ix
Psicologia a todo vapor.
A troica galopante.
Final do discurso do promotor
Ao chegar a esse momento de seu discurso, Ippolit Kiríllovitch, que evidentemente escolhera um método de exposição estritamente histórico, ao qual tanto amam recorrer todos os oradores nervosos que buscam estruturas rigidamente estabelecidas para conter seu entusiasmo impaciente — Ippolit Kiríllovitch estendeu-se particularmente a respeito do “anterior” e “indiscutível” e expressou sobre esse tema algumas ideias interessantes à sua maneira. “Karamázov, que tinha ciúme de todos ao ponto da loucura, subitamente e de uma vez por todas caiu e desapareceu diante do ‘anterior’ e ‘indiscutível’. E é ainda mais estranho que antes disso ele mal prestasse atenção nesse novo perigo, que vinha na figura de um rival inesperado. Mas ele sempre imaginava que isso estivesse muito longe, e Karamázov sempre vive o minuto presente, e só. Talvez ele até o considerasse uma ficção. Mas, num instante, depois de entender com seu coração doentio que talvez aquela mulher estivera por algum motivo ocultando esse novo rival, por algum motivo o enganara recentemente, que aquele rival recém-chegado às pressas estava longe de ser para ela uma fantasia e uma ficção, mas constituía toda, toda sua esperança na vida — num instante, depois de entender isso, ele se resignou. Como, senhores jurados, não posso evitar, calando-me, esse traço imediato da alma do réu, que, ao que parece, não seria de forma alguma capaz de mostrá-lo, mas que se manifestou de repente numa inexorável exigência de verdade, de respeito pela mulher, de reconhecimento do direito de seu coração, e justo quando? No momento em que por causa dela ele ensanguentara as mãos com o sangue do pai! É verdade também que naquele instante o sangue derramado já gritara por vingança, pois ele, depois de arruinar sua alma e todo o seu destino na terra, ele involuntariamente devia sentir e perguntar a si mesmo naquele momento: o que ele significa e que pode significar agora para ela, para aquela alma, a mais amada de seu coração, em comparação com esse ‘anterior’ e ‘indiscutível’ que se arrependera e voltara com um novo amor, com uma proposta honesta, com votos de uma vida reconstruída e agora feliz para a mulher que outrora arruinara? Mas ele, o infeliz, o que dará a ela agora, que há de lhe propor? Karamázov entendeu tudo isso, entendeu que seu crime lhe bloqueara todos os caminhos e que ele não passava de um criminoso condenado à execução, e não uma pessoa que iria viver! Esse pensamento o esmagou e o aniquilou. E eis que, no mesmo instante, ele se deteve num plano desvairado que, pelo caráter de Karamázov, só podia lhe parecer a única e fatal saída de sua terrível situação. Essa saída era o suicídio. Ele correu para pegar as pistolas que empenhara ao funcionário Perkhótin e, ao mesmo tempo, no caminho, correndo, tirou do bolso todo seu dinheiro, pelo qual acabava de manchar as mãos com o sangue paterno. Ah, o dinheiro agora lhe era o mais necessário de tudo: um Karamázov morre, um Karamázov se dá um tiro, isso será lembrado! Não por nada somos poetas, não por nada queimamos nossa vida como uma vela, nas duas pontas. ‘Ao encontro dela, dela — e, lá, lá oferecerei um banquete para todo mundo, um banquete como nunca houve, para que se lembrem e contem por muito tempo. Entre gritos selvagens, loucas canções e danças ciganas, ergueremos a taça em um brinde e cumprimentaremos a mulher idolatrada em sua nova felicidade, e depois — ali mesmo, aos pés dela, esmigalharemos diante dela nosso crânio e executaremos nossa vida! Um dia ela se lembrará de Mítia Karamázov, verá o quanto Mítia a amava, lamentará por Mítia!’ Muita imaginação pitoresca, desvario romanesco, desenfreio karamazoviano e sentimentalidade — mas também algo diferente, senhores jurados, algo que grita na alma, bate na mente com insistência e envenena seu coração até a morte; esse algo — é a consciência, senhores jurados, é o julgamento dela, é seu terrível remorso! Mas a pistola reconciliará tudo, a pistola é a única saída, e não há outra, e ali — não sei se naquele instante Karamázov pensou ‘o que vai acontecer ali’, e se Karamázov era capaz de pensar hamletianamente o que aconteceria ali. Não, senhores jurados, outros têm Hamlets, mas nós por enquanto temos apenas Karamázovs!”
Então Ippolit Kiríllovitch apresentou um quadro detalhadíssimo das preparações de Mítia, a cena na casa de Perkhótin, na loja, com os cocheiros. Ele fez uso de uma imensa quantidade de palavras, sentenças, gestos, tudo confirmado pelas testemunhas — e o quadro teve enorme influência no convencimento dos ouvintes. A influência maior adveio do conjunto dos fatos. A culpabilidade daquele homem desvairadamente confuso que já não se poupava tornou-se incontestável. “Ele já não tinha por que se poupar” — disse Ippolit Kiríllovitch — “em duas ou três vezes, por pouco não confessou por completo, quase deu indiretas e apenas não falou tudo (ali se seguiram os depoimentos das testemunhas). Até para o cocheiro na estrada gritou: ‘Sabia que você está levando um assassino?!’. Mas de toda forma ele não podia falar tudo: era preciso primeiro chegar ao povoado de Mókroie e já ali terminar o poema. Mas o que, no entanto, esperava o infeliz? Ocorre que quase desde os primeiros minutos em Mókroie ele vê e, por fim, compreende plenamente que o rival ‘indiscutível’ talvez não seja tão indiscutível assim, e que não queriam nem aceitariam seus cumprimentos pela nova felicidade e seu brinde. Mas os senhores já conhecem os fatos, senhores jurados, pela investigação. O triunfo de Karamázov sobre o rival revelou-se incontestável e, então — ah, então começou uma fase já absolutamente nova em sua alma, e mesmo a fase mais terrível de todas as que viveu e ainda vive às vezes aquela alma! Com certeza é possível admitir, senhores jurados” — exclamou Ippolit Kiríllovitch — “que a natureza ultrajada e o coração criminoso são, por si mesmos, vingadores mais completos do que qualquer justiça terrena! Não só isso: a justiça e a punição terrenas até aliviam a punição da natureza, naqueles momentos são até necessárias para a alma do criminoso como sua salvação do desespero, pois não consigo nem imaginar o terror e os sofrimentos morais de Karamázov ao saber que ela o amava, que por ele rejeitaria seu ‘anterior’ e ‘indiscutível’, que era ele, ele, Mítia, a quem chamava para uma vida renovada, prometia a ele felicidade, e isso quando? Quando para ele tudo já estava terminado e quando nada era mais possível. A propósito, farei de passagem uma observação extremamente importante para nós, de esclarecimento da verdadeira essência da situação do réu naquele momento: essa mulher, esse amor dele até o último minuto, até o próprio momento da prisão, era para ele algo inacessível, apaixonadamente desejado, mas inacessível. Mas por quê, por que ele não se deu um tiro naquele momento, por que abandonou sua intenção e até esqueceu onde estava a pistola? Justamente essa terrível sede de amor e a esperança de, naquele momento, ali mesmo, saciá-la, foi o que o impediu. Na embriaguez do banquete, ele se agarrou à sua amada, que também banqueteava junto com ele, para ele mais encantadora e sedutora do que nunca — ele não se afastava dela, ele a contemplava, perdia-se diante dela. Essa terrível sede até podia por um instante reprimir não só o medo de uma prisão, mas também o próprio remorso! Por um instante, apenas por um instante! Imagino o estado da alma do criminoso naquele momento, numa inegável e servil submissão a três elementos que o esmagavam por completo: primeiro, o estado de embriaguez, o barulho e a bebedeira, o tropel das danças, o ganido das músicas, e ela, ela, corada de vinho, cantando e dançando, embriagada e rindo para ele! Em segundo lugar, o incentivo de um sonho distante de que o desenlace fatídico ainda estava longe, ou ao menos não estava perto — talvez fosse apenas no dia seguinte, apenas de manhã viriam e o levariam. Ou seja, algumas horas, é muito, é um tempo absolutamente longo! Em algumas horas seria possível inventar muita coisa. Imagino que com ele aconteceu algo parecido ao que acontece quando levam o criminoso para a execução, para a forca: ainda era preciso percorrer uma rua muito, muito longa, e ainda por cima caminhando, passando por milhares de pessoas, depois haveria uma curva para outra rua e apenas no fim daquela rua a terrível praça! Acho precisamente que, no começo da marcha, o condenado, sentado em sua carroça vergonhosa, deve sentir que ainda tem pela frente uma vida infinita. Mas eis que, no entanto, as casas vão ficando para trás, a carruagem continua se movimentando — ah, isso não é nada, até a curva para a segunda rua ainda está tão longe, e eis que ele olha ainda mais animado para a direita e para a esquerda e para aqueles milhares de pessoas indiferentemente curiosas, que cravam seus olhos nele, e ainda assim ele tem a impressão de ser uma pessoa igual a elas. Mas eis que chega a curva para a outra rua — ah, não é nada, não é nada, há ainda uma rua inteira. E não importa quantas casas passem, ele ainda assim vai pensar: ‘Ainda faltam muitas casas’. E assim é até o fim, até a praça em si. Assim, imagino, aconteceu naquele momento com Karamázov. ‘Ainda não chegamos lá’, ele pensa, ‘ainda é possível arranjar algo, ah, ainda haverá tempo de fazer um plano de defesa, inventar uma resposta, mas agora, agora — agora ela está tão encantadora!’ Sua alma está amedrontada e confusa, mas no entanto ele consegue separar a metade de seu dinheiro e esconder em algum lugar — não consigo explicar de outra forma onde foi parar uma metade inteira daqueles três mil que acabara de pegar sob o travesseiro do pai. Já não é a primeira vez que vai a Mókroie, ele já farreou por lá dois dias. Aquela casa de madeira, grande e velha, com todos seus galpões e galerias, já lhe é conhecida. Suponho que uma parte do dinheiro tenha sido escondida justo naquele momento, e justo naquela casa, pouco tempo antes da prisão, em alguma fresta, uma fenda, debaixo de alguma tábua, em algum canto, debaixo do telhado — para quê? Como, para quê? A catástrofe podia acontecer já, claro que ainda não pensamos em como recebê-la, mas nem temos tempo, e está batendo na nossa cabeça, e estende-se para ela, mas e o dinheiro? — o dinheiro é necessário em qualquer situação! Um homem com dinheiro é um homem em qualquer lugar. Talvez um cálculo como esse naquele momento lhes pareça pouco natural? Mas ele mesmo assegura que ainda um mês antes, num momento também absolutamente inquieto e fatídico, separou metade desses três mil e costurou no amuleto, e se, claro, isso não for verdade, então provaremos já, já, mas ainda assim Karamázov visitou essa ideia, ele a contemplou. Além disso, quando ele depois assegurou ao juiz de instrução que separara mil e quinhentos no amuleto (que nunca existiu), então talvez ele também tenha inventado esse amuleto, ali, naquele instante, justamente porque duas horas antes ele separara o dinheiro e o escondera em algum lugar lá em Mókroie, por via das dúvidas, até de manhã, só para não guardar consigo, por uma inspiração súbita. Dois abismos, senhores jurados, lembrem que Karamázov pode ter contemplado dois abismos, e os dois de uma vez! Procuramos naquela casa, mas não achamos. Talvez esse dinheiro esteja lá até agora, talvez tenha sumido no dia seguinte e agora esteja com o réu. Em todo caso, ele foi preso ao lado dela, diante dela de joelhos, ela estava deitada na cama, ele lhe estendeu a mão e a tal ponto se esqueceu de tudo naquele instante que não escutou a aproximação dos que vinham prendê-lo. Ele ainda não pensara em nada para responder. E ele e sua mente foram tomados de surpresa.
“E ei-lo diante de seus juízes, diante dos que vão decidir seu destino. Senhores jurados, há momentos em que, no curso de nossa obrigação, nós mesmos quase temos medo diante de um homem, medo também por aquele homem! São minutos de contemplação desse horror animal, quando o criminoso já vê que tudo está arruinado, mas ainda assim luta, ainda assim tem a intenção de lutar conosco. São momentos em que todos os instintos de autoproteção se erguem de uma vez dentro dele, e, para salvar a si mesmo, ele nos lança um olhar penetrante, inquisitivo e sofredor, nos captura e estuda nosso rosto, nossos pensamentos, espera para ver de qual lado vamos golpear, e, num instante, cria em sua mente trêmula mil planos, mas ainda assim tem medo de falar, tem medo de deixar escapar! Esses momentos degradantes da alma humana, esse caminho pelos tormentos, essa sede animal pela autopreservação são terríveis, e às vezes despertam estremecimento e compaixão pelo criminoso até no juiz de instrução! Foi tudo isso que testemunhamos naquele momento. No começo ele estava aturdido, e em seu horror escaparam algumas palavras que o comprometeram fortemente: ‘Sangue! Merecido!’. Mas ele se conteve rapidamente. O que dizer, como responder, tudo isso ele ainda não tinha pronto, mas tinha pronta apenas uma negação sem fundamento: ‘Da morte do meu pai não tenho culpa!’. Eis nossa cerca por enquanto, mas lá, depois da cerca, talvez ainda construamos algo, alguma barricada. Ele apressa suas primeiras exclamações comprometedoras, antecipando nossas perguntas, explica que se considera culpado apenas da morte do criado Grigóri. ‘Daquele sangue tenho culpa, mas quem é que matou o pai, senhores, quem matou? Quem é que pôde matá-lo, senão eu?’ Escutem isso: ele está nos perguntando, a nós, que viemos até ele com essa mesma pergunta! Estão escutando essas palavrinhas que correm na frente: ‘Senão eu’, essa astúcia animal, essa ingenuidade e essa impaciência karamazovianas? Não fui eu, e nem ousem pensar que fui eu: ‘Eu queria matar, senhores, queria matar’ — ele reconhece rapidamente (tem pressa, ah, tem uma pressa terrível!) — ‘mas ainda assim não sou culpado, não fui eu que matei’. Ele concede a nós que queria matar: vejam como sou sincero, mas é mais um motivo para que acreditem que não fui eu que matei. Ah, nesses casos o criminoso às vezes se torna incrivelmente leviano e crédulo. E eis que então, de forma completamente inesperada, a investigação de repente fez a ele a pergunta mais simples: ‘Não teria sido Smerdiakov a matá-lo?’. Então aconteceu o que esperávamos: ele se enche de uma raiva terrível, porque se anteciparam a ele e ele foi pego de surpresa quando ainda não tinha tido tempo de preparar, escolher e aproveitar o momento mais verossímil para trazer à baila Smerdiakov. Por sua natureza, ele correu imediatamente para o extremo e começou a nos assegurar com todas as forças que Smerdiakov não poderia ter matado, não seria capaz de matar. Mas não acreditem nele, é apenas uma astúcia: ele de forma alguma, de forma alguma está desistindo de Smerdiakov, pelo contrário, ainda vai apresentá-lo, porque quem mais vai apresentar senão ele, mas vai fazer isso em outro momento, porque por ora essa ação está comprometida. Ele só vai apresentá-lo talvez no dia seguinte ou até dali a alguns dias, quando julgar adequado o momento para nos anunciar: ‘Vejam, eu mesmo, mais do que vocês, neguei que tivesse sido Smerdiakov, os senhores se lembram disso, mas agora eu também estou convencido: foi ele que matou, como não terá sido ele!?’. Mas enquanto diante de nós ele se afunda numa negação soturna e irritante, a impaciência e a ira lhe ditam a explicação mais inábil e inverossímil, de que viu o pai pela janela e respeitosamente se afastou. É de considerar que ele ainda não sabe das circunstâncias, até que ponto chegou o depoimento de Grigóri, já com os sentidos restabelecidos. Procedemos à revista e à busca. A revista o deixa furibundo, mas também o anima: não encontramos todos os três mil, foram encontrados apenas mil e quinhentos. E claro que apenas naquele momento de silêncio e negação irada lhe vem à cabeça pela primeira vez a ideia do amuleto. Sem dúvida, percebe toda a inverossimilhança de sua invencionice e se tortura, se tortura terrivelmente, pensando em como torná-la mais verossímil, de forma a compor um romance que pareça crível. Nesses casos, a primeira ação, a tarefa principal da investigação é não deixar que o criminoso se prepare, pegá-lo em flagrante, de surpresa, para que expresse suas ideias secretas em toda sua notável ingenuidade, falta de verossimilhança e contraditoriedade. Pode-se fazer o criminoso falar apenas por comunicar a ele de forma súbita e casual algum fato novo, alguma circunstância do caso extremamente significativa, mas que até agora ele não antevia e não conseguia vislumbrar. Nós tínhamos esse fato na manga, ah, já estava pronto havia muito: o depoimento do criado Grigóri, que recobrara os sentidos, a respeito da porta aberta, pela qual o réu saíra correndo. Ele havia esquecido por completo daquela porta, e que Grigóri podia vê-la, e não pensou nessa hipótese. O efeito foi extraordiário. Ele deu um salto e de repente gritou: ‘Foi Smerdiakov que matou, foi Smerdiakov!’ — e então entregou seu pensamento secreto, fundamental, em sua forma mais inverossímil, pois Smerdiakov só poderia ter matado depois que ele, o réu, derrubou Grigóri e saiu correndo. Mas foi quando nós comunicamos a ele que Grigóri vira a porta aberta antes de sua queda e, saindo do quarto, escutou Smerdiakov gemendo atrás do tabique, que Karamázov ficou verdadeiramente abatido. Meu colega, nosso honrado e sagaz Nikolai Parfiónovitch, depois me disse que naquele instante teve pena dele a ponto de chorar. E eis que naquele instante, para consertar a situação, ele se apressou em nos comunicar a respeito daquele famigerado amuleto: que seja, dizia, escutem essa história! Senhores jurados, já expressei aos senhores minhas ideias, por que considero toda a invencionice do dinheiro costurado no amuleto um mês antes não apenas uma bobagem, mas inclusive a mais inverossímil fantasia que podemos encontrar no caso em questão. Mesmo se fizéssemos uma aposta sobre o que seria mais inverossímil dizer e apresentar — ainda assim não seríamos capazes de inventar algo pior do que isso. Vejam então, é possível chamar à ordem e arruinar o romancista triunfante com os detalhes, os mesmos detalhes de que a realidade é sempre tão rica e que sempre, qual ninharias absolutamente insignificantes e inúteis, são desprezados por esses ficcionistas infelizes e involuntários e que inclusive nunca lhes vêm à cabeça. Ah, naquele momento eles não ligam para isso, a mente só cria o todo grandioso — e então ousam apresentar-lhes essas ninharias! Mas é nelas que eles são pegos! Fazem uma pergunta ao réu: ‘Pois bem, onde o senhor encontrou o material para confeccionar seu amuleto, quem o costurou para o senhor?’. ‘Eu mesmo costurei.’ ‘E onde arrumou o tecido?’ O réu já se ofende, ele considera que essa bobagem é quase ofensiva e, acredite, é sincero, sincero! Mas eles são todos iguais. ‘Rasguei da minha camisa.’ Maravilha, senhor. Ou seja, amanhã mesmo encontraremos em meio a suas roupas essa camisa com um pedaço rasgado. E entendam, senhores jurados, pois, se de fato encontrássemos aquela camisa (e como não iríamos encontrá-la em sua mala ou cômoda, se tal camisa de fato existisse?), então isso já seria uma prova, uma prova palpável em benefício de seu depoimento. Mas isso ele não consegue entender. ‘Não lembro, talvez não tenha sido de uma camisa, eu costurei cortando uma touquinha da senhoria.’ ‘Que touquinha?’ ‘Peguei dela, havia deixado largada, um trapo velho de calicó.’ ‘E o senhor se lembra bem disso?’ ‘Não, não lembro muito bem…’ E ficava irritado, irritado, e, no entanto, imaginem: como não ia se lembrar disso? Nos momentos mais terríveis de uma pessoa, como quando está sendo levado ao cadafalso, é justamente desses detalhes que ela se lembra. Ela esquecerá tudo, mas de algum telhado verde que vislumbrou na estrada, ou uma gralha pousada na cruz — é disso que ela se lembrará. Pois, ao costurar seu amuleto, escondendo-se das pessoas da casa, ele devia lembrar-se do sofrimento humilhante, do medo, com a agulha em mãos, de que entrassem no quarto e o encontrassem; de como, à primeira batida na porta, em um salto correu para o tabique (em seu apartamento há um tabique)… Mas, senhores jurados, para que estou lhes dizendo tudo isso, todos esses detalhes, essas ninharias?!” — exclamou de repente Ippolit Kiríllovitch. — “Justamente porque o réu defende obstinadamente todo esse absurdo até o presente momento! Em todos aqueles dois meses, desde aquela noite fatídica para ele, ele não explicou nada, não acrescentou nenhuma circunstância elucidativa real a suas primeiras declarações fantasiosas; tudo isso, diz, são detalhes, mas acreditem na minha honra! Ah, temos prazer em acreditar, ansiamos por acreditar, mesmo que seja em sua honra! O que é que somos, chacais sedentos por sangue humano? Deem-nos, indiquem-no ao menos uma prova em defesa do réu, e nos alegraremos — mas uma prova palpável, real, e não uma conclusão decorrente da expressão do rosto do réu alegada por seu irmão de sangue ou uma indicação de que ele, batendo em seu peito, indubitavelmente devia estar batendo para indicar o amuleto, e ainda por cima no escuro. Nos alegraremos com um fato novo, seremos os primeiros a retirar nossa acusação, temos pressa em retirá-la. Agora, porém, a justiça clama, e, insistimos, não podemos recusá-la.” Nesse momento, Ippolit Kiríllovitch passou ao desfecho. Ele estava febril, clamava pelo sangue derramado, pelo sangue do pai assassinado pelo filho “com o motivo torpe do roubo”. Expôs com firmeza o conjunto trágico e gritante dos fatos. “E não importa o que os senhores escutem do advogado de defesa do réu, famoso por seu talento”, não se conteve Ippolit Kiríllovitch. “Não importa que palavras eloquentes e emocionantes ressoem aqui hoje, palavras que atinjam sua sensibilidade, ainda assim lembrem-se de que nesse instante os senhores estão no santuário de nossa justiça. Lembrem que os senhores são defensores da nossa verdade, defensores de nossa santa Rússia, seus fundamentos, sua família, tudo o que nela há de sagrado! Sim, os senhores aqui representam a Rússia nesse determinado momento, e seu veredito não ressoará apenas nesta sala, mas em toda a Rússia, e toda a Rússia os escutará como seus defensores e juízes e será incentivada ou desalentada por seu veredito. Não torturem a Rússia e suas expectativas, nossa fatídica troica corre a toda pressa, talvez para a ruína. E já há muito tempo em toda a Rússia estendem a mão e nos pedem para deter essa corrida enfurecida e sem vergonha. E, se outros povos ainda não detêm a troica galopante que corre a toda pressa, talvez não seja por respeito a ela, como queria o poeta, mas simplesmente por terror — prestem atenção. Por terror, mas talvez também por repugnância a ela, e até é bom que a deixem passar, mas talvez parem de se afastar e formem uma sólida barreira diante da visão que corre e eles mesmos detenham o galope louco de nosso desvario com o objetivo de salvar a si mesmos, o Iluminismo e a civilização! Já escutamos essas vozes inquietas vindas da Europa. Elas já começam a ressoar. Não as tentem, não aumentem todo o seu ódio crescente com uma sentença que justifica o assassinato de um pai por seu filho de sangue!…”
Em suma, Ippolit Kiríllovitch, embora tenha se entusiasmado muito, terminou dessa forma patética — e, de fato, causou uma impressão extraordinária. Ele mesmo, depois de concluir seu discurso, saiu apressado e, repito, quase desmaiou no cômodo vizinho. A sala não aplaudiu, mas as pessoas sérias ficaram satisfeitas. Só as damas não ficaram tão satisfeitas, mas ainda assim gostaram da eloquência, ainda mais porque não temiam as consequências e esperavam tudo de Fetiukóvitch: “Finalmente ele vai falar e, claro, triunfar sobre todos!”. Todos olhavam para Mítia; durante todo o discurso do promotor ele ficou calado, em silêncio, apertando as mãos, com os dentes cerrados, os olhos baixos. Apenas de vez em quando levantava a cabeça e punha-se a escutar. Em especial quando falavam de Grúchenka. Quando o promotor expôs a opinião que Rakítin tinha dela, em seu rosto se desenhou um sorriso de desdém e raiva, e ele falou de forma bastante audível: “Bernards!”. Quando Ippolit Kiríllovitch contou como o havia interrogado e atormentado em Mókroie, Mítia levantou a cabeça e pôs-se a escutar com enorme curiosidade. Em um ponto do discurso fez menção de dar um salto e gritar, mas controlou-se e apenas deu de ombros com desdém. Acerca desse discurso final, precisamente sobre as façanhas do promotor em Mókroie no interrogatório do criminoso, depois falavam em nossa sociedade e riam de Ippolit Kiríllovitch: “O homem não aguentou”, diziam, “não se gabar de suas capacidades”. A audiência foi interrompida, mas por um período muito curto, quinze minutos, vinte, se muito. Entre o público, ressoavam conversas e exclamações. Lembro de algumas.
— Um discurso sério! — observou um senhor enrugado em um dos grupos.
— Ele enfiou psicologia demais — ressoou outra voz.
— Mas é tudo verdade, uma verdade incontestável!
— Sim, ele é um mestre.
— Chegou a um resultado.
— Nós também, também nos levou a um resultado — juntou-se uma terceira voz —, no começo do discurso, lembram que ele disse que éramos todos iguais a Fiódor Pávlovitch?
— No fim, também. Só que nisso ele estava mentindo.
— E também houve pontos obscuros.
— Ele se deixou entusiasmar um pouco.
— Não é verdade, não é verdade, meu senhor.
— Ah, não, de toda forma é astuto. O homem esperou muito tempo, e aí falou, he-he!
— O que o advogado de defesa vai dizer?
Em outro grupo:
— Mas ele ofendeu o petersburguês por nada: “Abatido pela sentimentalidade”, lembram?
— Sim, nisso ele foi desajeitado.
— Se apressou.
— É um homem nervoso, senhor.
— Estamos aqui rindo, mas como será que está o réu?
— Sim, senhor. O Mítienka, como está?
— E o que o advogado de defesa vai dizer?
Num terceiro grupo:
— Quem é aquela dama com um lornhão, gorda, sentada na ponta?
— É a mulher de um general, divorciada, eu a conheço.
— Exato, com o lornhão.
— Um lixo.
— Ah, não, é picantezinha.
— Ao lado dela, dois lugares depois, está sentada uma loirinha, aquela é melhor.
— E foram rápidos para pegá-lo em flagrante em Mókroie, não?
— Sim, foram rápidos. Ele contou de novo. O quanto ele já falou disso nas casas por aqui.
— E agora também não se aguentou. Vaidade.
— É um homem ofendido, he-he!
— E ofensivo. É muita retórica, essas frases longas.
— Além disso, assusta, notem, assusta a todos. Lembram o que falou da troica? “Lá eles têm Hamlets, e nós por enquanto temos Karamázovs!” Nessa, ele foi sagaz.
— Ali ele estava cortejando os liberais. Está com medo!
— Também está com medo do advogado.
— Sim, o que dirá o senhor Fetiukóvitch?
— Ah, não importa o que diga, não vai atingir nossos mujiques.
— O senhor acha?
Num quarto grupo:
— Ele falou bem sobre a troica, sobre a questão dos povos.
— E é verdade, lembra quando disse que os povos não vão esperar?
— Como assim?
— Ah, na semana passada, um membro do parlamento inglês se levantou a respeito dos niilistas, e perguntou ao Ministério de Relações Exteriores se não seria a hora de intervir nessa nação bárbara, para que nos instruíssemos. Ippolit estava falando dele, eu sei que era a respeito dele. Ele falou isso na semana passada.
— Essa foi longe.
— Como assim? Por que longe?
— E nós vamos bloquear Kronstadt1 e não daremos nem pão para eles. Onde vão pegar?
— E a América? Agora tem a América.
— Mentira.
Mas soou a campainha e todos correram para seus lugares. Fetiukóvitch subiu no púlpito.
1. Cidade na ilha de Kotlin e porto no golfo da Finlândia; no século xix, a Rússia era a maior exportadora de trigo do mundo.
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