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Os irmãos Karamázov
VII. O grande segredo de Mítia. Vaiado

vii
O grande segredo de Mítia.
Vaiado

— Senhores — ele começou, ainda agitado —, esse dinheiro… quero confessar tudo… esse dinheiro era meu.

O promotor e o juiz de instrução ficaram de queixo caído, não era de forma alguma o que esperavam.

— Como assim, seu? — balbuciou Nikolai Parfióno­vitch. — Então como é que às cinco horas da tarde, segundo sua própria confissão…

— Ê, para o inferno com as cinco da tarde daquele dia segundo minha própria confissão, não é disso que estou falando agora! Esse dinheiro era meu, digo, foi roubado por mim… ou seja, não era meu, mas roubado, roubado por mim, havia mil e quinhentos, e ele estava comigo, o tempo todo comigo…

— E de onde foi que o senhor o pegou?

— Do meu pescoço, senhores, eu o peguei do pescoço, desse meu pescoço aqui… Ele estava aqui no meu pescoço, costurado num trapo e pendurado no pescoço, já fazia muito tempo, já fazia um mês que eu o levava no pescoço, envergonhado!

— E de quem o senhor… se apropriou?

— O senhor queria dizer “roubou”? Agora diga a palavra diretamente. Sim, considero que de toda forma eu o roubei, ou, se quiserem, que de fato “me apropriei” dele. Mas para mim eu roubei. E ontem à noite eu o roubei por completo.

— Ontem à noite? Mas agora o senhor disse que já faz um mês que o… obteve!

— Sim, mas não do meu pai, não se preocupem, não roubei do meu pai, mas dela. Deixem­-me falar e não interrompam. Pois isso é difícil. Vejam: há um mês Katerina Ivánovna Verkhóvtseva, minha ex­-noiva, me chamou… Os senhores a conhecem?

— Claro que sim, como não?

— Eu sei que conhecem. Uma alma nobilíssima, nobilíssima entre as mais nobres, mas que me odeia há muito tempo, ah, muito tempo, muito… e é merecido, é merecido esse ódio!

— Katerina Ivánovna? — devolveu com espanto o juiz de instrução. O promotor também fixou os olhos nele com intensidade.

— Ah, não falem o nome dela em vão! Sou um canalha por tê­-la metido nisso. Sim, eu vi que ela me odiava… há muito tempo… logo desde a primeira vez, daquela vez ainda lá no meu apartamento… mas basta, basta, os senhores não são dignos de saber disso, não é de forma alguma necessário… Só é preciso saber que ela me chamou há um mês, me deu três mil para mandar para sua irmã e mais uma parente em Moscou (e como se ela mesma não conseguisse mandar!), mas eu… isso foi justamente na fatídica hora de minha vida em que eu… bem, em suma, quando eu acabara de me apaixonar, por outra, por ela, a atual, que está sentada ali embaixo, Grúchenka… na época eu a trouxe para cá, para Mókroie, e em dois dias esbanjei metade daqueles malditos três mil, ou seja, mil e quinhentos, e a outra metade guardei comigo. E aí estão os mil e quinhentos que guardei, eu os levava comigo no pescoço, como um amuleto, e ontem o abri e o torrei. O troco de oitocentos rublos está agora em suas mãos, Nikolai Parfiónovitch, é o troco dos mil e quinhentos de ontem.

— Perdão, como é isso, se o senhor gastou aqui há um mês três mil, e não mil e quinhentos, e todos sabem disso?

— Quem é que sabe disso? Quem contou o dinheiro? A quem dei permissão para contar o dinheiro?

— Misericórdia, mas o senhor mesmo disse a todos que havia torrado exatamente três mil aqui.

— É verdade, eu disse, falei para toda a cidade, e todos acharam que era isso, aqui também, em Mókroie, todos acharam isso, que eram três mil. Mas mesmo assim não gastei três mil, e sim mil e quinhentos, e os outros mil e quinhentos eu costurei no amuleto; foi isso que aconteceu, senhores, aí está de onde saiu o dinheiro de ontem…

— É quase um milagre… — balbuciou Nikolai Parfiónovitch.

— Permita­-me perguntar — disse por fim o promotor. — O senhor não comunicou a ninguém essa circunstância antes… quer dizer, não falou desses mil e quinhentos que guardou há um mês?

— Não falei para ninguém.

— Isso é estranho. Será que não falou para absolutamente ninguém?

— Absolutamente ninguém. Para ninguém e ninguém.

— Mas por que esse segredo? O que o levou a fazer segredo disso? Vou explicar mais claramente: o senhor por fim nos declarou o seu segredo que, segundo suas palavras, é tão “vergonhoso”, ainda que em essência, ou seja, claro, falando apenas relativamente, esse ato, ou seja, justamente a apropriação de três mil rublos de outra pessoa, e, sem dúvida, apenas de forma temporária — esse ato, ao menos no meu ponto de vista, é só altamente leviano, mas não tão vergonhoso, levando em conta, além disso, o caráter do senhor… Bem, vamos supor, é até um ato extremamente embaraçoso, concordo, mas embaraçoso, ainda assim não vergonhoso… Ou seja, estou me referindo particularmente ao fato de que seu esbanjamento desses três mil da senhora Verkhóvtseva já havia sido adivinhado por muitos naquele mês, mesmo sem a sua confissão, eu mesmo escutei essa lenda… Mikhail Makárovitch, por exemplo, também ouviu. De forma que, por fim, quase já não era mais lenda, e sim uma fofoca de toda a cidade. E ainda por cima há pistas de que o senhor mesmo, se não me engano, admitiu isso para alguém, ao menos precisamente que esse dinheiro era da senhora Verkhóvtseva… E é por isso que me surpreende demais que o senhor sustente até agora, ou seja, até o momento atual, que era um segredo extraordinário, segundo suas próprias palavras, mil e quinhentos guardados dessa forma, unindo esse seu segredo até a certo horror… É improvável que um segredo desses possa valer tamanho tormento para ser confessado… porque o senhor até gritou que preferia ir para os trabalhos forçados a admitir…

O promotor se calou. Ele estava inflamado. Não escondia sua irritação, quase raiva, e pôs ali tudo o que estava acumulado, sem sequer se preocupar com a beleza do estilo, ou seja, de forma incoerente, quase atabalhoada.

— A vergonha não está nos mil e quinhentos, mas no fato de que tirei esses mil e quinhentos dos três mil — disse Mítia com firmeza.

— Mas como — o promotor sorriu irritado —, o que, exatamente, há de vergonhoso nisso, é embaraçoso o que foi tirado, ou, se o senhor assim deseja, é vergonhoso que, dos três mil, o senhor tenha separado a metade por sua decisão? O mais importante é que o senhor se apropriou de três mil, e não como dispôs deles. A propósito, por que o senhor dispôs deles justamente dessa forma, ou seja, separou metade? Para quê, com que objetivo fez isso, pode explicar?

— Ah, senhores, é no objetivo que está toda a força! — exclamou Mítia. — Separei por canalhice, ou seja, por cálculo, pois calcular nesse caso é canalhice… E essa canalhice durou um mês inteiro!

— Não entendi.

— O senhor me surpreende. Mas vou explicar melhor, de fato pode ser que esteja incompreensível. Veja, me acompanhe: eu me apropriei desses três mil encarregados à minha honra, fiz farra com eles, torrei tudo, de manhã apareci na casa dela e disse: “Kátia, sou culpado, torrei seus três mil” — e então, isso é bom? Não, não é bom — é desonrado e mesquinho, o homem é um animal e não consegue deixar de fazer animalidades, é isso, é isso? Mas de toda forma não é um ladrão? Não é um ladrão diretamente, não diretamente, vamos e venhamos! Torrou na farra, mas não roubou! Agora, o segundo caso, já mais proveitoso, me acompanhem, senão eu talvez me perca de novo — minha cabeça está meio que girando; pois bem, o segundo caso: gastei na farra aqui apenas mil e quinhentos dos três, ou seja, metade. Logo no dia seguinte chego à casa dela e levo essa metade: “Kátia, pegue isso de mim, sou um canalha e um safado leviano, pegue essa metade, porque a outra metade eu gastei na farra, e vou gastar, consequentemente, essa também, então me afaste desse pecado!”. Bem, como seria nesse caso? Sou tudo o que o senhor quiser, um animal e um safado, mas já não sou ladrão, por fim não sou ladrão, pois se fosse ladrão, certamente não devolveria o troco, e sim teria me apropriado dele. Ali mesmo ela vê que, se levei a metade, então vou levar também o restante, ou seja, o que torrei, vou procurar fazer isso por toda a vida, vou trabalhar, mas vou conseguir e devolver. Dessa forma, um safado, mas não um ladrão, não um ladrão, sou o que quiserem mas não um ladrão!

— Vamos supor que haja alguma diferença — sorriu friamente o promotor. — Mesmo assim, é estranho que o senhor veja nisso uma diferença tão fatídica.

— Sim, vejo nisso uma diferença fatídica! Qualquer um pode ser um safado, talvez todos sejam, mas nem todos podem ser ladrões, só os arquissafados. Mas eu não possuo essa delicadeza… E apenas um ladrão é mais safado que o safado, essa é minha convicção. Escute: carreguei esse dinheiro comigo o mês inteiro, amanhã mesmo podia resolver entregá­-lo, e já não seria um canalha, mas não consegui decidir­-me a fazer isso, aí é que está, mesmo que todo dia eu me dissesse que iria, mesmo que todo dia eu me instigasse: “Decida­-se, decida­-se, safado”, por um mês inteiro não consegui me decidir, foi isso! Então, isso é bom, na sua opinião, isso é bom?

— Vamos supor que não seja tão bom, posso entender perfeitamente e não vou discutir — respondeu o promotor de forma contida. — Deixemos também totalmente de lado a discussão sobre essas delicadezas e diferenças, e, se o senhor quiser, vamos voltar para o caso de novo. E o caso é justamente que o senhor ainda não teve a bondade de nos explicar, apesar de termos perguntado: para que fez inicialmente a divisão desses três mil, ou seja, torrou uma metade e escondeu a segunda? Precisamente para que, em suma, escondeu como pretendia utilizar esses mil e quinhentos que pôs à parte? Insisto nessa pergunta, Dmítri Fiódorovitch.

— Ah, sim, de fato! — exclamou Mítia, batendo na testa. — Perdão, estou torturando os senhores e não explico o principal, senão entenderiam no mesmo instante, pois está no objetivo, a vergonha está no objetivo! Vejam, quanto a isso sempre aquele velho, o falecido, ele sempre perturbava Agrafiena Aleksándrovna, e eu ficava com ciúme, na época pensava que ela estivesse indecisa entre nós dois: era nisso que eu pensava todo dia, que se de repente houvesse uma decisão da parte dela, que ela se cansasse de me atormentar e então dissesse: “Eu amo você, e não ele, leve­-me para o fim do mundo”. Mas eu só tinha duas grivnas: com o que ia levá­-la, o que fazer então — e aí me perdi. Eu ainda não a conhecia e não a entendia, pensava que ela precisava de dinheiro e que não perdoaria minha pobreza. E então perfidamente separei metade dos três mil e costurei na roupa com a agulha a sangue­-frio, costurei com cálculo, ainda antes da esbórnia, costurei e, depois, quando já havia costurado, fui para a esbórnia com a outra metade! Não, senhor, isso é uma canalhice! Entenderam agora?

O promotor começou a rir alto, o juiz de instrução também.

— Para mim é até sensato e moral que o senhor tenha guardado e não tenha torrado tudo — Nikolai Parfiónovitch deu uma risadinha. — Pois o que há de mal aí?

— Mas é que eu roubei, aí é que está! Ah, meu Deus, os senhores me horrorizam com essa falta de compreensão! O tempo todo em que eu levei esse milhar e meio costurado no peito, todo dia e toda hora, eu dizia a mim mesmo: “Você é um ladrão, você é um ladrão!”. E por isso fiz coisas terríveis naquele mês, por isso briguei na taverna, por isso surrei meu pai, porque me sentia um ladrão! Nem para Aliocha, meu irmão, eu ousei revelar esses mil e quinhentos: a tal ponto sentia que era um canalha e um safado. Mas saibam que, enquanto eu o levava comigo, ao mesmo tempo todo dia e toda hora dizia para mim mesmo: “Não, Dmítri Fiódorovitch, talvez você ainda não seja um ladrão”. Por quê? Justamente porque amanhã você pode ir entregar esses mil e quinhentos para Kátia. E só ontem eu decidi pegar meu amuleto do pescoço, quando, depois da conversa com Fiénia estava indo para a casa de Perkhótin, e até aquele momento ainda não estava decidido, e acabara de pegar o dinheiro, naquele mesmo minuto me tornei um ladrão de forma definitiva e indiscutível, um ladrão e uma pessoa desonesta para toda a vida. Por quê? Porque junto com o amuleto, meu sonho de ir até Kátia e dizer: “Sou um canalha, mas não um ladrão” — ruiu! Entendem agora, entendem?

— Por que é que o senhor decidiu isso justamente ontem à noite? — interrompeu Nikolai Parfiónovitch.

— Por quê? É ridículo perguntar: porque eu me condenei à morte, às cinco da manhã, aqui, ao amanhecer: “Pois dá no mesmo”, pensei, “morrer como canalha ou como nobre!”. Pois ficou claro que não, que não dá no mesmo! Acreditem, senhores, que não foi isso, não foi isso o que me torturou mais do que tudo naquela noite, que eu tivesse matado o criado do meu pai e me visse ameaçado de ir para a Sibéria, e, ainda por cima, quando? — quando meu amor seria coroado e o céu se abriria para mim de novo! Ah, isso me atormentava, mas não era isso: ainda assim não era isso, e sim aquela consciência maldita de que por fim eu havia arrancado do peito esse dinheiro maldito e esbanjado, e, em consequência, agora já era um ladrão em definitivo! Ah, senhores, vou repetir com o sangue do coração: fiquei sabendo de muita coisa naquela noite! Fiquei sabendo que não só é impossível viver como um canalha, mas que também é impossível morrer como canalha… Não, senhores, é preciso morrer honestamente!…

Mítia estava pálido. Seu rosto tinha aparência macilenta e extenuada, apesar de ele estar agitado ao extremo.

— Estou começando a entendê­-lo, Dmítri Fiódoro­vitch — o promotor falou de forma suave e até compassiva —, mas tudo isso, na minha opinião são apenas nervos… seus nervos doentios, é isso, senhor. E por que, por exemplo, o senhor, para se livrar de tamanho tormento, durante quase um mês inteiro, não foi e entregou esses mil e quinhentos àquela que lhe confiou essa soma e, depois de se explicar, por que o senhor, dada sua situação naquele momento, tão terrível, como o senhor descreve, não experimentou a combinação que se apresenta de forma tão natural para a mente, ou seja, depois de uma nobre admissão de seus erros, por que não lhe pediu essa soma para empregar em suas despesas, pedido que ela, por seu grande coração e vendo sua perturbação, com certeza não recusaria, especialmente sob contrato, ou, por fim, ao menos com a mesma garantia que o senhor propôs ao comerciante Samsónov e à senhora Khokhlakova? O senhor ainda considera essa garantia valiosa?

Mítia de repente corou:

— Por acaso o senhor me considera canalha a esse ponto? Não pode ser que esteja falando sério!… — ele disse, indignado, olhando o promotor nos olhos e sem acreditar no que escutara.

— Eu lhe asseguro que é sério… Por que o senhor acha que não é? — surpreendeu­-se o promotor por sua vez.

— Ah, como isso seria canalha! Senhores, saibam que estão me torturando! Permitam­-me, vou dizer tudo, que seja, agora vou lhes confessar todo o meu inferno, mas para envergonhá­-los, e os senhores vão se surpreender a que ponto pode chegar a combinação dos sentimentos humanos. Saibam que eu próprio já possuía essa combinação, essa mesma sobre a qual o senhor falou agora, promotor! Sim, senhores, eu também tive essa ideia neste mês maldito, tanto que quase me decidi a ir falar com Kátia, a tal ponto chegava minha baixeza! Mas ir falar com ela, expôr minha traição, e por causa dessa mesma traição, para pôr em prática essa traição, para as despesas que tinha pela frente com essa traição, pedir a ela, à própria Kátia, dinheiro (pedir, escutem, pedir!) e imediatamente fugir para longe com outra, com sua rival, com aquela a quem ela odeia e que a ofendeu — acho que o senhor perdeu o juízo, promotor!

— Se perdi ou não, sem dúvida me precipitei, não me dei conta… do próprio ciúme feminino… se é que nesse caso de fato poderia haver ciúme, como o senhor afirma… sim, talvez aqui haja algo desse tipo — o promotor deu uma risadinha.

— Mas isso já seria tamanha baixeza — Mítia bateu na cadeira, furioso —, isso seria tão sujo que nem imagino! E o senhor sabe que ela poderia me dar esse dinheiro, e daria, por vingança, para desfrutar da desforra, ela me daria por desprezo, porque também é uma alma infernal e uma mulher de grande ira! Eu pegaria o dinheiro, ah, pegaria, pegaria e depois por toda a vida… ah, meu Deus! Perdão, senhores, estou gritando assim porque tive essa ideia não faz tanto tempo, há apenas uns três dias, justo quando farreei à noite com Liagávi, e depois ontem, sim, ontem também, ontem o dia todo, eu me lembro disso, até aquele último episódio…

— Que episódio? — Nikolai Parfiónovitch retrucou com curiosidade, mas Mítia não ouviu.

— Eu lhes fiz uma confissão terrível — ele concluiu, soturno. — Avaliem isso, senhores. E além disso, além de avaliar, não avaliem, não, mas valorizem­-na, e se não, se isso também lhes toca a alma, então os senhores já não me respeitam, senhores, aí está o que eu lhes digo, e vou morrer de vergonha por ter me confessado a gente como os senhores! Ah, vou me matar com um tiro! Sim, já estou vendo, estou vendo que os senhores não acreditam em mim! E então, também querem anotar isso? — ele exclamou, já assustado.

— Mas o senhor disse agora — Nikolai Parfiónovitch olhou para ele espantado —, quer dizer, até o último instante o senhor ainda tinha a intenção de procurar a senhora Verkhóvtseva e lhe pedir esse dinheiro… Eu lhe asseguro que é um testemunho muito importante para nós, Dmítri Fiódorovitch, quero dizer, sobre esse caso… e em particular para o senhor, é particularmente importante para o senhor.

— Tenham compaixão, senhores — Mítia torceu as mãos —, ao menos não escrevam isso, tenham vergonha! Pois eu, por assim dizer, rasguei minha alma ao meio diante dos senhores, e os senhores se aproveitaram dela e a esgaravataram com os dedos no lugar rasgado em ambas as metades… Ah, meu Deus!

Ele cobriu o rosto com as mãos de desespero.

— Não fique tão preocupado, Dmítri Fiódorovitch — concluiu o promotor —, o senhor vai escutar tudo o que foi escrito agora e, o que não estiver de seu acordo, mudaremos segundo suas próprias palavras, mas agora tenho mais uma perguntinha, que estou repetindo pela terceira vez: será que de fato ninguém, ninguém mesmo, escutou do senhor algo sobre esse dinheiro costurado no amuleto? Isso, vou lhe dizer, é quase impossível de imaginar.

— Ninguém, ninguém, já falei, então os senhores não entenderam nada! Deixem­-me em paz.

— Permita­-me, senhor, é preciso esclarecer essa questão e ainda temos muito tempo pela frente, mas, por enquanto, raciocine: temos talvez dezenas de testemunhas de que o senhor mesmo espalhou e até gritou por todo canto a respeito dos três mil que esbanjou, dos três, e não desses mil e quinhentos, e, agora, quando veio à tona o dinheiro de ontem, o senhor também deu a saber que mais uma vez havia trazido três mil…

— Não são dezenas, mas centenas de testemunhas que o senhor tem nas mãos, duas centenas de testemunhas, duas centenas de pessoas escutaram, mil pessoas escutaram! — exclamou Mítia.

— Então está vendo, senhor, todos, todos testemunharam. Então significa algo a palavra de todos?

— Não significa nada, eu menti e depois todos começaram a mentir.

— Mas por que o senhor precisava tanto “mentir”, como justifica isso?

— Só o diabo sabe. Por vaidade, talvez, já que gastei tanto dinheiro… Talvez porque quisesse esquecer esse dinheiro costurado… sim, justamente por isso… diabo… quantas vezes o senhor fez essa pergunta? Bem, menti e pronto, e, depois que menti, já não queria consertar. Por que uma pessoa às vezes mente?

— Isso é muito difícil de decidir, Dmítri Fiódorovitch, por que uma pessoa mente — o promotor disse, em tom solene. — Diga, porém, era grande esse, como o senhor o chama, amuleto no seu pescoço?

— Não, não era grande.

— De que tamanho, por exemplo?

— Dava para pôr uma nota de cem rublos dobrada ao meio: era esse o tamanho.

— Não seria melhor o senhor nos mostrar o retalho? Pois o senhor ainda o traz consigo.

— Ê, diabo… que bobagem… Não sei onde está.

— Mas, no entanto, permita­-me: onde e quando o senhor o tirou do pescoço? Se, como o senhor mesmo expôs, não passou em casa?

— E então, quando saí da casa de Fiénia e fui para a de Perkhótin, no caminho arranquei do pescoço e peguei o dinheiro.

— No escuro?

— Para que ia precisar de vela? Fiz isso num instante, com o dedo.

— Sem uma tesoura? Na rua?

— Na praça, acho; tesoura para quê? Era um trapo velho, rasgou na hora.

— Onde o senhor o jogou depois?

— Joguei ali mesmo.

— Onde exatamente?

— Ali na praça, bem na praça! Só o diabo sabe onde, na praça. E para que isso?

— Isso é extremamente importante, Dmítri Fiódorovitch: é uma prova material a seu favor, como não quer entender isso? Quem é que o ajudou a costurar um mês atrás?

— Ninguém me ajudou, eu mesmo costurei.

— O senhor sabe costurar?

— Um soldado precisa saber costurar, não carece de habilidade para isso.

— Onde é que o senhor pegou o material, ou seja, esse trapo que costurou?

— Não vai rir?

— De jeito nenhum, não estou com cabeça para rir, Dmítri Fiódorovitch.

— Não lembro onde peguei esse trapo, peguei em algum lugar.

— Como assim, acha que já não lembra disso?

— Juro por Deus que não lembro, talvez tenha rasgado da roupa.

— Muito interessante: podemos fazer uma busca amanhã em seu apartamento, procurar a camisa de onde o senhor tirou o pedacinho. De que era esse trapo: de linho, de tecido?

— Eu sei lá do quê. Espere… Acho que não o rasguei de nada. Era de calicó… Acho que peguei de uma touquinha da senhoria.

— Uma touquinha da senhoria.

— Sim, surrupiei dela.

— Como assim surrupiou?

— Veja, de fato, lembro que surrupiei uma touquinha em trapos, mas, talvez, para limpar uma pena. Peguei sorrateiramente porque era um trapo sem serventia, um retalhinho que me caiu nas mãos, e então peguei esses mil e quinhentos e costurei… Acho que costurei justo nesse trapo. Um lixo velho de calicó, lavado mil vezes.

— E o senhor se lembra disso com firmeza?

— Não sei se com firmeza. Achou que foi na touquinha. Mas não dou a mínima!

— Nesse caso, sua senhoria devia ao menos lembrar haver perdido esse objeto?

— De jeito nenhum, ela nem deu por falta. Era um trapo velho, estou dizendo, um trapo velho, não valia um tostão.

— E onde pegou a agulha, o fio?

— Chega, não quero mais. Basta! — Mítia acabou por se irritar.

— De novo é estranho que o senhor já tenha se esquecido por completo disso, de qual lugar exatamente jogou aquele… amuleto.

— Dê ordens para varrer a praça amanhã, talvez encontre — disse Mítia com um risinho. — Chega, senhores, chega — ele encerrou com voz extenuada. — Estou vendo claramente: os senhores não acreditam em mim! Nem um pouco, nem uma gota! A culpa é minha, e não dos senhores, não devia ter me metido. Para quê, para que eu conspurquei minha confissão com meu segredo! E para os senhores é motivo de riso, vejo em seus olhos. O senhor me levou a isso, promotor! Cante um hino a si mesmo, se puder… Malditos sejam os senhores, carrascos!

Ele baixou a cabeça e cobriu o rosto com as mãos. O promotor e o juiz de instrução ficaram calados. Um minuto depois, ele levantou a cabeça e olhou para todos sem pensar. Seu rosto expressava completo desespero, irreversível, e ele se calou, quieto, ficou sentado sem consciência de si. Enquanto isso era preciso finalizar o processo: era preciso interrogar urgentemente as testemunhas. Já eram umas nove da manhã. As velas já haviam sido apagadas havia muito tempo. Mikhail Makárovitch e Kalgánov, que durante todo o tempo do interrogatório entravam e saíam do recinto, haviam ambos saído de novo. O promotor e o juiz de instrução também tinham uma aparência extremamente cansada. Aquele início de manhã estava chuvoso, todo o céu estava coberto de nuvens, e chovia a cântaros. Mítia olhava para a janela sem pensar.

— Posso olhar pela janela? — ele de repente perguntou a Nikolai Parfiónovitch.

— Ah, o quanto quiser — ele respondeu.

Mítia levantou e se aproximou da janela. A chuva fustigava os vidros pequenos e esverdeados. Da janela via­-se diretamente a estrada suja, e, ao longe, na escuridão chuvosa, fileiras de isbás pretas, pobres, miseráveis, que pareciam ainda mais pretas e mais pobres pela chuva. Mítia lembrou do “Febo de madeixas douradas”, e que ele queria se matar com um tiro aos seus primeiros raios. “Talvez nessa manhã tivesse sido melhor”, sorriu de repente, agitando a mão de cima para baixo, e virou­-se para os “carrascos”.

— Senhores! — exclamou. — Estou vendo que me perdi. Mas e ela? Me falem dela, eu imploro, acaso vai se perder comigo? Pois ela é inocente, estava fora de si quando gritou que “era culpada de tudo”. Ela não tem culpa de nada, de nada! Passei a noite aflito sentado com os senhores… Será que podem me dizer o que vão fazer com ela agora?

— Acalme­-se quanto a isso, Dmítri Fiódorovitch — respondeu o promotor de imediato e com visível pressa. — Por enquanto, não temos nenhuma razão significativa para sequer perturbar a pessoa que tanto lhe interessa. O futuro andamento do caso, espero, revelará o mesmo… Pelo contrário, faremos tudo o que for possível de nossa parte. Fique absolutamente tranquilo.

— Senhores, agradeço, eu sabia que os senhores são gente honesta e justa, apesar de tudo. Os senhores tiraram um peso da minha alma… Bem, o que vamos fazer agora? Estou pronto.

— Pois bem, é preciso se apressar. Temos que passar para o interrogatório das testemunhas com urgência. Tudo isso deve acontecer obrigatoriamente em sua presença, e por isso…

— Não quer um chazinho antes? — interrompeu Nikolai Parfiónovitch — Acho que o senhor já fez por merecer!

Decidiram que se houvesse chá pronto lá embaixo (visto que Mikhail Makárovitch saíra para “providenciar um chazinho”), então beberiam um copo e depois deveriam “continuar e continuar”. O chá e a “comidinha” de verdade seriam adiados para um momento mais livre. De fato, havia chá lá embaixo, e rapidamente levaram para cima. No começo, Mítia recusou o copo que Nikolai Parfiónovitch lhe oferecia com gentileza, mas depois aceitou e bebeu com avidez. No geral, tinha uma aparência até extremamente esgotada. Afinal, com sua força hercúlea, o que significava uma noite de farra e mesmo as mais intensas sensações depois? Mas ele mesmo sentia que mal conseguia ficar sentado, e que de tempos em tempos todos os objetos começavam a andar e girar diante de seus olhos. “Mais um pouco e eu talvez comece a delirar” — pensou consigo mesmo.

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