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Os irmãos Karamázov
II. Da vida do ancião Zossima, hierosquimonge falecido em Deus, escrita, a partir de suas próprias palavras, por Aleksei Fiódorovitch Karamázov

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Da vida do ancião Zossima, hierosquimonge falecido em Deus, escrita, a partir de suas próprias palavras, por Aleksei Fiódorovitch Karamázov

Informações biográficas

a) Sobre um jovem, irmão do ancião Zossima

Amados padres e mestres, nasci numa distante província do norte, na cidade de V., de um pai nobre, mas não ilustre e de patente não muito alta. Ele faleceu quando eu tinha somente dois anos de idade, e não me lembro dele em absoluto. Deixou para minha mãezinha uma pequena casa de madeira e certo capital, não avultado, mas suficiente para viver com os filhos sem passar necessidade. E éramos só dois com nossa mãezinha: eu, Zinóvi, e meu irmão mais velho, Markel. Ele era uns oito anos mais velho, de caráter irascível e irritadiço, mas bondoso, nada malicioso e estranhamente taciturno, sobretudo em sua própria casa, comigo, com a nossa mãe e com a criadagem. No colégio, ele ia bem nos estudos, mas não se dava com os colegas, embora não brigasse, pelo menos assim recordava a mãezinha a respeito dele. Seis meses antes de sua morte, quando já passara dos dezessete anos, pegou o costume de frequentar a casa de um homem solitário de nossa cidade, uma espécie de exilado político, degredado de Moscou para nossa cidade por ser um livre­-pensador. Esse exilado era um grande erudito e um filósofo ilustre de uma universidade. Por algum motivo, ele se afeiçoou a Markel e passou a recebê­-lo. O jovem ficava noites inteiras na casa dele, e foi assim o inverno todo, até que o exilado foi convocado de volta a Petersburgo para o serviço público, a pedido dele próprio, pois possuía uns padrinhos. Começou a grande Quaresma, e Markel não queria jejuar, ofendia e ria daquilo: “Isso é tudo delírio”, ele dizia, “e não existe Deus nenhum”, de maneira que provocou horror na minha mãe e nos criados, e também em mim, que era pequeno: embora eu só tivesse nove anos, também fiquei muito assustado ao ouvir tais palavras. Os nossos criados eram todos servos, quatro pessoas, todas compradas de um proprietário de terras conhecido nosso. Ainda lembro que, daquelas quatro, a mãezinha vendeu uma, a cozinheira Afímia, manca e idosa, por sessenta rublos em notas bancárias, e para o seu lugar contratou uma livre. E então, na sexta semana da Quaresma, meu irmão de repente piorou, pois sempre fora enfermiço, doente do peito, de compleição fraca e propenso à tísica; era de boa estatura, mas esguio e débil; de rosto, porém, muito agradável. Não sei se apanhou um resfriado ou o quê, mas o médico veio e logo sussurrou para a mãezinha que a tísica era galopante e que ele não sobreviveria à primavera. Minha mãe começou a chorar, pôs­-se a pedir ao meu irmão, com cuidado (mais para não assustá­-lo), que jejuasse e comungasse dos santíssimos sacramentos divinos, pois então ele ainda ficava em pé. Ao ouvir aquilo, ele se irritou e praguejou contra o templo de Deus, porém refletiu: logo adivinhou que estava com uma doença perigosa e que era por isso que a nossa mãe o mandava jejuar e comungar, enquanto ainda tinha forças. Aliás, ele mesmo já sabia que estava enfermo havia muito tempo e, um ano antes, certa feita dissera à mesa, para mim e para a mãe, com sangue­-frio: “Não pertenço mais a esse mundo de vocês, talvez eu não viva nem um ano”, e foi como se profetizasse. Passaram­-se uns três dias, e chegou a Semana Santa. E então meu irmão começou a jejuar, na quinta­-feira de manhã. “Estou fazendo isso em sua consideração, mãezinha, para alegrá­-la e tranquilizá­-la”, ele disse. Minha mãe chorou de alegria, mas também de desgosto: “A morte deve estar próxima, se ele apresentou essa mudança tão repentina”. Mas ele não foi à igreja durante muito tempo, ficou de cama, de maneira que o confessaram e comungaram já em casa. Os dias estavam claros, luminosos, perfumados, foi uma Páscoa tardia. Ele passava a noite toda tossindo, eu lembro, dormia mal, mas, de manhã, sempre se vestia e tentava sentar­-se numa poltrona. É assim que eu me lembro dele: sentado tranquilo, dócil, sorrindo, doente mas com o semblante alegre, feliz. Espiritualmente, mudou por completo — de repente teve início dentro dele uma mudança maravilhosa! A velha aia entrou em seu quarto: “Dê licença, meu querido, de acender uma lamparina diante da imagem também aqui no seu quarto”. E ele antes não permitia, até assoprava. “Acenda, querida, acenda, fui um monstro ao impedi­-la. Ao acender a lamparina, você reza a Deus, e eu rezo, regozijando­-me com você. Quer dizer, rezamos ao mesmo Deus.” Aquelas palavras nos pareceram estranhas, e a mãe recolhia­-se em seu quarto e não parava de chorar, só ao entrar no quarto dele enxugava os olhos e adotava uma a expressão alegre. “Mãezinha, não chore, minha queridinha”, ele dizia, então, “ainda tenho muito que viver, muitas alegrias com a senhora, e a vida, a vida é feliz, é alegre!” “Ai, querido, mas que alegria você pode ter se passa a noite ardendo em febre e tossindo tanto que seu peito quase estoura?” “Mamãe”, ele respondia, “não chore, a vida é um paraíso, e todos nós estamos no paraíso, mas não queremos saber disso, mas, se quiséssemos saber, amanhã mesmo seria o paraíso em toda a terra.” E todos maravilhavam­-se com suas palavras, tão estranho e tão resoluto era o modo como as dizia; comoviam­-se e choravam. Conhecidos vinham nos visitar: “Meus queridos”, ele dizia, “meus caros, que fiz para merecer que vocês me amem, que amem alguém como eu, e como eu não sabia disso antes, não dava valor?”. Aos criados que iam até ele, dizia a todo instante: “Meus queridos, meus caros, por que me servem, acaso mereço que me sirvam? Se Deus tivesse misericórdia e me deixasse entre os vivos, eu mesmo lhes serviria, pois todos devem servir um ao outro”. A mãezinha, ao ouvir aquilo, balançava a cabeça: “Meu querido, você diz isso por causa da doença”. “Mamãe, meu bem”, ele dizia, “não pode deixar de haver senhores e criados, mas que eu seja também criado dos meus criados, assim como eles são meus criados. E eu lhe digo também, mãezinha, que qualquer um de nós é culpado perante os outros, e eu mais do que todos.” Aí a mãezinha quase ria, chorava e ria: “Mas em que você”, ela dizia, “é mais culpado que todos perante os outros? Há assassinos, bandidos por aí, e como é que você conseguiu pecar tanto, que se culpa mais que todos?”. “Mãezinha do meu coraçãozinho”, ele dizia ( começara a dizer essas palavras gentis, inesperadas), “querida do meu coraçãozinho, minha alegria, saiba que em verdade cada um é culpado perante os outros por tudo e por todos. Não sei como explicar, mas sinto que é assim, até me dói. E como é que então vivíamos, ficávamos irritados e não sabíamos de nada?” Assim ele despertava, a cada dia comovendo­-se mais e mais, regozijando­-se e estremecendo por inteiro, de amor. Chegava, então, um médico — era Eizenchmidt quem vinha, um velho alemão: “Mas então, doutor, hei de viver mais um diazinho neste mundo?”, brincava com ele. “Não só um dia, há de viver muitos dias”, o doutor então respondia, “há de viver ainda meses, e anos.” “Mas que são anos, que são meses!”, ele então exclamava. “Por que contar os dias, um dia é o bastante para que o homem conheça toda a felicidade. Meus queridos, por que discutimos, por que nos gabamos um perante o outro, por que relembramos as ofensas um contra o outro? Vamos direto para o jardim, e começaremos a passear e a brincar, a amar e louvar uns aos outros, e beijar, e bendizer nossa vida.” “Seu filho não pertence mais a este mundo”, proferiu o médico à minha mãezinha quando ela o acompanhou até o terraço, “por causa da doença, ele está perdendo a razão.” As janelas do quarto dele davam para o jardim, mas nosso jardim era sombrio, com árvores velhas, nas árvores germinavam os rebentos da primavera, diversos passarinhos chegavam voando, gorjeando, cantando para ele nas janelas. E de repente ele se pôs a pedir desculpas também a eles, olhando­-os e admirando­-os: “Passarinhos de Deus, passarinhos alegres, perdoem­-me vocês também, porque eu também pequei perante vocês”. Na ocasião, nenhum de nós conseguia entender tal coisa, ao passo que ele chorava de alegria: “Sim”, ele dizia, “havia tamanha glória de Deus ao meu redor: passarinhos, árvores, prados, céus, só eu vivia na ignomínia, só eu desonrava tudo, e não notei de modo algum a beleza e a glória”. “Mas você está assumindo para si muitos pecados”, nossa mãezinha chorava. “Mãezinha, alegria minha, mas é de felicidade que choro, não de tristeza; é que eu mesmo quero ser culpado diante deles, só não consigo explicar para você, pois nem sei como amá­-los. Que eu seja pecador diante de todos, mas, em compensação, se todos me perdoarem, eis aí o paraíso. Por acaso não estou agora no paraíso?” E houve ainda muito mais, que não se pôde recordar nem anotar. Lembro que uma vez entrei sozinho no quarto dele, não havia mais ninguém lá. Era uma noite clara, o sol ia se pondo e o quarto inteiro estava iluminado por um raio oblíquo. Ao me ver, ele me acenou, eu me aproximei, ele me segurou pelos ombros com ambas as mãos, olhou para meu rosto com ar enternecido, amoroso; não disse nada, só ficou olhando daquele jeito por um instante: “Bem”, ele disse, “agora pode ir, vá brincar, viva por mim!”. Eu então saí e fui brincar. E, depois, ao longo da vida, lembrei muitas vezes, já com lágrimas nos olhos, de como ele me mandou viver por ele. Ele ainda disse muitas dessas palavras maravilhosas e belas, que então nos eram incompreensíveis. Faleceu na terceira semana depois da Páscoa, consciente, e embora já tivesse parado até de falar, não mudou até a última hora: tinha um aspecto alegre, nos olhos havia felicidade, procurava­-nos com o olhar, sorria para nós, nos chamava. Até na cidade falou­-se muito de sua morte. Tudo isso me abalou à época, mas não demasiado, embora eu tenha chorado muito quando ele foi enterrado. Eu era jovem, uma criança, mas no meu coração tudo se manteve indelével, o sentimento ficou escondido. Em seu tempo, tudo iria se rebelar e se manifestar. E foi o que aconteceu.

b) Sobre as Sagradas Escrituras na vida do padre Zossima

Ficamos então sozinhos, minha mãe e eu. Logo uns bondosos conhecidos lhe deram um conselho: agora que só sobrara um filhinho, e visto que a senhora não é pobre, tem um capital, então, a exemplo dos demais, por que não manda seu filho a Petersburgo? Se ele ficar aqui, a senhora pode privá­-lo de um futuro notável. E sugeriram à minha mãezinha me enviar à escola de cadetes, para depois ingressar na guarda imperial. Minha mãezinha hesitou durante muito tempo: como separar­-se de seu último filho? Mas, afinal, tomou a decisão, ainda que depois de muitas lágrimas, acreditando contribuir para a minha felicidade. Ela me levou a Petersburgo e me inscreveu, mas, desde então, eu nunca mais a vi; pois, três anos depois, ela também faleceu, tendo passado os três anos entristecida e angustiada por nós dois. Da casa dos meus pais, levei comigo apenas as lembranças preciosas, pois o homem não tem lembranças mais preciosas que aquelas da primeira infância na casa dos pais, e quase sempre é assim, se na família há um pouquinho que seja de amor e união. E mesmo da pior das famílias podem­-se guardar recordações preciosas, desde que a própria alma seja capaz de buscar o que é precioso. Às recordações de casa, acrescento também as recordações sobre a história sagrada, pela qual, na casa de meus pais, embora ainda criança, eu me interessava muito em conhecer. Na época, eu tinha um livro de história sagrada, com belíssimas figuras, intitulado Cento e quatro histórias sagradas do Antigo e do Novo Testamento1 e foi com ele que aprendi a ler. Ele ainda está aqui na minha estante, guardo como uma lembrança preciosa. Mas, mesmo antes de aprender a ler, lembro da primeira vez que fui imbuído de certa convicção espiritual, tinha apenas oito anos de idade. Minha mãezinha me levou sozinho ao templo do Senhor (não lembro onde meu irmão estava naquela ocasião), na missa da segunda­-feira da Semana Santa. O dia estava claro, e, relembrando agora, é como se eu visse de novo o incenso emanando do turíbulo e elevando­-se lentamente, e, do alto, na cúpula, por uma janelinha estreita, os raios de Deus derramando­-se sobre nós na igreja, o incenso elevando­-se em direção a eles em ondas, se desfazendo neles. Eu observava comovido, e então, pela primeira vez desde meu nascimento, tive consciência de receber em minha alma a primeira semente da palavra de Deus. Um adolescente foi até o centro do templo com um livro grande, tão grande que então a mim até me pareceu que ele o carregava com dificuldade, e ele o depositou no atril, descerrou­-o e começou a ler, e, então de repente, pela primeira vez eu compreendi algo, pela primeira vez na vida compreendi o que se lia no templo de Deus. Havia um homem na terra de Uz, justo e piedoso, e ele tinha tantas riquezas, tantos camelos, tantas ovelhas e tantos burros, e seus filhos divertiam­-se, e ele os amava muito e orava a Deus por eles: talvez tivessem pecado ao se divertir. E eis que o diabo subiu até Deus junto com os filhos de Deus e disse ao Senhor que passeou por toda a terra e sob a terra. “E viste meu servo Jó?”, Deus lhe perguntou. E vangloriou­-se Deus perante o diabo, apontando para seu grandioso e santo servo. E riu­-se o diabo das palavras de Deus: “Entrega­-me teu servo e verás que ele se lamentará e amaldiçoará o teu nome”. E entregou Deus ao diabo o seu justo, que lhe era tão amado, e o diabo abateu os filhos dele, e seu gado, e acabou com sua fortuna, tudo de repente, como um trovão divino, e rasgou Jó as próprias vestes e lançou­-se por terra e bradou: “Nu saí do ventre da mãe, nu retornarei à terra, Deus deu e Deus tomou. Louvado seja o nome do Senhor agora e para sempre!”. Padres e mestres, tenham piedade de minhas lágrimas de agora, pois toda a minha meninice como que se ergue novamente diante de mim, e eu respiro agora como respirava então, com o peitinho de uma criança de oito anos, e sinto, como então, surpresa, e confusão, e alegria. E os camelos então ocuparam muito a minha imaginação, e Satanás, que falou daquele jeito com Deus, e Deus, que entregou seu servo à ruína, e seu servo, que exclamou: “Louvado seja o teu nome, apesar de me punires” — e depois o silencioso e doce canto no templo: “Que se eleve a minha oração”, e de novo o incenso do turíbulo do sacerdote e a oração genuflexa! Desde então — ontem mesmo eu a peguei —, não consigo ler essa santíssima narrativa sem lágrimas. E quanta coisa ali é grandiosa, é misteriosa, é inimaginável! Escutei depois as palavras dos escarnecedores e dos blasfemadores, palavras orgulhosas: como é que pôde o Senhor entregar o mais amado de seus santos para a diversão do diabo, tomar dele os filhos, afligi­-lo com doenças e chagas, de maneira que limpava o pus de suas feridas com um caco, e para quê? Só para vangloriar­-se diante de Satanás, dizendo: “Eis o que meu santo servo pode suportar em meu nome!”. Mas o grandioso aqui é justamente o mistério — que o efêmero semblante terreno e a verdade eterna tenham se tocado aqui. Ante a justiça terrena, cumpre­-se a ação da justiça eterna. Aqui o Criador, como nos primeiros dias da criação, ao concluir cada dia com o louvor: “É bom tudo que criei”, olha para Jó e novamente louva­-se por tudo que criou. E Jó, louvando ao Senhor, serve não apenas a Ele, mas serve também a tudo que Ele criou, de geração em geração, e pelos séculos dos séculos, pois a isso estava predestinado. Senhor, que livro é esse e que lições são essas! Que livro são essas Sagradas Escrituras, que milagre e que força deu ao homem! Como se fosse uma imagem esculpida do mundo, e do homem, e dos caracteres humanos, e tudo tivesse sido nomeado e estabelecido pelos séculos dos séculos. E quantos mistérios resolvidos e revelados: Deus reergue Jó, dá­-lhe de volta a riqueza, muitos anos se passam outra vez, e eis que ele já tem novos filhos, outros, e ele os ama — Senhor! “Mas como ele poderia amar esses novos quando os de antes não existem mais, quando deles foi privado? Ao lembrar­-se deles, será mesmo possível que seja plenamente feliz com os novos como era antes, por mais que lhe sejam queridos os novos?” Mas é possível, é possível: a antiga tristeza, por um grande mistério da vida humana, pouco a pouco se transforma numa tranquila e enternecida alegria; no lugar do sangue jovem e efervescente, vem a velhice dócil e serena: abençoo o nascer do sol diariamente, e meu coração canta a ele como antes, mas agora amo mais o pôr do sol, seus raios longos e oblíquos, e com eles as tranquilas, dóceis e enternecidas recordações, as queridas imagens de toda uma longa e abençoada vida — e sobre todas as coisas está a verdade divina, comovente, conciliadora, que a tudo perdoa! Minha vida está acabando, sei e percebo isso, mas sinto, a cada dia que me resta, minha vida terrena misturar­-se a uma vida já nova, infinita, desconhecida, mas que se aproxima a passos largos, e ao pressenti­-la minha alma estremece de êxtase, minha mente resplandece e chora de alegria o coração… Amigos e mestres, ouvi muitas vezes, e agora, nos últimos tempos, ouço cada vez mais, que por toda parte nossos padres de Deus, sobretudo os rurais, queixam­-se e lamuriam­-se de sua baixa remuneração e de sua humilhação e declaram com franqueza, até mesmo pela imprensa — eu mesmo li tal coisa —, que agora não conseguem mais explicar ao povo as Escrituras, pois sua remuneração é baixa, e que, se chegarem os luteranos e os hereges e tentarem arrebatar o rebanho, que arrebatem, pois nossa remuneração é pequena, eles dizem. Senhor!, penso, que Deus lhes dê mais dessa remuneração que lhes é tão preciosa (pois também é justa a queixa deles), mas em verdade eu digo: se alguém é culpado disso, metade dessa culpa é nossa! Pois, mesmo não tendo tempo, mesmo que com justiça se diga oprimido o tempo todo pelo trabalho e pelo serviço religioso, mesmo assim não é o tempo todo, mesmo assim ele também tem pelo menos uma hora na semana para se lembrar de Deus. E também não tem trabalho o ano inteiro. Que ele reúna em sua casa, à noite, mesmo que no início só as criancinhas — os pais hão de ouvir falar, os pais também passarão a vir. E nem é preciso construir palácios para essa finalidade, basta recebê­-los em sua isbá; não tenha medo, não hão de emporcalhar sua isbá, você os reunirá por apenas uma hora. Pois abra esse livro para eles e comece a ler sem palavras complicadas e sem soberba, sem colocar­-se acima deles, mas em tom enternecido e dócil, alegrando­-se por estar lendo para eles e por eles escutarem e entenderem, amando tais palavras, apenas pare de quando em quando e explique alguma palavra incompreensível ao homem simples, não se preocupe, hão de entender tudo, o coração ortodoxo entende tudo! Leia para eles de Abraão e de Sara, de Isaque e de Rebeca, de como Jacó foi ter com Labão e lutou em sonho com o Senhor e disse: “Quão terrível é este lugar”, e comoverá a mente piedosa do homem simples. Leia para eles, sobretudo para as crianças, de como os irmãos venderam como escravo seu próprio irmão, José, um meigo adolescente que tinha sonhos e era um grande profeta, e disseram ao pai que uma fera o havia despedaçado, mostrando sua roupa ensanguentada. Leia de como, depois, os irmãos foram ao Egito em busca de pão, e José, já um grandioso cortesão, que eles não reconheceram, atormentou­-os, acusou­-os, deteve o irmão Benjamim, e sempre amando: “Eu vos amo e, amando, eu vos atormento”. Pois, durante toda sua vida, ele se lembrou incansavelmente de que o venderam, em algum lugar da estepe tórrida, junto a um poço, a uns mercadores, e de que ele, com o braço quebrado, chorou e suplicou aos irmãos que não o vendessem como escravo para uma terra estranha, e eis que, ao vê­-los depois de tantos anos, amou­-os de novo, desmesuradamente, mas afligiu­-os e atormentou­-os, sempre amando. Afasta­-se, afinal, da presença deles, sem conseguir suportar a tortura de seu próprio coração, joga­-se em seu leito e chora; depois enxuga o rosto e sai, radiante e alegre, e anuncia­-lhes: “Irmãos, sou José, seu irmão!”. Que leia ainda de como alegrou­-se o velho Jacó ao saber que seu querido menino ainda estava vivo, e deslocou­-se ao Egito, deixando até mesmo a pátria, e morreu numa terra estranha, proferindo, para os séculos dos séculos, em seu testamento, a palavra grandiosa que, secretamente, estivera em seu dócil e tímido coração por toda a vida, de que, de sua descendência, de Jacó, sairia a grande esperança do mundo, seu conciliador e salvador! Padres e mestres, perdoem e não se irritem por eu explicar, como um menininho, aquilo que vocês já sabem há muito e que poderiam me ensinar de modo cem vezes mais delicado e formoso. É apenas pelo êxtase que digo tais coisas, e perdoem minhas lágrimas, pois amo este livro! Que chore também ele, esse sacerdote de Deus, e verá que em resposta os corações dos ouvintes estremecem. É necessária apenas uma semente pequena, minúscula: se ele a lançar na alma do homem simples, ela não morrerá, viverá em sua alma por toda a vida, ficará oculta ali em meio às trevas, em meio ao fedor de seus pecados, como um ponto luminoso, como uma recordação grandiosa. E não precisa, não precisa explicar e ensinar muito, ele entenderá tudo facilmente. Acaso pensam vocês que o homem simples não entenderia? Experimentem ler para ele também a narrativa, tocante e comovente, da bela Ester e da arrogante Vasti; ou a história maravilhosa do profeta Jonas no ventre da baleia. Não se esqueçam também das parábolas do Senhor, de preferência segundo o evangelho de Lucas (como eu fazia), e depois a conversão de Saulo, dos Atos dos Apóstolos (essa não pode faltar, não pode faltar!), e, finalmente, também algo dos Tcheti­-Minei, pelo menos a vida de Aleksei, homem de Deus, e da radiante sofredora, grande entre as grandes, aquela que viu Deus, a portadora de Cristo, a mãe Maria Egipcíaca — e você há de penetrar­-lhe o coração com essas histórias simples, e é só uma hora por semana, malgrado sua baixa remuneração, uma horinha. E ele mesmo verá que nosso povo é benevolente e grato, há de recompensá­-lo cem vezes; lembrando­-se do zelo do sacerdote e de suas palavras enternecidas, há de ajudá­-lo no campo voluntariamente, há de ajudá­-lo até em sua casa, e há de demonstrar por ele um respeito maior do que antes — e sua contribuição também aumentará. É uma coisa tão simples, que às vezes temos até medo de manifestar, pois vão rir de você, e no entanto, quão certa ela é! Quem não acredita em Deus também não acreditará no povo de Deus. Quem crê, porém, no povo de Deus enxergará também a sua santidade, mesmo que antes disso não tenha acreditado nela de modo algum. Somente o povo e sua futura força espiritual converterão nossos ateus, apartados de sua terra natal. E o que é a palavra de Cristo sem o exemplo? Perdido é o povo sem a palavra de Deus, pois a alma anseia por sua palavra e por qualquer percepção do belo. Em minha juventude, já faz muito tempo, quase quarenta anos, o padre Anfim e eu percorremos toda a Rússia, coletando donativos para o monastério, e certa feita pernoitamos junto a um grande rio navegável, nas margens, com os pescadores, e junto conosco sentou­-se um rapaz bem­-apessoado, um camponês que aparentava já uns dezoito anos, com pressa de no dia seguinte sirgar uma barca mercante. E eu vi que ele olhava para o que havia à sua frente com um ar enternecido e sereno. Era uma noite clara, tranquila, cálida, em julho, o vasto rio, do qual subia um vapor, refrescando­-nos, um peixinho marulhando de leve, os passarinhos em silêncio, tudo estava tranquilo, formoso, tudo orava a Deus. E só nós dois não dormíamos, esse rapaz e eu, e começamos a conversar sobre a beleza deste mundo de Deus e de seu grande mistério. Qualquer graminha, qualquer bichinho, a formiga, a abelhinha dourada, é espantoso como todos conhecem seu caminho, sem ter inteligência, testemunham o mistério de Deus, eles mesmos o cumprem sem cessar, e eu vi que o coração daquele meigo rapaz inflamou­-se. Ele me revelou que amava a floresta, os passarinhos da floresta; ele era passarinheiro, entendia cada assobio, conseguia atrair cada passarinho; não conheço nada melhor do que estar na floresta, ele disse, mas é tudo tão bom. “Verdadeiramente”, eu lhe respondi, “é tudo tão bom e esplêndido, porque tudo é verdade. Olhe o cavalo”, eu lhe disse, “um animal grandioso, que permanece ao lado do homem, ou o boi, que o alimenta e trabalha para ele, tristonho e pensativo, olhe o semblante deles: que docilidade, que afeição pelo homem, que com frequência bate nele sem piedade, que complacência, que credulidade e que beleza há em seu semblante. É até comovente saber disso, que neles não há pecado algum, pois tudo é perfeito, tudo, exceto o homem, tudo é sem pecado, e Cristo está com eles mesmo antes de nós.” “Mas será mesmo”, perguntou o rapaz, “que Cristo também está com eles?” “E como poderia ser diferente?”, eu lhe disse. “Pois a todos é o Verbo, toda criatura e todo ser, cada folhinha aspira ao Verbo, canta glória a Deus, chora a Cristo, sem conhecimento disso, cumpre tal coisa pelo mistério de sua vida sem pecado. Ali”, eu lhe disse, “na floresta, vaga o terrível urso, ameaçador e feroz, e não tem culpa por nada disso.” E eu lhe contei de como, certa vez, um urso se dirigiu a um grande santo que buscava a salvação na floresta, numa pequena cela, e comoveu­-se por ele o grande santo, que saiu, destemido, e entregou­-lhe um naco de pão: “Pode ir”, disse, “vá com Cristo”, e o feroz animal afastou­-se, obediente e dócil, sem lhe ter feito mal. E comoveu­-se o jovem por ele ter se afastado sem fazer o mal e por Cristo estar com ele. “Ah, como isso é bom”, ele disse, “como é bom e maravilhoso tudo que é de Deus!” Ficou sentado, pensativo, com ar tranquilo e doce. Vi que tinha entendido. E ele adormeceu ao meu lado, um sono fácil, sem pecado. Que o Senhor abençoe a juventude! E eu mesmo rezei por ele ali, enquanto pegava no sono. Senhor, envia paz e luz a teu povo!

c) Recordações de adolescência e juventude do ancião Zossima ainda no mundo. O duelo

Passei muito tempo em Petersburgo, na escola de cadetes, quase oito anos, e com a nova educação abafei muitas daquelas impressões infantis, embora não tivesse me esquecido de nada. Assumi tantos novos costumes e até opiniões que me transformei numa criatura quase selvagem, cruel e absurda. Adquiri um verniz de civilidade e modos em sociedade, bem como a língua francesa, e considerávamos, eu inclusive, todos os soldados que nos serviam na escola completos animais. Eu talvez ainda mais que os outros, pois, de todos os colegas, era o mais suscetível a tudo. Depois de sairmos como oficiais, estávamos dispostos a derramar nosso sangue pela honra ofendida de nosso regimento, mas quase nenhum de nós sequer sabia o que era a verdadeira honra e, se viesse a saber, seria o primeiro a ridicularizá­-la de imediato. Quase que nos orgulhávamos da bebedeira, da balbúrdia e da temeridade. Não diria que fôssemos detestáveis; todos esses jovens eram bons, mas comportavam­-se de maneira detestável, e eu, mais que todos. Eu tomara posse de meu capital, e por isso me permiti viver a meu bel­-prazer, com todas as aspirações da juventude, de maneira desenfreada, naveguei de vento em popa. Mas eis o que é surpreendente: eu também lia livros, e até com muito prazer; só a Bíblia é que quase nunca abria à época, mas tampouco me separava dela, eu a levava comigo para todo lado — em verdade guardei esse livro, sem saber, “para o dia e para a hora, para o mês e para o ano”. Depois de servir assim durante quatro anos, fui parar na cidade de K., onde nosso regimento estava então estacionado. A sociedade do lugar era variada, concorrida e alegre, hospitaleira e rica, e fui bem recebido em toda parte, pois tinha um inato temperamento alegre, e ainda por cima a reputação de não ser pobre, o que na alta sociedade significa muito. E então aconteceu uma situação que se tornou o princípio de tudo. Eu me envolvi com uma donzela jovem e bela, inteligente e digna, de caráter radiante, nobre, filha de pais respeitáveis. Eram gente importante, tinham riqueza, influência e poder, receberam­-me com carinho e cordialidade. E então pareceu­-me que a donzela nutria afeto por mim — e meu coração ardeu com tal sonho. Depois, eu mesmo percebi e cheguei em definitivo à conclusão de que talvez eu de modo algum a amasse com toda aquela força, mas só a admirava pela inteligência e pelo caráter elevado, indiscutíveis. A egolatria, no entanto, impediu­-me de pedir­-lhe a mão naquele momento: pareceu­-me difícil e terrível afastar­-me da vida livre e libertina de solteiro em tão tenra idade, e ainda por cima com dinheiro. Fiz, no entanto, alusões. De qualquer maneira, adiei por um breve tempo qualquer passo decisivo. E então, de repente, surgiu uma missão de dois meses em outra província. Retornei depois de dois meses e de repente fiquei sabendo que a donzela havia se casado com um rico proprietário de terras dos arredores, homem ainda jovem, embora alguns anos mais velho que eu, e que possuía laços na capital, na mais alta sociedade, coisa que eu não possuía, e homem extremamente amável, e além de tudo instruído, sendo que eu não tinha instrução alguma. Fiquei tão abalado com aquele acontecimento inesperado que até minha mente se perturbou. E, o que era pior, como fiquei sabendo à época, aquele jovem proprietário já era o noivo dela fazia muito tempo, e eu mesmo já me encontrara com ele inúmeras vezes na casa deles, mas não percebera nada, cegado por meus próprios méritos. Mas foi justo isso que mais me ofendeu: como assim, quase todos sabiam, só eu é que não sabia de nada? E de repente senti uma raiva insuportável. Ruborizado, comecei a relembrar as muitas vezes em que quase declarei meu amor, e já que não me interrompia e não me advertia, ela portanto devia estar rindo de mim, concluí. Depois, obviamente, percebi e lembrei que ela não ria nem um pouco, ao contrário, ela mesma cortava essas conversas, em tom de brincadeira, e as substituía por outras — mas na ocasião eu não conseguia perceber e ardia com o desejo de vingança. Recordo com surpresa que essa vingança e a minha fúria eram extremamente pesadas e repulsivas para mim mesmo, porque, tendo um caráter leve, eu não conseguia ficar muito tempo irritado com ninguém, e por isso como que me inflamava artificialmente, e acabei me tornando repugnante e ridículo. Esperei um tempo e, certa feita, na companhia de várias pessoas, consegui de repente ofender meu “rival”, por um motivo dos mais irrelevantes, zombar de uma opinião dele sobre um acontecimento importante da época — isso foi no ano de 262 — e, pelo que disseram, consegui zombar de maneira espirituosa e astuta. Depois, eu o constrangi a uma discussão, durante a qual me comportei com tamanha grosseria que ele aceitou meu desafio para um duelo, apesar da enorme diferença entre nós, pois eu não só era mais jovem que ele, como também insignificante e de baixa patente. Então acabei tendo a certeza de que ele aceitara meu desafio também por certo sentimento de ciúme em relação a mim: antes ainda ele já sentira um pouquinho de ciúme de mim, por causa de sua esposa, à época ainda sua noiva; agora, eu pensava que, se ela soubesse que ele sofrera uma ofensa de minha parte e não me desafiara para um duelo, então ela talvez passasse involuntariamente a desprezá­-lo, e seu amor por ele oscilaria. Logo consegui um padrinho, um tenente, colega ali do nosso regimento. Embora na época os duelos fossem duramente reprimidos, eles meio que estavam na moda entre os oficiais — até que ponto às vezes crescem e se fortalecem os preconceitos selvagens. Era fim de junho, e nosso encontro seria no dia seguinte, nos arredores da cidade, às sete da manhã — e então de fato me aconteceu algo como que fatídico. À noite, depois de voltar para casa, encarniçado e repulsivo, eu me irritei com meu ordenança Afanássi e soquei­-o com toda força, duas vezes, no rosto, de maneira que seu rosto ficou ensanguentado. Fazia pouco tempo que ele me servia, e antes já me ocorrera bater nele, mas nunca com crueldade tão bestial. E, acreditem ou não, amados, quarenta anos se passaram no tempo, e até agora lembro daquilo com vergonha e tormento. Eu me deitei para dormir, adormeci por três horas, acordei, o dia já começava. De repente levantei, não queria mais dormir, cheguei perto da janela, abri — meu quarto dava para o jardim —, vi o sol nascer, o dia estava quente, belíssimo, os passarinhos começavam a cantoria. Mas o que é isso, pensei, que estou sentindo na alma, sentimento como que vergonhoso e baixo? Será que é porque estou indo derramar sangue? Não, pensei, não acho que seja por isso. Seria porque estou com medo da morte, medo de ser morto? Não, nada disso, não é nem mesmo isso… E, de repente, num piscar de olhos, me dei conta do que se tratava: era por eu ter espancado Afanássi na noite anterior! Tudo me voltou à mente de supetão, como se estivesse se repetindo: ele de pé, diante de mim, e eu batendo nele com força, bem no rosto, e ele ainda em posição de sentido, a cabeça reta, os olhos esbugalhados, como que ainda postado em sentido, estremecendo a cada golpe sem ousar erguer o braço para se proteger — a esse ponto foi reduzido um homem, e um outro homem batendo em outro homem! Mas que crime! Foi como se uma agulha afiada perfurasse minha alma inteira, de ponta a ponta. Eu estava aturdido, enquanto o sol brilhava, as folhinhas regozijavam­-se, cintilando, e os passarinhos, os passarinhos louvavam a Deus… Cobri o rosto com ambas as mãos, desabei na cama e comecei a soluçar. E então lembrei de meu irmão Markel e das palavras que disse aos criados antes de sua morte: “Meus queridos, meus caros, por que é que vocês me servem, por que é que me amam, por acaso eu mereço que me sirvam?”. “Sim, eu mereço?”, veio­-me à cabeça de súbito. De fato, que fizera eu para merecer que outro homem, igual a mim, imagem e semelhança de Deus, me servisse? E foi então que, pela primeira vez na vida, aquela questão penetrou em minha mente. “Mãezinha do meu coraçãozinho, em verdade cada um é culpado por todos perante todos, as pessoas só não sabem disso, mas, se soubessem, agora mesmo seria o paraíso!” “Senhor, será que isso também é mentira?”, eu chorava e pensava, “em verdade eu talvez seja o mais culpado de todos, e a pior de todas as pessoas do mundo!” E de repente apareceu­-me toda a verdade, em toda a sua iluminação: o que eu ia fazer? Ia matar um homem bondoso, inteligente, nobre, sem culpa alguma para comigo, e com isso privaria para sempre sua esposa da felicidade, eu a torturaria, eu a mataria. Fiquei deitado na cama, de bruços, com o rosto no travesseiro, e nem percebi o tempo passar. De repente entrou meu colega, o tenente, que viera me buscar, com as pistolas: “Ah, que bom que você já acordou”, ele disse, “está na hora, vamos”. Aí eu fiquei agitado, totalmente perdido, porém saímos para pegar a carruagem: “Espere um pouco aqui”, eu lhe disse, “volto num instante, esqueci a carteira”. E voltei sozinho para casa, correndo direto para o quartinho de Afanássi: “Afanássi”, eu disse, “ontem eu soquei você duas vezes no rosto, perdoe­-me”. Ele até estremeceu, como se tivesse se assustado, olhou para mim — e vi que aquilo era pouco, era pouco, e então de repente, como estava, de dragonas e tudo, pumba, caí de testa no chão aos pés dele: “Perdoe­-me!”, eu disse. Aí ele é que ficou totalmente aturdido: “Vossa senhoria, excelência, meu senhor, mas como é que o senhor… mas por acaso eu mereço…”, e ele mesmo de repente começou a chorar, exatamente como eu pouco antes, cobriu o rosto com ambas as mãos, virou­-se para a janela e pôs­-se a tremer todo, em lágrimas, enquanto eu saía correndo em direção a meu colega, voei para dentro da carruagem, gritei “pode tocar”: “Já viu um vencedor?”, gritei para ele. “Aqui está um, na sua frente!” Meu êxtase era tamanho que ri, falei e falei o caminho inteiro, já nem lembro do que tanto falei. Ele me olhou: “Bravo, meu irmão, estou vendo que vai honrar a farda”. Assim chegamos ao local, e eles já estavam lá, à nossa espera. Puseram­-nos a doze passos um do outro, o primeiro tiro era dele — fiquei parado diante dele, alegre, o rosto bem em frente ao seu rosto, sem piscar, olhando para ele com amor, eu sabia o que faria. Ele disparou, só arranhou um pouquinho a minha bochecha e passou raspando pela orelha. “Glória a Deus”, eu gritei, “o senhor não matou um homem!”, e agarrei minha pistola, virei ao contrário e a joguei com força para cima, na direção da floresta: “Aí é que é o seu lugar!”, gritei. Voltei­-me para meu adversário: “Prezado senhor”, disse, “perdoe­-me, sou um jovem estúpido e, por minha culpa, ofendi o senhor e, agora, o forcei a atirar em mim. Eu mesmo sou dez vezes pior que o senhor, talvez até mais que isso. Conte tudo isso à pessoa que o senhor mais estima em todo o mundo”. Assim que eu disse isso, todos os três puseram­-se a gritar: “Perdão”, disse meu adversário, até irritado, “se o senhor não queria bater­-se, por que nos incomodou?”. “Ontem”, eu disse, “ainda era estúpido, mas hoje tomei juízo”, respondi assim, com alegria. “Acredito no que se refere a ontem”, ele disse, “mas, no que se refere a hoje, é difícil concordar com seu julgamento.” “Bravo”, gritei, batendo palmas, “também concordo com o senhor quanto a isso, mereci!” “Prezado senhor, vai atirar ou não?” “Não vou”, eu disse, “mas o senhor pode atirar outra vez, se quiser, mas seria melhor se não atirasse.” Os padrinhos também gritavam, sobretudo o meu: “Que jeito de desonrar o regimento, pedir perdão na linha de fogo; se eu soubesse!”. Então parei diante de todos eles, já sem rir: “Meus senhores”, eu disse, “será que é tão surpreendente, em nossa época, encontrar alguém que se arrependa de sua estupidez e que reconheça publicamente sua culpa?”. “Mas não na linha de fogo”, gritou outra vez meu padrinho. “Pois aí é que está”, eu lhes respondi, “isso é o que é surpreendente, pois conviria que eu me desculpasse assim que chegássemos aqui, antes ainda do tiro dele, sem induzi­-lo a um pecado grandioso e mortal, mas é o que digo, nós nos colocamos no mundo de um modo tão absurdo que agir assim era quase impossível, pois só depois que eu encarasse o tiro dele a doze passos é que minhas palavras poderiam significar alguma coisa para ele, e, se fosse antes do tiro, assim que chegássemos aqui, vocês diriam simplesmente: ‘É um covarde, ficou com medo da pistola e não há por que escutá­-lo’. Senhores”, exclamei de repente, do fundo do coração, “olhem ao redor para as dádivas de Deus: o céu límpido, o ar puro, a grama delicada, os passarinhos, a natureza bela e sem pecados, enquanto nós, só nós somos ímpios e estúpidos e não compreendemos que a vida é um paraíso, pois basta querer compreender, e imediatamente ele virá em toda a sua beleza, e nós nos abraçaremos e choraremos…” Eu ainda queria proseguir, mas não consegui, faltou­-me o ar, tanta a doçura, a juventude, e, no coração, uma felicidade que nunca sentira em toda a vida. “É sensato tudo isso, e piedoso”, disse meu adversário, “e, de todo modo, o senhor é um homem original.” “Pode rir”, eu também ri, “mas depois o senhor mesmo há de me louvar.” “Pois estou disposto a louvar agora mesmo”, ele disse, “tenha a bondade, eu lhe estenderei a mão, porque, ao que parece, o senhor é um homem realmente sincero.” “Não”, eu disse, “agora não é necessário, mas depois, quando eu tiver me tornado uma pessoa melhor e merecer seu respeito, aí então a estenda, fará bem.” Voltamos para casa, meu padrinho me xingou o caminho inteiro, enquanto eu o beijava. No mesmo instante, todos os colegas ficaram sabendo, e quiseram me julgar no mesmo dia: “Manchou a farda”, falaram, “tem que dar baixa”. Também apareceram defensores: “De todo modo, ele encarou o tiro”, diziam. “Sim, mas ficou com medo dos outros tiros e pediu perdão na linha de fogo.” “Mas, se tivesse ficado com medo dos tiros”, retrucavam meus defensores, “ele primeiro teria atirado com a sua pistola, antes de pedir perdão, mas ele a jogou na floresta ainda carregada; não, ali ocorreu outra coisa, alguma coisa singular.” Eu escutava, olhando para eles com alegria. “Caríssimos amigos e colegas”, eu disse, “não se preocupem quanto a eu dar baixa, porque hoje mesmo já fiz isso, na chancelaria, de manhã, e, assim que me derem baixa, irei para um monastério, para isso mesmo é que eu dei baixa.” Mal terminei a frase e todos caíram na gargalhada, do primeiro ao último: “Você deveria ter avisado logo no início, pois agora tudo se explica, não se pode julgar um monge”, riram­-se, sem se conter, e sem qualquer zombaria, mas riram­-se com afeto, com alegria, todos de repente passaram a gostar de mim, até os acusadores mais acalorados, e depois, durante todo aquele mês, até sair a baixa, era como se me levassem nos braços: “Ah, você, o monge”, diziam. E cada um vinha me dizer uma palavra de afeto, tentavam me dissuadir, até lamentavam: “O que é que está fazendo consigo mesmo?”. “Não”, diziam, “é nosso valente, encarou o tiro e poderia ter disparado sua pistola, é que ele teve um sonho na véspera, de que deveria virar monge, foi por causa disso.” Quase o mesmo aconteceu no círculo social da cidade. Antes, ninguém reparava particularmente em mim, eu só era recebido com cordialidade, mas de repente todos ficaram sabendo ao mesmo tempo e passaram a me convidar: riam de mim, mas me amavam. Devo observar que, embora todos então falassem abertamente do duelo, a chefia abafou o caso, pois meu adversário era parente próximo do nosso general, mas, já que o caso terminou sem derramamento de sangue, e como se tivesse sido uma brincadeira, e eu, afinal, dera baixa, então trataram de fato como brincadeira. E eu também comecei a falar, abertamente e com intrepidez, apesar do riso deles, porque de todo modo não era um riso maldoso, mas bondoso. Essas conversas aconteciam, no mais das vezes, em festas, na companhia das senhoras, as mulheres é que gostavam mais de me ouvir e forçavam os homens a fazê­-lo. “Mas como é possível que eu seja culpado por todos”, cada um ria­-se bem na minha frente. “Por acaso eu poderia ser culpado pelo senhor, por exemplo?” “E como poderiam saber isso”, eu lhes respondia, “sendo que o mundo inteiro já tomou outro caminho há muito tempo, quando a mais completa mentira é considerada verdade, e a mesma mentira é exigida dos outros? Só uma vez na vida eu peguei e agi com sinceridade, e o que aconteceu? Para todos vocês, virei um louco santo: até passaram a me amar, mas ainda assim riem de mim”, eu disse. “E como não amar alguém como você?”, a anfitriã riu alto para mim, e sua reunião estava cheia de gente. De repente, vi levantar­-se do meio das senhores aquela mesma jovem graças à qual eu fizera o desafio para o duelo e que tão pouco tempo atrás eu escolhera para ser minha noiva, e eu nem tinha percebido que ela fora à festa. Levantou­-se, aproximou­-se e me estendeu a mão: “Permita­-me declarar”, disse, “que sou a primeira a não rir do senhor, pelo contrário, eu lhe agradeço com lágrimas nos olhos e manifesto meu respeito pela atitude que tomou há pouco”. Então o marido dela também se aproximou, e depois todos se precipitaram de repente na minha direção, quase que me beijando. Fiquei muito alegre, mas então de repente reparei, mais que nos outros, em certo senhor, homem já idoso, que também se aproximara e ao qual, embora antes eu já o conhecesse de nome, nunca fora apresentado e com quem, até aquela noite, nem sequer trocara uma palavra.

d) O visitante misterioso

Ele servia em nossa cidade já fazia muito tempo, ocupava um posto destacado, era homem respeitado por todos, rico, tornado célebre por sua filantropia — doara uma quantia considerável para um asilo e um orfanato e, além disso, fizera muitas boas ações secretamente, sem alarde, o que se descobriu depois de sua morte. Tinha por volta de cinquenta anos e um aspecto quase severo, era de poucas palavras; era casado havia menos de dez anos com uma esposa ainda jovem, com a qual tinha três filhos de pouca idade. E então, numa outra noite, eu estava na minha casa quando de repente minha porta se abriu e entrou esse mesmo senhor.

É preciso observar que na ocasião eu não vivia mais na morada de antes, já que, assim que dei baixa, mudei­-me para outra, alugada na casa de uma velha mulher, viúva de um funcionário público que vivia com sua criada; a mudança para aquela morada somente acontecera porque, no dia em que voltei do duelo, encaminhei Afanássi de volta para a companhia, pois tinha vergonha de olhá­-lo nos olhos depois de minha atitude de pouco antes — a tal ponto o despreparado homem do mundo é inclinado a envergonhar­-se até mesmo do mais justo de seus atos.

“Já faz uns dias”, disse aquele cavalheiro, ao entrar em meu quarto, “que venho ouvindo o senhor em diversas casas, com grande curiosidade, e afinal desejei conhecê­-lo pessoalmente para conversar de maneira mais detalhada. Prezado senhor, poderia me fazer um grandíssimo obséquio?” “Sim”, eu disse, “para minha enorme satisfação e hei de considerar uma particular honra”, completei, porém quase assustado, a tal ponto ele me impressionou, desde o primeiro momento. Pois, embora as pessoas me ouvissem e demonstrassem curiosidade, ninguém ainda me procurara com um aspecto tão sério e intimamente tão severo. E aquele viera por conta própria até a minha morada. Ele se sentou. “Vejo grande força de caráter no senhor”, ele prosseguiu, “pois não temeu servir à verdade numa questão em que, em nome de sua justiça, correu o risco de sofrer o desprezo generalizado.” “Talvez o senhor esteja me louvando de maneira exagerada”, eu lhe disse. “Não, não é de maneira exagerada”, ele me respondeu, “creia que realizar uma ação como essa é muito mais difícil do que o senhor pensa. Propriamente falando”, ele continuou, “foi só isso que me surpreendeu e por isso vim falar com o senhor. Descreva­-me, se é que não menospreza minha curiosidade talvez por demais indecorosa, o que exatamente o senhor sentiu no momento em que, no duelo, decidiu pedir perdão, se o senhor se lembrar. Não tome minha pergunta por frivolidade; ao contrário, ao fazê­-la, tenho um objetivo secreto, que talvez lhe explique mais tarde, se Deus desejar que nos aproximemos ainda mais.”

Enquanto ele falava, fiquei o tempo todo com os olhos fixos em seu o rosto e de repente senti uma fortíssima confiança nele e, além disso, também uma curiosidade que não costumo experimentar, pois senti que havia em sua alma algum segredo particular.

— O senhor me pergunta o que exatamente senti no momento em que pedi perdão a meu adversário — eu lhe respondi —, mas é melhor que eu comece por relatar o que ainda não contei aos outros — e eu lhe contei tudo que acontecera entre mim e Afanássi e de como me prostrara até o chão perante ele. “O senhor pode ver”, concluí, “que já na hora do duelo as coisas me eram mais fáceis, pois haviam começado ainda em casa, e uma vez que tomei esse caminho, tudo que veio depois não só não foi difícil, como foi até alegre e animado.”

Ele me escutou, me olhando com um ar benevolente: “Tudo isso é extremamente interessante”, ele disse, “voltarei muitas outras vezes”. E, a partir de então, começou a me visitar quase toda noite. E teríamos ficado muito amigos, se ele também tivesse me falado a respeito dele. Mas dele ele não falava quase nada, só ficava interrogando sobre mim. Mesmo assim, passei a gostar muito dele e confiava a ele absolutamente todos os meus sentimentos, pois pensava: de que me servem seus segredos, não preciso disso para ver que é um homem justo. Além do mais, é também um homem bem sério, e de uma idade diferente da minha, mas ele vem até mim, um moço, e não desdenha de mim. E com ele aprendi muitas coisas úteis, pois era um homem de inteligência elevada. “Que a vida é um paraíso”, ele me disse de repente, “é algo em que já penso há muito tempo”, e de repente acrescentou: “Só penso nisso”. Olhava para mim e sorria. “Tenho mais certeza disso do que o senhor”, ele disse, “depois saberá por quê.” Ouvi aquilo e pensei comigo mesmo: “Decerto quer me revelar alguma coisa”. “O paraíso está oculto dentro de cada um de nós”, ele disse, “agora mesmo ele está escondido dentro de mim e, se eu quiser, amanhã mesmo ele chegará para mim, de fato e para o resto de minha vida.” Olho, e ele está falando com comoção e me observa com ar misterioso, como se me interrogasse. “E, quanto a toda pessoa ser culpada por todos e por tudo, além de seus próprios pecados”, ele continuou, “quanto a isso o senhor julgou de maneira absolutamente correta, e é impressionante como de repente conseguiu abarcar essa ideia com tanta plenitude. E, em verdade, é certo que, quando as pessoas compreenderem essa ideia, a elas virá o reino dos céus, não mais em sonho, mas de fato.” “E quando se cumprirá tal coisa?”, perguntei com amargura. “E haverá mesmo de cumprir­-se algum dia? Não será tão somente um sonho?” “Então o senhor não crê”, ele disse, “o senhor prega, mas o senhor mesmo não crê. Saiba, então, que esse sonho, como diz o senhor, sem dúvida vai se cumprir, acredite, pois toda ação tem sua lei. É uma questão espiritual, psicológica. Para reconstruir o mundo de uma nova maneira, é preciso que as próprias pessoas tomem psiquicamente outro caminho. Até você de fato tornar­-se um irmão para todos, não haverá fraternidade. Os homens nunca conseguirão, com ciência alguma e com proveito algum, partilhar inofensivamente suas propriedades e seus direitos. Tudo será pouco para cada um, e eles só murmurarão, invejarão e exterminarão uns aos outros. O senhor pergunta quando se cumprirá tal coisa. Há de cumprir­-se, mas primeiro deve encerrar­-se o período do isolamento humano.” “Que isolamento?”, perguntei. “O que reina agora em toda parte, e em especial em nosso século, mas ainda não se encerrou por completo e ainda não chegou a seu termo. Pois agora cada um aspira separar ao máximo a sua pessoa, quer experimentar em si a plenitude da vida, e, no entanto, de todos os seus esforços, resulta, em vez da plenitude da vida, apenas o suicídio pleno, pois, em vez da plenitude da determinação do ser, recai­-se em completo isolamento. Pois todo mundo, em nosso século, separou­-se em unidades, cada um isolado em seu covil, cada um se afastando dos outros, escondido e escondendo o que tem e acabando por se afastar das pessoas e afastar as pessoas de si. Acumula riquezas isoladamente e pensa: como sou forte agora e como sou abastado, e nem sabe o louco que, quanto mais acumula, mais se afunda numa impotência suicida. Pois habituou­-se a fiar só em si e separou­-se do todo, numa unidade, acostumou sua alma a não acreditar na ajuda humana, nas pessoas e na humanidade, e não faz mais que tremer com a ideia de que seu dinheiro e seus direitos adquiridos possam desaparecer. Por toda a parte, hoje, a mente humana passou zombeteiramente a não compreender que a verdadeira abastança não consiste no esforço individual isolado, mas na totalidade humana geral. Mas é indubitável que terá termo também esse terrível isolamento, e todos acabarão por entender como foi antinatural esse separar­-se uns dos outros. Tal já será o espírito do tempo, e hão de surpreender­-se por terem ficado tanto tempo nas trevas, sem ver a luz. Aparecerá então o sinal do Filho do Homem nos céus… Mas, até então, é preciso de todo modo conservar o estandarte de quando em vez, e, ainda que de modo solitário, o homem deve de repente dar o exemplo e arrancar a alma do isolamento em direção à proeza da solidariedade fraterna, ainda que na condição de louco santo. Isso para que não pereça a grandiosa ideia…”

Era em meio a essas conversas ardentes e extasiantes que passávamos nossas noites, uma atrás da outra. Até abandonei a vida em sociedade e escasseei as visitas, e, além disso, eu já não estava tão na moda. Digo tal coisa não como reprovação, pois continuaram a gostar de mim e a tratar­-me com alegria; mas a moda realmente é uma grande rainha do mundo, isso é algo que de todo modo é preciso reconhecer. Passei finalmente a olhar com admiração para meu visitante misterioso, pois, além do prazer de sua inteligência, pressentia que ele nutria dentro de si certo projeto e que estava se preparando para um feito talvez grandioso. Talvez ele também apreciasse que eu não manifestasse externamente curiosidade a respeito do segredo dele, não diretamente, não tentava descobrir com indiretas. Mas percebi, afinal, que ele mesmo como que começou a ficar aflito com o desejo de me revelar alguma coisa. Pelo menos isso já ficara muito visível um mês depois de ele começar a me visitar. “O senhor sabe”, ele me perguntou uma vez, “que, na cidade, demonstram muita curiosidade sobre nós dois e admiram­-se com o fato de que eu venho à sua casa com tanta frequência? Mas deixe que o façam, pois logo tudo se explicará.”Às vezes uma súbita agitação extraordinária o acometia, e nesses casos ele quase sempre se levantava e ia embora. Às vezes, porém, me olhava por muito tempo, com olhar como que penetrante — eu pensava: “Agora vai dizer alguma coisa”, mas ele de repente parava e discorria sobre algo conhecido e banal. Também passou a queixar­-se com frequêcnia de dores de cabeça. E então, certa feita, de maneira totalmente inesperada, depois de falar muito tempo em tom acalorado, ele de repente empalideceu, o rosto contraiu­-se por completo, enquanto ele mantinha os olhos fixos em mim.

— O que o senhor tem? — eu disse. — Acaso sente­-se mal?

E ele tinha se queixado justamente de dor de cabeça.

— Eu… o senhor precisa saber… eu… matei uma pessoa.

Falou sorrindo, mas estava branco como giz. Por que sorria? — esse pensamento de repente me atravessou o coração, antes que eu me desse conta de qualquer outra coisa. Também eu empalideci.

— O que o senhor está dizendo? — gritei.

— Veja — ele me respondeu com o mesmo sorrisinho pálido — quanto me custou dizer a primeira palavra. Agora que disse sinto que enveredei pelo caminho. Sigo adiante.

Por muito tempo não acreditei nele, e nem acreditei de uma vez, mas só depois que ele foi à minha casa por três dias seguidos e me contou tudo em detalhes. Tomei­-o por maluco, mas afinal acabei me convencendo por completo, com muito pesar e surpresa. Ele cometera um grande e terrível crime catorze anos antes, contra uma senhora rica, jovem e de boa aparência, uma viúva proprietária de terras que mantinha uma casa em nossa cidade. Profundamente enamorado, ele lhe fez uma declaração de amor e tentou persuadi­-la a casar­-se com ele. Mas ela já entregara seu coração a outro, um destacado militar de patente considerável, que à época estava em campanha e cujo iminente retorno ela aguardava. Ela recusou a proposta e pediu­-lhe que não a visitasse. Ele obedeceu, mas certa madrugada, a par da disposição dos cômodos, ele penetrou furtivamente no jardim e entrou na casa pelo telhado, com enorme atrevimento, arriscando ser descoberto. Mas, como acontece com frequência, crimes cometidos com um atrevimento incomum são mais bem­-sucedidos que os outros. Depois de se introduzir no sótão pela claraboia, ele desceu pela escadinha em direção aos quartos de dormir lá embaixo, sabendo que a porta que ficava no final da escadinha, por descuido dos criados, nem sempre era trancada com cadeado. Contava com a mesma negligência também daquela vez, e foi justamente o que ocorreu. Depois de entrar furtivamente na área íntima, ele, em meio às sombras, dirigiu­-se ao quarto dela, no qual ardia uma lamparina votiva. E, como que de propósito, ambas as criadas de quarto haviam saído às escondidas, sem permissão, para uma festinha do dia do santo de alguém da vizinhança, naquela mesma rua. Os demais criados e criadas dormiam no quarto comum e na cozinha, no andar de baixo. Ao vê­-la dormindo, ardeu nele a paixão, mas então seu coração foi dominado por uma raiva vingativa e ciumenta, e, fora de si, como que embriagado, ele se aproximou e cravou­-lhe uma faca bem no coração, de maneira que ela nem sequer deu um grito. Então, com um ardil diabólico e criminoso, arrumou tudo de maneira a que pensassem nos criados: não teve escrúpulos em pegar a carteira dela, abrir a cômoda com as chaves que tirou de debaixo do travesseiro, e subtrair algumas coisas, justamente como faria um criado ignorante, ou seja, deixou uns papéis valiosos e pegou só dinheiro, levou algumas peças de ouro mais graúdas e desprezou as pequenas, mas dez vezes mais valiosas. Apanhou também algo como recordação, mas disso falaremos adiante. Depois de cometer aquele horrível ato, saiu pelo mesmo caminho de antes. Nem no dia seguinte, quando deram o alarme, nem nunca depois, pela vida toda, passou pela cabeça de alguém a suspeita do verdadeiro malfeitor! E ninguém sabia de seu amor, pois ele sempre manifestara um temperamento taciturno e insociável, e não tinha um amigo a quem pudesse abrir o coração. Então era considerado simplesmente um conhecido da assassinada, e nem tão próximo, pois nas últimas duas semanas nem a visitara. Mas suspeitaram imediatamente de um criado, um servo, Piotr, e todas as circunstâncias coincidiram à perfeição para confirmar aquela suspeita, pois o criado sabia, e a própria falecida não fazia segredo, da intenção da patroa de entregá­-lo como soldado, para quitar a obrigação de recrutar um de seus camponeses, uma vez que ele era solteiro e ainda por cima tinha um comportamento péssimo. Alguém ouvira quando ele, com raiva, bêbado, numa bodega, ameaçou matá­-la. E, dois dias antes do crime, ele fugiu e foi morar na cidade, em endereço desconhecido. E, no dia seguinte ao assassinato, ele foi encontrado na estrada, próximo à saída da cidade, caindo de bêbado, com uma faca no bolso, e ainda com a palma da mão direita, sabe­-se lá por quê, manchada de sangue. Ele assegurou que era sangue de seu nariz, mas não acreditaram. As criadas confessaram terem ido à festinha e só terem trancado, quando retornaram, a porta de entrada, que dava para o terraço. E ainda por cima apareceram muitos indícios semelhantes, graças aos quais o criado inocente foi pego. Prenderam­-no e começaram o julgamento, mas, precisamente uma semana depois, o detento adoeceu de febre e morreu no hospital, sem sentidos. E assim acabou o caso, que foi entregue à vontade de Deus, e todos — juízes, autoridades, toda a sociedade — permaneceram convencidos de que o crime fora cometido por ninguém menos que o falecido criado. E então teve início o castigo.

O visitante misterioso, e agora já meu amigo, revelou­-me que, no início, não se sentiu nem um pouco atormentado pelo remorso. Atormentou­-se durante muito tempo, mas não por isso, somente pelo pesar de ter matado a mulher amada, por ela não existir mais, por, ao matá­-la, ter matado seu amor, enquanto o fogo da paixão permanecia em suas veias. Mas no sangue inocente derramado, no assassinato de um homem, ele quase nunca pensava. A ideia de que sua vítima pudesse tornar­-se a esposa de outro parecia­-lhe impossível, e, por isso, durante muito tempo ele teve a convicção, em sua consciência, de que não podia ter agido de outra forma. De início, afligiu­-o um pouco a prisão do criado, mas a rápida doença e depois também a morte do detento acalmaram­-no, pois ele morrera, de acordo com todas as evidências (ele considerava à época), não por causa da prisão ou do susto, mas por causa do resfriado, contraído justamente nos dias de sua fuga, quando ele, caindo de bêbado, passara a noite largado no chão úmido. Já os objetos furtados e o dinheiro, isso não o perturbava muito, pois (ainda como ele considerava) o roubo não fora motivado pela cobiça, mas com o intuito de conduzir as suspeitas para outra direção. E a soma roubada era insignificante, e ele logo doou toda aquela soma, e uma até muito maior, ao asilo que fora erguido em nossa cidade. Fez de propósito, para tranquilizar a consciência quanto ao roubo, e, o que é notável, durante um tempo, até bem longo, realmente tranquilizou­-se — ele mesmo me contou isso. Dedicou­-se então a uma grande atividade no serviço, ele mesmo solicitou uma missão trabalhosa e difícil, que o ocupou por dois anos, e, sendo de caráter forte, quase esqueceu o que se passara; e, quando se lembrava, tentava não pensar naquilo. Dedicou­-se também à filantropia, organizou e doou muita coisa em nossa cidade, fez­-se presente também nas capitais, foi eleito, tanto em Moscou como em Petersburgo, membro de associações filantrópicas. Mas, mesmo assim, finalmente começou a ser atormentado por pensamentos que estavam acima de suas forças. Foi então que passou a gostar de uma donzela bela e sensata, e logo casou­-se, sonhando afugentar com o casamento sua solitária melancolia e, tomando um novo caminho e cumprindo zelosamente seu dever em relação à esposa e aos filhos, afastar­-se em definitivo das antigas recordações. Mas aconteceu precisamente o oposto daquela expectativa. Já no primeiro mês do matrimônio, passou a ser perturbado por um pensamento ininterrupto: “Pois então minha esposa me ama, mas e se ela descobrisse?”. Quando ela lhe contou que estava grávida do primeiro filho, ele foi tomado por uma súbita perturbação: “Estou dando a vida, enquanto eu mesmo tirei uma vida”. Vieram os filhos: “Como ousarei amá­-los, ensiná­-los e educá­-los, como falarei da virtude a eles? Eu derramei sangue”. As crianças cresciam lindas, dava vontade de acariciá­-las: “Mas eu nem posso olhar para a face delas, inocente e límpida; sou indigno disso”. Finalmente, começou a surgir diante dele, ameaçador e amargo, o sangue da vítima assassinada, sua jovem vida arruinada, o sangue que clamava por vingança. Vieram sonhos horríveis. Mas, sendo duro de coração, suportou o tormento por um bom tempo: “Expiarei tudo com esse meu tormento secreto”. Mas tal esperança também foi vã: quanto mais tempo transcorria, mais forte tornava­-se o sofrimento. Na sociedade, passaram a respeitá­-lo por sua atividade filantrópica, embora temessem seu caráter severo e sombrio, mas, quanto mais o respeitavam, mais insuportável ficava a situação. Ele me confessou que chegou a pensar em suicídio. Mas então começou a surgir diante dele outro sonho — um sonho que, no início, ele considerou impossível e insano, mas que, por fim, aderiu de tal forma a seu coração que era impossível arrancá­-lo. Era este o seu sonho: levantar­-se, sair perante o povo e revelar a todos que matara uma pessoa. Viveu uns três anos com aquele sonho, que se lhe afigurava nas mais variadas formas. Finalmente convenceu­-se, do fundo do coração, de que, ao revelar seu crime, sem dúvida curaria sua alma e se tranquilizaria de uma vez por todas. Mas, ao se convencer, sentiu um terror no coração, pois como fazer aquilo? E, de repente, aconteceu o episódio do meu duelo. “Olhando para o senhor, tomei a decisão.” Eu olhava para ele.

— E será mesmo — exclamei, erguendo os braços — que um evento tão pequeno tenha provocado no senhor uma decisão de tamanha importância?

— Minha decisão levou três anos para ser gerada — respondeu­-me —, o seu episódio só deu o empurrão. Ao olhar para o senhor, eu me recriminei e o invejei — disse até com certa severidade.

— Mas não vão acreditar no senhor — observei —, catorze anos se passaram.

— Tenho provas, provas robustas. Vou apresentá­-las.

E então me pus a chorar e o beijei.

— Decida uma coisa por mim, uma coisa! — ele me disse (como se agora tudo dependesse de mim). — Minha esposa, meus filhos! Ela talvez morra de desgosto, e eles, embora não sejam privados do título de nobreza e da propriedade, serão os filhos de um condenado, e para sempre. E a memória, que memória hei de deixar no coração deles?!

Fiquei em silêncio.

— E me separar deles, deixá­-los para sempre! Pois será para sempre, para sempre!

Fiquei sentado, sussurrando uma oração comigo mesmo. Então me levantei, apavorado.

— O que me diz? — disse ele, olhando para mim.

— Vá — eu disse —, revele às pessoas. Tudo passará, só a verdade permanecerá. Seus filhos entenderão, quando crescerem, quanta generosidade havia em sua grandiosa resolução.

Ele então foi embora da minha casa como se tivesse mesmo decidido. Mas, ainda assim, me visitou por mais duas semanas, noite após noite, sempre se preparando e nunca conseguindo se decidir. Atormentava meu coração. Ou então chegava firme e dizia comovido:

— Sei que chegará o paraíso para mim, assim que contar tudo chegará o paraíso. Estive catorze anos no inferno. Quero sofrer. Hei de encarar o sofrimento e começar a viver. Pode­-se cruzar o mundo com uma mentira, mas não se pode voltar atrás. Agora não ouso amar nem o próximo, nem meus filhos. Senhor, talvez meus filhos compreendam quanto custou meu sofrimento e não me condenem! O Senhor não está na força, mas na verdade.

— Todos entenderão seu ato — eu lhe disse —, se não agora, entenderão depois, pois o senhor serviu à verdade, à verdade superior, não à terrena…

E ele saía da minha casa como que consolado, mas, no dia seguinte, entrava de repente outra vez raivoso, pálido, falando em tom zombeteiro:

— Toda vez que entro em sua casa, o senhor me olha com essa curiosidade, como se dissesse: “Ainda não revelou?”. Espere, não me despreze tanto assim. Pois fazer isso não é tão fácil como lhe parece. Talvez eu nem faça coisa nenhuma. O senhor então não me denunciaria, não é?

Mas eu, naquele momento, não só não o encarava com uma curiosidade insensata, como temia até lançar o olhar para ele. Estava quase doente de agonia, com a alma banhada em lágrimas. Tinha até perdido o sono à noite.

— Estava agora mesmo com minha esposa — prosseguiu ele. — Acaso o senhor entende o que é uma esposa? Quando saí, meus filhinhos gritaram para mim: “Adeus, papai, volte logo para ler as Leituras infantis conosco!”. Não, o senhor não entende isso! A desgraça alheia não deixa ninguém mais sábio.

Seus olhos até brilharam, os lábios saltitavam. De repente ele socou a mesa com o punho, de modo que as coisas em cima dela voaram — um homem tão brando, era a primeira vez que aquilo lhe acontecia.

— Mas será mesmo necessário? — exclamou. — Mas será que preciso mesmo? Pois ninguém foi condenado, ninguém foi mandado para os galés por minha causa, o criado morreu de doença. E, pelo sangue derramado, fui punido com os tormentos. E de modo algum acreditarão em mim, não acreditarão em nenhuma das minhas provas. Será que preciso mesmo confessar, será que preciso? Pelo sangue derramado, estou disposto a me atormentar pelo resto da vida, só para não afetar minha esposa e meus filhos. Será mesmo justo arruiná­-los junto comigo? Não estaremos cometendo um erro? E onde está a verdade aqui? E as pessoas reconhecerão essa verdade, apreciarão, estimarão?

“Senhor!”, meditei comigo mesmo, “num momento como esse está pensando na estima das pessoas!” E fiquei com tanta pena dele que aparentemente eu mesmo teria compartilhado de seu fado, só para aliviá­-lo. Vi que ele estava como que frenético. Fiquei horrorizado, compreendendo, assim, não só com a razão, mas com minha alma viva, quanto custava aquela resolução.

— Pois decida meu destino! — ele exclamou novamente.

— Vá e revele — eu lhe sussurrei. Faltava­-me voz, mas sussurrei com firmeza. Peguei o Evangelho da mesa, a tradução russa, e mostrei­-lhe João, capítulo 12, versículo 24: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas, se morrer, produzirá muito fruto”. Eu tinha lido aquele versículo pouco antes da chegada dele.

Ele leu.

— É verdade —, ele disse, mas riu­-se com ar amargo. — Sim, nesses livros — ele disse, depois de um breve silêncio — a gente encontra cada coisa horrível. É fácil esfregar no nariz dos outros. E quem é que escreveu isso, por acaso foram pessoas?

— O Espírito Santo escreveu — eu disse.

— Para o senhor é fácil tagarelar — riu de novo, mas quase já com ódio. Peguei o livro de volta, abri em outro lugar e mostrei­-lhe a Epístola aos Hebreus, capítulo 10, versículo 31. Ele leu: “Quão terrível é cair nas mãos do Deus vivo”.

Ele leu e largou o livro. Pôs­-se até a tremer todinho.

— É um versículo terrível — ele disse — o que o senhor escolheu, não há o que dizer. — Levantou­-se da cadeira. — Bem — disse —, adeus, talvez eu nem volte… nos veremos no paraíso. Quer dizer, já faz catorze anos que “eu caí nas mãos do Deus vivo”, é assim, portanto, que devem ser chamados esses catorze anos. Amanhã pedirei a essas mãos que me libertem…

Eu queria abraçá­-lo e beijá­-lo, mas não ousei — seu rosto estava distorcido, e ele olhava com ar grave. Saiu. “Senhor”, pensei eu, “aonde foi o homem?!” Caí então de joelhos diante do ícone e chorei por ele à Santíssima Mãe de Deus, pronta a interceder e auxiliar. Fiquei meia hora rezando e chorando, era tarde da noite, por volta das doze horas. De repente, a porta se abriu e ele entrou de novo. Fiquei estupefato.

— Onde é que o senhor estava? — perguntei­-lhe.

— Eu… — ele disse — acho que esqueci alguma coisa… talvez o lenço… Bom, mesmo não tendo esquecido nada, deixe­-me sentar um pouco…

Sentou­-se numa cadeira. Eu estava em pé diante dele. “Sente­-se o senhor também”, ele disse. Eu sentei. Ficamos uns dois minutos sentados, ele olhava para mim fixamente e, de repente, soltou uma risada, guardei na memória, depois levantou­-se, deu­-me um forte abraço e um beijo…

— Lembre­-se — ele disse — de que voltei à sua casa. Você está ouvindo? Lembre­-se disso!

Era a primeira vez que me tratava por você. E foi embora. “Amanhã”, eu pensei.

E assim foi. E eu não sabia, naquela noite, que precisamente no dia seguinte era o seu aniversário. Eu mesmo não tinha saído a lugar algum nos últimos dias, e por isso não podia ter descoberto por meio de ninguém. Naquele dia, anualmente, acontecia na casa dele um grande evento, todos da cidade compareciam. Então também compareceram. E eis que, depois do jantar, ele foi até o centro do cômodo, com um papel na mão — uma declaração oficial às autoridades. E, como as autoridades estavam ali, ele leu o papel em voz alta para todos os presentes, e nele havia a descrição completa do crime, em detalhes: “Como pária que sou, me excluo do convívio das pessoas, Deus me visitou”, concluía o papel, “quero sofrer!”. Na mesma hora, sacou e depositou sobre a mesa tudo aquilo que ele acreditava provar seu crime e que ele guardara durante catorze anos: os objetos de ouro da assassinada, que ele furtara pensando afastar de si as suspeitas, um medalhão e um crucifixo tirados do pescoço dela — no medalhão, havia um retrato do noivo —, um caderninho de anotações e, finalmente, duas cartas: uma de seu noivo para ela, com a notícia de seu breve retorno, e a sua resposta àquela carta, que ela começara e não terminara, deixara em cima da mesa para enviá­-la no dia seguinte pelo correio. Ele levara ambas as cartas consigo — a troco de quê? A troco de que ele as guardara depois, durante catorze anos, em vez de destruí­-las, como provas incriminadoras? E eis o que aconteceu: todos ficaram surpresos e horrorizados, e ninguém quis acreditar, embora tivessem ouvido tudo com extrema curiosidade, mas como se ouvissem um doente, e, alguns dias depois, já estava absolutamente decidido e sentenciado, em todas as casas, que o infeliz tinha enlouquecido. As autoridades e o tribunal não puderam deixar de dar andamento à causa, mas também acabaram por interrompê­-la: embora as cartas e os objetos apresentados dessem margem a cogitações, na mesma hora ficou decidido que, ainda que tais documentos se revelassem verdadeiros, mesmo assim não seria possível proferir uma sentença definitiva somente com base naqueles documentos. E a própria dona poderia ter lhe confiado todos aqueles objetos, como pessoa conhecida e de confiança. Eu ouvi, aliás, que a autenticidade dos objetos foi mais tarde confirmada por diversos conhecidos e parentes da assassinada, e que quanto a isso não havia dúvida. Mas aquele processo mais uma vez não estava destinado a se encerrar. Uns cinco dias depois, todos ficaram sabendo que o sofredor adoecera, e que temia­-se por sua vida. De que doença ele adoeceu, isso não sei explicar, diziam que seus batimentos cardíacos estavam irregulares, mas tornou­-se público que um conselho de médicos, a pedido da esposa, atestou também sua condição mental, e que chegaram à conclusão de que já havia ali certa loucura. Eu não revelei nada, embora tivessem corrido para me interrogar, mas, quando desejei visitá­-lo, por muito tempo me impediram, sobretudo a esposa: “Foi o senhor”, ela me disse, “que o transtornou, ele já era sombrio antes, mas no último ano todos perceberam nele uma agitação incomum e umas atitudes estranhas, e foi precisamente o senhor que o arruinou; foi o senhor que o exauriu com seus sermões, ele não saiu da sua casa por um mês inteiro”. Pois não foi só a esposa, mas todos na cidade caíram em cima de mim e me acusaram: “Foi tudo o senhor”, diziam. Eu ficava em silêncio, mas feliz na alma, pois via a indubitável misericórdia de Deus por aquele que se levantara contra si mesmo e que punira a si mesmo. Quanto à sua loucura, eu não conseguia acreditar. Finalmente, fui admitido à casa dele, ele mesmo exigiu insistentemente, para se despedir de mim. Entrei e logo constatei que não só seus dias, mas suas horas estavam contadas. Ele estava fraco, amarelo, as mãos tremiam, ofegava, mas tinha o olhar comovido e alegre.

— Pronto, terminou! — ele disse. — Faz tempo que quero vê­-lo, por que não veio antes?

Eu não lhe contei que não me admitiam na casa.

— Deus compadeceu­-se de mim e está me chamando para Si. Sei que estou morrendo, mas sinto alegria e paz pela primeira vez depois de todos esses anos. Senti em minha alma o paraíso no mesmo instante em que fiz o que era preciso. Agora, já ouso amar meus filhos e beijá­-los. Não acreditam em mim, ninguém acreditou, nem minha esposa, nem os juízes; meus filhos também nunca acreditarão. Vejo nisso a misericórdia de Deus por meus filhos. Morrerei, e meu nome não será maculado para eles. Mas agora pressinto Deus, meu coração regozija­-se como se estivesse no paraíso… cumpri o dever…

Não conseguia falar, arquejava, apertava minha mão com fervor, olhava para mim ardentemente. Mas não conversamos por muito tempo, a esposa nos espiava sem cessar. Ainda assim ele conseguiu sussurrar:

— Lembra quando voltei à sua casa aquela vez, à meia­-noite? E ainda lhe disse que se lembrasse disso? Sabe por que razão voltei? Pois eu voltei para matar você!

Estremeci.

— Saí da sua casa em direção às trevas, vaguei pelas ruas e lutei comigo mesmo. E, de repente, fiquei com tanto ódio de você que meu coração mal podia suportar. “Agora”, pensei, “estou nas mãos dele, ele é meu juiz, já não posso rejeitar minha punição de amanhã, pois ele sabe de tudo.” E não que eu temesse que você fosse me denunciar (nem me ocorria tal pensamento), mas pensei: “Como poderei olhar para ele se não me entregar?”. E, ainda que você estivesse nos confins do mundo, mas vivo, mesmo assim me seria insuportável pensar que você estaria vivo, e saberia de tudo, e me julgaria. Fiquei com ódio de você, como se você fosse o motivo de tudo e o culpado de tudo. Então voltei à sua casa, lembro que em cima da sua mesa havia um punhal. Eu me sentei e pedi que você se sentasse, e fiquei um minuto inteiro pensando. Se eu matasse você, de todo modo estaria arruinado por esse homicídio, embora não tivesse revelado o crime anterior. Mas eu de modo algum pensei nisso e não queria pensar naquele momento. Eu só odiava você e desejava com todas as forças vingar­-me de você por tudo. Mas meu Senhor derrotou o diabo em meu coração. Saiba, porém, que você nunca esteve tão próximo da morte.

Uma semana mais tarde ele morreu. A cidade inteira acompanhou seu caixão até o túmulo. O arcipreste fez um sermão comovido. Lamentaram a terrível doença que lhe encerrara os dias. Mas a cidade inteira se ergueu contra mim quando ele foi sepultado, e até deixaram de me receber. É verdade que alguns, no início poucos, e depois cada vez mais e mais, passaram a acreditar na veracidade do testemunho dele, e começaram a me visitar muito e a me interrogar com curiosidade e entusiasmo: pois o homem ama a queda do justo e sua desonra. Mas eu me calei e logo parti de vez da cidade, e após cinco meses, o Senhor Deus considerou­-me digno de tomar o caminho firme e formoso, bendizendo o dedo invisível que tão claramente me apontara o caminho. E de Mikhail, sofredor servo de Deus, eu lembro em minhas orações até hoje, todo dia.

1. Há diversos compêndios de histórias bíblicas adaptadas para crianças com títulos semelhantes. De acordo com a edição soviética, Dostoiévski teria aprendido a ler com um desses livros.

2. Alusão ao levante dezembrista de 1825.

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