champanhe, você me deve e sabe muito bem disso!

— Realmente, devo. É que eu ainda por cima prometi a ele champanhe por sua causa, Aliocha, se ele trouxesse você aqui. Que role champanhe, e eu também vou beber! Fiénia, Fiénia, traga­-nos champanhe, aquela garrafa que o Mítia deixou, corra lá, depressa. Posso até ser avarenta, mas uma garrafa pelo menos eu ofereço, não a você, Rakítin, você é um fungo, e ele é um príncipe! E, embora meu coração não esteja para isso, que seja, eu também vou beber com vocês, quero me esbaldar!

— Mas que momento é esse seu, e que “notícia” era aquela, posso perguntar ou é segredo? — insinuou novamente Rakítin com curiosidade, tentando com todas as forças parecer indiferente às farpas que voavam incessantemente em sua direção.

— Ora, não é segredo, você sabe — falou de repente Grúchenka com ar preocupado, virando a cabeça na direção de Rakítin e afastando­-se um pouco de Aliocha, embora continuasse sentada em seu colo, rodeando com o braço o pescoço dele —, o oficial está chegando, Rakítin, meu oficial está chegando!

— Eu ouvi falar que ele está chegando, mas logo assim?

— Está em Mókroie agora, mandará um estafeta de lá, foi ele mesmo que escreveu isso, recebi uma carta faz pouco tempo. Estou aqui esperando o estafeta.

— Veja só! Por que em Mókroie?

— É uma longa história, e também já basta para você.

— Quero ver o Mítenka agora, ai, ai! E ele já sabe ou não sabe?

— Que sabe, o quê! Não sabe de nada! Se soubesse, ele me mataria. Mas agora não tenho medo disso, não tenho medo da sua faca. Calado, Rakitka, não mencione Dmítri Fiódorovitch para mim: ele esmigalhou meu coração todinho. E eu nem quero pensar em nada disso nesse momento. No Alióchetchka aqui posso pensar, estou olhando para o Alióchetchka… Mas sorria para mim, queridinho, anime­-se com a minha estupidez, sorria com a minha alegria… Ele deu um sorriso, deu um sorriso! Mas com que carinho ele olha. Sabe, Aliocha, pensei que você tivesse se irritado comigo por aquilo de anteontem, por causa da senhorita. Fui uma cachorra, isso sim… Mas de qualquer maneira foi bom que tenha acontecido assim. Foi ruim e foi bom — riu­-se de repente Grúchenka, pensativa, e certo tracinho cruel lhe perpassou o sorriso. — O Mítia me contou que ela gritava: “Deveriam dar com o açoite nela!”. Eu a ofendi muito naquele dia. Insistiu que eu fosse, queria me sobrepujar, me seduzir com o chocolate dela… Não, foi bom ter acontecido assim — riu­-se de novo. — Pois eu só temo ter irritado você…

— Pois é isso mesmo — insinuou de chofre Rakítin, com ar sério de surpresa. — Ela de fato tem medo de você, Aliocha, de um frangote como você.

— Para você ele é um frangote, Rakitka, isso sim… porque você não tem consciência, isso sim! Eu o amo, entende, amo com toda a minha alma, isso sim! Aliocha, você acredita que eu o amo com toda a minha alma?

— Ah, sua sem­-vergonha! Ela está se declarando para você, Aleksei!

— E o que que tem? Eu o amo.

— E o oficial? E a noticiazinha de ouro, de Mókroie?

— Aquilo é uma coisa, e isto aqui é outra.

— Sempre com tiradas de mulher!

— Não me irrite, Rakitka — rebateu Grúchenka, em tom ardente —, aquilo é uma coisa, e isto aqui é outra. Eu amo o Aliocha de outra maneira. É verdade, Aliocha, antes eu tinha intenções ardilosas em relação a você. É que sou baixa, sou agitada, é verdade, mas em certos momentos eu por vezes olhava para você como se fosse a minha consciência, Aliocha. Eu pensava: “Mas como alguém como ele deve desprezar alguém indecente como eu”. Anteontem eu também pensava nisso, enquanto vinha correndo para cá, da casa da senhorita. Faz tempo que percebi quem você é, Aliocha, e o Mítia sabe, eu disse a ele. E o Mítia entende isso. Acredita, Aliocha, juro que às vezes olho para você e me envergonho, eu me envergonho inteira de mim mesma… E como é que comecei a pensar em você e desde quando, isso eu não sei e não lembro…

Fiénia entrou e depositou sobre a mesa uma bandeja, na qual havia uma garrafa desarrolhada e três copos cheios.

— Trouxeram o champanhe! — gritou Rakítin. — Você está agitada, Agrafiena Aleksándrovna, e fora de si. Bebe­rá uma taça e sairá dançando. Ah, nem isso souberam fazer — ele acrescentou, examinando o champanhe. — A velha serviu na cozinha, e trouxeram a garrafa sem a rolha, e está quente. Bom, vamos beber mesmo assim.

Ele se aproximou da mesa, pegou a taça, bebeu de uma vez e serviu outra para si.

— Não é toda hora que a gente se depara com champanhe — ele falou, lambendo os beiços. — Bom, Aliocha, pegue uma taça, mostre do que é capaz. A que vamos beber? Às portas do paraíso? Pegue uma taça, Grucha, beba você também às portas do paraíso.

— A que portas do paraíso?

Ela pegou a taça. Aliocha pegou a sua, bebeu um gole e pôs a taça de volta na bandeja.

— Não, é melhor não! — ele sorriu ligeiramente.

— Mas estava se gabando! — berrou Rakítin.

— Se é assim, eu também não bebo — apoiou Grúchenka —, e nem estou com vontade. Beba sozinho, Rakitka, a garrafa inteira. Se o Aliocha beber, aí eu também bebo.

— Começou o dengo! — provocou Rakítin. — Enquanto isso, você sentada no colo dele! Ele está desgostoso, isso podemos admitir, mas e você? Ele se rebelou contra seu próprio Deus, queria devorar o salame…

— Como assim?

— O ancião dele morreu hoje, o ancião Zossima, o santo.

— Então morreu o ancião Zossima! — exclamou Grúchenka. — Senhor, mas eu não sabia! — Ela se benzeu, com ar devoto. — Senhor, mas o que estou fazendo, justo agora estou sentada no colo dele! — ela se ergueu de supetão, num susto, no mesmo instante pulou do colo dele e sentou­-se no sofá. Aliocha olhou para ela demoradamente, com surpresa, e, em seu rosto, algo começou a iluminar­-se.

— Rakítin — ele falou de repente com uma voz alta e firme —, não me provoque dizendo que me rebelei contra o meu Deus. Não quero sentir raiva de você, e por isso seja mais bondoso. Eu perdi um tesouro que você nunca teve, e você não pode me julgar agora. É melhor que você olhe para cá, para ela: viu como ela teve pena de mim? Vim aqui para encontrar uma alma perversa — eu mesmo me sentia atraído por isso, porque eu era vil e perverso —, mas encontrei uma irmã sincera, encontrei um tesouro, uma alma amorosa… Ela teve pena de mim agora… Agrafiena Aleksándrovna, estou falando de você. Você restaurou minha alma agora.

Os lábios de Aliocha tremeram, e a respiração ficou pre­sa. Ele parou.

— Então quer dizer que ela o salvou! — Rakítin deu uma risada maldosa. — Mas ela queria era engolir você, sabia disso?

— Pare, Rakitka! — Grúchenka deu um salto. — Quietos, vocês dois. Agora eu vou dizer tudo: fique quieto, Aliocha, porque as suas palavras me dão vergonha, porque sou perversa, não sou bondosa — é isso que eu sou. E você, Rakitka, fique quieto, porque está mentindo. Tive esse pensamento infame, de devorá­-lo, mas agora você está mentindo, agora não é nada disso… e não quero ouvir mais nada de você, Rakitka! — Grúchenka falou tudo isso com uma agitação descomunal.

— Eita, os dois estão possuídos! — resmungou Rakítin, olhando com surpresa para os dois. — Parecem dois doidos, parece que eu vim parar numa casa de loucos. Um amoleceu o outro, agora vão começar a chorar!

— Vou mesmo começar a chorar, vou mesmo começar a chorar! — repetia Grúchenka. — Ele me chamou de irmã, e eu nunca mais vou me esquecer disso! E é o seguinte, Rakitka, posso até ser perversa, mas ainda assim estendi a cebolinha.

— Que cebolinha é essa? Mas que diabo, ficaram mesmo doidos!

Rakítin estava surpreso com o entusiasmo dos dois e sentia­-se suscetível e irritado, embora ele até pudesse ter compreendido que, para os dois, coincidira bem ali tudo que podia comover suas almas de um modo que raramente acontece na vida. Mas Rakítin, que tinha bastante sensibilidade para entender tudo que dizia respeito a ele mesmo, era bem obtuso no momento de entender os sentimentos e as sensações do próximo — em parte por sua inexperiência de jovem, e em parte por seu enorme egoísmo.

— Veja só, Alióchetchka — de repente Grúchenka pôs­-se a rir nervosamente, dirigindo­-se a ele —, eu me gabei para o Rakitka de ter estendido a cebolinha, mas para você não vou me gabar, para você contarei essa história com outro objetivo. É só uma fábula, mas uma boa fábula, que eu ouvi, ainda criança, da minha Matriona, que agora serve aqui na minha casa como cozinheira. Veja só como é: “Era uma vez uma mulher muito, muito malvada, e ela morreu. Sem nunca ter feito uma boa ação. Os diabos pegaram­-na e jogaram­-na no lago de fogo. Mas seu anjo da guarda ficou ali pensando: que boa ação dela eu poderia relembrar para contar a Deus? Ele se lembrou e disse a Deus: ‘Ela arrancou uma cebolinha da horta e deu a uma mendiga’, ele disse. E Deus respondeu: ‘Pegue essa mesma cebolinha’, Ele disse, ‘estenda a ela no lago, que ela agarre e puxe, e, se você conseguir puxá­-la para fora do lago, ela poderá ir para o paraíso, mas, se a cebolinha partir­-se, então a mulher ficará onde está’. O anjo correu até a mulher, estendeu­-lhe a cebolinha: ‘Aqui está, mulher’, ele disse, ‘agarre e puxe’. E ele começou a puxá­-la cuidadosamente, e já tinha quase puxado­-a para fora, quando os demais pecadores do lago, ao verem aquilo, começaram todos a agarrar a cebolinha, para que também fossem puxados para fora. Mas a mulher era muito, muito malvada, e dava coices neles com os pés: ‘Estão puxando a mim, não a vocês, a cebolinha é minha, não de vocês’. Assim que ela disse aquilo, a cebolinha rompeu­-se. E a mulher caiu no lago e está queimando até os dias de hoje. E o anjo chorou e foi­-se embora”. E essa é a fábula, Aliocha, eu aprendi de cor, porque eu mesma sou essa mulher malvada. Eu me gabei para o Rakitka por ter estendido a cebolinha, mas a você direi outra coisa: nada além de estender uma cebolinha qualquer foi o que fiz durante toda a minha vida, foi só essa boa ação. E não me elogie depois disso, Aliocha, não me considere bondosa, eu sou perversa, muito, muito malvada, e se você me elogiar, vai me causar vergonha. Ai, vou confessar tudo de uma vez. Escute, Aliocha: eu desejava tanto atrair você para cá e insisti tanto com o Rakitka, que prometi vinte e cinco rublos se ele conseguisse trazer você. Pare, Rakitka, espere! — Ela se aproximou da mesa com passos rápidos, abriu uma gaveta, sacou um porta­-moedas e, de dentro dele, uma nota de vinte e cinco rublos.

— Mas que absurdo! Mas que absurdo! — exclamava Rakítin, desconcertado.

— Aceite, Rakitka, é uma dívida, decerto não vai recusar, você mesmo pediu. — E atirou­-lhe a nota.

— E por que recusaria — disse baixinho Rakítin, visivelmente desconcertado, mas procurando dissimular a vergonha com uma tirada. — Isso nas minhas mãos vai cair muito bem, os tolos existem justamente para o proveito dos inteligentes.

— Mas agora fique quieto, Rakitka, agora nada do que eu direi será para os seus ouvidos. Sente­-se ali no canto e fique quieto, você não nos ama, então fique quieto.

— E por que eu deveria amar vocês? — rosnou Rakítin, já sem esconder a raiva. Ele enfiou no bolso a nota de vinte e cinco rublos e ficou definitivamente envergonhado perante Aliocha. Ele contava em receber o pagamento depois, de maneira que o outro nem soubesse, mas agora a vergonha deixara­-o raivoso. Até aquele momento, ele achara diplomático não contradizer muito Grúchenka, apesar de todas as suas farpas, pois via­-se que ela possuía algum poder sobre ele. Mas agora ele também se irritara:

— As pessoas amam por alguma razão, mas vocês dois, o que fizeram por mim?

— Mas você deve amar sem razão alguma, como Aliocha ama.

— E por que ele ama você, e o que foi que ele lhe mostrou para deixar você tão agitada?

Grúchenka estava de pé, no meio da sala, falando com ardor, e em sua voz ouviam­-se umas notinhas histéricas.

— Fique quieto, Rakitka, você não entende nada de nós dois! E a partir de agora não ouse me tratar com essa intimidade, não vou lhe dar essa liberdade, de onde é que tirou tamanha ousadia, me diga?! Sente­-se ali no canto e fique quieto, como meu criado. E agora, Aliocha, contarei toda a verdade, a mais pura verdade, só a você, para que veja que canalha sou! Não estou falando com o Rakitka, e sim com você. Eu queria arruinar você, Aliocha, é a grande verdade, estava totalmente determinada; e queria a tal ponto que subornei o Rakitka com esse dinheiro, para que ele o trouxesse aqui. E por que eu queria tanto isso? Você nem sabia de nada, Aliocha, você se afastava de mim, passava e baixava os olhos, mas eu já tinha olhado para você cem vezes antes disso, comecei a perguntar de você para todo mundo. Seu rosto ficou em meu coração: “Ele me despreza”, eu pensava, “não quer nem olhar para mim”. E no fim fui tomada por um sentimento que me deixa até surpresa: por que tenho medo desse menino? Vou devorá­-lo inteiro e vou rir. Fiquei totalmente enraivecida. Será que você vai acreditar nisso? Ninguém aqui ousaria dizer ou mesmo pensar ter vindo à casa de Agrafiena Aleksándrovna em busca de coisa feia; eu só tenho o meu velho aqui, sou ligada a ele e vendida, fomos casados por Satanás; em compensação, não recebo mais ninguém. Mas, olhando para você, eu decidi: vou devorá­-lo. Vou devorar e vou rir. Está vendo que sou uma cachorra perversa, que você chama de irmã?! E agora chegou esse meu ofensor, agora estou aqui esperando a notícia. E você sabe o que era para mim esse ofensor? Faz cinco anos desde que Kuzmá me trouxe para cá — e na época eu ficava me escondendo das pessoas, para que não me vissem e não me ouvissem, franzina, tolinha, só ficava soluçando, noites inteiras sem dormir, pensando: “E onde será que ele está agora, o meu ofensor? Deve estar rindo de mim com outra, se ao menos eu pudesse vê­-lo”, eu pensava, “encontrá­-lo em algum momento: ah, mas então ele vai me pagar, eu o faria pagar!”. De noite, no escuro, eu soluçava no travesseiro e ficava pensando nisso sem parar, dilacerava meu coração de propósito, saciava­-o com a minha raiva: “Mas ele vai me pagar, vai me pagar!”. Era o que, na época, eu gritava no escuro. E então, de repente, quando me lembrava de que não podia fazer nada contra ele, que ele estava rindo de mim naquele momento, ou talvez tivesse se esquecido completamente e nem se lembrasse de mim, então eu saltava da cama para o chão, desfazia­-me em lágrimas impotentes e ficava tremendo, tremendo, até o raiar do dia. Pela manhã, eu me levantava, mais brava que um cachorro, disposta a engolir o mundo inteiro. Depois, o que acha? Comecei a acumular fortuna, tornei­-me impiedosa, ganhei corpo — tomei juízo, não? Pois não foi nada disso, ninguém vê e ninguém sabe, em todo o universo, que, quando chega a escuridão da noite, começa de novo tudo aquilo de quando eu era mocinha, cinco anos atrás; às vezes fico deitada, rangendo os dentes, e choro a noite toda: “Mas ele vai me pagar, vai me pagar”, fico pensando! Ouviu tudo? Pois então agora vai me entender — um mês atrás, de repente chega até mim uma carta: ele está vindo, enviuvou, quer se encontrar comigo. Eu fiquei totalmente sem ar, Senhor, e de repente pensei: ele vai chegar e dar um assobio, vai me chamar, e eu vou me arrastar até ele como uma cachorrinha, abatida, culpada! Eu pensava isso e nem conseguia acreditar em mim mesma: “Sou infame ou não sou, irei correndo atrás dele ou não?”. E fui tomada por uma raiva tão grande contra mim mesma, agora, ao longo de todo esse mês, até pior do que cinco anos atrás. Agora você está vendo, Aliocha, como eu sou impetuosa, como sou furiosa, revelei toda a verdade a você! Eu estava me divertindo com o Mítia, para não sair correndo atrás do outro. Fique quieto, Rakitka, não cabe a você me julgar, não estou falando com você. Antes da chegada de vocês, eu estava aqui deitada, esperando, pensando, tentando resolver meu destino, e vocês nunca poderiam saber o que estava em meu coração. Não, Aliocha, diga à sua senhorita que não se irrite com aquilo de anteontem!… E ninguém em todo mundo sabe o que sinto agora, e nem poderia saber… Porque talvez eu leve uma faca quando for lá hoje, ainda não decidi…

E, depois de proferir aquela palavra “lamentável”, Grúchenka subitamente não aguentou, não concluiu, cobriu o rosto com as mãos, jogou­-se no sofá entre os travesseiros e começou a soluçar como uma criancinha. Aliocha levantou e aproximou­-se de Rakítin.

— Micha — ele falou —, não se irrite. Ela ofendeu você, mas não se irrite. Você ouviu o que ela acabou de dizer? Não se pode exigir tanto da alma humana, é preciso ser mais misericordioso…

Aliocha falou aquilo com um ímpeto irresistível de seu coração. Ele precisava manifestar­-se e dirigiu­-se a Rakítin. Se não falasse a Rakítin, ele teria exclamado consigo mesmo. Mas Rakítin o olhou com ar malicioso, e Aliocha de repente parou.

— Agora há pouco encheram a sua cabeça com a história do seu ancião, e agora você quer descarregar o seu ancião em mim, Alióchenka, homenzinho de Deus — falou Rakítin com um sorriso odioso.

— Não ria, Rakítin, não sorria, não fale do falecido: ele está acima de todos os que já estiveram na terra! — gritou Aliocha, com voz chorosa. — Eu não me levantei para lhe falar como juiz, e sim como o último dos réus. Quem sou eu perante ela? Vim aqui para ser destruído, e dizia: “Que seja, que seja!”, e isso por causa da minha covardia, enquanto ela, depois de cinco anos de tortura, assim que alguém veio e pela primeira vez disse­-lhe uma palavra sincera, perdoou tudo, esqueceu tudo e está chorando! O ofensor dela retornou, está chamando, e ela perdoa tudo que ele fez e vai depressa até ele com alegria, e não levará a faca, não levará! Não, eu não sou assim. Não sei se você é assim, Micha, mas eu não sou assim! Recebi essa lição hoje, agora… Ela está acima de nós em amor… Você já tinha ouvido antes o que ela contou agora? Não, não tinha; se tivesse ouvido, teria entendido tudo há muito tempo… e a outra, a que foi ofendida anteontem, ela também terá de perdoá­-la! E há de perdoar, se souber… e saberá… É uma alma ainda não reconciliada, é preciso ter piedade dela… nessa alma pode haver um tesouro…

Aliocha calou­-se, sem respiração. Rakítin, apesar de toda a raiva, olhava­-o com surpresa. Nunca poderia esperar do tranquilo Aliocha tamanha explosão.

— Mas que advogado apareceu aqui! Por acaso se apaixonou por ela? Agrafiena Aleksándrovna, o nosso jejuador apaixonou­-se mesmo por você, você venceu! — ele berrou com um riso insolente.

Grúchenka levantou a cabeça do travesseiro e olhou para Aliocha com um sorriso comovido resplandecendo em seu rosto, que de algum modo inchara subitamente com as lágrimas de havia pouco.

— Deixe­-o, Aliocha, meu querubim, veja como ele é, para que falar com ele? Mikhail Óssipovitch — ela se dirigiu a Rakítin —, eu ia lhe pedir perdão por tê­-lo xingado, mas agora desisti. Aliocha, venha cá, sente­-se aqui — ela fez sinal para ele com um sorriso alegre —, assim, sente­-se bem aqui, diga­-me (ela segurou a mão dele e olhou para seu rosto, sorrindo), diga­-me: eu amo aquele outro ou não? O meu ofensor, eu o amo ou não? Antes de vocês chegarem, eu estava aqui deitada no escuro, só indagando meu coração: eu o amo ou não? Dê­-me a solução, Aliocha, chegou a hora, o que você determinar, assim será. Devo perdoá­-lo ou não?

— Pois já perdoou — falou Aliocha, sorrindo.

— E eu perdoei mesmo — disse Grúchenka, com ar pensativo. — Mas que coração infame! Ao meu coração infame! — de repente ela apanhou da mesa a taça, bebeu de uma vez, ergueu­-a e jogou­-a no chão com toda a força. A taça quebrou­-se e retiniu. Um tracinho cruel perpassou seu sorriso.

— Mas talvez eu ainda não o tenha perdoado — ela disse, parecendo ameaçadora, baixando os olhos para o chão, como se falasse consigo mesma. — Talvez meu coração esteja ainda só se preparando para perdoar. Eu ainda lutarei com o meu coração. Está vendo, Aliocha, eu criei um amor tremendo pelas minhas lágrimas de cinco anos… Talvez só tenha criado amor pela minha ofensa, e não por ele, em absoluto!

— Pois eu não queria estar na pele dele! — resmungou Rakítin.

— E nem estará, Rakitka, nunca estará na pele dele. Você vai é remendar os meus sapatos, Rakitka, é para essa tarefa que você me serve, porque alguém como eu você nunca vai ver… E talvez nem ele vá ver…

— Nem ele? E por que você vestiu esse traje elegante? — provocou Rakítin, sarcástico.

— Não venha me censurar pelo meu traje, Rakitka, você ainda não sabe tudo que está no meu coração! Se eu quiser, rasgo o traje, rasgo agora mesmo, nesse instante — ela deu um sonoro grito. — Você não sabe para que é esse traje, Rakitka! Talvez eu vá até ele e diga: “Já tinha me visto assim ou ainda não?”. Porque ele me deixou como uma chorona de dezessete anos, franzina, tísica. Pois vou me sentar ao lado dele, vou seduzi­-lo, vou atiçá­-lo: “Viu como estou agora?”, direi. “Pois vai ficar só nisso, prezado senhor, vai olhar com os olhos e lamber com a testa!”, talvez esse traje seja para isso, Rakitka — concluiu Grúchenka com um risinho raivoso. — Eu sou impetuosa, Aliocha, sou furiosa. Rasgarei o meu traje, mutilarei a mim mesma, a minha beleza, queimarei meu rosto e retalharei com a faca, pedirei esmola. Se eu quiser, não irei agora a lugar algum, não encontrarei pessoa alguma — se eu quiser, mando de volta tudo que o Kuzmá me deu de presente, e todo o dinheiro dele, e saio para trabalhar como diarista por toda a minha vida!… Pensa que eu não faria isso, Rakitka, que não ousaria fazer? Faria, faria, posso fazer agora mesmo, só não me irritem… e vou enxotar o outro, mandá­-lo ao diabo que o carregue, não vai tocar em mim!

Ela gritou as últimas palavras com histeria, mas de novo não aguentou, cobriu o rosto com as mãos, jogou­-se no travesseiro e de novo pôs­-se a sacudir­-se de tanto soluçar. Rakítin levantou­-se de seu lugar.

— Está na hora — ele disse —, está tarde, não nos deixarão entrar no monastério.

Grúchenka deu um salto de seu lugar.

— Mas será que você quer mesmo ir embora, Aliocha?! — ela exclamou numa estupefação amargurada. — Mas o que você está fazendo comigo agora: você mexeu comigo, me torturou, e agora de novo terei que ficar sozinha à noite!

— Não seria o caso de ele pernoitar aqui? Se quiser, que seja! Vou­-me embora sozinho! — zombou Rakítin, em tom cáustico.

— Fique quieto, alma perversa — gritou­-lhe Grúchen­ka, enfurecida. — Você nunca me disse as palavras que ele veio me dizer.

— O que foi que ele lhe disse? — resmungou Rakítin, irritadiço.

— Eu não sei, não tenho conhecimento, não tenho conhecimento de nada que ele me disse, foi algo que falou ao coração, ele revirou meu coração… Foi o primeiro, o único a ter pena de mim, é isso! Por que você não veio antes, meu querubim? — ela de repente caiu de joelhos diante dele, em delírio. — Passei a vida inteira esperando por alguém como você, sabia que alguém assim viria e me perdoaria. Acreditava que alguém me amaria, a mim, criatura repulsiva, não só para me desonrar!…

— Que fiz por você? — respondeu Aliocha com um sorriso comovido, inclinando­-se na direção dela e segurando­-lhe as mãos com ternura. — Eu lhe estendi uma cebolinha, uma cebolinha bem pequenina, só isso, só isso!…

E, depois de dizer aquilo, ele mesmo pôs­-se a chorar. Naquele instante, no vestíbulo, ouviu­-se um ruído, alguém entrara lá; Grúchenka ergueu­-se de um salto, terrivelmente espantada. Fiénia entrou correndo no cômodo, gritando e fazendo barulho.

— Senhora, minha queridinha, senhora, o estafeta chegou a galope! — ela exclamou alegre e ofegante. — Uma carruagem veio de Mókroie para buscá­-la, o postilhão Timofei está aí com uma troica, estão trocando os cavalos agora mesmo… A carta, a carta, senhora, aqui está a carta!

Trazia uma carta na mão, e, durante todo o tempo em que ficou gritando, ela a agitava pelo ar. Grúchenka lhe arrancou a carta e levou­-a para perto de uma vela. Era só um bilhetinho, de algumas linhas, que ela leu num instante.

— Está chamando! — ela gritou, com o rosto contraído pelo sorriso doentio. — Está assobiando! Arraste­-se até mim, cachorrinha!

Mas ela só por um instante pareceu indecisa; de repente, o sangue subiu­-lhe à cabeça e cobriu de fogo as suas faces.

— Eu vou! — ela exclamou subitamente. — Cinco anos meus! Adeus! Adeus, Aliocha, o destino está decidido… Podem ir, podem ir, agora podem ir todos embora da minha casa, que eu não os veja mais!… Grúchenka está voando para uma nova vida… Não guarde rancor de mim você também, Rakitka. Talvez eu vá em direção à morte! Ah! É como se estivesse embriagada!

Ela inesperadamente os largou e saiu correndo para o quarto.

— Bom, ela não está com cabeça para nós agora! — resmungou Rakítin. — Vamos, pode ser que recomece essa gritaria de mulher, já estou farto dessa gritaria lacrimosa…

Aliocha deixou­-se levar mecanicamente. Do lado de fora estava a carruagem, homens atrelavam os cavalos, andavam com lanternas, atarefados. Pelos portões abertos, introduziram uma troica fresca. Mas, assim que Aliocha e Rakítin desceram do terraço, de repente abriu­-se a janela do quarto de Grúchenka e ela gritou na direção de Aliocha:

— Alióchetchka, mande lembranças ao seu irmãozinho Mítenka, e diga­-lhe que não guarde rancor de mim, a miserável dele. E também transmita­-lhe essas palavras: “Grúchenka coube ao canalha, não a você, nobre que é!”. E também acrescente que Grúchenka amou­-o pelo tempo de uma horinha, amou por nada mais que uma horinha — então que a partir de agora ele se lembre dessa horinha pelo resto da vida, diga a ele, Grúchenka mandou que lembrasse pelo resto da vida!…

Ela concluiu com a voz cheia de soluços. A janela bateu.

— Hum, hum! — rosnou Rakítin, rindo. — Degolou seu irmãozinho Mítenka e ainda dá ordem de lembrar­-se dela pelo resto da vida. Quanta ferocidade!

Aliocha não respondeu nada, como se nem tivesse ouvido; caminhava ao lado de Rakítin depressa, muito apressado; estava num torpor, andava maquinalmente. Rakítin de repente se sentiu picado por alguma coisa, como se um dedo tivesse tocado uma ferida aberta. Pouco antes, ao reunir Grúchenka e Aliocha, ele não esperara absolutamente nada daquilo; acontecera algo totalmente diverso, e não aquilo que ele tanto queria.

— Ele é polonês, esse oficial dela — ele voltou a falar, contendo­-se. — Mas agora nem é mais oficial coisa nenhuma, ele serviu como funcionário da alfândega na Sibéria, em algum lugar na fronteira com a China, deve ser um polaquinho mirradinho. Dizem que perdeu o posto. Agora ouviu falar que a Grúchenka juntou uma fortuna, aí voltou — nisso é que se resume todo o milagre.

Aliocha de novo parecia não ouvir. Rakítin não aguentou:

— E então, converteu a pecadora? — pôs­-se a rir maldosamente de Aliocha. — Botou a perdida no caminho da verdade? Expulsou sete demônios, hein? Então foi aqui que os nossos milagres esperados há pouco vieram se realizar!

— Pare, Rakítin — replicou Aliocha com sofrimento na alma.

— É por causa dos vinte e cinco rublos de agora há pouco que você me “despreza”? Como se eu tivesse vendido um verdadeiro amigo. Pois você não é Cristo, e eu não sou Judas.

— Ora, Rakítin, eu lhe garanto que tinha até me esquecido disso — exclamou Aliocha —, você mesmo que veio lembrar agora…

Mas Rakítin já estava definitivamente enraivecido.

— Pois que o diabo carregue todos vocês! — ele berrou de repente. — E por que diabo eu fui me envolver com você!? Nem quero saber de você daqui para a frente! Pode ir sozinho, seu caminho é por ali!

E ele virou bruscamente em outra rua, deixando Aliocha sozinho na escuridão. Aliocha saiu da cidade e foi em direção ao monastério pelo campo.

1. O termo Geschäft, que aparece no original em alemão russificado, adquiriu, em russo, o sentido de acordo comercial vantajoso e, por extensão, de lucro indevido. O termo possivelmente foi incorporado à língua russa pelo iídiche.

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