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Os irmãos Karamázov
I. O padre Ferapont

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O padre Ferapont

De manhã cedo, ainda antes de clarear, Aliocha foi despertado. O ancião acordara e, embora se sentisse muito fraco, queria sair da cama e sentar na poltrona. Estava plenamente consciente; seu rosto, embora extremamente cansado, se mostrava sereno, quase feliz, e o olhar parecia alegre, amistoso, convidativo. “Talvez eu não sobreviva a esse dia que começa” — disse a Aliocha; depois, expressou o desejo de se confessar e comungar de imediato. Seu confessor sempre havia sido o padre Paíssi. Ao final de ambos os sacramentos, teve início a extrema­-unção. Reuniram­-se os hieromonges, a cela pouco a pouco foi se enchendo com os moradores do ascetério. Enquanto isso, o sol nascia. Começou a chegar também gente de fora. Quando os serviços terminaram, o ancião quis se despedir de todos e beijou cada um. No aperto da cela, os que haviam chegado antes saíam e davam lugar a outros. Aliocha estava de pé ao lado do ancião, que havia sentado de novo na poltrona. Ele falava e ensinava o quanto podia; sua voz, apesar de fraca, ainda era bastante firme: “Ensinei a vocês por tantos anos, e, portanto, falei em voz alta por tantos anos que, de certa forma, adquiri o hábito de falar e, falando, de ensinar­-lhes, a ponto de quase me ser mais difícil ficar calado do que falar, padres e irmãos queridos, mesmo agora, em minha fraqueza” — brincava, contemplando cheio de ternura os que se aglomeravam perto dele. Aliocha depois guardou na memória algo que ele havia dito naquele momento. Mas, embora tivesse falado claramente, e embora a voz fosse bastante firme, seu discurso era bastante incoerente. Ele falava de muita coisa, parecia querer falar tudo, expressar tudo uma vez mais antes do momento da morte, tudo o que não terminara de falar ao longo da vida, e não por um ensinamento, mas como se ansiasse por compartilhar sua felicidade e seu êxtase com tudo e todos, desafogar o coração uma última vez na vida.

“Amem­-se uns aos outros, padres”, ensinou o ancião (pelo que se lembrava Aliocha depois). — “Amem o povo de Deus. Não somos mais santos que os laicos por termos vindo para cá e nos trancado entre estas paredes, pelo contrário, todos os que vieram, exatamente por terem vindo, aprenderam sobre si que são piores do que todos os laicos e que tudo e todos no mundo… E depois, quanto mais tempo viver um frade entre estas quatro paredes, mais sensível deve ser sua consciência a respeito disso. Pois, caso contrário, ter vindo para cá não serviu de nada. Quando sentir que não só é pior que todos os laicos, mas também que é culpado perante todos os homens da terra, por todos os pecados dos homens, do mundo e de cada indivíduo, só então nosso objetivo de união terá sido alcançado. Pois saibam, queridos, que cada um de nós é culpado por todos e por tudo na terra, sem a menor dúvida, não apenas pela culpa geral do mundo, mas cada um individualmente por todos e cada um dos homens em toda a terra. Essa consciência é o coroamento do caminho do monge, e também de todas as pessoas da terra. Pois os monges não são estranhos à essência humana, são apenas como todos na terra deveriam ser. Só assim nosso coração haveria de se enternecer com um amor infinito, universal, que não conhece saciedade. Assim, cada um de vocês terá forças para conquistar o mundo inteiro pelo amor e, com suas lágrimas, lavar os pecados do mundo… Cada um deve ir para perto de seu coração, cada um deve se confessar o tempo todo. Não temam seus pecados, mesmo ao reconhecê­-los, mas que simplesmente haja arrependimento, e não imponham condições a Deus. Repito — não tenham orgulho. Não tenham orgulho diante dos pequenos, não tenham orgulho diante dos grandes. Não odeiem nem os que os rejeitaram, os que os difamaram, insultaram e caluniaram. Não odeiem os ateus, os que ensinam o mal, os materialistas, até os mais cruéis entre eles, não apenas os bons, pois mesmo entre eles há muitos que são bons, especialmente em nossos tempos. Rezem por eles, assim: Senhor, salva a todos os que não têm para quem rezar, salva até aqueles que não querem rezar para Ti. E então acrescentem: Não há orgulho em minha prece por eles, Senhor, pois eu mesmo sou o mais vil entre tudo e todos… Amem o povo de Deus, não deixem que o rebanho seja levado aos forasteiros, pois se adormecerem na preguiça e em seu orgulho nauseado, ou, mais ainda, na cobiça, eles virão de todos os países e tomarão seu rebanho. Expliquem incansavelmente o Evangelho ao povo… Não pratiquem a usura… Não amem a prata e o ouro, não guardem… Creiam e protejam o estandarte. Carreguem­-no alto…”

O ancião, aliás, falava de modo mais entrecortado do que foi relatado aqui e como Aliocha anotou depois. Às vezes se calava, como se estivesse juntando forças, perdia o fôlego, mas estava como que em êxtase. Escutavam­-no com comoção, ainda que muitos também se maravilhassem com suas palavras e vissem nelas obscuridade… Depois, todos guardaram essas palavras na memória. Quando aconteceu de Aliocha se ausentar da cela por um instante, ficou impressionado com a agitação geral e a expectativa da irmandade que se aglomerava na cela e ao redor. A espera entre uns era quase ansiosa, entre outros, solene. Todos esperavam que algo imediato e grandioso acontecesse logo depois do falecimento do ancião. Essa expectativa era, de certo ponto de vista, quase leviana, mas mesmo os anciãos mais severos estavam sujeitos a ela. O mais severo de todos era o ancião hieromonge Paíssi. Aliocha só se ausentou da cela porque foi chamado secretamente por um monge que Rakítin enviara da cidade com uma estranha carta da senhora Khokhlakova. Esta lhe comunicava uma notícia curiosa, extraordinariamente oportuna. A questão consistia em que, na véspera, entre as mulheres simples e crentes que vieram reverenciar o ancião e abençoar­-se com ele, havia uma velhinha da cidade, Prókhorovna, viúva de um subofi­cial. Ela perguntava ao ancião se, junto com um falecido na igreja, para o repouso eterno, ela podia rezar por seu filhinho Vássienka, que o serviço militar enviara a um lugar distante na Sibéria, em Irkutsk, e do qual havia já um ano ela não recebia nenhuma notícia. O ancião havia lhe respondido com severidade, proibindo e chamando esse tipo de oração de feitiçaria. Mas depois, perdoando­-a por sua ignorância, acrescentou, “como que olhando no livro do futuro” (expressou­-se a senhora Khokhlakova em sua carta), como consolo, “que seu filho Vássia estava vivo e que ou ele mesmo viria encontrá­-la em breve, ou mandaria uma carta, e que ela fosse para casa e esperasse por isso. E então?” — acrescentava extasiada a senhora Khokhlakova — “a profecia se cumprira até literalmente, e até mais”. Mal a velha havia voltado para casa, imediatamente lhe entregaram a já esperada carta da Sibéria. Mas isso ainda foi pouco: naquela carta, escrita em viagem, de Ekaterimburgo, Vássia informava a mãe de que estava indo para a Rússia, voltando com um funcionário, e que umas três semanas depois do recebimento daquela carta “esperava abraçar a mãe”. A senhora Khokhlakova rogava com ardor e insistência a Aliocha que logo transmitisse ao hegúmeno e a toda a irmandade esse “milagre da profecia” novamente realizado: “Isso deve ser conhecido por todos, por todos!” — exclamava ela, encerrando. A carta fora escrita às pressas, de forma precipitada, a agitação de quem a escrevera dava mostras em cada linha. Mas Aliocha já nem tinha mais o que comunicar à irmandade, pois todos já sabiam de tudo: Rakítin, ao mandar que um monge o procurasse, encarregara­-o além disso de “relatar com o maior dos respeitos também ao mui reverendo padre Paíssi, que ele, Rakítin, tinha um assunto para tratar, mas que era tão importante que mesmo aquele momento não permitia adiar o informe, e pedia que o perdoasse profundamente por sua ousadia”. Assim, o mongezinho comunicou ao padre Paíssi o pedido de Rakítin antes que a Aliocha, e a este, quando chegou ao local depois de ler a cartinha, só restou comunicá­-la imediatamente ao padre Paíssi por simples formalidade. E eis que até aquele homem severo e desconfiado, franzindo a testa ao ler a notícia sobre o “milagre”, não foi capaz de conter certo sentimento interno. Seus olhos brilharam, a boca de repente deu um sorriso grave e convicto.

— Havemos de ver? — como que irrompeu dele de repente.

— Ainda havemos de ver, ainda havemos de ver! — repetiram os monges em volta, mas o padre Paíssi, fechando a cara mais uma vez, pediu a todos que ao menos por um tempo não informassem em voz alta nada disso a ninguém, “enquanto ainda há mais coisas a confirmar, pois há muito de leviandade mundana, e um caso como esse pode acontecer naturalmente” — acrescentou com cuidado, como que para limpar a consciência, mas quase que ele próprio sem acreditar em sua ressalva de que precisavam examinar muito bem o que havia ocorrido. Na mesma hora, claro, o “milagre” tornou­-se conhecido de todo o monastério, e até de muitos dos que tinham vindo ao monastério para a liturgia. Todos pareciam cada vez mais pasmos com a realização do milagre contado pelo monge que na véspera viera do monastério “de São Silvestre”, um pequeno monastério de Obdorsk no norte longínquo. Ele saudara o ancião no dia anterior, postado ao lado da senhora Khokhlakova, e, apontando a filha “curada” da dama, perguntou­-lhe com convicção: “Como ousa fazer essas coisas?”.

A questão é que, naquele momento, ele já estava um pouco perplexo e quase não sabia em que acreditar. Ainda na noite anterior visitara o padre Ferapont numa cela especial no monastério, e ficara surpreso com aquele encontro, que lhe produzira uma impressão extraordinária e estarrecedora. Aquele ancião, o padre Ferapont, era um monge vetusto, grande jejuador e silenciário, o qual já mencionamos como um antagonista do ancião Zossima, e sobretudo do ancionato, que ele considerava uma novidade prejudicial e leviana. Aquele adversário era extraordinariamente perigoso, ainda que, como silenciário, quase não falasse uma só palavra com ninguém. Era perigoso sobretudo porque a maioria da irmandade simpatizava com ele, e, entre os que vinham de fora, muitos o consideravam um homem muito justo e devoto, embora o vissem como um inegável louco santo. Mas essa condição também fascinava. Quanto ao ancião Zossima, aquele padre Ferapont nunca o visitava. Embora vivesse no ascetério, não o incomodavam muito com as regras do local, porque, mais uma vez, ele se comportava exatamente como um louco santo. Devia ter uns setenta e cinco anos, se não mais, mas vivia atrás do colmeal do ascetério, num canto da parede, numa cela velha, quase em ruínas, de madeira, instalada ali ainda nos tempos antigos, ainda no século anterior, também para um grande jejuador e silenciário, o padre Iona, que vivera até os cento e cinco anos e sobre cujas façanhas ainda hoje circulam muitas histórias curiosíssimas no monastério e nas redondezas. O padre Ferapont conseguira que por fim o instalassem lá havia uns sete anos, naquela mesma celazinha isolada, ou seja, simplesmente uma isbá, mas era bem parecida com uma capela, pois tinha um número extraordinário de santos mártires com lamparinazinhas votivas e uma eterna luz mortiça diante delas, e o padre Ferapont era como que o encarregado de acendê­-las e cuidar delas. Ele comia, diziam (e era verdade), apenas duas libras1 de pão em três dias, não mais; a cada três dias, o apicultor que morava ali trazia para ele, mas mesmo com esse apicultor que lhe dava comida o padre Ferapont raramente trocava uma palavra. Aquelas quatro libras de pão, junto com a hóstia, também enviada cuidadosamente depois do almoço pelo hegúmeno abençoado, constituíam toda a sua alimentação semanal. Já a água da caneca era trocada todo dia. Ele raramente aparecia no almoço. Os fiéis que compareciam viam que ele às vezes passava o dia inteiro rezando, de joelhos, sem se levantar e sem olhar ao redor. Se entabulavam uma conversa com ele, sua resposta era curta, entrecortada, estranha e sempre quase grosseira. Aconteciam, no entanto, casos muito raros em que ele soltava a língua com os visitantes, mas a maior parte das vezes só pronunciava alguma palavra estranha, sempre sugerindo ao visitante algum enigma, e depois, não importa o quanto se pedisse, não proferia mais nada como explicação. Ele não tinha nenhum título eclesiástico, era monge apenas. Corriam boatos muito estranhos, entre as pessoas mais ignorantes, aliás, de que o padre Ferapont se comunicava com os espíritos celestes e só conversava com eles, e era por isso que ficava calado com as pessoas. O mongezinho de Obdorsk, que entrara no monastério por indicação de um monge também extremamente calado e sombrio, dirigiu­-se ao cantinho onde ficava a cela do padre Ferapont. “Talvez fale, já que é com um forasteiro, mas talvez não consiga nada dele” — avisou o monge. O mongezinho se aproximou, como ele mesmo contou depois, com um medo enorme. Já era bem tarde. O padre Ferapont daquela vez estava sentado ao lado da porta da pequena cela, num banquinho baixo. Sobre ele farfalhava de leve um velho olmo enorme. Soprava um friozinho vespertino. O monge de Obdorsk caiu de joelhos diante dele e pediu a bênção.

— Quer que eu também me ponha de joelhos diante de ti, monge? — disse o padre Ferapont. — Levanta­-te!

O mongezinho se levantou.

— É abençoando que te abençoas, senta­-te ao meu lado. De que paragens vieste?

O que mais impressionou o pobre monge foi que o padre Ferapont, apesar de seu indubitável e intenso jejuar e de seus anos tão avançados, ainda tinha a aparência de um velho forte, alto, espigado, nada arqueado, com o rosto fresco, embora magro, mas saudável. Também conservava uma força sem dúvida considerável. Tinha compleição atlética. A despeito da idade avançada, não estava nem mesmo completamente grisalho, e ainda tinha muito bastos os cabelos, antes totalmente negros, na cabeça e na barba. Seus olhos eram cinzentos, grandes, brilhantes, mas extraordinariamente arregalados, o que até impressionava. Falava com um forte acento no ó. Vestia um longo armiak2 avermelhado, grosseiro, de presidiário, como se dizia antigamente, feito de lã e cingido por uma corda grossa. O pescoço e o peito estavam descobertos. Uma camisa quase totalmente enegrecida, de um pano muito grosso, que ele não tirava havia meses, se via debaixo do armiak. Diziam que, sob o armiak, usava um silício de trinta libras. Trazia nos pés nus sapatos velhos, quase se desfazendo.

— De um pequeno monastério em Obdorsk, de São Silvestre — respondeu calmamente o monge recém­-chegado, com seus olhinhos rápidos e curiosos, embora um pouco assustados, observando o eremita.

— Estive na casa do teu Silvestre. Morei lá. Está saudá­vel o Silvestre?

O mongezinho hesitou.

— Os senhores são homens incoerentes! Como estão cumprindo o jejum?

— Nosso cozinheiro, seguindo o antigo ascetério, organizou assim: na Quaresma, às segundas, quartas e sextas não são servidas refeições. Às terças e quintas os irmãos comem pão branco, uzvar com mel, frutinhas silvestres ou repolho salgado e farinha de aveia misturada com água. Aos sábados, sopa de repolho branco, macarrão ensopado com ervilha, kacha de cânhamo, tudo com óleo. Aos domingos, peixe seco com kacha. Já na Semana Santa, de segunda a sábado à noite, uns seis dias, pão com água e verduras não cozidas, e mesmo isso com comedimento: se der, não comemos todo dia, mas conforme as instruções sobre a primeira semana. Na Sexta­-Feira Santa não comemos nada, e no Sábado de Aleluia jejuamos até as três horas e então comemos um pouco de pão com água e bebemos uma única caneca de vinho. Na Quinta­-Feira Santa comemos comida cozida sem óleo, bebemos vinho e cumprimos a xerofagia. Pois até o concílio de Laodiceia diz sobre a Quinta­-Feira: “Não é digno, na última semana da Grande Quaresma, quebrar o jejum na Quinta­-Feira e toda a Grande Quaresma assim desonrar”. É o que fazemos. Mas o que é tudo isso em comparação ao senhor, grande padre — acrescentou o mongezinho animado —, pois o ano todo, até na Páscoa sagrada, o senhor se alimenta apenas de pão e água, e o que nós recebemos de pão a cada dois dias, o senhor recebe por uma semana. É uma verdadeira maravilha essa sua abstinência.

— E cogumelos? — o padre Ferapont perguntou de repente, pronunciando a letra G aspirada, quase como um R.

— Cogumelos? — perguntou de volta o mongezinho, surpreso.

— Isso, isso. Vou deixar de comer o pão deles, não preciso deles de forma alguma, podia ir para a floresta, lá vivo de frutas ou cogumelos, e eles aqui não vão deixar de comer pão, ou seja, estão ligados ao diabo. Agora os ímpíos dizem que fazer jejum não serve de nada. Desdenhoso e nauseante, é assim o julgamento deles.

— Ah, é verdade — o mongezinho suspirou.

— Já viste os diabos deles? — indagou o padre Ferapont.

— De quem? — o mongezinho indagou timidamente.

— Ano passado subi na Semana Santa para ver o hegúmeno, e desde então não voltei. Vi que uns tinham diabos sentados no peito, escondidos sob a batina, os focinhos pareciam estar espiando dali; tinha um que olhava do bolso, olhos rápidos, estava com medo de mim; outro estava instalado nas tripas, na própria barriga impura, e um outro estava pendurado no pescoço de alguém, agarrado, e assim ele o carregava mas não percebia.

— O senhor… vê? — indagou o mongezinho.

— Eu afirmo: vejo, vejo de ponta a ponta. Quando estava saindo dos aposentos do hegúmeno, eu vi: um deles estava se escondendo de mim atrás da porta, um forte, com um archin e meio de altura ou até mais, tinha um rabo grosso, castanho, longo, e quando a ponta do rabo caiu no vão da porta, eu, que não sou bobo, dei um tapa na porta de repente e prendi o rabo dele. Ele pôs­-se a gritar com voz esganiçada, começou a se debater, mas fiz o sinal da cruz para ele — e triplo, ainda por cima — e o benzi. Expirou ali mesmo, feito uma aranha esmagada. Agora deve ter apodrecido num canto, deve estar fedendo, mas eles não veem, não sentem o cheiro. Não vou lá há um ano. Só para você, que é estrangeiro, estou revelando isso.

— Que terríveis são suas palavras! Mas então, grande e abençoado pai — o mongezinho se aventurava cada vez mais —, é verdade o que diz sua fama, mesmo em terras distantes, que o senhor está em constante comunhão com os Espírito Santo?

— Ele desce. Acontece.

— Como assim, desce? Em que sentido?

— Como um pássaro.

— O Espírito Santo na forma da pomba?

— Às vezes é o Espírito Santo, às vezes é o Espiritossanto. O espiritossanto é outro, esse pode descer como outro pássaro: uma andorinha, um pintassilgo, ou também uma mejengra.

— Como o senhor o distingue de uma mejengra?

— Ele fala.

— Como assim, fala? Em que língua?

— Na língua dos humanos.

— E o que ele lhe diz?

— Hoje mesmo me anunciou que um tolo viria me visitar e perguntaria coisas impertinentes. Queres saber muito, frade.

— Palavras terríveis, padre bentíssimo e santíssimo — o mongezinho balançou a cabeça. Em seus olhos assustadiços, de resto, via­-se desconfiança.

— Estás vendo aquela árvore? — perguntou o padre Ferapont, depois de um tempo calado.

— Estou, padre abençoado.

— Achas que é um olmo, mas eu vejo outra imagem.

— Qual? — e o mongezinho ficou calado numa espera inútil.

— Acontece à noite. Está vendo aqueles dois ramos? À noite, eles são as mãos de Cristo, que as estende para mim, e com essas mãos me procura, vejo com clareza e tremo. Que medo, ah, que medo!

— Medo do quê, se é o próprio Cristo?

— Que ele me pegue e me leve.

— Vivo?

— Nunca ouviu falar do espírito e da glória de Elias? Ele te abraça e leva embora…

Embora depois dessa conversa o monge de Obdorsk, bastante perplexo, tivesse voltado para a celinha que lhe fora indicada por um dos irmãos, sem dúvida seu coração ainda assim pendia mais para o padre Ferapont do que para o padre Zossima. O mongezinho de Obdorsk era antes de tudo a favor do jejum, e não era de admirar que um jejuador tão contumaz quanto o padre Ferapont fosse uma “visão milagrosa”. Suas palavras, claro, eram como que desajeitadas, mas Nosso Senhor sabe em que consistiam, aquelas palavras, e todos os que se tornavam loucos santos por Cristo incorriam em atos e palavras fora do prumo. Já a cauda do diabo espremida, estava disposto a acreditar naquilo com prazer, não apenas no sentido alegórico, mas literal. Além disso, ainda antes de chegar ao monastério ele tinha um grande preconceito contra o ancionato, que até então só conhecia por histórias e encarava, seguindo muitos outros, como uma novidade definitivamente prejudicial. Depois de andar pelo monastério, ele conseguiu captar o murmúrio dissimulado de vários irmãos levianos que discordavam do ancionato. Além disso, ele era por natureza um frade inquieto e ágil, com enorme curiosidade por tudo. Eis por que a grande notícia de um novo “milagre” realizado pelo ancião Zossima o lançou num estado de extrema perplexidade. Aliocha depois se lembrou que entre os monges que se espremiam para ver o ancião, e perto da cela de seus monges, muitas vezes se vislumbrava diante dele a figurinha curiosa do convidado de Obdorsk que corria para lá e para cá por todos os lados, escutando tudo e interrogando tudo. Mas na época ele prestou pouca atenção nisso e só depois de tudo se lembrou… Mas também ele não estava com cabeça para isso: o ancião Zossima, que novamente estava sentindo cansaço e voltara a se deitar, de repente, erguendo os olhos, lembrou­-se dele e exigiu que viesse vê­-lo. Aliocha imediatamente acorreu. Perto do ancião encontravam­-se então apenas o padre Paíssi, o padre hieromonge Ióssif e Porfíri, um noviço. O ancião, arregalando os olhos cansados e olhando fixamente para Aliocha, de repente perguntou:

— Os seus o estão esperando, meu filho?

Aliocha hesitou:

— Não estão precisando de você? Prometeu ontem a alguém de encontrar hoje?

— Prometi… a meu pai… meus irmãos… outros também…

— Está vendo? Vá sem falta. Não fique triste. Saiba que não vou morrer sem falar diante de você minhas últimas palavras na terra. Eu lhe direi essas palavras, meu filho, eu as deixarei de herança. Para você, meu filho querido, pois você me ama. Agora vá ver aqueles a quem prometeu.

Aliocha imediatamente se resignou, embora lhe fosse difícil sair. Mas escutar a promessa de suas últimas palavras na terra e, sobretudo, isso ser como que prometido a ele, Aliocha, abalou sua alma num êxtase. Ele se apressou para, depois de terminar tudo na cidade, voltar o mais rápido possível. Justo o padre Paíssi fez a ele um discurso de despedida que lhe produziu uma impressão muito forte e inesperada. Foi quando os dois já haviam saído da cela do ancião.

— Lembre­-se incansavelmente, jovem — assim, direto e sem qualquer introdução começou o padre Paíssi —, que a ciência mundana, unida a uma grande força, examinou, sobretudo no último século, tudo de celestial que nos foi legado nos livros sagrados, e depois de uma cruel análise dos eruditos do mundo não sobrou definitivamente nada de tudo o que antes era sagrado. Mas eles examinaram por partes e perderam de vista o todo, e tamanha cegueira é até digna de admiração. Então, quando o todo se posta diante de seus olhos inabalavelmente como antes, nem os portões do inferno tomam conta dele. Pois por acaso o todo não viveu por dezenove séculos, por acaso não vive ainda agora nos movimentos de almas individuais e nos movimentos de massas populares? Até nos movimentos das almas daqueles mesmos ateus que tudo destruíram, o todo vive como antes, inabalável! Pois aqueles que renegam o cristianismo e se revoltam contra ele são, em sua essência, iguais à própria essência da figura de Cristo, permanecem iguais, pois até hoje nem a sabedoria deles, nem o calor de seus corações tiveram forças para criar outra imagem superior para o homem e para sua dignidade como a imagem indicada por Cristo. E nas tentativas só saíram monstruosidades. Lembre­-se sobretudo disso, meu jovem, pois foste destinado ao mundo por teu agonizante ancião, que está partindo. Talvez, ao se lembrar desse dia grandioso, você também não se esqueça de minhas palavras, que lhe foram dadas numa despedida cordial, pois você é jovem, e as tentações no mundo são pesadas, não está em suas forças resistir a elas. Agora vá, órfão.

Com essa palavra, padre Paíssi o abençoou. Saindo do monastério e refletindo sobre todas aquelas palavras inusitadas, Aliocha de repente entendeu que, naquele monge até então severo e rigoroso com ele, agora encontrava um novo e inesperadao amigo e um novo superior que o amava calorosamente — como se o ancião Zossima, ao morrer, o tivesse deixado de herança. “Talvez isso mesmo tenha acontecido entre eles” — pensou Aliocha de repente. Seu raciocínio inesperado e sábio, que ele agora havia escutado, justamente aquele, e não algum outro, testemunhava apenas como era caloroso o coração do padre Paíssi: ele já se apressava para, o quanto antes, armar a jovem mente para a luta contra as tentações e, com um muro tão forte a ponto de ele mesmo não ser capaz de imaginar, cercar a alma jovem que lhe fora legada.

1. Cada libra é equivalente a aproximadamente meio quilo.

2. Casaco longo de tecido rústico.

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