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O primeiro encontro com Smerdiakov
Já era a terceira vez que Ivan Fiódorovitch ia falar com Smerdiakov após seu retorno de Moscou. A primeira vez que o vira depois da catástrofe e falara com ele havia sido logo no dia de sua chegada, em seguida visitara-o mais uma vez, duas semanas mais tarde. Mas, depois dessa segunda vez, ele interrompeu seus encontros com Smerdiakov, de maneira que agora fazia pouco mais de um mês que já não o via nem ouvia falar quase nada dele. Ivan Fiódorovitch retornara de Moscou só no quinto dia após a morte do genitor, de maneira que não encontrou nem o caixão: o sepultamento fora realizado precisamente na véspera de sua chegada. Ivan Fiódorovitch demorou a vir porque Aliocha, sem saber com exatidão seu endereço moscovita, recorreu a Katerina Ivánovna para o envio de um telegrama, e esta, também ignorante do endereço correto, telegrafou a sua irmã e sua tia, supondo que Ivan Fiódorovitch iria à casa delas assim que desembarcasse. Mas ele só foi visitá-las no quarto dia depois de sua chegada e, ao ler o telegrama, evidentemente voltou para cá na mesma hora. Aqui, Ivan correu a visitar Aliocha, mas, depois de conversar com ele, surpreendeu-se que o irmão não suspeitava de Mítia, e apontava diretamente para Smerdiakov como o assassino, o que contrariava todas as demais opiniões em nossa cidade. Depois de ver o comissário de polícia e o promotor, e de inteirar-se acerca dos detalhes da acusação e da prisão, ele ficou ainda mais surpreso com Aliocha e atribuiu aquela opinião somente a um sentimento, levado ao mais alto grau, de fraternidade e de compaixão por Mítia, a quem Aliocha, como Ivan sabia bem, amava muito. Aliás, diremos somente duas palavras, de uma vez por todas, sobre os sentimentos de Ivan em relação ao irmão Dmítri Fiódorovitch: ele definitivamente não gostava dele, e por mais que às vezes sentisse compaixão, esta vinha misturada a um grande desprezo, que beirava a repulsa. Mítia era-lhe, por inteiro, até mesmo a sua figura, extremamente antipático. Era com indignação que Ivan enxergava o amor de Katerina Ivánovna por ele. No entanto, ele se encontrou com Mítia, agora réu, também no primeiro dia de sua chegada, e esse encontro não só não enfraqueceu sua convicção da culpa do outro, como até mesmo a reforçou. Ao ver o irmão, ele se deparou com um homem em desassossego, numa agitação doentia. Mítia falava de maneira muito ríspida, acusava Smerdiakov e confundia-se terrivelmente. Acima de tudo, não parava de falar daqueles tais três mil que o falecido “roubara” dele. “O dinheiro era meu, era meu”, assegurava Mítia, “mesmo que eu tivesse roubado, estaria certo.” Quase não contestava todas as provas que se levantaram contra ele e, se explicava os fatos a seu favor, era novamente de maneira incoerente e absurda, como se, no geral, nem desejasse se justificar perante Ivan ou quem quer que fosse, ao contrário, irritava-se, desdenhava arrogantemente das acusações, xingava e encolerizava-se. Do testemunho de Grigóri a respeito da porta aberta, apenas ria com ar de desprezo e garantia que “foi o diabo que abriu”. Mas não conseguia apresentar nenhuma explicação coerente para aquele fato. Ele até conseguiu ofender Ivan Fiódorovitch nesse primeiro encontro, dizendo-lhe, com rispidez, que não deviam suspeitar dele e interrogá-lo aqueles que garantiam que “tudo é permitido”. No geral, daquela vez, ele não foi nada amistoso com Ivan Fiódorovitch. Foi logo depois desse encontro com Mítia, então, que Ivan Fiódorovitch foi falar com Smerdiakov.
Ainda no trem, tendo partido a toda de Moscou, ele só pensava em Smerdiakov e em sua última conversa com ele à noite, na véspera da viagem de ida. Muita coisa o perturbava, muita coisa lhe parecia suspeita. Mas, em seu depoimento ao juiz de instrução, Ivan Fiódorovitch mantivera silêncio a respeito daquela conversa. Continuava adiando até encontrar-se com Smerdiakov. O criado estava no hospital da cidade. Às perguntas insistentes de Ivan Fiódorovitch, o doutor Herzenstube e o médico Varvínski, que o receberam no hospital, responderam com firmeza que o mal de epilepsia de Smerdiakov era indubitável e até surpreenderam-se com a pergunta: “Não teria ele fingido no dia da desgraça?”. Deram até a entender que aquele ataque fora incomum, perdurara e repetira-se ao longo de alguns dias, de modo que a vida do paciente estivera rigorosamente em perigo, e que agora, depois de tomadas algumas medidas, já se podia afirmar com certeza que o doente continuaria vivo, embora fosse muito possível (acrescentou o doutor Herzenstube) que o juízo ficasse em parte abalado, “se não pelo resto da vida, pelo menos por um tempo bastante prolongado”. Quando Ivan Fiódorovitch indagou, com impaciência, se “agora ele é louco, então?”, responderam-lhe que “de maneira plena ainda não, mas percebem-se certas anormalidades”. Ivan Fiódorovitch disse que descobriria por conta própria que anormalidades eram aquelas. No hospital, ele foi imediatamente admitido para uma visita. Smerdiakov encontrava-se num recinto separado, deitado num leito. Ao seu lado havia outro leito, ocupado por um debilitado pequeno-burguês da cidade, todo inchado de edemas, nitidamente prestes a morrer no dia seguinte ou no outro; de modo algum poderia atrapalhar a conversa. Smerdiakov abriu um sorriso desconfiado ao ver Ivan Fiódorovitch e, num primeiro momento, ficou temeroso. Pelo menos foi essa a sensação de Ivan Fiódorovitch. Mas isso foi só por um instante, durante todo o resto do tempo, pelo contrário, Smerdiakov praticamente o impressionou por sua tranquilidade. Desde o primeiro olhar para ele, Ivan Fiódorovitch constatou o estado grave e extraordinário de sua doença: estava muito fraco, falando devagar e como que revirando a língua com esforço; emagrecera muito e estava amarelo. Ao longo dos vinte minutos da visita, queixou-se de dor de cabeça e quebradeira nos membros. Seu rosto seco, de eunuco, parecia muito pequeno, o cabelo nas têmporas estava arrepiado, no lugar do topetinho assomava, no alto, só uma mecha fininha. Mas o olho esquerdo, entrefechado e parecendo aludir a alguma coisa, denunciava o antigo Smerdiakov. “É mesmo curioso conversar com um homem inteligente”, imediatamente veio à lembrança de Ivan Fiódorovitch. Ele se sentou junto aos pés da cama, num banquinho. Com sofrimento, Smerdiakov revirou o corpo inteiro na cama, mas não foi o primeiro a falar — ficou em silêncio, e agora já não parecia manifestar muita curiosidade.
— Podemos conversar? — Ivan Fiódorovitch perguntou. — Não vou aborrecer muito.
— Posso, sim — balbuciou Smerdiakov com uma voz fraca. — Faz tempo que vossa mercê chegou? — ele acrescentou em tom condescendente, como que incentivando o desconcertado visitante.
— Foi só hoje… Vim arrumar a bagunça que vocês fizeram aqui.
Smerdiakov suspirou.
— Está suspirando por quê? Você por acaso não sabia? — Ivan Fiódorovitch disparou abertamente. Smerdiakov manteve o silêncio, com ar grave.
— Como eu não poderia saber, senhor? Estava claro de antemão. Só que como poderia saber que acabaria daquele jeito, senhor?
— Acabaria como? Não enrole! Afinal, você mesmo não previu que teria o ataque epilético justo na hora em que estivesse descendo para a adega? Mencionou literalmente a adega.
— O senhor já declarou isso no interrogatório? — indagou Smerdiakov, com tranquilidade.
Ivan Fiódorovitch irritou-se.
— Não, ainda não declarei, mas vou declarar sem falta. Você tem muito que me esclarecer agora, meu caro, e saiba, meu querido, que não permito que brinquem comigo!
— E por que eu brincaria, quando toda a minha esperança está no senhor, unicamente, como se fosse o Senhor Deus! — falou Smerdiakov do mesmo modo, totalmente tranquilo, e só fechando os olhinhos por um momento.
— Em primeiro lugar — atacou Ivan Fiódorovitch —, eu sei que um ataque epilético não pode ser previsto de antemão. Eu me informei, você não me enrola. Não dá para prever o dia e a hora. Como então você me previu o dia e a hora, e ainda por cima falou da adega? Como você poderia saber previamente que desabaria justo naquela adega durante a crise, se é que não fingiu a crise de propósito?
— Tinha que ir à adega de qualquer maneira, senhor, até várias vezes ao dia — arrastou Smerdiakov, sem pressa. — Um ano atrás, eu tombei do sótão desse mesmo jeito, senhor. Não há dúvida de que é assim, não dá para prever o dia e a hora do ataque epilético, mas um pressentimento sempre dá para ter.
— Mas você previu o dia e a hora!
— Com relação à minha doença, o melhor é que se inteire com os médicos daqui, senhor, se meu ataque foi verdadeiro ou não; mas não tenho mais nada a lhe dizer sobre esse assunto.
— E a adega? Como você pressagiou a adega?
— Mas como o senhor insiste nessa tal adega! No momento em que comecei a descer até a adega, estava com medo e com desconfiança; tinha mais medo ainda porque o senhor estava ausente e eu já não esperava que ninguém no mundo inteiro me defendesse. Eu ia descendo para a tal adega e pensando: “A crise já vai chegar, ela vai me atacar, vou desabar ou não vou?”, e foi justo por essa desconfiança que de repente um espasmo fatal me apertou a garganta, senhor… e aí eu tombei. Tudo isso aí e toda a nossa conversa de antes com o senhor, na véspera daquele dia, de noite, perto do portão, quando eu lhe contei do meu medo e da adega — eu revelei tudo isso em detalhes ao senhor doutor Herzenstube e ao juiz de instrução Nikolai Parfiónovitch, e eles anotaram na ata. E o médico daqui, o senhor Varvínski, insistiu especialmente com todos eles, dizendo que foi precisamente por causa do pensamento que isso aconteceu, quer dizer, por causa dessa cisma, de eu dizer “será que eu vou cair ou não vou cair?”. E foi aí que ela me pegou. E eles anotaram isso, senhor, que isso sem dúvida deveria acontecer, quer dizer, só por causa do meu medo, senhor.
Então, Smerdiakov, como que extenuado pela fadiga, puxou o ar profundamente.
— Quer dizer que você declarou isso em seu depoimento? — perguntou Ivan Fiódorovitch, um tanto perplexo. Ele queria justamente intimidá-lo dizendo que relataria aquela conversa de antes entre eles, mas verificou-se que o outro já havia relatado por conta própria.
— Que tenho eu a temer? Pois que anotem toda a verdade verdadeira — proferiu Smerdiakov em tom firme.
— E contou tudo da conversa que tive com você no portão, palavra por palavra?
— Não, também não foi tudo, palavra por palavra, senhor.
— E também contou que sabe fingir uma crise, como se gabou comigo naquele dia?
— Não, senhor, isso eu também não contei.
— Agora me diga por que você me mandou a Tchermachniá naquele dia.
— Fiquei com medo de que o senhor fosse para Moscou, pois Tchermarchniá de qualquer maneira é mais perto.
— Mentira, você mesmo me aconselhou a partir: “Vá embora, quanto mais longe desse pecado, melhor”, você disse!
— Eu disse isso naquele dia só por amizade e pela minha fiel lealdade, pressentindo que na casa haveria desgraça, por compaixão ao senhor. Só que tive mais compaixão por mim que pelo senhor. Por isso falei: vá para longe desse pecado, para que o senhor entendesse que aconteceria algo ruim na casa e ficasse aqui para proteger o pai.
— Então deveria ter dito de maneira mais clara, seu imbecil! — estourou Ivan Fiódorovitch.
— Como eu poderia ter dito de maneira mais clara naquele dia, senhor? Era só o medo falando dentro de mim, e o senhor ainda podia se encolerizar. É claro que eu podia ter receado que Dmítri Fiódorovitch fosse fazer algum escândalo e levasse embora o tal dinheiro, já que ele de qualquer maneira o considerava dele, mas quem saberia que a coisa acabaria naquele assassinato? Eu pensava que ele simplesmente roubaria os três mil rublos que o patrão guardava embaixo do colchão,1 num envelope, mas ele foi lá e matou, senhor. Como o senhor poderia ter adivinhado isso?
— Então se você mesmo diz que não dava para adivinhar, como é que eu poderia ter adivinhado e ficado? Que confusão está fazendo? — falou Ivan Fiódorovitch, refletindo.
— O senhor podia ter adivinhado porque eu o encaminhei a Tchermachniá, em vez de Moscou.
— Mas como adivinhar assim?!
Smerdiakov parecia muito fatigado e novamente ficou em silêncio por um minuto.
— Por isso mesmo o senhor podia ter adivinhado, se eu desviei o senhor de Moscou para Tchermachniá, isso queria dizer que eu desejava a sua presença aqui, mais próximo, porque Moscou fica longe, e Dmítri Fiódorovitch, sabendo que o senhor estaria por perto, não ficaria muito encorajado. E o senhor também poderia vir e me defender com mais rapidez, caso acontecesse alguma coisa, pois além do mais eu mesmo lhe falei da doença de Grigóri Vassílievitch, e que eu estava com medo da epilepsia. E, depois de explicar ao senhor aqueles sinais, por meio dos quais era possível entrar na casa do falecido, e que Dmítri Fiódorovitch conhecia todas eles pois eu mesmo lhe havia revelado, pensei que o senhor já adivinharia que ele certamente faria alguma coisa, e não iria nem a Tchermachniá, e sim ficaria de vez.
“Ele fala de modo muito coerente”, pensou Ivan Fiódorovitch, “embora titubeie; que perturbação das faculdades é essa de que falava o Herzenstube?”
— Está vindo com astúcia para cima de mim, o diabo que o carregue! — ele bradou, enfurecendo-se.
— Mas confesso que na época eu pensei que o senhor tivesse adivinhado tudo — revidou Smerdiakov, com o ar mais cândido.
— Se tivesse adivinhado, teria ficado! — estourou Ivan Fiódorovitch mais uma vez.
— Pois é, senhor, é que eu pensei que, depois de adivinhar tudo, o senhor estava fugindo o quanto antes de todo aquele pecado, só para fugir para algum lugar, salvando-se por medo.
— Você pensou que todos eram covardes como você?
— Perdão, pensei que o senhor fosse como eu.
— É claro que tinha que ter adivinhado — agitou-se Ivan —, mas eu estava mesmo adivinhando alguma coisa infame da sua parte… Só que você está mentindo, outra vez está mentindo — ele de repente exclamou, relembrando. — Lembra que naquele dia você chegou perto do tarantás e me disse: “É mesmo curioso conversar com um homem inteligente”? Quer dizer que estava contente por eu ir embora, se elogiou?
Smerdiakov suspirou outra vez e mais outra. Em seu rosto, surgiu como que um rubor.
— Se fiquei contente — ele proferiu, sufocando um pouco — foi unicamente porque o senhor concordou em ir a Tchermachniá, e não a Moscou. Porque é mais perto, de todo modo; só que, naquele dia, eu não disse aquelas palavras ao senhor como elogio, e sim como reprimenda. O senhor é que não entendeu.
— Como reprimenda pelo quê?
— Pelo fato de que o senhor, pressentindo aquela desgraça, abandonou o próprio pai e não quis nos defender, porque sempre poderiam me incriminar por causa desses três mil.
— Vá para o diabo que o carregue! — Ivan tornou a praguejar. — Espere aí: você contou ao juiz de instrução e ao promotor dos sinais, dessas batidas?
— Contei tudo como ocorreu, senhor.
Ivan Fiódorovitch ficou novamente surpreso em seu íntimo.
— Se eu pensei em alguma coisa naquele dia — ele recomeçou —, foi unicamente em alguma coisa infame da sua parte. O Dmítri podia até matar, mas que ele fosse roubar, nisso eu não acreditava então… Mas, da sua parte, eu esperava qualquer coisa infame. Afinal, você mesmo me disse que sabia fingir um ataque epilético, por que você disse isso?
— Unicamente pela minha ingenuidade. E, em toda a minha vida, nunca fingi um ataque de propósito, só disse para me gabar diante do senhor. Foi só uma tolice. Eu na época tinha passado a gostar muito do senhor e falei com o senhor com toda a simplicidade.
— Meu irmão o acusa abertamente, diz que você matou e roubou.
— Mas o que mais lhe resta? — Smerdiakov deu um sorriso amargo. — E quem vai acreditar nele, depois de todas aquelas provas? Grigóri Vassílievitch viu a porta aberta, senhor, depois disso o que se pode dizer? Fazer o quê? Que fique com Deus! Está tremendo, tentando se salvar…
Aparentando serenidade, ele se calou por um instante e acrescentou, como que se dando conta de algo:
— Pois veja só outra coisa quanto a isso: ele deseja empurrar a culpa em mim, dizendo que foi obra minha — isso eu já ouvi, meu senhor —, mas essa história de eu ser mestre em fingir a epilepsia: por acaso eu diria ao senhor de antemão que sabia fingir, se tivesse mesmo alguma intenção contra o seu pai? Se tivesse mesmo planejado o assassinato, eu seria tão imbecil a ponto de declarar uma prova como essa contra mim mesmo, e ainda por cima ao filho?! Isso parece provável? Poderia lá isso acontecer, senhor? Pelo contrário, nunca aconteceria, de jeito nenhum. Ninguém está ouvindo essa nossa conversa de agora, exceto a própria Providência, e, se o senhor comunicasse ao promotor e a Nikolai Parfiónovitch, poderia com isso me defender por completo: pois que malfeitor é esse, se é tão ingênuo assim? Poderiam muito bem considerar tudo isso.
— Escute aqui — levantou-se Ivan Fiódorovitch, surpreso com o último argumento de Smerdiakov e interrompendo a conversa —, eu não suspeito nem um pouco de você e até considero ridículo acusá-lo… pelo contrário, sou-lhe grato por ter me tranquilizado. Vou embora, mas volto. Por enquanto, adeus, recobre a saúde. Tem necessidade de alguma coisa?
— Sou-lhe grato por tudo, senhor. Marfa Ignátievna não se esquece de mim, e fornece tudo de que preciso, de acordo com sua bondade de sempre. Todo dia boas pessoas me visitam.
— Até logo. Aliás, não vou contar que você sabe fingir… e também aconselho que você não testemunhe — falou de repente Ivan, por alguma razão.
— Compreendo muito bem. E, se o senhor não testemunhar sobre isso, aí eu também não conto da nossa conversa daquele dia, no portão…
Aí Ivan Fiódorovitch saiu num rompante, e só depois de dar uns dez passos pelo corredor ocorreu-lhe, de súbito, que na última frase de Smerdiakov havia algo ofensivo. Ele pensou em voltar, mas isso só lhe passou pela cabeça, e, após dizer: “Bobagem!”, saiu depressa do hospital. O mais importante foi ele ter sentido que de fato se tranquilizara, e justo por que o culpado não era Smerdiakov, e sim seu irmão Mítia, embora aparentemente devesse ser o contrário. Por que foi assim — isso ele não queria explicar naquele momento, até sentia repulsa em revirar suas sensações. Ele quis como que esquecer logo alguma coisa. Depois, nos dias seguintes, convenceu-se, agora por completo, da culpa de Mítia, quando familiarizou-se, de maneira mais próxima e aprofundada, com todas as provas que pesavam contra ele. Havia depoimentos de pessoas as mais insignificantes, mas quase que devastadores, por exemplo os de Fiénia e sua mãe. Isso sem falar de Perkhótin, da taverna, da venda dos Plótnikov, das testemunhas em Mókroie. Acima de tudo, pesavam os detalhes. A notícia dos “sinais” secretos impressionou o juiz de instrução e o promotor quase no mesmo grau que o depoimento de Grigóri sobre a porta aberta. A mulher de Grigóri, Marfa Ignátievna, às indagações de Ivan Fiódorovitch, declarou-lhe com franqueza que Smerdiakov passara a noite deitado na casa deles, atrás da divisória, “não estava a nem três passos da nossa cama”, e que, embora ela mesma tivesse dormido pesadamente, acordara muitas vezes e o ouvira gemendo: “Ficou o tempo todo gemendo, gemendo sem parar”. Ao falar com Herzenstube e comunicar-lhe sua dúvida, de que Smerdiakov não lhe parecia louco coisa nenhuma, só fraco, ele só conseguiu provocar no velho um leve sorrisinho. “E o senhor sabe a que ele tem agora se dedicado em especial?”, lhe perguntou. “Está decorando vocábulos franceses; debaixo do travesseiro, ele guarda um caderninho com umas palavras francesas escritas em letras russas, he-he-he!” Ivan Fiódorovitch finalmente abandonou todas as dúvidas. Não conseguia mais nem pensar no irmão Dmítri sem asco. Só uma coisa lhe parecia de todo bizarra: que Aliocha insistisse obstinadamente que Dmítri não havia matado, e sim que “muito provavelmente” fora Smerdiakov. Ivan sempre tinha a opinião de Aliocha em alta consideração, e por isso agora estava tão perplexo. Também era estranho que ele nunca buscasse conversar com o irmão sobre Mítia e nunca puxasse o assunto, apenas respondia às perguntas de Ivan. Isso também foi fortemente percebido por Ivan Fiódorovitch. Aliás, naquele momento, ele estava muito distraído por uma circunstância totalmente estranha a tudo aquilo: ao chegar de Moscou, nos primeiros dias, entregara-se por completo e de maneira irrevogável à sua paixão ardente e enlouquecida por Katerina Ivánovna. Decerto não é hora de falar dessa nova paixão de Ivan Fiódorovitch, que teria consequências para toda a sua vida: tudo isso poderia servir de pano de fundo para uma narrativa diferente, outro romance, que eu ainda nem sei se realizarei em algum momento. Mas, de todo modo, tampouco posso me calar agora sobre o fato de que, quando Ivan Fiódorovitch, ao voltar de madrugada, com Aliocha, da casa de Katerina Ivánovna, como já descrevi, disse-lhe: “Só que não sinto nada por ela”, ele mentiu terrivelmente: ele a amava com loucura, embora também fosse verdade que, em alguns momentos, odiava-a a ponto de poder matá-la. Uniram-se ali muitos motivos: abaladíssima pelos acontecimentos com Mítia, ela se lançou a Ivan Fiódorovitch, que voltava, como se fosse um salvador. Ela estava ofendida, ultrajada, humilhada em seus sentimentos. E eis que reaparecia aquela pessoa que ainda antes a amara tanto — oh, ela sabia muito bem disso — e cuja mente e cujo coração ela sempre pusera muito acima de si mesma. Mas a virtuosa moça não se sacrificou por inteiro, apesar de toda a irrefreabilidade karamazoviana dos desejos de seu enamorado e de todo o seu fascínio por ela. Ao mesmo tempo, ela vivia atormentada pelo arrependimento de ter traído Mítia e, nos momentos tempestuosos e de brigas com Ivan (e eles eram muitos), manifestava-lhe isso sem meias-palavras. Era aquilo que ele, ao conversar com Aliocha, chamara de “mentira em cima de mentira”. É claro que ali havia mesmo muita mentira, e isso era o que mais exasperava Ivan Fiódorovitch… mas tudo isso fica para depois. Resumindo, por um tempo ele quase se esqueceu de Smerdiakov. E, no entanto, duas semanas depois daquela primeira visita, voltaram a atormentá-lo todos aqueles mesmos pensamentos estranhos de antes. Basta dizer que ele começou a se perguntar incessantemente: por que razão, na época, em sua última noite na casa de Fiódor Pávlovitch, antes de sua partida, ele descera de mansinho pela escada, como um ladrão, e pusera-se a ouvir com atenção o que o pai fazia lá embaixo? Por que depois recordara tudo isso com repulsa, por que, na manhã do dia seguinte, na estrada, de repente ficara aborrecido e, ao chegar a Moscou, dissera a si mesmo: “Sou um canalha!”? E então depois, certa vez, passou-lhe pela cabeça que, por causa de todos esses pensamentos torturantes, ele talvez estivesse prestes a esquecer-se até de Katerina Ivánovna, tamanha a força com que eles tornavam a assaltá-lo! Foi logo depois de pensar isso que ele se encontrou com Aliocha na rua. Ele o deteve no mesmo instante e de súbito lhe perguntou:
— Você está lembrado de quando, após o jantar, o Dmítri invadiu a casa e espancou o pai, e depois eu te disse, no pátio, que reservava a mim mesmo o “direito de desejar”? Me diga, naquele dia você pensou ou não que eu desejava a morte do pai?
— Pensei — respondeu Aliocha, em voz baixa.
— Aliás, foi isso mesmo, nem tinha o que adivinhar. Mas naquele dia também não lhe ocorreu que eu desejava justamente que “um réptil comesse o outro réptil”, ou seja, que o Dmítri matasse o pai, e ainda por cima o quanto antes… e que eu mesmo nem teria nada contra fazer isso acontecer?
Aliocha empalideceu de leve e olhou em silêncio para os olhos do irmão.
— Diga! — exclamou Ivan. — Quero saber o que você pensou naquele dia! Preciso da verdade, da verdade! — Ele respirava pesadamente, já de antemão olhando para Aliocha com certa raiva.
— Perdoe-me, naquele dia eu também pensei isso — Aliocha sussurrou e calou-se, sem acrescentar quaisquer “circunstâncias atenuantes”.
— Obrigado! — cortou Ivan e, deixando o irmão, tomou rapidamente o seu caminho. Desde então, Aliocha percebeu que o irmão Ivan começou como que a se afastar abruptamente dele, e até como que a pegar antipatia dele, de modo que, depois, ele mesmo deixou de ir à sua casa. Mas, naquele instante, logo após aquele encontro, Ivan Fiódorovitch, sem passar em casa, de repente se dirigiu outra vez em busca de Smerdiakov.
1. Típico lapso de Dostoiévski: ora o dinheiro está sob o travesseiro, ora embaixo da cama, ora debaixo do colchão.
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