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Os irmãos Karamázov
VI. O discurso do promotor. Caracterização

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O discurso do promotor.
Caracterização

Ippolit Kiríllovitch começou seu discurso de acusação com um tremor nervoso que o sacudia por inteiro, com um suor frio e doentio na testa e nas têmporas, sentindo alternadamente calafrios e ardor por todo o corpo. Foi ele mesmo que contou isso mais tarde. Considerava aquele discurso seu chef-d’œuvre,1 o chef-d’œuvre de toda a sua vida, seu canto do cisne. De fato, nove meses depois ele morreu de uma tísica terrível, de modo que realmente, como se verificou, ele teria o direito de se comparar ao cisne que canta sua última canção, se tivesse pressentido o seu fim de antemão. Naquele discurso, ele depositou todo o seu coração e tudo que tinha de inteligência e, de maneira inesperada, provou que nele ocultavam­-se tanto um sentimento cívico como as questões “malditas”, pelo menos na medida que nosso pobre Ippolit Kiríllovitch podia contê­-las dentro de si. Seu discurso prendeu sobretudo por ser sincero: ele acreditava sinceramente na culpa do réu; não o acusava só pela tarefa, pelo dever de ofício, e, clamando por “vingança”, realmente fremia com o desejo de “salvar a sociedade”. Até a parte de nosso público composta de damas, no fim das contas hostil a Ippolit Kiríllovitch, reconhecia, no entanto, a extraordinária impressão que ele causara. Ele começou com voz trêmula e falha, mas depois muito rapidamente sua voz se fortaleceu e ressoou por toda a sala, e foi assim até o fim do discurso. Porém, mal o concluiu, por pouco não desfaleceu.

“Senhores jurados” — começou a acusação —, “o presente caso repercutiu em toda a Rússia. Mas o que aparentemente poderia surpreender alguém, o que particularmente deixaria alguém horrorizado? A nós, a nós particularmente? Afinal, somos gente tão habituada a tudo isso! O nosso horror está justamente no fato de que casos sombrios como esse quase deixaram de ser horríveis para nós! É com isso que devemos ficar horrorizados, com estarmos habituados, e não com um delito isolado desse ou daquele indivíduo. Onde estão os motivos de nossa indiferença, de nossa atitude quase que tépida em relação a esses casos, em relação a esses sinais dos tempos, que nos profetizam um porvir nada invejável? Será no nosso cinismo, será no esgotamento precoce do intelecto e da imaginação de nossa sociedade ainda tão jovem, mas tão prematuramente decrépita? Será em nossos princípios morais, abalados até as fundações, ou afinal no fato de que talvez esses princípios morais nem mesmo existam entre nós? Não tento resolver essas questões, contudo, são torturantes, e cada cidadão não apenas deve, como tem a obrigação de sofrer por elas. No entanto, nossa imprensa incipiente, ainda tímida, já prestou certos serviços à sociedade, pois se não fosse ela nunca ficaríamos sabendo, quase em sua plenitude, dos horrores da liberdade desenfreada e da decadência moral que ela transmite incessantemente em suas páginas, agora a todos, e não só aos que frequentam as salas dos novos julgamentos públicos, que nos foram dados pelo presente reinado.2 E o que lemos quase diariamente? Oh, a todo momento coisas como essas, diante das quais até o presente caso perde o brilho e parece quase comum. Mas o mais importante de tudo é que uma grande quantidade de nossos processos criminais russos, de nossos processos nacionais, atestam justamente algo universal, um infortúnio comum, que se firmou em nós e com o qual, sendo um mal universal, já é difícil lutar. Vejam o jovem e brilhante oficial da alta sociedade, que mal havia começado a vida e a carreira, e mata, de maneira vil, pelas caladas, sem qualquer remorso, um funcionário público insignificante, que fora em parte seu benfeitor, e a criada dele,3 para se apropriar de sua nota promissória e, junto com isso, do dinheirinho que restava ao funcionário: ‘Vão me servir’, ele disse, ‘para meus divertimentos na alta sociedade e para a carreira que tenho pela frente’. Depois de matar os dois, vai embora, não sem antes pôr um travesseiro sob a cabeça de cada um dos corpos. Vejam também o jovem herói, o peito coberto de cruzes recebidas por valentia, que assassina, como um bandido, na estrada real, a mãe de seu chefe e benfeitor e, tentando convencer seus companheiros, garante que ela ‘o ama como se fosse seu próprio filho e por isso segue todos os seus conselhos e não tomará nenhuma precaução’. Pode até ser um monstro, mas agora, em nosso tempo, já não ouso dizer que é um monstro excepcional. Outro pode não matar, mas vai pensar e sentir do mesmíssimo jeito que ele, em sua alma é infame do mesmíssimo jeito. Pelas caladas, a sós com sua consciência, talvez pergunte a si mesmo: ‘Mas o que é a honra? E não haverá um preconceito contra derramar sangue?’. Talvez gritem contra mim e digam que sou um homem doentio, histérico, que calunio de maneira atroz, que estou delirando, exagerando. Que seja, que seja — e, meu Deus, eu seria o primeiro a ficar contente com isso! Oh, não creiam em mim, considerem­-me um doente, mas de todo modo guardem minhas palavras: afinal, se só um décimo, se só um vigésimo de minhas palavras for verdade, ainda assim será horrível! Vejam, senhores, vejam como os jovens têm se matado em nosso meio: oh, sem qualquer questão hamletiana, como: ‘O que haverá lá?’, sem rastro de tais questões, como se essa indagação sobre nosso espírito e sobre tudo que nos espera além do túmulo estivesse há muito tempo liquidada em sua natureza, enterrada e coberta. Olhem, finalmente, para nossa depravação, para nossos lacivos. Fiódor Pávlovitch, a infeliz vítima do atual processo, é, perto de alguns deles, quase um bebê inocente. E todos nós o conhecíamos, ‘ele vivia em nosso meio’…4 Sim, as primeiríssimas mentes, tanto nossas como europeias, talvez se ocupem em algum momento da psicologia do crime russo, pois o tema vale a pena. Mas esse estudo acontecerá em um momento posterior, nas horas vagas, e quando toda a trágica desordem do nosso momento atual recuar para um plano mais afastado, de modo que ela poderá ser encarada de maneira mais inteligente e imparcial do que, por exemplo, pessoas como eu poderiam fazer. Agora, porém, nós nos horrorizamos, ou fingimos que nos horrorizamos, enquanto nós mesmos, ao contrário, saboreamos o espetáculo como apreciadores de sensações fortes, excêntricas, que agitam nosso ócio cínico e preguiçoso, ou, enfim, como crianças pequenas, afugentamos com as mãos, para longe de nós, os terríveis fantasmas e escondemos a cabeça debaixo do travesseiro, até passar a terrível visão, para depois imediatamente esquecê­-la em meio à alegria e aos divertimentos. Mas em algum momento nós também precisaremos começar nossa vida de maneira razoável e ponderada, nós também precisaremos lançar um olhar sobre nós mesmos como sociedade, também precisaremos compreender pelo menos alguma coisa de nosso papel na sociedade, ou pelo menos começar a fazê­-lo. Um grande escritor da época precedente, no fim da mais grandiosa de suas obras, personificando toda a Rússia como uma intrépida troica, galopando rumo a um objetivo desconhecido, exclama: ‘Ah, troica, troica pássaro, quem te inventou!’,5 e, em êxtase orgulhoso, acrescenta que todos os povos respeitosamente dão passagem a essa troica que galopa desabalada. Pois, senhores, que seja assim, que deem passagem, respeitosamente ou não, mas, na minha pobre visão, o genial artista terminou assim ou num arroubo de pensamento positivo pueril e inocente, ou simplesmente com medo da censura da época. Pois, se em sua troica fossem atrelados só os seus heróis, tipos como Sobakévitch, Nozdriov e Tchítchikov, não importaria quem fosse escolhido como cocheiro, porque não chegaria a qualquer lugar proveitoso com cavalos como esses! E eram só os cavalos de outrora, que ficam muito aquém dos de agora, os nossos são bem melhores…”

Aqui, o discurso de Ippolit Kiríllovitch foi interrompido por aplausos. O liberalismo na representação da troica russa agradou. É verdade que foram arrancadas somente dois ou três aplausos, de modo que o presidente nem mesmo achou necessário dirigir ao público a ameaça de “evacuar a sala” e limitou­-se a olhar com ar severo na direção dos aplausos. Mas Ippolit Kiríllovitch se animou: até então, nunca fora aplaudido daquela maneira! Por tantos anos não quiseram ouvir o homem, e de súbito lhe vinha a possibilidade de expressar­-se para toda a Rússia!

“De fato” — ele continuou —, “o que é essa família Karamázov, que de repente ganhou tão triste notoriedade, inclusive por toda a Rússia? Talvez eu esteja exagerando, mas me parece que pelo retrato dessa família perpassam certos elementos comuns e fundamentais de nossa intelectualizada sociedade contemporânea — ah, não todos os elementos, eles perpassaram somente em aspecto microscópico, ‘como o sol numa pequena gota d’água’,6 mas mesmo assim algo se refletiu, ainda assim algo se manifestou. Olhem para esse velho infeliz, dissoluto e depravado, para esse ‘pai de família’ que tão tristemente encerrou sua existência. Nobre de nascença, começou a carreira como um agregado pobrezinho, que, por meio de um casamento fortuito e inesperado, arrematou uma pequena fortunazinha como dote, no princípio um safado insignificante e um bufão bajulador, com um embrião de capacidades mentais, aliás, nada fracas, e acima de tudo um usurário. Com os anos, ou seja, com o crescimento da fortunazinha, ele ganha ânimo. A submissão e a adulação desaparecem, permanecem somente o zombeteiro e maldoso cínico, o lascivo. A parte espiritual está toda estropiada, mas a sede de viver é extraordinária. Chega ao ponto de só enxergar prazeres lascivos na vida, ensina isso até a seus filhos. Quaisquer que sejam as obrigações espirituais paternas: ele não tem nenhuma. Ele ri delas, cria seus filhos pequenos no pátio dos fundos e se alegra por eles serem tirados dele. Até se esquece deles por completo. Todas as regras morais do velho são: après moi le déluge.7 Tudo aquilo que é contrário à ideia de um cidadão, o mais completo e até mesmo hostil desligamento da sociedade: ‘O mundo inteiro pode arder em chamas, desde que eu esteja bem’. E ele está bem, está plenamente satisfeito, anseia viver assim mais vinte, trinta anos. Ele lesa o próprio filho, e com o dinheiro deste, herança da mãe, que ele não quer entregar, tenta tomar a amante dele, do próprio filho. Não, eu não quero ceder a defesa do réu ao muito talentoso advogado de defesa que veio de Petersburgo. Eu mesmo direi a verdade, eu mesmo entendo quanta indignação ele acumulou no coração de seu filho. Mas basta, basta desse velho infeliz, ele recebeu sua paga. Relembremos, porém, que ele era um pai, e um dos pais modernos. Ofenderei a sociedade ao dizer que era um dos talvez muitos pais modernos? Infelizmente, muitos desses pais modernos apenas não se manifestam de maneira tão cínica como esse, pois são mais bem-criados, são mais bem­-educados, mas, em essência, seguem quase a mesma filosofia que ele. Mas digamos que eu seja um pessimista, digamos. Nós já combinamos que vocês me perdoarão. Façamos de antemão um acordo: não acreditem em mim, não acreditem, vou falar, e vocês não acreditem. Mas, mesmo assim, deixem que me manifeste, mesmo assim não se esqueçam de algumas de minhas palavras. Mas vejam, porém, os filhos desse velho, desse pai de família: um está diante de nós, no banco dos réus, todo o discurso a seguir é sobre ele; dos outros, falarei apenas de passagem. Desses outros, o mais velho é um dos jovens modernos, de educação brilhante, com uma mente bastante forte, que, porém, não acredita em mais nada, que rejeitou e repudiou muita coisa, coisa demais na vida, igualzinho a seu progenitor. Todos nós o ouvimos, ele era recebido amigavelmente em nossa sociedade. Não escondia suas opiniões, pelo contrário, muito pelo contrário, o que me dá a ousadia de falar dele agora com certa sinceridade, claro que não como pessoa particular, e sim somente como membro da família Karamázov. Aqui, morreu ontem, por suicídio, nos limites da cidade, um idiota doentio, fortemente envolvido no presente caso, que era criado e, talvez, filho ilegítimo de Fiódor Pávlovitch, Smerdiakov. Em lágrimas histéricas, ele me contou, ainda no inquérito preliminar, como esse jovem Karamázov, Ivan Fiódorovitch,8 horrorizava­-o com seu descomedimento espiritual. ‘Ele pensa que tudo que existe no mundo é permitido’, falou, ‘e que, de agora em diante, nada deve ser proibido — era isso que ele ficava me ensinando.’ Aparentemente foi com base nessa tese que lhe foi ensinada que o idiota enlouqueceu de vez, embora seu transtorno mental tenha sido obviamente influenciado tanto pelo mal da epilepsia, como por toda essa catástrofe terrível que se desencadeou em sua casa. Mas desse idiota procedeu um comentário extremamente curioso, que faria honra até a um observador mais inteligente que ele, e foi por esse motivo que comecei a falar disso: ‘Se há um dos filhos’, ele me disse, ‘mais parecido de caráter com Fiódor Pávlovitch, é ele, Ivan Fiódorovitch!’. Nesse comentário interrompo a caracterização que havia começado, por não considerar delicado prosseguir com ela. Ah, não quero tirar mais conclusões, como um corvo prevendo unicamente a ruína de um jovem destino. Nós vimos, ainda hoje, aqui nesta sala, que a força espontânea da verdade ainda vive em seu jovem coração, que os sentimentos de afeto familiar ainda não foram abafados pela incredulidade e pelo cinismo moral, adquiridos mais por herança que por um verdadeiro sofrimento da mente. Em seguida, o outro filho — ah, esse ainda é um jovem piedoso e humilde, que, ao contrário da visão de mundo sombria e corrompida do irmão, busca aderir, por assim dizer, aos ‘princípios populares’, ou àquilo que, em nosso país, é conhecido por essas palavrinhas complicadas em certos recantos teóricos de nossa intelligentsia pensante. Ele, vejam vocês, aderiu ao monastério; por pouco não se tonsurou e virou monge. Nele, ao que me parece, de maneira inconsciente, e muito cedo, manifestou­-se aquele desespero acanhado com que tantos agora, em nossa pobre sociedade, atemorizados com seu cinismo e depravação, e erroneamente atribuindo todo o mal ao Iluminismo europeu, lançam­-se, como eles dizem, em direção ao ‘solo natal’,9 por assim dizer aos braços maternos da terra natal, como crianças assustadas por espectros, e, no peito ressecado da enfraquecida mãe, anseiam por ao menos pegar no sono tranquilamente e até passar a vida toda dormindo, só para não verem os horrores que os assustam. De minha parte, desejo ao bom e talentoso jovem tudo que há de melhor, desejo que sua juvenil beleza de alma e sua aspiração aos princípios populares mais tarde não se transformem, como acontece com tanta frequência, em obscuro misticismo, pelo lado moral, e chauvinismo obtuso, pelo lado cívico — duas características que talvez ameacem a nação com um mal até maior que a depravação precoce causada pelo Iluminismo europeu erroneamente compreendido e inutilmente adquirido de que sofre seu irmão mais velho.”

Por causa do chauvinismo e do misticismo, novamente ouviram­-se dois ou três aplausos. E é claro que Ippolit Kiríllovitch se entusiasmou, sendo que nada daquilo tinha muita relação com o presente caso, isso sem falar que tudo saiu bastante confuso, mas o homem, tísico e exasperado, queria muito se manifestar, pelo menos uma vez na vida. Mais tarde, em nossa cidade, falaram que, na caracterização de Ivan Fiódorovitch, ele foi guiado por um sentimento quase indelicado, porque o outro, vez ou outra, havia descomposto publicamente Ippolit Kiríllovitch em discussões, e este, lembrando­-se daquilo, agora quisera vingar­-se. Mas não sei se era possível concluir isso. De qualquer maneira, tudo aquilo fora só a introdução, depois o discurso seguiu de forma mais direta e mais próxima ao caso.

“Mas eis que o terceiro filho do pai da família moderna” — prosseguiu Ippolit Kiríllovitch — “está no banco dos réus, está diante de nós. Diante de nós também estão seus feitos, sua vida e suas ações: chegou a hora, e tudo foi desvelado, tudo foi descoberto. Ao contrário do ‘europeísmo’ e dos ‘princípios populares’ de seus irmãos, ele parece representar a Rússia mais espontânea — ah, não toda ela, não toda, e Deus nos proteja se for toda! E, no entanto, ela está aqui, a nossa Russiazinha, dá para sentir seu cheiro, dá para ouvi­-la, nossa mãezinha. Ah, nós somos espontâneos, nós somos o mal e o bem numa mistura das mais surpreendentes, somos amantes do Iluminismo e de Schiller e, ao mesmo tempo, esbravejamos pelas tavernas e arrancamos a barbicha dos bebadozinhos, nossos companheiros de copo. Ah, nós também somos bons e belos, mas só quando tudo está bom e belo para nós mesmos. Pelo contrário, somos até dominados — precisamente dominados — pelos mais nobres ideais, mas só com a condição de que sejam alcançados por conta própria, de que caiam dos céus em nossa mesa, e o mais importante é que seja de graça, de graça, que não se pague nada por eles. De pagar nós não gostamos nada, em compensação gostamos muito de receber, e isso em tudo. Ah, deem­-nos, deem­-nos todas as coisas boas possíveis da vida (justamente todas as possíveis, com menos não nos conformamos), e sobretudo não atrapalhem em nada os nossos modos, e só então provaremos que podemos ser bons e belos. Nós não somos avarentos, não, mas, por outro lado, entreguem­-nos dinheiro, mais, mais, quanto puderem de dinheiro, e hão de ver com que magnanimidade, com que desprezo pelo vil metal nós o esbanjamos em uma só noite numa farra desenfreada. E, se não nos derem, aí mostramos como conseguimos arranjá­-lo quando nós o queremos muito. Mas sobre isso falaremos depois, vamos seguir a ordem. Antes de mais nada, diante de nós está um pobre menino abandonado, ‘no pátio dos fundos sem botinhas’, como expressou­-se agora há pouco nosso respeitado e estimado concidadão, infelizmente de origem estrangeira! Mais uma vez repito: não cederei a ninguém a defesa do réu! Sou da acusação, sou também da defesa. Sim, senhor, também somos gente, também somos homens, também podemos pesar a influência que podem ter sobre o caráter as impressões da infância e do ninho familiar. Mas eis que o menino já é um rapaz, já é um jovem, um oficial; por atos violentos e por desafios a duelos, ele é exilado em uma das distantes cidadezinhas fronteiriças de nossa ditosa Rússia. Lá ele serve, lá ele farreia, e — é claro — navio grande carece de mar grande. Precisamos de recursos, meu senhor, de recursos antes de mais nada, e então, depois de longas discussões, ele e o pai chegam a um acordo acerca dos últimos seis mil rublos, que lhe são enviados. Percebam, ele entregou um documento, e existe uma carta sua na qual ele praticamente abdica do restante e, com esses seis mil, encerra a querela com o pai acerca da herança. Então, acontece seu encontro com uma moça jovem, de elevado caráter e muito evoluída. Ah, não ouso repetir os detalhes, vocês acabaram de ouvi­-los: aí tem honra, aí tem abnegação, e hei de me calar. A imagem de um jovem frívolo e depravado, mas que se prostra perante a verdadeira nobreza, perante um ideal elevado, resplandesceu diante de nós de maneira extremamente simpática. Mas, de repente, depois disso, neste mesmo tribunal, apresentou­-se, de modo totalmente inesperado, o outro lado da moeda. Mais uma vez não ousarei incorrer em conjecturas e hei de ater­-me à análise dos motivos. Houve motivos para que tudo tenha sucedido assim. Essa mesmíssima pessoa, coberta pelas lágrimas de uma indignação que por muito tempo ficou oculta, declara­-nos que ele, ele mesmo, desprezou­-a primeiro por seu arroubo imprudente, talvez desregrado, mas ainda assim elevado, ainda assim magnânimo. Nele mesmo, no noivo dessa moça, é que se percebeu, antes de todos, aquele sorriso zombeteiro que somente dele ela não poderia suportar. Sabendo que ele já a traíra (traíra na convicção de que ela já devia de antemão suportar tudo da parte dele, até sua traição), sabendo disso, ela lhe ofereceu de propósito os três mil rublos e, de maneira clara, de maneira clara demais, dá a entender que estava lhe oferecendo o dinheiro para a própria traição dela mesma: ‘E então, vai aceitar ou não vai, será que é tão cínico assim?’, ela lhe diz em silêncio, com seu penetrante olhar de condenação. Ele olha para ela, compreende perfeitamente seu pensamento (ele mesmo reconheceu aqui, diante de vocês, que compreendeu tudo) e apropria­-se incondicionalmente desses três mil e torra tudo em farras, em dois dias, com sua nova amada! Em que se deve acreditar? Na primeira lenda, do arroubo de elevada nobreza, daquele que entrega os últimos recursos de sua vida e prostra­-se perante a virtude, ou no outro lado da moeda, tão repulsivo? Com frequência, na vida acontece de, entre dois opostos, termos que buscar a verdade no meio; na presente situação, não é assim. O mais provável é que, na primeira situação, ele tenha sido verdadeiramente nobre, e, na segunda, tenha sido verdadeiramente vil. Por quê? Pois justamente porque somos índoles vastas, karamazovianas — é aí que eu quero che­gar —, capazes de conter todas as oposições possíveis e contemplar de uma só vez ambos os abismos, o abismo acima de nós, o abismo dos ideais elevados, e o abismo abaixo de nós, o abismo da mais baixa e fétida decadência. Lembrem­-se do brilhante pensamento expresso há pouco pelo jovem observador, que contemplou profundamente e de perto toda a família Karamázov, o senhor Rakítin: ‘A sensação de baixeza da decadência é tão necessária a essas índoles dissolutas e desregradas como a sensação de elevada nobreza’, e isso é verdade: eles precisam justamente dessa mistura antinatural, de modo constante e ininterrupto. Dois abismos, dois abismos, senhores, no mesmíssimo momento — sem isso, somos infelizes e insatisfeitos, nossa existência não é plena. Somos vastos, somos vastos como nossa mãezinha Rússia, acomodamos tudo e a tudo nos moldamos! Aliás, senhores jurados, nós mencionamos agora esses três mil rublos, e eu me permitirei avançar um pouco. Imaginem só que ele, tal caráter, depois de receber esse dinheiro, e ainda daquela maneira, por meio de tamanha vergonha, por meio de tamanha desonra, por meio do último grau da humilhação, imaginem só que ele, naquele mesmo dia, supostamente conseguiu separar metade daquilo, costurar no amuleto e depois, durante um mês inteiro, ter a firmeza de carregá­-lo no pescoço, apesar de todas as tentações e das necessidades extremas! Nem durante a farra com bebida pelas tavernas, nem quando precisou sair correndo da cidade para tentar conseguir, sabe Deus com quem, o dinheiro que lhe era mais que necessário para levar sua amada para longe das tentações do rival, seu pai, ele ousou tocar nesse amuleto. Pois mesmo que fosse justamente só para não deixar sua amada à mercê das tentações do velho, de quem tinha tanto ciúme, ele deveria ter aberto seu amuleto e ficado em casa, como vigia assíduo de sua amada, aguardando o momento em que ela finalmente lhe diria: ‘Sou sua’, para com ela fugir, da atual situação funesta, para o lugar mais distante que pudesse. Mas não, ele não toca em seu talismã, e sob que pretexto? O pretexto original, nós dissemos, era justamente que, quando ela lhe dissesse: ‘Sou sua, leve­-me para onde quiser’, ele tivesse recursos para levá­-la. Mas esse primeiro pretexto, pelas próprias palavras do réu, empalideceu diante do segundo. Enquanto, ele diz, eu carregar comigo esse dinheiro, ‘sou um canalha, mas não um ladrão’, pois sempre poderei ir à casa da noiva ofendida por mim e, retirando na sua frente essa metade de toda a soma que dela me apropriei de maneira fraudulenta, sempre poderei lhe dizer: ‘Está vendo, esbanjei a metade do seu dinheiro e, com isso, provei que sou um homem fraco e imoral e, se quiser, um canalha (estou me expressando com a linguagem do próprio réu), mas, mesmo sendo um canalha, não sou ladrão, pois, se fosse um ladrão, não lhe traria essa metade que sobrou do dinheiro, e sim teria me apropriado dela também, como da primeira metade’. Uma explicação surpreendente do fato! Esse mesmo homem furioso, porém fraco, que não conseguiu resistir à tentação de aceitar os três mil rublos perante tamanha desonra, esse mesmo homem sente em si de repente tamanha firmeza estoica e carrega no pescoço milhares de rublos sem ousar tocar neles! Será que isso é pelo menos em alguma medida compatível com o caráter analisado por nós? Não, e eu ouso lhes contar como teria agido, nesse caso, o verdadeiro Dmítri Karamázov, se ele tivesse de fato costurado seu dinheiro no amuleto. À primeira tentação — digamos, para satisfazer outra vez sua nova amada, com a qual já esbanjara a primeira metade desse mesmo dinheiro —, ele descosturaria seu amuleto e tiraria dele, bem, suponhamos, no primeiro caso só cem rublos, pois afinal, ele diria, por que restituir exatamente a metade, ou seja, mil e quinhentos? Bastariam mil e quatrocentos rublos — então seria a mesma coisa: ‘Sou um canalha’, ele diria, ‘mas não um ladrão, porque de todo modo eu trouxe de volta pelo menos mil e quatrocentos rublos, enquanto um ladrão teria embolsado tudo e não devolveria nada’. Então, mais um tempo depois, ele novamente descosturaria seu amuleto e novamente tiraria, agora uma segunda nota de cem, depois uma terceira, depois uma quarta, e não chegaria ao fim do mês, e ele finalmente tiraria a penúltima nota: vou levar de volta uma nota de cem, ele diria, seria a mesma coisa: ‘Sou um canalha, mas não um ladrão. Torrei vinte e nove notas de cem, mas mesmo assim devolvi uma, um ladrão nem essa teria devolvido’. E, finalmente, depois de torrar essa penúltima nota, olharia para a última e diria consigo mesmo: ‘Se bem que nem vale a pena devolver uma só nota de cem, vou torrar essa aqui também!’. Eis como teria agido o verdadeiro Dmítri Karamázov, aquele que nós conhecemos! A contradição da lenda do amuleto com a realidade é tamanha que nem se pode imaginar uma maior. Pode­-se supor tudo, mas não isso. Mas ainda voltaremos a essa questão.”

Depois de listar, na ordem, tudo que o inquérito preliminar levantara quanto às disputas de bens e às relações familiares entre pai e filho, e de chegar outra e outra vez à conclusão de que, pelas informações conhecidas, não havia a menor possibilidade de definir, naquela questão da partilha da herança, quem enganara quem na conta e quem contara o que de quem, Ippolit Kiríllovitch, acerca daqueles três mil rublos que tinham se enfiado na cabeça de Mítia como uma ideia fixa, referiu­-se à perícia médica.

1. Em francês, no original: “Obra­-prima”.

2. Alusão à reforma judiciária de 1864, que instituiu o tribunal de júri com julgamentos franqueados ao público. (n. e.)

3. Alusão ao caso K. K. von Landsberg, oficial acusado de homicídio do conselheiro da corte Vlássov e da pequeno­-burguesa Semenidova. O julgamento ocorreu em 5 de julho de 1879 e terminou condenando o réu a quinze anos de trabalhos forçados. (n. e.)

4. Referência ao primeiro verso de um poema de Púchkin (1834) dedicado a Adam Mickiewicz (1798­-1855), grande poeta do romantismo polonês. (n. e.)

5. Referência ao fim de Almas mortas, de Nikolai Gógol. Sobakévitch, Nozdriov e Tchítchikov, que aparecem um pouco abaixo, são os heróis grotescos do romance.

6. Referência à ode “Deus”, de Gavriil Derjávin (1743­-1816), poeta muito apreciado por Dostoiévski. (n. e.)

7. Em francês, no original: “Depois de mim, o dilúvio”. A frase é atribuída ao rei da França Luís xv ou à madame de Pompadour, e é citada por Dostoiévski também nas Notas de inverno sobre impressões de verão. (n. e.)

8. Novamente uma referência a Ivan como “o filho mais velho” de Fiódor Pávlovitch.

9. Menção sarcástica à ideologia do pótchvennitchestvo, proposta pelos próprios irmãos Dostoiévski em seus periódicos Vrémia [O Tempo] e Epokha [A Época]. A palavra deriva precisamente de pótchvo, “solo”. (n. e.)

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