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Os irmãos Karamázov
VIII. O depoimento das testemunhas. O nenezinho

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O depoimento das testemunhas.
O nenezinho

O interrogatório das testemunhas começou. Mas em nosso relato não prosseguiremos com tantos detalhes como apresentados até agora. E, por isso, deixaremos de lado a advertência de Nikolai Parfiónovitch a cada testemunha convocada de que o depoimento deveria ser fiel à verdade e que ele posteriormente deveria ser repetido sob juramento. E também a exigência final de uma assinatura na ata dos depoimentos etc. etc. Mencionaremos apenas que o ponto mais importante, para o qual toda a atenção dos interrogados foi dirigida, foi acima de tudo aquela mesmíssima questão dos três mil, ou seja, se da primeira vez tinham sido três mil ou mil e quinhentos, ou seja, na primeira farra de Dmítri Fiódorovitch, ali em Mókroie, um mês antes, e se tinham sido três mil ou mil e quinhentos na véspera, na segunda farra de Dmítri Fiódorovitch. Infelizmente, todas as testemunhas, da primeira à última, acabaram contradizendo Mítia, e nenhuma confirmou sua declaração, e algumas até trouxeram fatos novos, quase aterradores, em refutação ao depoimento dele. O primeiro interrogado foi Trífon Boríssitch. Ele compareceu perante os inquiridores sem medo nenhum, ao contrário, aparentando rigorosa e severa indignação contra o acusado, e com isso indubitavelmente conferindo a si mesmo extraordinária veracidade e amor­-próprio. Falava pouco, em tom moderado, esperava as perguntas, respondia de modo preciso e ponderado. Firme e sem titubear, testemunhou que, um mês antes, ele não poderia ter gastado menos que três mil, que ali todos os mujiques testemunhariam que ouviram acerca dos três mil do próprio “Mítri Fiódoritch”: “Só com as ciganas, quanto ele não esbanjou? Acho que, só com elas, passou dos mil”.

— Talvez eu não tenha dado nem quinhentos — observou Mítia, com ar sombrio. — Só que não contei na ocasião, estava bêbado, e é uma pena…

Mítia, dessa vez sentado de lado, de costas para a cortina, ouvia com ar sombrio e tinha um aspecto triste e cansado, como se dissesse: “Ah, declarem o que quiserem, agora dá na mesma!”.

— Deu mais de mil para elas, Mítri Fiódoritch — refutou com firmeza Trífon Boríssitch —, foi jogando à toa, e elas pegando. Esse povo aí é ladrão e trapaceiro, eles roubam cavalos, se não tivessem sido enxotados eles talvez dessem testemunho de quanto arrancaram do senhor. Eu mesmo vi a quantia nas suas mãos naquela ocasião — contar, eu não contei, o senhor não me deixou, é justo, mas, de bater o olho, lembro que era muito mais que mil e quinhentos… Que mil e quinhentos, que nada! Já vi muito dinheiro, posso calcular…

Com relação à quantia do dia anterior, Trífon Boríssitch testemunhou com toda a franqueza que Dmítri Fiódorovitch, assim que desceu da carruagem, tinha declarado, a ele próprio, que trouxera três mil.

— Basta, Trífon Boríssitch, imagine se foi assim — Mítia objetou —, por acaso declarei categoricamente que tinha trazido três mil?

— Falou, Mítri Fiódorovitch. Falou na presença do Andrei. O próprio Andrei está aí, ainda não foi embora, podem chamá­-lo. E lá, no salão, quando estava servindo o coro, o senhor gritou abertamente que estava deixando seis mil aqui — quer dizer, com aquela soma de antes, é o que se pode entender. O Stepan e o Semion ouviram, e Piotr Fomitch Kalgánov estava bem do seu lado na hora, também deve estar lembrado…

O depoimento a respeito dos seis mil produziu um efeito extraordinário nos interrogadores. Gostaram da nova variação: três com três dava seis, portanto três mil na época, e três mil agora, somavam seis, ficava claro.

Interrogaram todos os mujiques indicados por Trífon Boríssitch, Stepan e Semion, o cocheiro Andrei e Piotr Fomitch Kalgánov. Os mujiques e o cocheiro confirmaram sem titubear o depoimento de Trífon Boríssitch. Além disso, registraram especialmente as palavras de Andrei sobre sua conversa com Mítia no caminho, a respeito “do lugar”, teria dito ele, “onde eu, Dmítri Fiódorovitch, irei parar: no céu ou no inferno, e serei ou não perdoado no outro mundo?”. O “psicólogo” Ippolit Kiríllovitch ouviu tudo aquilo com um sorriso sutil e acabou recomendando que aquele testemunho sobre o lugar onde Dmítri Fiódorovitch iria parar também fosse “anexado ao processo”.

Kalgánov entrou a contragosto para ser interrogado, carrancudo, com ar caprichoso, e conversou com o promotor e com Nikolai Parfiónovitch como se os visse pela primeira vez na vida, sendo que era conhecido deles de muito tempo e de todos os dias. Ele começou dizendo que “não sabia nada daquilo e nem queria saber”. Mas verificou­-se que tinha ouvido falar dos seis mil, e ele reconheceu ter estado bem ao lado de Mítia naquele momento. Na sua visão, ele “não sabia quanto era” o dinheiro que Mítia tinha em mãos. Quanto à trapaça dos poloneses no jogo de cartas, testemunhou afirmativamente. Explicou também, mediante as reiteradas indagações, que, depois da expulsão dos poloneses, as coisas entre Mítia e Agrafiena Aleksándrovna tinham mesmo se acertado e que ela dissera que o amava. A respeito de Agrafiena Aleksándrovna, expressou­-se de maneira moderada e respeitosa, como se fosse uma senhora da melhor sociedade, e não se permitiu chamá­-la de “Grúchenka” uma vez sequer. Apesar da visível aversão do jovem a ter que depor, Ippolit Kiríllovitch passou muito tempo interrogando­-o, e somente por ele ficou sabendo de todos os detalhes daquilo que constituía, por assim dizer, o “romance” de Mítia naquela noite. Mítia não interrompeu Kalgánov nenhuma vez. Finalmente, liberaram o jovem, e ele se retirou com indisfarçada indignação.

Interrogaram também os poloneses. Embora tivessem se recolhido para dormir em seu quarto, não pegaram no sono a noite inteira e, com a chegada das autoridades, vestiram­-se e logo se arrumaram, compreendendo que certamente seriam convocados. Vieram com dignidade, ainda que não sem certo medo. Verificou­-se que o mais importante deles, ou seja, o pan menor, era um funcionário reformado de décima segunda classe, servira na Sibéria como veterinário, e seu sobrenome era pan Musialowicz. Já o pan Wroblewski se revelou um dentista particular, um médico de dentes, como se diz na Rússia. Assim que entraram na sala, a despeito das perguntas de Nikolai Parfiónovitch, ambos começaram imediatamente a dirigir suas respostas a Mikhail Makárovitch, que estava ao lado, crendo, por ignorância, que ele era a figura de maior patente e autoridade e chamando­-o, a cada palavra, de “panie colonel”. E só depois, e por exortação do próprio Mikhail Makárovitch, perceberam que era preciso dirigir as respostas somente a Nikolai Parfiónovitch. Revelou­-se que sabiam até muito bem o russo e falavam muito bem, exceto talvez pela pronúncia de algumas palavras. De suas relações com Grúchenka, pregressas e atuais, o pan Musialowicz começou a relatar com ardor e orgulho, de maneira que Mítia logo ficou fora de si, gritando que não permitiria àquele “canalha” falar daquele modo em sua presença. O pan Musialowicz chamou imediatamente a atenção para a palavra “canalha” e pediu que fosse registrada na ata. Mítia encheu­-se de fúria.

— Canalha, mesmo, canalha! Registrem isso e registrem também que, apesar da ata, ainda assim eu grito que ele é um canalha! — ele gritou.

Nikolai Parfiónovitch, embora tenha registrado na ata, demonstrou, durante essa desagradável ocasião, uma louvável capacidade e habilidade de ordenar as coisas: depois de uma severa reprimenda a Mítia, ele interrompeu todas as demais questões referentes ao aspecto romanesco do caso e passou depressa ao essencial. Do essencial, houve um depoimento dos pans que despertou extraordinária curiosidade nos juízes de instrução: justamente a tentativa de Mítia de subornar, naquele quartinho, o pan Musialowicz e lhe oferecer três mil de compensação, sendo setecentos rublos em mãos e os dois mil e trezentos restantes “já amanhã de manhã, na cidade”, quanto a que lhe dera palavra de honra, declarando que ali, em Mókroie, ele nem tinha todo esse dinheiro, mas que o dinheiro estava na cidade. Mítia observou, afobado, que não tinha dado certeza de que entregaria na cidade no dia seguinte, mas o pan Wroblewski confirmou o depoimento, e Mítia, depois de pensar um momento, concordou, carrancudo, que devia ter sido como os pans estavam dizendo, que estava acalorado no momento e, por isso, poderia ter dito aquilo. E o promotor se aferrou ao depoimento: tornava­-se claro para o inquérito (como depois de fato concluíram) que metade ou parte dos três mil que caíram nas mãos de Mítia poderia realmente ter ficado escondida em algum lugar na cidade, ou talvez em algum lugar ali mesmo em Mókroie, de maneira que, com isso, explicava­-se o fato, delicado para o inquérito, de que eles só haviam encontrado oitocentos rublos com Mítia — um fato que, embora até aquele momento isolado e bastante insignificante, consistia, ainda assim, em certa evidência a favor de Mítia. Mas, agora, mesmo aquela única evidência a seu favor era destruída. Quando o promotor perguntou de onde é que ele teria tirado os dois mil e trezentos restantes para entregar no dia seguinte ao pan, se ele mesmo garantia que tinha somente mil e quinhentos, e no entanto dera sua palavra de honra ao pan, Mítia respondeu com firmeza que, na manhã seguinte, ele não pretendia oferecer dinheiro ao “polaquinho”, e sim um documento formal cedendo seus direitos à propriedade de Tchermachniá, os mesmos que oferecera a Samsónov e a Khokhlakova. O promotor deu até um sorriso com a “ingenuidade da manobra”.

— E o senhor acha que ele teria concordado em receber esses “direitos” em vez de dois mil e trezentos rublos em dinheiro vivo?

— Certamente teria concordado — cortou Mítia, acalorado. — Perdão, mas com isso ele podia ter lucrado não só os dois mil, mas uns quatro mil, até uns seis mil! Na mesma hora poderia reunir os seus advogadozinhos, seus polaquinhos e judeuzinhos, e teria arrebatado do velho não só os três mil, mas Tchermachniá inteira.

É evidente que o depoimento do pan Musialowicz foi incluído na ata em seus mínimos detalhes. Com isso, os pans foram dispensados. A falcatrua no jogo de cartas mal foi mencionada; Nikolai Parfiónovitch estava por demais grato apesar daquilo e não queria se incomodar com ninharias, ainda mais porque tudo aquilo tinha sido uma briga tola em estado de embriaguez durante um jogo de cartas e nada mais. Já não bastavam as farras e os escândalos daquela noite… De maneira que o dinheiro, os duzentos rublos, ficaram no bolso dos pans.

Convocaram depois o velhinho Maksímov. Ele veio acanhado, aproximou­-se num passinho lento, tinha um aspecto desgrenhado e muito triste. Ficara o tempo todo abrigado lá embaixo, ao lado de Grúchenka, sentado com ela em silêncio e “vez por outra começava a choramingar, e enxugava os olhos com um lencinho azul xadrez”, como contou mais tarde Mikhail Makárovitch. De maneira que ela já tentava acalmá­-lo e consolá­-lo. O velhinho reconheceu sua culpa de imediato e em meio a lágrimas confessou que tinha pego emprestados com Dmítri Fiódorovitch “dez rublos, por causa da minha pobreza, meu senhor”, e que estava disposto a devolver… Quando Nikolai Parfiónovitch perguntou abertamente se ele não se dera conta de quanto dinheiro exatamente havia nas mãos de Dmítri Fiódorovitch, já que ele pudera ver mais de perto que os demais o dinheiro nas mãos do outro, quando recebera dele o dinheiro, Maksímov respondeu, sem titubear, que ele tinha “vinte mil” em dinheiro.

— E o senhor já viu vinte mil antes, em algum momento? — perguntou Nikolai Parfiónovitch, sorrindo.

— Como não, senhor, vi sim, só que não eram vinte, senhor, eram sete, quando a minha esposa empenhou a minha choupana. Ela só me deixou ver de longe, ficou contando vantagem. Era um envelope muito grande, todas notas furta­-cor, meu senhor. As do Dmítri Fiódorovitch também eram todas furta­-cor…

Logo foi liberado. Então chegou a vez de Grúchenka. Os juízes de instrução nitidamente receavam o efeito que a aparição dela poderia produzir em Dmítri Fiódorovitch, e Nikolai Parfiónovitch até lhe murmurou algumas palavras de exortação, mas Mítia, em resposta, inclinou a cabeça em silêncio, dando a entender que “não haveria desordem”. O próprio Mikhail Makárovitch conduziu Grúchenka até lá. Ela entrou com o rosto severo e sombrio, com ar quase tranquilo, e sentou­-se calmamente na cadeira que lhe foi indicada, de frente para Nikolai Parfiónovitch. Estava muito pálida, parecia estar com frio e agasalhara­-se muito bem em seu belo xale negro. De fato, foi então que ela começou a ter um leve calafrio de febre — o início da longa doença que sofreu depois daquela noite. Seu ar severo, o olhar franco e sério e os modos tranquilos produziram em todos um efeito muito favorável. Nikolai Parfiónovitch até sentiu­-se um pouco “atraído” de início. Ele mesmo reconhecia, ao contar depois, aqui e ali, que foi só a partir dali que ele percebeu como aquela mulher “era bonita”, sendo que antes, embora a tivesse visto, sempre a considerara uma “hetera provinciana”. “Seus modos eram como os da mais alta sociedade”, ele falou certa vez, com entusiasmo, num círculo de senhoras. Mas ouviram­-no com a mais completa indignação e ele foi imediatamente chamado de “travesso”, o que o deixou muito satisfeito. Ao entrar no cômodo, Grúchenka apenas lançou um rápido olhar para Mítia, que, por sua vez, fitou­-a com inquietação; mas o ar dela logo o acalmou. Depois das primeiras e necessárias perguntas e exortações, Nikolai Parfiónovitch, ainda que gaguejando um pouco, e mantendo, no entanto, um ar dos mais polidos, perguntou­-lhe: “Que relações possuía com o tenente reformado Dmítri Fiódorovitch Karamázov?”. A que Grúchenka proferiu, em tom calmo e firme:

— Era meu conhecido, e eu o recebi como um conhecido ao longo do último mês.

Às perguntas seguintes, mais indiscretas, ela declarou francamente e com total sinceridade que, embora tivesse gostado dele “em diversos momentos”, não o amava, que o seduzira por sua “maldade ignóbil”, assim como aquele “velhote”; ela havia percebido que Mítia tinha muito ciúme de Fiódor Pávlovitch e de todos, mas ela apenas se divertira com aquilo. Quanto a Fiódor Pávlovitch, de modo algum pensara ficar com ele, só tinha rido dele. “Durante todo aquele mês, eu não tinha cabeça para nenhum dos dois; estava à espera de outra pessoa, que tinha uma dívida para comigo… Só penso”, ela concluiu, “que os senhores não têm nada que se intrometer nisso, e eu não tenho nada que responder aos senhores, porque isso é meu assunto particular.”

E foi assim que Nikolai Parfiónovitch prontamente agiu: mais uma vez parou de insistir nos pontos “romanescos” e passou diretamente à questão mais séria, ou seja, aquela mesma e importantíssima questão dos três mil. Grúchenka confirmou que, em Mókroie, um mês antes, de fato haviam sido gastos três mil rublos, e, embora ela mesma não tivesse contado o dinheiro, ouvira do próprio Dmítri Fiódorovitch que eram três mil.

— Foi a sós que ele lhe disse isso ou na presença de alguém, ou a senhora só o ouviu dizendo isso a outros, na sua presença? — indagou o promotor.

Ao que Grúchenka declarou que ouvira tanto na presença de pessoas como o ouvira dizendo a outros, como também ouvira a sós dele mesmo.

— Ouviu dele a sós uma vez ou repetidas vezes? — indagou de novo o promotor e ficou sabendo que Grúchen­ka ouvira repetidas vezes.

Ippolit Kiríllovitch ficou muito satisfeito com aquele depoimento. A partir das perguntas seguintes, esclareceu­-se também que Grúchenka sabia de onde provinha o dinheiro e que Dmítri Fiódorovitch dizia tê­-lo pegado de Katerina Ivánovna.

— E a senhora por acaso ouviu falar, uma vez que seja, que um mês atrás não foram esbanjados três mil em dinheiro, e sim menos, e que Dmítri Fiódorovitch guardou para si a metade disso?

— Não, nunca ouvi falar disso — testemunhou Grúchenka.

A seguir, esclareceu­-se que Mítia, ao contrário, dissera com frequência, ao longo daquele mês inteiro, que não tinha um copeque sequer em dinheiro. “Ficou esperando receber do pai”, concluiu Grúchenka.

— E não terá dito em sua presença, em algum momento… ou de algum modo de passagem, ou irritado — lançou de repente Nikolai Parfiónovitch — que tinha intenção de atentar contra a vida do pai?

— Ah, disse! — suspirou Grúchenka.

— Uma vez ou diversas vezes?

— Mencionou diversas vezes, sempre em momentos de raiva.

— E a senhora acreditou que ele o faria?

— Não, nunca acreditei! — ela respondeu, firme. — Contava com sua nobreza.

— Senhores, permitam­-me — Mítia exclamou de repente —, permitam­-me dizer, em sua presença, somente uma palavra a Agrafiena Aleksándrovna.

— Diga — permitiu Nikolai Parfiónovitch.

— Agrafiena Aleksándrovna — Mítia soergueu­-se da cadeira —, creia em Deus e em mim: pelo sangue de meu pai, assassinado ontem, sou inocente!

Depois de proferir aquilo, Mítia novamente sentou­-se na cadeira. Grúchenka ergueu­-se de leve e, com ar piedoso, benzeu­-se, voltada para um ícone.

— Glória a Ti, Senhor! — ela falou com uma voz ardente, penetrante, e ainda sem sentar em seu assento e dirigindo­-se a Nikolai Parfiónovitch, acrescentou: — O senhor pode acreditar no que ele disse agora! Eu o conheço: pode tagarelar o quanto for, ou para fazer graça, ou por teimosia, mas, se for contra sua consciência, ele nunca vai mentir. Diz a verdade francamente, o senhor pode acreditar!

— Obrigado, Agrafiena Aleksándrovna, você amparou minha alma! — secundou Mítia com voz trêmula.

Quanto às perguntas sobre o dinheiro do dia anterior, ela declarou que não sabia quanto era, mas que o ouvira muitas vezes dizendo às pessoas, na véspera, que trouxera três mil. E com relação ao local de onde tirara o dinheiro, ele somente lhe dissera que “roubara” de Katerina Ivánovna, e que ela então lhe respondera que ele não roubara e que era preciso devolver o dinheiro já no dia seguinte. À insistente pergunta do promotor a respeito de quanto seria o dinheiro que ele dizia ter roubado de Katerina Ivánovna — o de ontem ou os três mil que foram gastos ali um mês antes —, ela afirmou que ele se referia àquele de um mês antes, e que fora isso que ela havia entendido.

Grúchenka enfim foi dispensada, e nesse momento Nikolai Parfiónovitch lhe declarou, enfático, que ela podia retornar naquele mesmo instante à cidade e que se ele, de sua parte, pudesse auxiliar de alguma maneira, com relação aos cavalos, por exemplo, ou se ela desejasse um guia, por exemplo, nesse caso ele… de sua parte…

— Sou­-lhe imensamente grata — Grúchenka fez­-lhe uma reverência —, partirei com aquele velhinho, o proprietário de terras, eu o acompanharei e, por ora, se permitirem, esperarei lá embaixo o que decidirão quanto a Dmítri Fiódorovitch.

Ela saiu. Mítia estava tranquilo e até parecia animado, mas isso durou só um instante. Uma estranha fraqueza física se apoderava gradativamente dele. Seus olhos iam se fechando de cansaço. O interrogatório das testemunhas enfim terminou. Procederam à redação definitiva da ata. Mítia levantou­-se de sua cadeira e foi até um canto, perto da cortina; recostou­-se no grande baú pertencente ao dono da casa, coberto por um tapete, e num instante adormeceu. Teve um sonho um tanto estranho, completamente fora do lugar e fora de hora. Ele está viajando pela estepe, em algum lugar em que servira muito tempo atrás, e um mujique conduz a telega, com uma parelha, por um lamaçal. Só que Mítia está com frio, é começo de novembro, a neve cai em flocos graúdos e molhados e, ao cair na terra, derrete imediatamente. E o mujique vai guiando com desenvoltura, fustigando os cavalos maravilhosamente bem, ele tem uma barba castanho­-clara, bem comprida, e não chega a ser velho, deve ter seus cinquenta anos, usa um zipunzinho1 cinzento de mujique. E logo ali tem um povoado, veem­-se umas isbás negras, bem negras, mas metade delas foi destruída pelo fogo, só assomam alguns troncos chamuscados. E, na entrada do povoado, alinham­-se na estrada umas camponesas, muitas, uma fila inteira, os rostos são magros, macilentos, marrons. Uma delas em particular, na ponta, muito descarnada, alta, aparenta ter quarenta anos, mas talvez tenha só vinte, um rosto comprido, magro, e em seus braços uma criancinha chora, e talvez seus seios estejam tão ressecados que não haja nem uma gota de leite. E o bebezinho chora, chora, e estende os bracinhos descobertos, os punhos pequeninos totalmente azulados pelo frio.

— Por que estão chorando? Pelo que estão chorando? — Mítia pergunta, enquanto passam voando por elas.

— O nenezinho — responde­-lhe o cocheiro —, o nenezinho está chorando. — E Mítia admira que ele tenha falado a seu modo, à maneira dos mujiques: “nenezinho”, e não bebezinho. E ele gosta que ele tenha dito nenezinho: parece que dá mais pena.

— Mas por que ele está chorando? — insiste Mítia, co­mo um tolo. — Por que os bracinhos estão descobertos, por que não o agasalham?

— O nenezinho está gelado, a roupinha congelou, por isso não esquenta.

— Mas por que é assim? Por quê? — não desiste o to­lo Mítia.

— São pobres, sofreram com o incêndio, não têm pão, precisam esmolar pelo seu lugarejo incendiado.

— Não, não — Mítia continua sem entender —, me diga: por que essas mães que sofreram com o incêndio estão aí, por que as pessoas são pobres, por que o nenezinho é pobre, por que a estepe é nua, por que não se abraçam, não se beijam, por que não cantam canções alegres, por que ficaram tão enegrecidas com essa desgraça negra, por que não alimentam o nenezinho?

E ele sente que, embora pergunte de maneira louca e sem sentido, ele quer perguntar justamente assim, e que é justamente assim que se deve perguntar. E também sente que, em seu coração, ergue­-se uma comoção inédita, que ele tem vontade de chorar, que quer fazer algo por todos, de maneira que o nenezinho não chore mais, que também não chore mais a mãe do nenezinho, negra e ressequida, que ninguém mais tenha nenhuma lágrima a partir desse instante, e que isso seja feito agora mesmo, agora mesmo, sem postergar e a despeito de tudo, com toda a incontinência karamazoviana.

— E eu também estou com você, agora não o deixarei, irei com você pelo resto da vida — ecoam a seu lado as palavras de Grúchenka, ternas, impregnadas de sentimento. E, então, seu coração se incendeia por inteiro e precipita­-se em direção a uma luz, e ele tem vontade de viver, de viver, de avançar e avançar por um caminho, em direção a essa luz que chama, e depressa, depressa, agora mesmo, já!

— O quê? Aonde? — ele exclama, abrindo os olhos e sentando­-se em seu baú, voltando a si completamente depois de um desmaio e dando um sorriso radiante. Na frente dele, de pé, está Nikolai Parfiónovitch, convidando­-o a ouvir e assinar a ata. Mítia percebeu que tinha dormido por uma hora ou mais, mas não ouvia Nikolai Parfiónovitch. De repente, surpreendeu­-se que, sob sua cabeça, aparecera um travesseiro, que, no entanto, não estava ali quando ele se recostou, enfraquecido, sobre o baú.

— Quem é que pôs esse travesseiro debaixo da minha cabeça? Quem foi essa pessoa tão boa?! — ele exclamou com um sentimento de entusiasmo e gratidão e uma voz chorosa, como se lhe tivessem feito sabe Deus que préstimo. A boa pessoa acabou permanecendo no anonimato, algumas das testemunhas, ou talvez o escrivão de Nikolai Parfiónovitch, tivessem dado ordem de oferecer­-lhe um travesseiro, por compaixão, mas sua alma estava estremecida por inteiro, em lágrimas. Ele se aproximou da mesa e declarou que assinaria tudo que quisessem.

— Tive um sonho bom, senhores — ele proferiu de maneira um tanto estranha, com um rosto novo, iluminado pela alegria.

1. O zipun é um casaco tradicional camponês, sem gola e feito com tecido rústico.

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